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Weber e a interpretação do Brasil

Luiz Werneck Vianna - 1999
 

O n√≠vel de maturidade de uma universidade, especialmente em uma situa√ß√£o perif√©rica como a nossa, pode ser indicado pela sua capacidade de apropriar-se do pensamento cl√°ssico, e, de modo ainda mais seguro, quando a interpela√ß√£o aos fundadores de uma certa tradi√ß√£o disciplinar n√£o se limita √†s tradu√ß√Ķes, mas pretende, por esfor√ßo pr√≥prio, estabelecer o sentido da sua obra, tal como neste "Semin√°rio Internacional Max Weber". Entre n√≥s, assiste-se a um movimento desse tipo, valendo o registro de que a universidade americana deve muito da sua significa√ß√£o, em particular na √°rea de humanas, √† dedica√ß√£o com que se empenhou nessa dire√ß√£o a partir dos anos 30. Neste semin√°rio, operamos a tentativa de apropria√ß√£o de um cl√°ssico, processo em que, como inevit√°vel, ele como que nasce outra vez, vindo √† luz a partir de perguntas e de inquieta√ß√Ķes sobre a nossa realidade, importando, no caso, a recep√ß√£o que concedemos a ele no nosso contexto cultural.

Marx e Weber, dos pensadores cl√°ssicos das ci√™ncias sociais, n√£o somente est√£o entre os tr√™s autores mais citados nas disserta√ß√Ķes de mestrado e nas teses de doutorado da disciplina (Melo, 1997), como tamb√©m se constituem na principal refer√™ncia da grande controv√©rsia que anima a literatura sobre a interpreta√ß√£o do Brasil. Contudo, tem predominado, at√© aqui, um tipo de recep√ß√£o a eles que enfatiza aspectos parciais das suas teorias, selecionados em fun√ß√£o das diferentes motiva√ß√Ķes dos autores brasileiros que os mobilizam para suas explica√ß√Ķes do pa√≠s. Assim, quanto a Marx, a apropria√ß√£o que se faz do seu trabalho varia, como se sabe, em fun√ß√£o das op√ß√Ķes tem√°ticas dos seus int√©rpretes: a valoriza√ß√£o do tema da vontade pol√≠tica como recurso de supera√ß√£o da disjuntiva atraso/moderno, tendo motivado¬†- principalmente nos c√≠rculos extra-universit√°rios - uma leitura que privilegiou os seus textos pol√≠ticos, que contemplavam a possibilidade de saltos revolucion√°rios, dando curso a um marxismo cujo paradigma √© a R√ļssia, enquanto a prefer√™ncia pela an√°lise do processo de imposi√ß√£o do capitalismo no Brasil, como na grande reflex√£o social paulista, conduziu a uma maior aproxima√ß√£o com o modelo de O capital com base no paradigma ingl√™s.

O "nosso" Weber tem conhecido uma fortuna similar, uma vez que tem sido convocado pela literatura, predominantemente, para explicar o atraso da sociedade brasileira, com o que se tem limitado a irradia√ß√£o da sua influ√™ncia a uma sociologia da moderniza√ß√£o. Da√≠ que a mobiliza√ß√£o desse autor, pela perspectiva do atraso, se fa√ßa associar ao diagn√≥stico que reivindica a ruptura como passo necess√°rio para a conclus√£o dos processos de mudan√ßa social que levam ao moderno - no caso, com o patrimonialismo ib√©rico, cuja forma de Estado confinaria com o despotismo oriental. Tem-se, ent√£o, que uma obra radicalmente inscrita na cultura pol√≠tica do Ocidente, com seus valores universalistas, impasses e promessas de realiza√ß√£o, seja descortinada pelo √Ęngulo do Oriente e dos caminhos poss√≠veis para a sua moderniza√ß√£o. Assim √© que o "nosso" Weber incide bem menos na inquiri√ß√£o das patologias da modernidade do que nas formas patol√≥gicas de acesso ao moderno.

Weber, como Marx, tem sido, desde os anos 50, quando a ci√™ncia social brasileira recuperou a linha ensa√≠stica dos pioneiros na interpreta√ß√£o do Brasil, como a de Euclides da Cunha, Silvio Romero, Oliveira Vianna, Caio Prado Jr., Gilberto Freyre e S√©rgio Buarque de Hollanda, uma das principais marca√ß√Ķes te√≥ricas da produ√ß√£o que se voltou para o objetivo de explicar a singularidade da nossa forma√ß√£o social. Decerto que grande parte da controv√©rsia, no campo das explica√ß√Ķes que concorrem entre si, est√° vinculada √†s diferentes concep√ß√Ķes intr√≠nsecas aos sistemas de Marx e Weber, sobretudo as que se manifestam no campo axiol√≥gico, com as √≥bvias repercuss√Ķes que da√≠ derivam para a an√°lise do comportamento do ator social e dos condicionantes exercidos sobre ele pelas estruturas sociais. A remiss√£o, contudo, √† obra desses autores nem sempre contempla o que h√° de efetivamente diverso entre eles, abdicando das nuan√ßas e da complexidade das suas constru√ß√Ķes te√≥ricas originais a fim de demarcar oposi√ß√Ķes, freq√ľentemente idiossincr√°ticas. Assim, por exemplo, com as rela√ß√Ķes entre o Estado e a sociedade civil, em que a "nossa" leitura dominante de Weber radicaliza a autonomiza√ß√£o da primeira dimens√£o diante da segunda, enquanto atribui a Marx, em que pese a sua argumenta√ß√£o em O 18 brum√°rio e em outros momentos densos da sua obra, uma concep√ß√£o na qual desaparecem inteiramente os temas da autonomia da pol√≠tica quanto aos interesses e do Estado quanto √† sociedade civil, que v√£o ser, para citar apenas um autor, o leitmotiv da sociologia pol√≠tica de um pensador marxista do porte de Antonio Gramsci.

O Weber da vers√£o hoje hegem√īnica nas ci√™ncias sociais e na opini√£o p√ļblica sobre a interpreta√ß√£o do Brasil, tem sido aquele dos que apontam o nosso atraso como resultante de um v√≠cio de origem, em raz√£o do tipo de coloniza√ß√£o a que fomos sujeitos, a chamada heran√ßa do patrimonialismo ib√©rico, cujas estruturas teriam sido ainda mais refor√ßadas com o transplante, no come√ßo do s√©culo XIX, do Estado portugu√™s no solo americano. Desse legado, continuamente reiterado ao longo do tempo, adviria a marca de uma certa forma de Estado duramente aut√īnomo em rela√ß√£o √† sociedade civil, que, ao abafar o mundo dos interesses privados e inibir a livre iniciativa, teria comprometido a hist√≥ria das institui√ß√Ķes com concep√ß√Ķes organicistas da vida social e levado √† afirma√ß√£o da racionalidade burocr√°tica em detrimento da racional-legal. Ainda segundo essa vers√£o, a aus√™ncia do feudalismo na experi√™ncia ib√©rica, inclusive no Brasil, aproximaria a forma patrimonial do nosso Estado √† tradi√ß√£o pol√≠tica do Oriente, onde n√£o se observariam fronteiras n√≠tidas a demarcar as atividades das esferas p√ļblica e privada. Raimundo Faoro, no seu cl√°ssico Os donos do poder, al√©m de avizinhar o iberismo do despotismo oriental, retomando o argumento de Tavares Bastos e Sarmiento, liberais ibero-americanos do s√©culo XIX, sugere a necessidade, motivado pelo seu estudo de caso, de se proceder √† revis√£o da tese de Weber, que vincula a emerg√™ncia do esp√≠rito capitalista √† √©tica calvinista, em favor da que sustenta que "somente os pa√≠ses revolvidos pelo feudalismo" teriam chegado a adotar o sistema capitalista, integrando nele a sociedade e o Estado" (Faoro, 1975, vol. 1:22).

N√£o ser√≠amos propriamente um caso ocidental, uma vez que, aqui, o Estado, por anteceder aos grupos de interesses, mais do que aut√īnomo em face da sociedade civil, estaria empenhado na realiza√ß√£o de objetivos pr√≥prios aos seus dirigentes, enquanto a administra√ß√£o p√ļblica, vista como um bem em si mesmo, √© convertida em um patrim√īnio a ser explorado por eles. Inscritos no Oriente pol√≠tico¬†- Simon Schwartzman, ao conceituar patrimonialismo, categoria central do seu influente Bases do autoritarismo brasileiro, n√£o somente cita o Marx do modo de produ√ß√£o asi√°tico, como tamb√©m o cl√°ssico de K. Wittfogel sobre as sociedades hidr√°ulicas do despotismo oriental (Schwartzman, 1982:43) -, conhecer√≠amos um sistema pol√≠tico de coopta√ß√£o sobreposto ao de representa√ß√£o, uma sociedade estamental igualmente sobreposta √† estrutura de classes, o primado do Direito Administrativo sobre o Direito Civil, a forma de dom√≠nio patrimonial-burocr√°tica e o indiv√≠duo como um ser desprovido de iniciativa e sem direitos diante do Estado.

Tal vers√£o, hegem√īnica na controv√©rsia sobre a explica√ß√£o do Brasil, procura contrapor a dimens√£o da f√≠sica dos interesses √† metaf√≠sica brasileira, historicamente centrada na id√©ia de uma comunh√£o entre o Estado e a na√ß√£o, investido aquele da representa√ß√£o em geral da sociedade e do papel de int√©rprete das suas expectativas de realiza√ß√£o, e sobretudo na no√ß√£o de que o interesse do particular, para ter a sua legitimidade plenamente reconhecida, deva se mostrar compat√≠vel com o da comunidade nacional. O capitalismo brasileiro, origin√°rio dessa metaf√≠sica, seria, pois, politicamente orientado, uma modalidade patol√≥gica de acesso ao moderno, implicando uma moderniza√ß√£o sem pr√©via ruptura com o passado patrimonial, o qual, ademais, continuamente se reproduziria, na medida em que as elites identificadas com ele deteriam o controle pol√≠tico do processo de mudan√ßa social. O Estado neopatrimonial, ao restringir a livre manifesta√ß√£o dos interesses, e ao dificultar, com suas pr√°ticas de coopta√ß√£o, a sua agrega√ß√£o em termos sindicais e, principalmente pol√≠ticos, favoreceria, assim, a preserva√ß√£o das desigualdades sociais cr√īnicas ao pa√≠s.

Romper com esse Oriente pol√≠tico significaria, de um lado, uma reforma pol√≠tica que abrisse o Estado √† diversidade dos interesses manifestos na sociedade civil, impondo a preval√™ncia do sistema de representa√ß√£o, e, de outro, a emancipa√ß√£o desses interesses de qualquer raz√£o de tipo tutelar. A identifica√ß√£o do car√°ter quase asi√°tico do Estado brasileiro como obst√°culo √† liberdade e a padr√Ķes igualit√°rios de conviv√™ncia social, argumento que tem como ponto de partida a sua radical autonomia diante da sociedade civil e o que seria a separa√ß√£o dram√°tica entre seus fins pol√≠ticos e a esfera dos interesses privados, leva, ent√£o, √† sugest√£o de que a reforma do Estado deve estar dirigida √† sua abertura a essa esfera, realizando o seu papel democr√°tico na administra√ß√£o e composi√ß√£o dos diferentes e contradit√≥rios interesses socialmente explicitados. Somente a f√≠sica dos interesses pode remover a velha tradi√ß√£o metaf√≠sica brasileira, que estaria comprometida com a no√ß√£o de uma sociedade hier√°rquica e desigual.

A ruptura, pois, como em Tavares Bastos no s√©culo passado, deveria se aplicar no plano da institucionalidade pol√≠tica, especialmente no que diz respeito √† forma do Estado, uma vez que, ao se conceder plena liberdade aos interesses, eles tendem a produzir uma din√Ęmica benfazeja que traz consigo maior igualdade social. O patrimonialismo √© marca do Estado, e n√£o da sociedade, e, por isso mesmo, nessa vers√£o interpretativa, ela n√£o comparece como dimens√£o anal√≠tica, em particular na sua quest√£o agr√°ria: o argumento cinge-se ao institucional, a reforma na pol√≠tica cont√©m em germe a possibilidade da boa sociedade. A leitura do tema do patrimonialismo em Weber, √† medida que se volta para o paradigma do Oriente cl√°ssico, onde n√£o se conheceu o direito √† propriedade individual, direito que, desde os gregos, nasce com o Ocidente, √©, ent√£o, prisioneira do √Ęngulo das institui√ß√Ķes pol√≠ticas, crucialmente do Estado, e √© da√≠ que prov√©m a sua √™nfase na reforma pol√≠tica e n√£o na reforma social. Desse eixo explicativo deriva uma das principais controv√©rsias da literatura, opondo, de um lado, os que advogam, desde Tavares Bastos aos constituintes de 1891 e aos adeptos de hoje da reforma pol√≠tica como base pr√©via para a moderniza√ß√£o do pa√≠s, que o pa√≠s legal deva mudar o pa√≠s real, e, de outro, os que invertem o sentido dessa proposi√ß√£o.

Na interpreta√ß√£o que privilegia o fen√īmeno do patrimonialismo pela forma do Estado, contudo, o que haveria de oriental na pol√≠tica tenderia a ser deslocado pela afirma√ß√£o dos interesses, o estado de S√£o Paulo, com a expans√£o da agroexporta√ß√£o cafeeira, um primeiro esbo√ßo do Ocidente sobre o qual deveria se assentar a arquitetura institucional da democracia representativa, removendo-se a pesada carga de um Estado parasit√°rio a fim de dar passagem aos interesses e √† sua livre agrega√ß√£o. Nesse sentido, conta-se a saga de infort√ļnios da democracia brasileira a partir das derrotas pol√≠ticas de S√£o Paulo, que o teriam privado de universalizar o seu paradigma ocidental. Nessa vers√£o, portanto, a chamada revolu√ß√£o de 1930 teria retomado o velho fio ib√©rico de preced√™ncia do Estado sobre a sociedade civil, a era Vargas entendida como cont√≠nua ao ciclo dominado pelo eixo Pombal-D. Pedro II, uma proje√ß√£o do Imp√©rio, uma vez que expressaria as mesmas "vigas mestras da estrutura" ao traduzirem a realidade patrimonialista na ordem estatal centralizada (Faoro, 1975, vol. 2:725). Afora o interregno de hegemonia de S√£o Paulo¬†- 1889-1930¬†- ou mesmo de influ√™ncia deste Estado¬†- 1934-1937 -, a for√ßa da tradi√ß√£o e o peso das estruturas do Estado induzem a uma determina√ß√£o, a "todos superior, condutora e n√£o passivamente moldada", que leva o quadro administrativo a dominar a c√ļpula. E, assim, "em 1945, o ditador j√° n√£o temia mais a hegemonia paulista, s√≥ poss√≠vel na base de n√ļcleos econ√īmicos n√£o dependentes, como fora a lavoura cafeeira", trazendo os seus interesses para a malha do Estado, lugar patrimonial de extra√ß√£o de riqueza e de distribui√ß√£o de prebendas, a esta altura vinculando, cartorialmente, o parque industrial paulista √† sua administra√ß√£o (idem).

A revolu√ß√£o de 1930 consistiria, pois, em um retorno √†s ra√≠zes patrimoniais, obedecendo ao movimento oculto das estruturas, e n√£o em uma inven√ß√£o com que os dirigentes da ordem burguesa, diante da crise de legitimidade da Primeira Rep√ļblica, teriam ampliado o alcance da universaliza√ß√£o do Estado, impondo-lhe maior autonomia quanto √† esfera dos interesses - no caso, os dominantes em S√£o Paulo -, a fim de permitir a incorpora√ß√£o ao sistema da ordem dos personagens emergentes da vida urbana, como militares, empres√°rios, oper√°rios e intelectuais. O que teria sido o feliz interregno 1889-1930, quando os interesses encontraram representa√ß√£o na pol√≠tica e conformaram o Estado, no contexto institucional da Carta americana de 1891 e do sistema de domina√ß√£o formalmente racional-legal dela derivado, foi, como sabido, o momento republicano em que a esfera p√ļblica foi apropriada pela esfera privada e em que se solidarizou aquele sistema de domina√ß√£o com a ordem patrimonial pela via do sistema pol√≠tico do coronelismo.

O interesse, como inst√Ęncia isolada - como j√° fora percebido nas li√ß√Ķes cl√°ssicas do radicalismo filos√≥fico ingl√™s, em Hegel, Tocqueville, para n√£o falar de Marx -, conduzia ao particularismo na forma do Estado, e, nas condi√ß√Ķes retardat√°rias da sociedade brasileira, onde predominava o estatuto da depend√™ncia pessoal, tendia a se combinar com as formas de mando olig√°rquicas e a sociabilidade de tipo hier√°rquico que prevaleciam no pa√≠s. O primado do interesse, na Primeira Rep√ļblica, assim, n√£o se confronta com as formas de domina√ß√£o tradicionais, antes as subordina, convertendo o atraso, tal como na exemplar demonstra√ß√£o de Victor Nunes Leal em seus estudos sobre o coronelismo, em uma vantagem para o moderno que estaria representado pela economia dominante em S√£o Paulo, sob a dire√ß√£o de um patriciado com origem na propriedade fundi√°ria e orientado por valores de mercado - a Pr√ļssia paulista ser√° uma inven√ß√£o da Primeira Rep√ļblica.

Pelo √Ęngulo do Oriente, isto √©, considerando o patrimonialismo como um fen√īmeno de Estado, essa vers√£o weberiana sobre a interpreta√ß√£o do Brasil, mais do que identificar o atraso como pr√≥prio √† inst√Ęncia do pol√≠tico, tender√° a ocultar as rela√ß√Ķes patrimoniais que instituem o tecido da sociabilidade, perdendo de vista, na linguagem da controv√©rsia do pensamento social brasileiro, "o pa√≠s real", especialmente o mundo agr√°rio, as rela√ß√Ķes de depend√™ncia pessoal que a√≠ se estabelecem e de como o seu paradigma paulista, longe de representar uma linha de oposi√ß√£o entre atraso e moderno, representa√ß√£o e coopta√ß√£o, ordem racional-legal e patrimonialismo, na verdade, aponta para uma composi√ß√£o amb√≠gua dessas polaridades, imprimindo √† matriz do interesse a marca de um particularismo privatista ant√≠poda √† forma√ß√£o da cultura c√≠vica.

Na outra ponta da recep√ß√£o de Weber, transita-se da perspectiva das institui√ß√Ķes pol√≠ticas para a da sociologia, com centralidade na quest√£o agr√°ria e no patrimonialismo de base societal, e, principalmente, do Oriente para o Ocidente, de cuja hist√≥ria e processo de desenvolvimento o Brasil seria um resultado e parte integrante, embora inclu√≠do nele como um caso retardat√°rio e amb√≠guo, uma vez que combinaria em si a forma moderna do Estado de arquitetura liberal com o instituto da escravid√£o e com a organiza√ß√£o social de tipo patrimonial. Weber, nessa chave, deixa de ser mobilizado como uma refer√™ncia que se contraponha a Marx na quest√£o da autonomia do Estado e do pol√≠tico em geral, recolhendo-se dele a marca√ß√£o te√≥rica para a an√°lise da sociedade "senhorial escravocrata" e a sua organiza√ß√£o estamental, enquanto em Marx se v√£o procurar os conceitos que permitam explicar a inscri√ß√£o do pa√≠s no sistema do capitalismo mundial e a transi√ß√£o para uma "ordem social competitiva" fundada em uma estrutura de classes moderna.

Da√≠ se v√™, por conseguinte, a heterogeneidade na recep√ß√£o brasileira de Weber, que estaria presente tanto na vers√£o interpretativa dos que identificam os elementos quase asi√°ticos que teriam presidido a forma√ß√£o do Estado nacional, em raz√£o do transplante do patrimonialismo de Estado portugu√™s, como a raiz dos nossos males, como na dos que, como Florestan Fernandes, Maria Silvia de Carvalho Franco e Jos√© Murilo de Carvalho, √† medida que entendem, nas palavras do primeiro, "o Estado [...] como a √ļnica entidade que podia ser manipul√°vel desde o in√≠cio [...] com vistas √† sua progressiva adapta√ß√£o √† filosofia pol√≠tica do liberalismo" (Fernandes, 1975:35), ou, nas da segunda, para quem a "organiza√ß√£o administrativa desse per√≠odo [d√©cada de 1830] fundava-se formalmente no princ√≠pio burocr√°tico de obedi√™ncia a um poder p√ļblico abstratamente definido, legitimado e expresso por normas racionalmente criadas e legalmente estatu√≠das" (Franco, 1969:116), ou, ainda, nas do √ļltimo, ao sustentar que a burocracia imperial n√£o teria se constitu√≠do em um estamento (Carvalho, 1980:129), provocando, com isso, o deslocamento da inquiri√ß√£o sobre a causa do nosso atraso para o terreno das rela√ß√Ķes sociais e do impacto da natureza patrimonial delas sobre um Estado, em sua concep√ß√£o original, de extra√ß√£o moderna.

Nessa interpreta√ß√£o, cujo eixo se encontra na caracteriza√ß√£o do compromisso que se estabeleceu, a partir da Independ√™ncia, entre a ordem racional-legal e a patrimonial, entre o liberalismo da forma do pol√≠tico e as estruturas econ√īmicas herdadas da Col√īnia, entre o atraso e o moderno, compreendido o primeiro como racional ao capitalismo, entre a representa√ß√£o e a coopta√ß√£o, o problema da ruptura n√£o deveria estar referido ao Estado, mas sim √†s rela√ß√Ķes sociais de padr√£o patrimonial, fazendo com que "toda a conduta dos personagens [venha] entrela√ßada com a concess√£o de merc√™s, expondo a vig√™ncia do princ√≠pio de domina√ß√£o pessoal, base pouco prop√≠cia para a orienta√ß√£o racional da a√ß√£o" (Franco, 1969:27). Sob esse √Ęngulo, a ruptura p√Ķe-se no registro da longa dura√ß√£o, sendo o resultado de transforma√ß√Ķes moleculares nas rela√ß√Ķes tradicionais, historicamente respons√°veis pela conten√ß√£o da afirma√ß√£o da sociedade de classes entre n√≥s, caracterizando a revolu√ß√£o burguesa no pa√≠s como dominada pelo andamento passivo, e, como tal, melhor representada conceitualmente pelo tema da transi√ß√£o, no caso, o da transi√ß√£o da ordem senhorial escravocrata para a ordem social competitiva.

O processo de diferencia√ß√£o dos interesses entre col√īnia e metr√≥pole, de onde surgira o esp√≠rito nativista e a ades√£o ao liberalismo dos homens que realizaram a Independ√™ncia, teria importado uma forma particular de internaliza√ß√£o da ideologia liberal, em que ela viria a expressar mais os anseios "de emancipa√ß√£o dos estamentos senhoriais da 'tutela colonial'" do que os de "emancipa√ß√£o nacional" (Fernandes, 1975:36). Concretizada, por√©m, a Independ√™ncia, na an√°lise de Florestan Fernandes, esse movimento se inverte, com a convers√£o do liberalismo em uma for√ßa dinamizadora da sociedade civil nascida da Independ√™ncia, "uma esfera na qual se afirma e dentro da qual preenche sua fun√ß√£o t√≠pica de transcender e negar a ordem existente" (idem:39). Transcend√™ncia e nega√ß√£o que, na passagem da sociedade colonial √† sociedade nacional, iriam exigir processos hist√≥ricos de longa dura√ß√£o, no curso dos quais se produziriam, pelo papel da ideologia e das institui√ß√Ķes liberais na "revolu√ß√£o encapuzada" da Independ√™ncia, cont√≠nuas transforma√ß√Ķes moleculares em que se opera, na express√£o daquele autor, o sepultamento do passado (idem:46). A intensa flora√ß√£o mercantil que se segue √† ruptura com o pacto colonial, a nacionaliza√ß√£o do com√©rcio exportador, alterando as fun√ß√Ķes econ√īmicas do senhor rural, assim como a pr√≥pria diferencia√ß√£o social da√≠ resultante, com a cria√ß√£o de novas ocupa√ß√Ķes qualificadas e o est√≠mulo √†s profiss√Ķes liberais, teriam induzido, ent√£o, que uma "parte da sociedade global" viesse a se destacar "das estruturas tradicionais preexistentes", passando a constituir o seu "setor livre", "√ļnica esfera na qual a livre competi√ß√£o podia alcan√ßar alguma vig√™ncia". Sob essa l√≥gica, tem in√≠cio, apesar das condi√ß√Ķes "socioecon√īmicas adversas (por causa da persist√™ncia da escravid√£o e do patrimonialismo), uma √°rea na qual o 'sistema competitivo' pode coexistir e chocar-se com o 'sistema estamental'" (idem:48, √™nfases no original).

A transi√ß√£o, pois, da ordem senhorial-escravocrata para a ordem social competitiva cumpre o andamento das revolu√ß√Ķes passivas, lida na chave weberiana dos tipos de domina√ß√£o e das modalidades expressivas de a√ß√£o que cada um deles comporta, implicando um processo progressivo de realiza√ß√£o do moderno em que, por meio da diferencia√ß√£o societal - basicamente, pela apari√ß√£o e afirma√ß√£o de novos pap√©is sociais de desempenho incompat√≠vel com a ordem tradicional -, o sistema de orienta√ß√£o racional da a√ß√£o tende a se generalizar, tornando-se, por fim, hegem√īnico. No entanto, em raz√£o da natureza passiva do caminho que o viabiliza como dominante, o sistema de orienta√ß√£o racional da a√ß√£o pode coexistir com a ordem patrimonial, criando para a burguesia a possibilidade de extrair vantagem tanto do moderno como do atraso: "[a burguesia] se compromete, por igual, com tudo que lhe fosse vantajoso: e, para ela, era vantajoso tirar proveito dos tempos desiguais e da heterogeneidade da sociedade brasileira, mobilizando as vantagens que decorriam tanto do atraso quanto do adiantamento das popula√ß√Ķes" (idem:204, √™nfases no original). Assim, se o Estado nacional nasce "bastante moderno", apto √† "moderniza√ß√£o ulterior de suas fun√ß√Ķes econ√īmicas, sociais e culturais", matriz efetiva da expans√£o do liberalismo no pa√≠s (idem:38), desde a sua origem ele mant√©m a marca de uma conviv√™ncia com uma ordem antit√©tica √† sua, que, longe de ser impeditiva de sua afirma√ß√£o, torna-a poss√≠vel, sobretudo por consistir na base econ√īmica a partir da qual ele vai poder operar a sua forma de inscri√ß√£o no capitalismo mundial.

A trajet√≥ria de S√£o Paulo, especialmente a partir do momento em que a agroexporta√ß√£o do caf√© veio a se basear no trabalho livre, seria paradigm√°tica de como a afirma√ß√£o da esfera dos interesses e o sistema de orienta√ß√£o racional do homo ¬úconomicus n√£o teriam sido suficientes para a imposi√ß√£o da ordem social competitiva, importando, pois, em um novo cen√°rio, a reitera√ß√£o da ambig√ľidade constitutiva √† forma√ß√£o brasileira: de um lado, o "c√°lculo exato" do homo ¬úconomicus da cultura capitalista do caf√© e dos tipos sociais emergentes com a expans√£o dos neg√≥cios e da industrializa√ß√£o; de outro, no plano da pol√≠tica, a preserva√ß√£o do estilo senhorial, a extra√ß√£o do consentimento e o exerc√≠cio da coer√ß√£o por m√©todos e formas patrimoniais. A ordem competitiva, se prevalece na economia, n√£o ir√° produzir os agentes sociais vocacionados para uma racionaliza√ß√£o do seu mundo, distantes "de uma filosofia pol√≠tica [...] que possa conduzir ao capitalismo como estilo de vida". Como inst√Ęncia isolada, o interesse e os agentes sociais que melhor o representam, mesmo na sua forte manifesta√ß√£o paulista, ficam confinados ao horizonte da esfera privada, "convertendo-se ao liberalismo das elites tradicionais, [incorporando-se], de fato, aos c√≠rculos conservadores e [passando] a compartilhar formas de lideran√ßa e de domina√ß√£o pol√≠ticas variavelmente conflitantes ou inconsistentes com a consolida√ß√£o da ordem social competitiva [...]" (idem:146, √™nfases no original). O interesse moderno, em sua forma j√° especificamente capitalista, ao abdicar do programa de radicaliza√ß√£o do liberalismo, nasce, al√©m de comprometido com as pr√°ticas de extrair vantagens do atraso - como realizar, no mundo agr√°rio, a produ√ß√£o de excedente a partir de rela√ß√Ķes de depend√™ncia pessoal -, associado a t√©cnicas de controle social que dissimulem a exist√™ncia da estrutura de classes e impe√ßam a sua livre explicita√ß√£o.

O fracasso das elites econ√īmicas de S√£o Paulo, no momento da transi√ß√£o para o trabalho livre e quando se firma o primado das rela√ß√Ķes especificamente capitalistas, em realizar "por cima" a universaliza√ß√£o da agenda da ordem social competitiva, em nome do cumprimento do programa liberal-radical de difundir o capitalismo como estilo de vida, teria como conseq√ľ√™ncia destin√°-la a uma constru√ß√£o "por baixo", cuja orienta√ß√£o estivesse voltada a derruir o padr√£o de heteronomia social prevalecente na sociedade brasileira, suposto da organiza√ß√£o patrimonial. Tal constru√ß√£o, por isso mesmo, deveria ter como ponto de partida a afirma√ß√£o dos interesses dos indiv√≠duos expostos ao estatuto da depend√™ncia pessoal ou de cidadania prec√°ria do ponto de vista pol√≠tico e social. O n√≥ g√≥rdio a ser cortado, a fim de se encontrar passagem para a ordem social competitiva, n√£o estaria, ent√£o, no Estado nem no interesse em geral, mas sim em um certo tipo de interesse, que, ao ser livremente manifestado, fosse dotado da propriedade de conformar identidades aut√īnomas, inst√Ęncia nova sem a qual n√£o se poderia romper efetivamente com o legado da heran√ßa patrimonial.

Nesse novo caminho para a inquiri√ß√£o do car√°ter do patrimonialismo brasileiro, do qual resulta a troca de foco do Estado para a sociedade, a percep√ß√£o da pol√≠tica e do Estado deveria ter o exclusivo agr√°rio como ponto de partida, dado que somente a√≠ se poderia surpreender, no contexto puro da domina√ß√£o senhorial, a trama da sociabilidade que envolveria os indiv√≠duos submetidos √† situa√ß√£o de depend√™ncia pessoal, condi√ß√£o para se desvendar o modo particular de articula√ß√£o entre a dimens√£o do p√ļblico e a do privado e a do Estado com a sociedade, pondo-se a nu as conex√Ķes internas, vigentes na modelagem da ordem burguesa no pa√≠s, entre o plano do racional-legal e o do patrimonial. Com essa perspectiva sociol√≥gica, que procura combinar analiticamente os micro e os macrofundamentos respons√°veis pela forma√ß√£o do Estado, se joga uma nova luz sobre a dimens√£o do interesse, que deixa de ser percebido como o lugar da inova√ß√£o e de resist√™ncia ao patrimonialismo, e sim da conserva√ß√£o do status quo.

Maria Silvia de Carvalho Franco, no seu cl√°ssico Homens livres na ordem escravocrata, ao utilizar o argumento de Weber sobre a singularidade da organiza√ß√£o burocr√°tica estatal no Ocidente moderno, demonstra empiricamente como, aqui, nas condi√ß√Ķes de escassez de recursos que pudesse suportar a a√ß√£o do Estado, o processo de expropria√ß√£o do servidor p√ļblico dos meios materiais da administra√ß√£o teria sido apenas formal, na medida em que, na realidade, boa parte desses meios era financiada com recursos privados. Foi a pobreza da ag√™ncia estatal, e n√£o a sua natureza pretensamente quase oriental, que teria dado como resultado n√£o desejado a fus√£o entre o p√ļblico e o privado, permitindo, assim, que o exerc√≠cio do poder origin√°rio do cargo p√ļblico pudesse ser traduzido na busca de fins estritamente particulares (Franco, 1969:cap. III). Investigando as condi√ß√Ķes de funcionamento, no s√©culo passado, das C√Ęmaras Municipais do Vale do Para√≠ba, a autora exprime, de modo exemplar, a vers√£o weberiana que inscreve o patrimonialismo brasileiro como de car√°ter societal e de raiz agr√°ria:

[...] na base do desenvolvimento da burocracia na administra√ß√£o p√ļblica, est√° um car√°ter essencial: o processo de expropria√ß√£o do servidor p√ļblico dos meios materiais da administra√ß√£o, separando-se com nitidez os recursos oficiais dos bens privados dos funcion√°rios. Pelo que j√° ficou exposto, v√™-se como esse processo de expropria√ß√£o, no Brasil do s√©culo XIX, foi sustado pelo insuper√°vel estado de pen√ļria a que estavam sujeitos os √≥rg√£os p√ļblicos. Embora mantidos os gastos sempre dentro do imprescind√≠vel √† preserva√ß√£o dos bens e √† continuidade dos servi√ßos do Estado, mesmo para esse m√≠nimo, os recursos oficiais eram escassos, compensando-se essa falta pelas incurs√Ķes aos bolsos dos cidad√£os e das autoridades. E o resultado disto foi que, em lugar do funcion√°rio p√ļblico tornar-se cada vez mais um executivo que apenas gere os meios da administra√ß√£o, manteve-se preservada a situa√ß√£o em que ele detinha sua propriedade. Isto significa, evidentemente, que ele os podia controlar autonomamente, pois ele os possu√≠a. Seu era o dinheiro com que pagava as obras; seu, o escravo cujos servi√ßos cedia; sua, a casa onde exercia as fun√ß√Ķes p√ļblicas (idem:126, √™nfases no original).

Distante, pois, da interpreta√ß√£o que caracteriza o Estado como uma inst√Ęncia radicalmente aut√īnoma da sociedade, como na literatura que o compreende como patrimonial e respons√°vel pelo atraso, a vers√£o que identifica o patrimonialismo brasileiro como fen√īmeno societal, o percebe, em chave oposta: a imagem do Estado tutelar n√£o passaria de uma simples apar√™ncia a dissimular a sua natureza efetiva de Estado instrumento. Embora moderno, na medida em que sua burocracia administrativa estaria referida aos princ√≠pios da ordem racional-legal, as suas a√ß√Ķes seriam "corrigidas" no plano da vida local - os "pequenos reinos" dos senhores de terras -, sendo permanentemente "negado enquanto entidade aut√īnoma e dotada de compet√™ncia para agir segundo seus pr√≥prios fins", a vida privada prolongando-se para dentro da vida p√ļblica, "mantendo, tamb√©m nesta, a domina√ß√£o pessoal" (idem:135, 138 e 230).

O elemento retardat√°rio teria a sua origem na sociedade civil, a partir da estrutura√ß√£o do modo de propriedade e das rela√ß√Ķes de trabalho nela prevalecentes, e n√£o no Estado, impondo a este uma f√≥rmula bifronte, combinando ambiguamente a domina√ß√£o racional-legal com a tradicional, e √†quela um amorfismo que lhe teria impedido de conhecer, quando da passagem para o trabalho livre, uma estrutura de classes de tipo capitalista, o poder pessoal interditando ao seu objeto - o "homem pobre" - a percep√ß√£o de si como detentor de direitos e interesses pr√≥prios, e ao seu sujeito - os grupos dominantes - a identifica√ß√£o dos seus objetivos econ√īmicos comuns a fim de agirem com unidade (idem:231). Dessa forma, para que a matriz do interesse viesse a produzir seres sociais dotados de autonomia e de identidade social definida, importaria, de um lado, erradicar as formas de patrimonialismo societal preservadas no processo de moderniza√ß√£o da sociedade brasileira, e, de outro, por um fim na tradicional capacidade da esfera privada de invadir a esfera p√ļblica, convertendo-a em um instrumento seu.

O diagnóstico formulado por essa interpretação se fazia singularizar, entre outros motivos, pela compreensão de que atraso e moderno não se achavam, devido à forma de desenvolvimento desigual do capitalismo brasileiro, em contraposição agonística, mas combinados, levando à acomodação princípios antitéticos que se fundiriam de modo heteróclito no Estado, como acima se procurou explicar. Com esse argumento de fundo, o processo de modernização capitalista, com base em uma industrialização politicamente induzida, tal como teve curso a partir de 1930, intensificando-se nas duas décadas seguintes, vai ser entendido como uma confirmação, já em um contexto especificamente capitalista, do compósito em termos de princípios e de sistema da ordem que teria presidido a nossa formação, uma vez que ele se cumpriria sem liberar a manifestação da estrutura de classes e sem deslocar as elites tradicionais do interior do Estado.

O nacional-desenvolvimentismo consistiria na nova pr√°xis burguesa por meio da qual se garantiria continuidade a essa velha solu√ß√£o brasileira, compatibilizando os ideais de moderniza√ß√£o econ√īmica das novas elites com a preserva√ß√£o do dom√≠nio das oligarquias tradicionais - que ainda reteriam grande parte da popula√ß√£o do campo sob o estatuto da depend√™ncia pessoal. Por defini√ß√£o, de sustenta√ß√£o pluriclassista, o regime nacional-desenvolvimentista consistiria em uma inova√ß√£o no sistema da ordem ao admitir, pela via da estrutura corporativa sindical e da outorga da legisla√ß√£o protetora do trabalho, a incorpora√ß√£o dos trabalhadores do mercado formal urbano √†s institui√ß√Ķes e √† ideologia de Estado, impondo a eles, em contrapartida, uma situa√ß√£o de heteronomia, com o que se esperava refor√ßar a sua legitimidade e conferir ao seu projeto o simulacro de uma representa√ß√£o dos interesses da coletividade como um todo (Fernandes, 1976).

√Č sobre esse assentamento conceitual que a chamada teoria do populismo, com uma influ√™ncia weberiana mais velada do que expl√≠cita - tamb√©m inspirada, em seus in√≠cios, pela obra do importante soci√≥logo √≠talo-argentino, Gino Germani [1] -, vai encontrar a sua base para a explica√ß√£o do Brasil, na qual, ao contr√°rio do eixo anal√≠tico que a inspira, al√©m de se perder a fina conex√£o entre atraso e moderno, presente em Fernandes e Franco, a √™nfase no macroestrutural vai ceder lugar ao tema da subjetividade, dimens√£o estrat√©gica onde se radicaria a vontade do ator moderno, sem cuja vigorosa manifesta√ß√£o n√£o se afastariam os constrangimentos estruturais que impediriam a constru√ß√£o de uma identidade aut√īnoma de classe do operariado brasileiro moderno [2].

A teoria do populismo vai se tornar, a partir dos anos 60, particularmente depois do golpe militar de 1964, a linguagem comum dos que entendiam que a mis√©ria brasileira se devia ao fato de a racionalidade ocidental estar, aqui, submersa e condicionada √† ordem privada de estilo patrimonial, que se faria preservar nas coaliz√Ķes pluriclassistas entre elites modernas e tradicionais e o sindicalismo jurisdicionado pela estrutura corporativa. O sindicalismo, como lugar de identifica√ß√£o e de agrega√ß√£o de interesses dos trabalhadores, seria a inst√Ęncia privilegiada de onde se poderia impor a ruptura com a forma heter√≥clita de Estado, cuja fun√ß√£o manifesta consistiria em resguardar, no curso do processo de moderniza√ß√£o, a conserva√ß√£o da tradi√ß√£o e os modos de controle social de car√°ter extra-econ√īmico sobre a for√ßa de trabalho, isto √©, n√£o especificamente capitalistas.

O populismo resultaria da manipulação das massas trabalhadoras, em sua maioria com origem no mundo rural, mediatizada pela ação carismática de um líder, as quais seriam incorporadas ao sistema da ordem pelo duplo caminho de acesso aos direitos sociais e pelo uso de cursos simbólicos de integração, com o que se procurava levá-las à abdicação da autonomia enquanto classe e à perda de distinção dos seus interesses em favor dos interesses da coalizão de elites à testa do Estado. O carisma, no caso, não se comportaria como uma ação propiciatória ao encantamento do mundo e como um fiat do novo, cumprindo o seu papel em um processo de conservação com mudança controlada, pondo o interesse - e não apenas dos trabalhadores - sob a tutela da racionalização burocrática do Estado. O apelo ao carisma seria, então, um recurso do atraso, e contra ele se deveria insurgir o interesse do trabalhador, cuja racionalização nos sindicatos reclamaria o mercado como direção principal - e não o Estado, que negaria a construção da sua autonomia -, onde o moderno que lhe seria intrinsecamente constitutivo encontraria campo livre para estabelecer as raízes, ao longo do tempo e a partir "de baixo", de uma nova forma de Estado.

Como interpretação do Brasil e como ideologia orientada para a ação, a teoria do populismo nasce sob o registro do interesse moderno dos trabalhadores industriais e da necessidade da sua emancipação dos mecanismos de cooptação por parte do Estado. Nesse sentido, o seu paradigma é o mercado de São Paulo e a sua unidade estratégica de análise é o sindicalismo daquele estado da Federação. Centrada nos problemas da representação sindical e política dos trabalhadores industriais, essa teoria relega ao abandono o veio analítico da sociologia agrária e do movimento dos personagens sociais originários do campo, com o que induz a percepção do atraso como uma região social a ser colonizada por aqueles. Não à toa, muitas das correntes de opinião da esquerda, que, nos anos 70, acolheram a explicação da teoria do populismo, se voltaram, anacronicamente, para a experiência dos Conselhos Operários da época da juventude de Gramsci em Turim, na expectativa de mudar a sociedade e o Estado a partir das fábricas. Nesse particular, a teoria do populismo, inesperadamente, vinha reforçar o campo explicativo da versão weberiana de patrimonialismo de Estado, na medida em que, como ela, se limitava a contrapor à coalizão moderno-atraso, tradicionalmente prevalecente no sistema da ordem, a explicitação social do moderno, sem política e sem alianças com as classes retardatárias dos setores subalternos: o "operário" que emerge da teoria do populismo não está vocacionado, por definição, a se aliar ao camponês.

Essas vers√Ķes weberianas na interpreta√ß√£o do Brasil, distantes entre si, como se tem procurado demonstrar, guardam, no entanto, algumas afinidades, sobretudo o paradigma paulista e a valoriza√ß√£o da matriz do interesse como estrat√©gicos para a democratiza√ß√£o do pa√≠s. Mais substantivamente, o diagn√≥stico da moderniza√ß√£o operada em chave neopatrimonial, conforme a primeira vers√£o aqui sumariada, e o da realizada, na segunda vers√£o, sob o pacto nacional-populista, ambos indicando a necessidade de uma ruptura hist√≥rica com a tradi√ß√£o, apresentam elementos comuns, principalmente na indica√ß√£o do papel negativo do Estado na forma√ß√£o da sociedade brasileira contempor√Ęnea. Entre tantas, a maior diferen√ßa que as distingue est√° na compreens√£o do tema estrat√©gico do interesse, emancipat√≥rio em geral para uma, e, em particular, para a outra, e somente na medida em que est√° associado √† quest√£o da autonomia e da identidade de classe.

Essas vers√Ķes fizeram fortuna - embora nem sempre estivesse vis√≠vel, em especial em fins da d√©cada de 80 e no come√ßo da de 90, o que as singularizava irredutivelmente -, e consistiram no suporte ideal das for√ßas pol√≠ticas que, ap√≥s a promulga√ß√£o da Constitui√ß√£o de 1988, se fizeram dominantes na opini√£o p√ļblica e nos segmentos organizados da sociedade, vindo, mais tarde, a assumir configura√ß√£o partid√°ria no PSDB e no PT, n√£o por acaso origin√°rios do Estado de S√£o Paulo (Barboza, 1995), o primeiro deles, como not√≥rio, ocupando a Presid√™ncia da Rep√ļblica, e, o segundo, o lugar de maior partido de oposi√ß√£o do pa√≠s. Contudo, a emancipa√ß√£o dos interesses da pol√≠tica dos do Estado n√£o o tem feito virtuoso, assim como a desqualifica√ß√£o da id√©ia de Rep√ļblica em favor da de mercado n√£o tem produzido indiv√≠duos dotados de direitos e gozando de iguais oportunidades na vida. O moderno interesse das elites econ√īmicas de S√£o Paulo, agora como antes, na Primeira Rep√ļblica, somente se faz hegem√īnico no campo da pol√≠tica ao se coligar com as oligarquias - exemplar a alian√ßa governamental entre o PSDB e o PFL -, as quais se utilizam do Estado e dos seus recursos a fim de reciclar e atualizar o seu dom√≠nio e identidade de classe. De outra parte, o moderno interesse dos trabalhadores industriais, apesar do vigor demonstrado nas grandes movimenta√ß√Ķes sociais dos anos 80 e da relativa for√ßa eleitoral do partido a que deu nascimento, ao dar as costas ao tema republicano e se tornar prisioneiro do seu interesse particular, n√£o se vem revestindo de capacidade de universaliza√ß√£o.

Sob o imp√©rio do interesse, uma d√©cada depois de promulgada a mais democr√°tica Carta constitucional que o pa√≠s j√° conheceu, pode-se constatar, contra os melhores votos formulados pelas interpreta√ß√Ķes dominantes sobre o Brasil, que a ordem racional-legal n√£o se faz acompanhar necessariamente de mais justi√ßa - ademais, com o Executivo ultrapassando o Legislativo em mat√©ria de legisla√ß√£o pelo uso das Medidas Provis√≥rias, nem previsibilidade ela pode garantir -, assim como uma estrutura de classes sociologicamente "limpa" n√£o erige automaticamente sobre si uma representa√ß√£o pol√≠tica que favore√ßa as maiorias. O moderno, pois, n√£o veio a encantar o mundo dos brasileiros, pondo-os em um faroeste id√≠lico prop√≠cio √† livre iniciativa e √† realiza√ß√£o de trajet√≥rias individuais venturosas, mas a racionalizar a sua vida a partir de valores de mercado, como, ali√°s, seria de esperar de uma previs√£o weberiana.

As linhas principais dessas interpreta√ß√Ķes do Brasil se tornaram id√©ias-for√ßa e se encontraram com os atores que as conduziram √† concretiza√ß√£o - e, nisso, comprovaram o seu car√°ter n√£o arbitr√°rio -, mas o seu √™xito intelectual e pol√≠tico est√° muito distante dos resultados pr√°ticos previstos nos seus diagn√≥sticos: a malaise, se muda o cen√°rio, √© a mesma e se aprofunda nos n√≠veis de exclus√£o e fragmenta√ß√£o social. Mais do que isso, o movimento novo que reanima a sociedade vem de um lugar insuspeitado: do atraso e da ral√© de quatro s√©culos, onde o interesse √© como se fosse virtual, uma expectativa e n√£o um fato tang√≠vel, fora do mercado e do mundo dos direitos constitu√≠dos, dos trabalhadores sem terra. Esse movimento √©, por natureza, republicano, na medida em que se dirige necessariamente ao Estado e √† arena p√ļblica a fim de converter √† cidadania indiv√≠duos destitu√≠dos de direitos e at√© de interesses - salvo o natural de conservar a pr√≥pria vida, uma vez que sequer fazem parte da for√ßa de trabalho, constituindo-se em "sobra" consolidada da popula√ß√£o. Al√©m disso, como o seu interesse n√£o se reveste de materialidade, ao contr√°rio do que ocorre com o campesinato cl√°ssico, para que ele venha √† luz √© indispens√°vel a organiza√ß√£o pr√©via e a concep√ß√£o de uma adequada rede social que viabilize sua resist√™ncia nas invas√Ķes de terra e nos acampamentos. Dessa forma, ao menos para nascer, o seu interesse requer a virtude, intr√≠nseca √† sua manifesta√ß√£o a f√≥rmula tocquevilliana do "interesse bem compreendido".

Nessa hora em que se esgotam as perspectivas de boa sociedade contidas nas promessas feitas pelas interpreta√ß√Ķes hegem√īnicas sobre o Brasil, em que cabia ao moderno, no "mercado" pol√≠tico e no mercado propriamente dito, dar passagem √† liberdade e √† igualdade, a rela√ß√£o entre atraso e Rep√ļblica pode apontar para um recome√ßo. Em primeiro lugar, porque os seus temas de fundo s√£o o da amplia√ß√£o da cidadania e o da defesa da sociabilidade contra o que seria a naturalidade dos mecanismos de mercado em um mundo globalizado; e, em segundo, porque importa uma reabertura da avalia√ß√£o da nossa hist√≥ria, e, com ela, do que foi a nossa Ib√©ria, certamente uma rep√ļblica de poucos, embora tenha se mostrado apta √† incorpora√ß√£o dos setores emergentes na sociedade brasileira, como se verificava no imediato pr√©-64. Decerto que ela ficou para tr√°s, como tamb√©m ficou a id√©ia do Estado nacional como uma comunidade superposta aos interesses dos indiv√≠duos que o compunham.

O interesse sem Rep√ļblica, n√£o importa quem seja o seu portador, vive a l√≥gica do mercado, e a quest√£o reside, ent√£o, na possibilidade de ela ser constru√≠da a partir de uma nova sociabilidade que se credencie a resolver a velha dissocia√ß√£o entre as esferas do p√ļblico e do privado, para o que ainda s√£o refer√™ncias importantes as obras de Tocqueville e Gramsci, assim como o esfor√ßo da teoria contempor√Ęnea no sentido de fundamentar uma democracia deliberativa, com todas as suas implica√ß√Ķes sobre uma reforma √©tico-moral - como a queria Gramsci, por exemplo - que venha a deslocar a quest√£o da eticidade do plano do Estado para o da sociedade civil. A Rep√ļblica √© um espa√ßo comunit√°rio, em que os interesses tamb√©m expressam valores e uma certa hist√≥ria comum; o grande desafio para uma nova interpreta√ß√£o do Brasil est√° em abrir o campo de indaga√ß√Ķes e possibilidades a fim de que a f√≠sica moderna dos interesses "bem compreendidos" - vale dizer, do interesse dotado de capacidade de universaliza√ß√£o na medida em que tamb√©m venha a expressar valores p√ļblicos - se encontre com a metaf√≠sica brasileira [3], pondo-a sob a sua dire√ß√£o, e traduzindo para o plano da sociabilidade a tradi√ß√£o de valoriza√ß√£o do p√ļblico que a Ib√©ria praticou no interior do seu Estado, cumprindo assim o programa republicano de formar uma comunidade de cidad√£os com iguais direitos √† vida e √† realiza√ß√£o pessoal e que tenha a sua hist√≥ria como um dos sistemas de orienta√ß√£o que a projetem para a frente.

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Luiz Werneck Vianna é professor do Iuperj e autor, entre outros, de Liberalismo e sindicato no Brasil.

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Notas

[1] Particularmente influente foi a sua Sociología de la modernización (Germani, 1969).

[2] Sobre o ponto, ver, de F. Weffort, Sindicatos e política, obra de ampla recepção entre os cientistas sociais brasileiros dos anos 70 e 80 (Weffort, s/d).

[3] Sobre a metaf√≠sica brasileira e suas rela√ß√Ķes com o mundo dos interesses, ver A revolu√ß√£o passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Werneck Vianna, 1997) e O quinto s√©culo - Andr√© Rebou√ßas e a constru√ß√£o do Brasil (Rezende de Carvalho, 1997).

Referências bibliográficas

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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