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Brasileiros de esquerda no Chile de Allende

Alberto Aggio - Janeiro 2008
 

"Irarrazabal chama-se a rua por onde caminh√°vamos em setembro. √Č um nome inesquec√≠vel porque jamais conseguimos pronunci√°-lo corretamente em espanhol e porque foi ali, pela primeira vez, que vimos passar um caminh√£o cheio de cad√°veres. Era uma tarde de setembro de 1973, em Santiago do Chile, perto da Pra√ßa √Ďu√Īoa, a apenas alguns minutos do toque de recolher."

√Č com essas palavras que Fernando Gabeira inicia a narrativa do seu famoso O que √© isso, companheiro?, publicado em 1979, depois da anistia e de seu retorno ao Brasil. O livro alcan√ßou um √™xito t√£o fulminante quanto duradouro, especialmente em fun√ß√£o da pol√™mica que criou ao questionar os valores e cren√ßas daqueles que se lan√ßaram √† luta armada no Brasil. Gabeira era um deles e, como muitos outros brasileiros que haviam sa√≠do do pa√≠s por vincularem-se √† esquerda - armada ou n√£o -, ele estava no Chile no dia do golpe militar de 11 de setembro de 1973.

Naquele final de tarde Gabeira conheceria, mais uma vez, o sabor amargo da derrota. A sensação era pesada e a decisão difícil. Um tanto disfarçadamente, alguns companheiros caminhavam junto com ele pelas ruas de Santiago rumo à embaixada da Argentina com o intuito de conseguir asilo político.

Certamente n√£o passava pela cabe√ßa daqueles jovens a letra de "Para n√£o dizer que n√£o falei de flores", de Geraldo Vandr√©, na qual se cantava, com outro esp√≠rito, os versos: "caminhando e cantando e seguindo a can√ß√£o [...] / a certeza na frente, a hist√≥ria na m√£o". Ao contr√°rio do voluntarismo daquela can√ß√£o que animara os cora√ß√Ķes e mentes no final da d√©cada de 1960, ali s√≥ havia uma certeza: para salvar a pr√≥pria vida, caminhava-se para um "ex√≠lio dentro do ex√≠lio". A hist√≥ria lhes escapava das m√£os e, como registrou Gabeira, o reconhecimento era inevit√°vel: "as ditaduras militares estavam fechando o cerco no continente".

Entretanto, aquela era uma explicação compreensivelmente unilateral a respeito do que se passava na América Latina e bastante superficial em relação ao que estava ocorrendo no Chile. Era, enfim, a visão daqueles que haviam investido sua juventude na luta armada e que viam a sua situação pessoal se complicar ameaçadoramente a partir da eclosão do golpe militar contra o governo de Salvador Allende.

Isto porque √†quela altura j√° n√£o havia mais - se √© que alguma vez houve - um movimento guerrilheiro de perfil latino-americano que estivesse sendo acuado pelas for√ßas da rea√ß√£o, como Gabeira, de alguma forma, supunha em seu registro. As mudan√ßas que se produziam naquela hora teriam, como se confirmar√° depois, um car√°ter muito mais profundo do que apenas o de rea√ß√£o a movimentos armados ou a governos eleitos pela esquerda. As ditaduras que se impuseram por meio de golpes militares, especialmente a chilena, refundariam seus pa√≠ses, e as repercuss√Ķes disso eram ainda insond√°veis para os homens contempor√Ęneos daqueles fatos, especialmente os que militavam na esquerda latino-americana.

Salvador Allende havia assumido o poder no Chile depois de vencer a eleição presidencial de 1970, como candidato da Unidade Popular (UP), uma coalizão de esquerda que abrigava os partidos Comunista, Socialista, Radical, Socialdemocrata, a Ação Popular Independente e o Movimento de Ação Popular Unificado (Mapu).

Ao longo de tr√™s anos, Allende exerceu a presid√™ncia da Rep√ļblica e foi deposto por um golpe militar na manh√£ daquela ter√ßa-feira, dia 11 de setembro de 1973. Seu governo ficou conhecido como a "experi√™ncia chilena" porque se propunha realizar uma tarefa in√©dita: construir o socialismo mediante a manuten√ß√£o e o aprofundamento da democracia.

Essa perspectiva pol√≠tica havia sido denominada por Allende de "via chilena ao socialismo", uma consigna que visava expressar o caminho que deveria levar √† realiza√ß√£o do objetivo maior de seu governo. Analiticamente, a "via chilena" √© o projeto que deveria embasar a atua√ß√£o do governo e da esquerda, enquanto a "experi√™ncia chilena" constitui o processo que marcou todas as realiza√ß√Ķes, contradi√ß√Ķes e vicissitudes do governo conduzido por Allende e pela Unidade Popular.

Contrastando com a situa√ß√£o chilena do in√≠cio da d√©cada de 1970, o Brasil vivia, naquela conjuntura, um aprofundamento do autoritarismo e da repress√£o pol√≠tica que caracterizavam o regime ditatorial implantado no pa√≠s em 1964. No final de 1968, o Ato Institucional n. 5 (AI-5) imp√īs severas restri√ß√Ķes √† vida pol√≠tica do pa√≠s, com o fechamento do Congresso, a implanta√ß√£o da censura pr√©via aos principais ve√≠culos de comunica√ß√£o e a cassa√ß√£o do mandato de diversos parlamentares.

Contudo, o Brasil não viveu, no início da década de 1970, apenas os "anos de chumbo" da ditadura militar. Esse também foi o período do chamado "milagre brasileiro", no qual a economia cresceu aceleradamente, com base numa combinação de arrocho salarial e entrada maciça de capitais internacionais, proporcionando uma vigorosa legitimidade ao regime militar.

Com ela vieram o ufanismo do "Brasil Grande Potência" bem como o agressivo slogan "Brasil: ame-o ou deixe-o", uma dramática resposta aos críticos do regime. A situação política do país, para aqueles que se situavam ideologicamente à esquerda, vindos do trabalhismo, do comunitarismo cristão, do comunismo, do socialismo ou do trotskismo, e que vislumbravam atuar em oposição ao regime militar, quer do ponto de vista político-partidário, quer do ponto de vista acadêmico-intelectual, era visivelmente restrita e em alguns casos absolutamente impeditiva.

N√£o √† toa muitos brasileiros tiveram que rumar para o exterior ou l√° permanecerem, volunt√°ria ou involuntariamente. Alguns o fizeram como √ļltimo recurso para salvar a pr√≥pria vida, outros simplesmente para conseguir dar seq√ľ√™ncia √† sua carreira profissional, especialmente aqueles vinculados ao meio acad√™mico.

Entre estes √ļltimos, muitos haviam se mudado para o Chile, depois de 1964, e l√° permaneceram como pesquisadores da Cepal (Comiss√£o Econ√īmica para Am√©rica Latina) quando o regime militar deu mostras de recrudescimento da sua a√ß√£o repressiva ap√≥s a promulga√ß√£o do AI-5. Outros, contudo, como o j√° mencionado Fernando Gabeira, chegaram ao Chile depois de trocados pela liberdade de algum embaixador estrangeiro seq√ľestrado pela esquerda armada no Brasil.

Naquele momento, o Chile tornou-se um dos destinos preferenciais dos exilados brasileiros tanto em função da sua longa trajetória de democracia quanto da vitória da esquerda em 1970. Para todos esses brasileiros, como Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio e José Serra, entre outros, uma frase do hino nacional chileno, em que se canta que o Chile deverá ser sempre "el asilo contra la opresión", soava bastante literal, além de garantir efetivamente um amparo seguro para eles e, em alguns casos, para suas famílias.

Darcy Ribeiro, um dos principais representantes da intelligentsia trabalhista brasileira, talvez tenha sido a liderança política vinda do Brasil que alcançou mais proximidade com o então presidente Salvador Allende. Darcy Ribeiro foi seu assessor especial e, nessa função, redigiu partes do famoso discurso presidencial de 5 de maio de 1971, no qual Allende define a via chilena como uma segunda forma de construção da sociedade socialista, procurando distinguir o caminho chileno das experiências soviética e cubana.

Nesse discurso - que se tornou a principal referência a respeito da via chilena ao socialismo -, Allende menciona explicitamente trechos extraídos dos clássicos do marxismo, especialmente de F. Engels, em que se admite um caminho pacífico para o socialismo. A fala de Allende procurava enfatizar que o caminho chileno seria realizado "dentro dos marcos do sufrágio, em democracia, pluralismo e liberdade", indicando que o principal desafio do Chile sob o governo da esquerda seria "institucionalizar a via política para o socialismo".

Anos mais tarde, em suas Confiss√Ķes (Cia. das Letras, 1997), Darcy Ribeiro relata que, juntamente com outro assessor, o valenciano Joan Garc√©s, defendera perante o presidente que o primeiro objetivo de seu governo deveria ser a cria√ß√£o de uma legalidade democr√°tica de transi√ß√£o ao socialismo, e n√£o a √™nfase na pol√≠tica de nacionaliza√ß√Ķes e estatiza√ß√Ķes. Assim, para ele, al√©m das grandes transforma√ß√Ķes estruturais desenhadas no programa da UP - e que deveriam ser realizadas com muito equil√≠brio -, o grande desafio da op√ß√£o assumida no Chile residia no percurso que se deveria trilhar para se conquistar a institucionaliza√ß√£o da via pol√≠tica para o socialismo.

Entretanto, os partidos da esquerda chilena se colocaram contra essa id√©ia, estabelecendo uma outra linha de a√ß√£o. Nos tr√™s anos que se seguiram, a a√ß√£o transformadora do governo da UP ficou concentrada no Poder Executivo, sob comando do presidente Allende. Acreditando que a legalidade chilena suportaria as transforma√ß√Ķes que o governo da UP colocaria em curso, adotou-se uma posi√ß√£o intransigente nas a√ß√Ķes governamentais, visando a incrementar a industrializa√ß√£o do pa√≠s mediante processos de nacionaliza√ß√£o e estatiza√ß√£o, a intensificar a integra√ß√£o social por meio de pol√≠ticas p√ļblicas de corte popular e a aprofundar a democratiza√ß√£o com o aumento dos espa√ßos de participa√ß√£o.

A tem√°tica pol√≠tico-institucional, presente na reflex√£o de Darcy Ribeiro no in√≠cio do governo, permaneceu em segundo plano e, mais tarde, meses antes do golpe, quando Allende lhe perguntou se a alternativa que propusera teria sido mais vi√°vel e eficaz, Darcy n√£o teve como dar ao presidente uma resposta definitiva, preferindo um argumento mais consensual para o momento, no sentido de reconhecer que a dimens√£o econ√īmica j√° havia chegado ao seu limite e que o governo necessitava de outras solu√ß√Ķes para enfrentar a severa crise que j√° vivenciava.

Apesar das diverg√™ncias de condu√ß√£o pol√≠tica, Darcy Ribeiro compartilhou com Allende a vis√£o de que era preciso compatibilizar as transforma√ß√Ķes econ√īmicas com o andamento pol√≠tico do processo e manter um comportamento h√°bil e cauteloso, no sentido de "acumular for√ßas" para passos mais decisivos que estariam por vir.

Contudo, desde o in√≠cio, muitos viam com ceticismo a chamada via chilena ao socialismo. Influenciados pela Revolu√ß√£o Cubana e capitaneados pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), por parcelas do Mapu e pelo Partido Socialista - o partido de Allende -, estes setores entendiam que esquerda e governo deveriam seguir a estrat√©gia de "p√≥lo revolucion√°rio", contestando de maneira antag√īnica o "poder burgu√™s" e agindo no sentido de aprofundar as contradi√ß√Ķes e conflitos at√© se produzir uma situa√ß√£o pr√©-revolucion√°ria. Para isso, era preciso "avanzar sin transar", ou seja, aprofundar as transforma√ß√Ķes sociais e econ√īmicas sem negocia√ß√£o alguma com outros segmentos do espectro pol√≠tico chileno.

O MIR não apoiara a eleição de Allende e, durante todo o período, permaneceu como a força oposicionista mais ativa no campo da esquerda. Seu líder mais expressivo, Miguel Enriquez (que anos mais tarde seria brutalmente assassinado pela ditadura), qualificava de "mentirosa" a formulação da via chilena como um segundo caminho para se chegar ao socialismo. De uma forma geral, todos esses setores de esquerda eram contundentes críticos do projeto da via chilena ao socialismo - e a maior acusação era de que ela se mantinha equivocadamente no interior da institucionalidade do Estado burguês - e visceralmente contrários ao encaminhamento político adotado pelo governo Allende.

Há que se mencionar também o fato de que, nessa avaliação, esses setores da esquerda chilena se viam acompanhados por intelectuais que expressavam o pensamento da então chamada gauche revolutionnaire, que brilhou na Europa entre os anos 60 e 70. Estes intelectuais (entre eles a italiana Rossana Rossanda do grupo Il Manifesto, jornal critico e dissidente do velho Partido Comunista Italiano, o PCI) vaticinavam em seus textos de avaliação da chamada experiência chilena que, mais cedo ou mais tarde, como em todos os reformismos, Allende seria forçado a mudar de estratégia, aderindo, por fim, ao caminho revolucionário - definido, nesta visão, como a ruptura armada com o Estado burguês.

Essa divis√£o marcaria profundamente a avalia√ß√£o dos brasileiros que l√° estiveram, refletindo a divis√£o que existia no seio da esquerda latino-americana a respeito do que se passava no Chile. Para boa parte da intelectualidade e da milit√Ęncia pol√≠tica da esquerda brasileira que se exilou no Chile, ao contr√°rio do que defendia Allende, a experi√™ncia chilena teria que operar uma inflex√£o radical: passar do reformismo √† revolu√ß√£o e do nacional-desenvolvimentismo ao poder democr√°tico-popular.

Um dos mais expressivos representantes dessa posi√ß√£o pol√≠tica foi Theot√īnio dos Santos, que era inclusive filiado ao Partido Socialista Chileno e dirigia, em 1973, o Centro de Estudos Socioecon√īmicos da Universidade do Chile (Ceso). Nesse mesmo alinhamento poder√≠amos mencionar tamb√©m os irm√£os Eder e Emir Sader, Rui Mauro Marini, bem como Marco Aur√©lio Garcia, todos mais ou menos aderentes ou simp√°ticos √†s posi√ß√Ķes do MIR.

Para se ter uma dimens√£o da contund√™ncia dos argumentos dessa corrente pol√≠tica, Theot√īnio dos Santos, no balan√ßo final de um simp√≥sio internacional realizado em Santiago, em outubro de 1971, procurou indicar o que ele entendia como o papel chave do governo da UP: "criar condi√ß√Ķes para a tomada do poder [...] atrav√©s da constitui√ß√£o do poder alternativo e n√£o da conquista gradual do poder do Estado existente". Depois do golpe, ao reavaliar todo o per√≠odo, o que se deveria "julgar", de acordo com Eder Sader, em Um rumor de botas (Polis, 1982), n√£o eram os homens ou suas condutas no √Ęmbito da esquerda e sim o pr√≥prio projeto da via chilena ao socialismo. O veredicto seria implac√°vel: tratou-se de um equ√≠voco tr√°gico e fatal, ainda de acordo com Sader.

Para Darcy Ribeiro, esses setores praticavam um "radicalismo verbal exacerbado" e pretendiam - dogmaticamente - "cubanizar o processo chileno". Para Darcy Ribeiro, essa "esquerda desvairada" ajudou a direita a dar o golpe definitivo em Allende. Essa avalia√ß√£o, ainda que insuficiente como explica√ß√£o integral daquele processo hist√≥rico, nunca p√īde ser contestada cabalmente. Por outro lado, em sentido contr√°rio ao que propugnavam no per√≠odo e ao que escreveram posteriormente, aqueles que, como, por exemplo, Theot√īnio dos Santos, √† √©poca criticavam Allende entendem hoje - numa esp√©cie de¬†reviravolta anal√≠tica surpreendente - que o governo da UP deve ser reivindicado "como vanguarda dos ideais revolucion√°rios no nosso continente" e a sua experi√™ncia deve ser compreendida como um "projeto poss√≠vel".

Entretanto, para além da polarização acima apresentada, é possível identificar também entre os brasileiros uma posição intermediária, que chegou a ser formulada no correr do período Allende. Num texto publicado por Fernando Henrique Cardoso na extinta revista Argumento - escrito antes, mas publicado depois do golpe de Estado -, chamava-se atenção para algumas importantes dificuldades do processo político chileno, no sentido de superar a situação de dependência existente no país por meio da estratégia e das práticas adotadas pela UP e pelo governo Allende.

Para Fernando Henrique Cardoso, os conflitos pol√≠ticos e sociais que envolviam o governo Allende amea√ßavam chegar a um patamar incontrol√°vel e lan√ßavam uma nuvem de pessimismo sobre a situa√ß√£o pol√≠tica. Segundo o soci√≥logo brasileiro, em fun√ß√£o dos graves acontecimentos que marcavam o governo Allende, o cen√°rio que se apresentava n√£o era dos mais auspiciosos para a democracia chilena. Contudo, essa percep√ß√£o de Cardoso - em tudo distanciada do protagonismo polarizador que marcavam as posi√ß√Ķes dos dirigentes da esquerda brasileira no Chile - n√£o se transformaria em uma orienta√ß√£o pol√≠tica relevante, permanecendo no seu universo estritamente acad√™mico e reflexivo.

Deve-se lembrar que Fernando Henrique Cardoso - no Chile, um funcion√°rio da Cepal - havia publicado, com o chileno Enzo Faletto, em 1967, o livro Dependencia y desarrollo en Am√©rica Latina, que se tornaria um cl√°ssico dos estudos sobre a depend√™ncia. A supera√ß√£o da depend√™ncia do Chile em rela√ß√£o √† presen√ßa dominadora dos EUA em sua economia era uma das quest√Ķes centrais do programa da UP e do governo de Allende.

De toda maneira, o que se pode observar é que, expressas de formas contrapostas, as falas dos principais protagonistas invadem integralmente o campo de análise, mantendo o passado envolto em uma bruma que não se dissipa. Ao testemunharem sobre o Chile de Allende, é ainda a perspectiva da derrota da esquerda diante da direita que, de maneira exclusiva, conduz o repensar histórico. Evita-se pensar a experiência chilena como o fracasso de um governo conduzido pela esquerda.

Nas avalia√ß√Ķes publicadas pelos principais protagonistas que participaram daquele processo - e entre eles alguns dos brasileiros que acima mencionamos -, n√£o se toma como relevante o fato de que o governo atuou como nucleador de uma pol√≠tica que seguia a via institucional, e as bases sociais da esquerda como um outro p√≥lo que buscou permanentemente resolver a chamada quest√£o do poder, para implantar o mais rapidamente poss√≠vel o socialismo.

Essa dissociação foi geradora de uma tensão permanente no campo da esquerda e invadiu o coração do governo da UP. A partir dessa perspectiva de análise é possível perceber que efetivamente Allende foi se tornando, com o passar do tempo, uma liderança disfuncional, uma vez que, por um lado, não advogava a ruptura institucional e, por outro, não revelava capacidade para dirigir e controlar por inteiro o processo político que, por fim, redundou numa polarização catastrófica.

De uma forma geral, pode-se dizer que a experi√™ncia chilena fracassou por raz√Ķes que pareciam despreocupar os principais atores da esquerda chilena, raz√Ķes que eram anteriores a qualquer poss√≠vel erro de condu√ß√£o pol√≠tica do processo e que tamb√©m n√£o tinham que ver diretamente com o desafio in√©dito de construir o socialismo por meio da democracia. Hoje est√° claro que desempenhou um papel fundamental o fato de Allende ter sido um presidente da Rep√ļblica com apoio pol√≠tico minorit√°rio do ponto de vista da representa√ß√£o, uma vez que havia sido eleito com apenas 36% dos votos e sua posse havia sido aprovada, em segunda inst√Ęncia, pelo Congresso chileno. Efetivamente, somente o "clima revolucionarista" do final dos anos sessenta e a poderosa influ√™ncia da Revolu√ß√£o Cubana na esquerda latino-americana explicam a temeridade de se buscar avan√ßar na constru√ß√£o do socialismo pela democracia com um percentual t√£o ex√≠guo de apoio eleitoral.

Hoje sabemos tamb√©m que, no Chile de Allende, teve uma extraordin√°ria import√Ęncia o fato de que as for√ßas pol√≠ticas √† √©poca se dividiam em tr√™s correntes pol√≠tico-ideol√≥gicas - os liberais e nacionalistas, a democracia-crist√£ e o eixo socialista-comunista -, com projetos de sociedade distintos e at√© antag√īnicos entre si, dificultando a conviv√™ncia e o equil√≠brio do sistema pol√≠tico, ao extremarem suas posi√ß√Ķes. √Č importante chamar a aten√ß√£o para o fato de que o Chile naquele momento n√£o tinha um centro pol√≠tico com fun√ß√Ķes negociadoras. Ao contr√°rio, a DC buscava tamb√©m implementar o seu projeto de sociedade. Em outras palavras, a DC era um centro exc√™ntrico e isso, se n√£o impossibilitava, dificultava ao extremo qualquer negocia√ß√£o mais substantiva ou duradoura entre esquerda e centro pol√≠tico.

Em terceiro lugar, se poderia mencionar um tema program√°tico: as reformas implementadas por Allende, aprofundando a reforma agr√°ria, estatizando bancos e empresas (especialmente aquelas vinculadas √† √°rea mineradora), eram excessivamente maximalistas e o caminho adotado para realiz√°-las, por meio do executivo, acabaram efetivamente abrindo espa√ßo para a ingovernabilidade. A exacerba√ß√£o da id√©ia de que socialismo era estatiza√ß√£o no plano econ√īmico gerou uma pol√≠tica de tipo "soma zero", que, agregada aos outros fatores acima mencionados, geraram uma crispa√ß√£o sem remiss√£o entre as for√ßas pol√≠ticas do pa√≠s.

Por fim, h√° que se agregar o fator externo: o apoio dos EUA √† oposi√ß√£o - democr√°tica e n√£o-democr√°tica - e, em seguida, ao golpe de Estado n√£o deixa d√ļvidas a respeito da transcend√™ncia do que se passava no Chile no in√≠cio da d√©cada de 1970. Impedir uma nova Cuba era essencial para os EUA e, de fato, se configurou como um processo imposs√≠vel de ser levado a bom termo num pa√≠s que havia experimentado d√©cadas de vida democr√°tica antes de 1973.

Dividida e aqu√©m dos acontecimentos e dos ditames que a hist√≥ria lhe colocava, a esquerda buscava, sob Allende, realizar uma revolu√ß√£o feita por mecanismos legais do Estado chileno, mas pretendia implantar um socialismo que n√£o era outra coisa sen√£o algo equivalente ao que se passava na Uni√£o Sovi√©tica, na China ou em Cuba. Realizar uma coisa e outra se mostrou invi√°vel naquelas condi√ß√Ķes, indicando que, em nenhum sentido, estava amadurecido o significado da via democr√°tica ao socialismo que a esquerda chilena, a partir do governo, vocalizava e dizia querer implementar.

Por essa raz√£o, o governo Allende n√£o deve ser entendido como uma experi√™ncia pr√°tica da impossibilidade hist√≥rica de uma via democr√°tica ao socialismo, como pensou a esquerda brasileira e latino-americana por v√°rios anos, depois daquele 11 de setembro de 1973. Naquele governo apenas se anunciou essa possibilidade. Allende e a UP concebiam o socialismo a partir de uma cultura pol√≠tica convencional que predominava na esquerda latino-americana. No entanto, o desafio que emergiu no Chile era nov√≠ssimo e obrigava a que se concebesse de outra maneira tanto o socialismo quanto o tipo de estrat√©gia para se chegar a ele. Ator e circunst√Ęncias se contraditaram, e a hist√≥ria, por meio de outros personagens, se imp√īs implacavelmente.

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Alberto Aggio é professor livre-docente de História da América da Unesp, campus de Franca, e autor/organizador, entre outros, de Gramsci: a vitalidade de um pensamento (Unesp, 1998), Democracia e socialismo: a experiência chilena (Annablume, 2002, 2. ed.) e Pensar o século XX, problemas políticos e história nacional na América Latina (Unesp, 2003).



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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