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O fim do radicalismo

Marco Aurélio Nogueira - Maio 2007
 

Ainda que por vezes sob formas pouco coerentes, o radicalismo sempre esteve revestido de dignidade no pensamento te√≥rico e na pr√°tica pol√≠tica da modernidade. Exce√ß√£o feita, diga-se desde logo, a suas express√Ķes mais med√≠ocres e caricatas, ao estilo de um Hitler ou de um Mussolini, que a seu modo tamb√©m foram radicais, ainda que n√£o devessem ser assim chamados.

O melhor pensamento filos√≥fico e cient√≠fico afirmou-se com base na id√©ia de que conhecer √© ir √† raiz das coisas, apreender suas determina√ß√Ķes e sua l√≥gica oculta. Na pol√≠tica, n√£o somente as pessoas de esquerda - comunistas, socialistas, libert√°rios - seguiram a tese de que, se quisermos mesmo viver de maneira mais justa, teremos de ousar fazer uma revolu√ß√£o, isto √©, subverter a ordem, inventar algo novo, tirar o poder dos poderosos e distribu√≠-lo socialmente. Os burgueses que fizeram a Revolu√ß√£o Francesa, assim como os fil√≥sofos iluministas que lhes forneceram as id√©ias, foram radicais. Tamb√©m o foi o liberal Stuart Mill, no s√©culo XIX, quando denunciou a sujei√ß√£o da mulher aos desejos e ao poder do marido. Os abolicionistas brasileiros, Joaquim Nabuco √† frente, foram radicais quando exigiram que era preciso acabar n√£o somente com a escravid√£o, mas com toda a sua obra de horror. Lenin, que era radical, n√£o se cansou de bater nos "esquerdistas" de sua revolu√ß√£o, cujo radicalismo lhe parecia inconseq√ľente e perigoso, ainda que pudesse ter seus m√©ritos. Freud foi radical ao descobrir e defender o lugar da sexualidade no inconsciente.

Houve radicalismo na luta contra o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha e na França, bem como contra a ditadura militar no Brasil. Maquis, partigiani, comunistas, cristãos e democratas "intransigentes" deram a vida no combate a formas de poder que se definiam pelo arbítrio, pela violência, pela patética desfaçatez com que adulavam os donos do capital e os carrascos de plantão.

A lista poderia se estender. Em todas as épocas o radicalismo ocupou lugar de destaque. E em todas elas os radicais sempre se caracterizaram pela posse de idéias generosas, que buscavam traduzir com um ponto a mais de ardor, "exagero" e impetuosidade, e um ponto a menos de cálculo e realismo.

Quando olhamos, porém, para os dias atuais, nos deparamos com um cenário em que o radicalismo está vazio de dignidade. Converteu-se numa imitação grosseira, sem eixo e sem alma, daquilo que na história moderna existiu como parte dos sonhos mais generosos.

O que dizer dos que se proclamam "radicais" e fazem pol√≠tica com base em fatos consumados, intimida√ß√£o f√≠sica, agress√£o verbal e destrui√ß√£o, que tergiversam e n√£o aceitam qualquer pondera√ß√£o? Que enfileiram reivindica√ß√Ķes em cascata mas s√≥ t√™m como causa seus pr√≥prios interesses de ativistas, suas puls√Ķes pessoais, os planos de suas organiza√ß√Ķes? Que s√£o capazes de invadir reitorias e propor greves em nome de uma combatividade ret√≥rica direcionada contra inimigos abstratos, sem uma teoria que fa√ßa jus ao nome, sem a posse de qualquer fantasia ou utopia?

Como entender a transmuta√ß√£o f√°cil e apressada daqueles que se orientavam por pautas maximalistas - a terra para quem nela trabalha, nenhuma concess√£o ao capital, combate sem tr√©guas aos "vacil√Ķes" - e que, de repente, ao vislumbrarem o acesso a posi√ß√Ķes mais privilegiadas de poder, reorganizam discursos e condutas em nome de um pragmatismo imposto noblesse oblige?

Como compreender o encolhimento do pensamento cr√≠tico, o desaparecimento da pol√™mica de id√©ias, a redu√ß√£o de todo embate ideol√≥gico a troca de acusa√ß√Ķes, o bom-mocismo verbalmente inflamado dos pensadores atuais, mais ocupados com carreiras, curr√≠culos e "reconhecimento" do que com efervesc√™ncia te√≥rica? Muitos deles sequer arcam com os "custos" da Raz√£o, s√≥ confrontam em abstrato e s√≥ fazem pol√≠tica como contesta√ß√£o.

Devemos avaliar com serenidade este cenário. Na verdade, o "defeito" é estrutural, não somente dos sujeitos. Como a estrutura da vida embaça o foco e impede que se saiba contra o que de fato lutar, luta-se contra tudo, ou por qualquer coisa. O resultado é a perda de objetividade e sentido.

Não, a inteligência não morreu. O sonho não acabou. Ainda é possível encontrar, entre os jovens e não tão jovens "radicais" de hoje, gente com brilho nos olhos, que acredita sinceramente que outro mundo é possível, que só está ali, detonando, por falta de melhor opção, arrastada pelos discursos fáceis e pela intimidação dos líderes. Os políticos que trocaram a intransigência pelo pragmatismo não são traidores da causa nem vira-casacas desprezíveis. Estão apenas operando num mundo que pega de surpresa e confunde tudo aquilo que anda e respira. Os intelectuais focados em seus currículos e carreiras não deixaram de pensar e trabalhar: estão somente buscando permanecer vivos para voltar à ribalta quando o horizonte desanuviar. Mesmo em clima de carreirismo galopante, a academia continua a produzir estudos e pesquisas importantes.

O capitalismo turbinado, de conectividade extrema, fragmenta√ß√£o e dilui√ß√£o de refer√™ncias, est√° roubando as condi√ß√Ķes de possibilidade do radicalismo. Est√° matando os radicais. Como, por√©m, n√£o pode haver vida social sem radicalismo, este mesmo mundo se encarrega de manter em circula√ß√£o alguns clones do velho enrag√©e de antes, que continuam a acuar as maiorias silenciosas sob o pretexto de que algo est√° sendo feito em nome delas. Com isso, a estrutura do mundo se protege e se reproduz.

Fredric Jameson dirigiu à cultura da pós-modernidade uma inteligente (e radical) frase: "em um mundo no qual a inovação estilística não é mais possível, tudo o que resta é imitar estilos mortos, falar através de máscaras e com as vozes dos estilos no museu imaginário". O atual pastiche do radicalismo é um discurso em língua morta, a expressão completa do fim do radicalismo.

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Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp/Araraquara, é autor, entre outros, de Em defesa da política (2001) e Um Estado para a sociedade civil (2004).



Fonte: O Estado de S. Paulo, 26 maio 2007.

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