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Na Amaz√īnia, uma voz contra o poder

Benedito Carvalho - Janeiro 2008
 

L√ļcio Fl√°vio Pinto. Contra o poder.¬†20 anos de Jornal Pessoal: uma paix√£o amaz√īnica. Bel√©m: Edi√ß√£o do Autor, 2007. 288p.

O √ļltimo livro do jornalista paraense L√ļcio Fl√°vio Pinto me causou espanto, indigna√ß√£o e, por que n√£o dizer, n√°usea. O que mais me impressionou no livro de L√ļcio, que somente d√° seq√ľ√™ncia ao seu livro anterior, n√£o foram as den√ļncias bem apuradas e fundamentadas dos personagens, muitos deles freq√ľentadores das colunas sociais dos jornais locais, mas a demonstra√ß√£o inequ√≠voca e inquestion√°vel do seq√ľestro da coisa p√ļblica por atores privados. Apropria√ß√£o de terras, do dinheiro p√ļblico, do poder para fortalecer os interesses particulares em uma regi√£o.

Em um Estado paup√©rrimo -¬†onde, como demonstra o jornalista, "apenas 23 mil pessoas num Estado que tinha 3,4 milh√Ķes de habitantes, dos quais pouco mais de um milh√£o eram considerados economicamente ativos, ganhavam acima de 20 sal√°rios m√≠nimos por m√™s" (p. 212); e onde as grandes mineradoras, apoiadas pelos sucessivos governos, convivem e n√£o se responsabilizam pela popula√ß√£o¬†em meio √† qual¬†implantam seus projetos, isentos de tributos nos seus enclaves coloniais, como o caso de Oriximin√° e outras prov√≠ncias minerais -, √© perfeitamente compreens√≠vel a raz√£o de a classe dominante local (e seus aliados internacionais) ser denominada de predadora.

O livro fornece dados fartos que justificam esse adjetivo. √Č espantoso como no Estado, no Par√° e na maioria dos Estados brasileiros, a coisa p√ļblica seja apropriada como coisa privada, fen√īmeno que n√£o pode ser atribu√≠do somente √† heran√ßa caudilhesca de Magalh√£es Barata, mas √† pr√≥pria cultura das classes dominantes, desde a col√īnia, como j√° nos advertia Caio Prado Jr. no cl√°ssico livro Hist√≥ria econ√īmica do Brasil.

A sociedade brasileira √© uma sociedade autorit√°ria como forma√ß√£o social. N√£o s√≥ por suas origens escravistas, pois muitos pa√≠ses, entre eles os Estados Unidos, tiveram uma origem escravista e, apesar disso, existe cidadania. Na Idade M√©dia europ√©ia tamb√©m existiu escravismo e l√° a cidadania se constituiu. O que aconteceu no Brasil √© que a estrutura escravista da sociedade patriarcal passa pelo interior da vida republicana e n√≥s vamos ter sempre rep√ļblicas olig√°rquicas, e n√£o res-p√ļblica.

O Estado √© um patrim√īnio privado de determinados grupos e determinadas fam√≠lias (o que nos mostra o livro com toda a clarivid√™ncia e sem rodeios). Isso faz com que as rela√ß√Ķes sociais no Brasil nunca se estabele√ßam a partir de princ√≠pios antigos, que n√£o s√£o princ√≠pios revolucion√°rios, mas princ√≠pios puros e simples do liberalismo, entre os quais a no√ß√£o de cidadania √© uma delas. A cidadania pressup√Ķe como condi√ß√£o que, do ponto de vista das rela√ß√Ķes sociais e pol√≠ticas, os indiv√≠duos sejam vistos como iguais, mesmo que sejam desiguais do ponto de vista econ√īmico.

Ora, isso nunca se estabeleceu no Brasil. Aqui todas as rela√ß√Ķes sociais se estabelecem entre um inferior e um superior, entre um mandante e um mandado. As rela√ß√Ķes s√£o sempre de obedi√™ncia, de submiss√£o, de sil√™ncio c√ļmplice porque a maioria depende do poder do coronel de plant√£o, como ocorre aqui no Par√°. S√£o rela√ß√Ķes que aparecem evidentes na fam√≠lia, na escola, no trabalho, na rua. Um express√£o muito comum entre n√≥s √© a famosa frase: sabe com quem est√° falando?

Quando voc√™ faz essa pergunta ao outro est√° dizendo para ele que voc√™ √© superior a ele. Na express√£o norte-americana, correspondente √† nossa, por exemplo, o interlocutor diz: quem √© que voc√™ pensa que √© para fazer isso comigo?¬†A primeira frase n√£o estabelece rela√ß√Ķes horizontais de simetria, de reconhecimento da igualdade, dos direitos e das diferen√ßas. √Č por isso que no Brasil nunca surge a figura do cidad√£o. Isso transparece com muita clareza, por exemplo, na nossa dificuldade de considerar que os nossos governantes - seja no poder executivo, seja no poder legislativo - s√£o nossos representantes e que est√£o l√° para realizar a nossa vontade e n√£o a deles.

No Brasil a rela√ß√£o n√£o se d√° entre o representante e o representado. Basta voc√™ eleger algu√©m para que ele se sinta numa posi√ß√£o de poder, estabelecendo rela√ß√Ķes de favor e clientela. Voc√™ passa a ser cliente pedinte de um favor. Isso torna imposs√≠vel o surgimento do espa√ßo p√ļblico, pois esses espa√ßos s√£o apropriados privadamente.

L√ļcio se interroga estarrecido por que o "distinto p√ļblico", como muitas vezes ele denomina os cidad√£os paraenses, ficam ap√°ticos diante de fatos t√£o estarrecedores que acontecem diante de seus olhos. Em uma charge no JP, o jornalista publicou uma caricatura de uma mulher num pelourinho, juntamente com cidad√£os trafegando indiferentes ao seu brutal sofrimento (referia-se ao caso da adolescente de Abaetetuba).

Cidadania, cidad√£os, assim como a no√ß√£o de "povo", como j√° dizia o velho Osny Duarte Pereira, num livrinho publicado pela Editora Civiliza√ß√£o Brasileira, √© um conceito sociologicamente amb√≠guo, pois coloca no mesmo rol situa√ß√Ķes e posi√ß√Ķes de classe que vivem cotidianamente de maneira radicalmente diferente, tanto no plano econ√īmico como no simb√≥lico.

O livro Contra o poder.¬†20 anos de Jornal Pessoal: uma paix√£o amaz√īnica √©, inegavelmente, um obra preciosa e imprescind√≠vel para compreender os ardilosos e tortuosos caminhos do poder, sem descambar para o denuncismo panflet√°rio, como estamos acostumados a ver em determinado tipo de imprensa. O jornalista, ao revelar um fato, checa com rigor o que apura no meio da selva de desinforma√ß√£o e achismos que encontra diante de si, coisas que ele aprendeu com os grandes jornalistas brasileiros e do exterior.

A grande resist√™ncia que ele encontra no meio da chamada elite paraense e seus patr√Ķes, que t√™m seus neg√≥cios na Amaz√īnia, n√£o est√° no que mostra para o "distinto p√ļblico", mas na impossibilidade que eles t√™m de contestar os fatos que narra com provas. Esse talvez seja o maior √≥dio de seu leitor enraivecido, que, mesmo enfurecido, l√™ com assiduidade o JP, porque encontra ali informa√ß√Ķes que, muitas vezes, lhe s√£o √ļteis para enfrentar a feroz concorr√™ncia, pois a elite age disputando o poder como ferozes inimigos que se digladiam entre si.

Nas p√°ginas iniciais de seu livro, L√ļcio Fl√°vio exp√Ķe claramente sua op√ß√£o com seu jornalismo: "Numa regi√£o como a amaz√īnica, cuja condi√ß√£o colonial √© resultante de sua impossibilidade (ou incapacidade) de tomar as r√©deas da sua hist√≥ria, o diagn√≥stico das elites √© uma chave elucidativa. Como elas t√™m mais condi√ß√Ķes materiais de percep√ß√£o e antecipa√ß√£o dos fatos, no momento mesmo em que eles ocorrem (ao menos em tese), se forem provocadas para descer¬†√† rinha, talvez se consiga ajustar o tempo da consci√™ncia ao da hist√≥ria, disfar√ßada de cotidiano (geralmente considerado insosso e sem glamour)".

Pergunto: quem s√£o e onde est√£o essas chamadas elites,¬†capazes de provocar os novos coron√©is para "descer¬†√† rinha"? A decadente classe m√©dia do Par√°, que vive num bovarismo de um passado imagin√°rio, cooptada pelos seus novos donos do poder? Essa elite sem poder, ou com um poder meramente simb√≥lico, que vemos freq√ľentemente nas inumer√°veis colunas sociais dos coron√©is de asfalto?

O velho Marx nos lembrava com seu brilhante sarcasmo que quem escreve a hist√≥ria s√£o os vencedores, e, portanto, a "hist√≥ria dominante √© a hist√≥ria da classe dominante". N√£o vislumbro no momento nenhum movimento social capaz de fazer com que eles "des√ßam √† rinha".¬†A hist√≥ria das lutas sociais, os ideais chamados republicanos, t√£o em moda nesse glamour de p√≥s-modernidade, condenaram os ideais¬†a cad√°veres para a felicidade dos donos do poder. Michel Foucault lembrou que as rela√ß√Ķes entre¬†saber e poder nem sempre s√£o sim√©tricas, mas quem os possui sabe capitalizar em seu favor.

√Č importante abrir essa pol√™mica. O livro do jornalista √© um convite √† reflex√£o. O distinto p√ļblico que se manifeste. J√° est√° mais que em tempo.

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Benedito Carvalho é sociólogo.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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