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O PT j√° se definiu como partido de centro

Luiz Werneck Vianna - Dezembro 2003
 

A lacuna aberta no espectro político brasileiro a partir da migração do PT da esquerda para o centro vai demorar a ser preenchida. A afirmação é do cientista político Luiz Werneck Vianna, que não enxerga substitutos imediatos para o partido dentro da esquerda. "Pequenos grupos de esquerda já existem, mas uma esquerda afirmativa, com capacidade de influência... Isso leva tempo", explica o professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).

Na análise de Vianna, o PT não corre o risco de se desintegrar por ter abandonado suas antigas premissas. Mas, já se definiu como um partido de centro, "com uma agenda política de centro". "Isso não quer dizer que o partido vá virar pó, porque o centro é capaz de unificar", ressalva o cientista político, acrescentando que o PT pode se destacar como reformista capaz de unir numa mesma agenda projetos sociais e tarefas modernizantes não levadas a cabo por outros governos.

Nessa opção pelo centro, o PT apenas ocupa um lugar que antes pertencia aos tucanos: "O centro no Brasil mudou de mãos. PT e PSDB estão batendo cabeça no centro político brasileiro", afirma.

O processo de unifica√ß√£o do PT - enfatiza Vianna - vem sendo conduzido dentro dos moldes do centralismo burocr√°tico, com as controv√©rsias internas solucionadas pela via administrativa e n√£o mais pelo debate democr√°tico. Apesar do desencanto de muitos intelectuais que ajudaram a fundar o partido, Vianna alerta que ainda h√° um embate dentro do governo entre continu√≠stas e reformistas cujo resultado depender√° das press√Ķes da intelligentsia e dos movimentos sociais. A seguir os principais trechos da entrevista concedida pelo cientista pol√≠tico ao Valor. (Rodrigo Carro)

Com a expuls√£o dos radicais, o PT inicia 2004 mais unido ou mais fragmentado?

O partido pode at√© ficar mais unido. Mas o elemento de solda n√£o √© mais a livre opini√£o partid√°ria, o consenso obtido nas conven√ß√Ķes. O elemento de solda agora √© verticalizado, de cima para baixo. √Č do governo para o partido. √Č o governo que est√° pautando o PT. O PT se tornou um partido de Estado. √Č o centralismo burocr√°tico que prevalece hoje no PT. O que n√£o quer dizer que o partido v√° virar p√≥, porque o centro √© capaz de unificar. S√≥ que de forma vertical, burocr√°tica e n√£o de forma horizontal, consensual, democr√°tica, como era antes. Todas as disputas que havia no PT, as controv√©rsias com rela√ß√£o √† orienta√ß√£o, foram resolvidas administrativamente. Foi a vit√≥ria eleitoral do Lula que permitiu que um grupo resolvesse tudo pela via administrativa.

A expulsão dos radicais foi apenas a confirmação final da guinada em direção ao centro?

A guinada para o centro j√° houve e √© irrevers√≠vel. O governo e o PT, ou o setor dominante no PT, est√° se atribuindo uma fun√ß√£o nova que n√£o √© a de procurar um caminho novo. √Č de reformar o que a√≠ est√°. Essa √© uma op√ß√£o de centro. O que arrumava todas as tribos dentro do PT e acabou sendo a desgra√ßa de algumas delas? Estavam todas dependentes da lideran√ßa carism√°tica de Lula, que se sobrelevava sobre todas. Eles delegaram, todos, autoridade √† lideran√ßa pol√≠tica do partido, sem obrig√°-lo a se definir quanto a rumos. Rumos - ele tinha o mandato impl√≠cito de todos - que ele podia pegar ao sabor das circunst√Ęncias, colhendo o regime dos ventos e indo para onde achasse que o sopro era mais conveniente. Bom, isso acabou acontecendo.

A tendência dentro do PT, até 2004, é que o chamado campo majoritário continue a prevalecer?

Algumas minorias est√£o fora e, entre as que est√£o dentro, algumas t√™m influ√™ncia. Sobre isso, a gente tem de pensar se essa continuidade em rela√ß√£o √† agenda (do governo) anterior vai ser ininterrupta ou se, num determinado momento, vai se procurar um caminho mais de mudan√ßa. H√° uma possibilidade disso, sem d√ļvida. E esse vai ser o epis√≥dio que n√≥s vamos assistir daqui para frente: o que vai acontecer com quadros como Dilma Rousseff (ministra das Minas e Energia), Luiz Pinguelli Rosa (presidente da Eletrobr√°s), Carlos Lessa (presidente do BNDES). O que vai ocorrer com esse tipo de pensamento alternativo que atua ali dentro?

Ainda há espaço para esse pensamento alternativo dentro do Partido dos Trabalhadores?

Ainda vejo espaço. O (fato de o) PT ter ido para o centro e ali se fixado é uma tragédia para quem, na esquerda petista, entendia o partido como um caminho para uma trajetória mais desenvolta. Acho que esse governo ainda pode cumprir um bom papel. Não um papel desejado pela esquerda, mas um papel de um centro democrático, aberto ao social. De um centro preocupado com o crescimento. Isso não é necessariamente esquerda. O PT já se definiu como um partido de centro, com uma agenda política de centro, o que não quer dizer que o mundo está perdido para ele. Apenas, que o centro no Brasil mudou de mãos. PT e PSDB estão batendo cabeça no centro político brasileiro.

Há espaço para os dois?

Há. Enquanto não houver uma esquerda forte, há espaço para os dois. Aparecendo uma esquerda forte, não haverá espaço para os dois. Eles tenderão a se unir.

Atualmente, partido e governo são uma só coisa?

√Č uma correia de transmiss√£o que est√° funcionando no sentido inverso: de cima para baixo. √Č o Estado que est√° organizando a posi√ß√£o do partido e n√£o o inverso. Isso ocorre em toda parte: o tal Conselho de Desenvolvimento Econ√īmico e Social foi criado para ser um lugar onde a sociedade pudesse se exprimir levando sua opini√£o para dentro do governo. Est√° se constituindo numa outra coisa. O governo √© que est√° procurando encontrar escoras institucionais dentro do conselho. A quest√£o toda √© a seguinte: quem vai ser a esquerda no Brasil? N√≥s estamos com um espectro pol√≠tico-partid√°rio que est√° desfalcado. Uma posi√ß√£o n√£o est√° ocupada, a posi√ß√£o da esquerda. Acho isso ruim.

D√° para arriscar quem preencheria essa lacuna?

N√£o, isso depende de circunst√Ęncias. No final dos anos 70, quem diria que a esquerda iria sair do sindicalismo do ABC? Pequenos grupos de esquerda j√° existem, mas uma esquerda afirmativa, com capacidade de influ√™ncia... Isso leva tempo. Seria necess√°rio inclusive saber dela o seguinte: qual √© o seu programa? N√£o pode ser o programa anacr√īnico da esquerda que passou. Tem de aparecer com uma cara nova e, sobretudo, com uma cr√≠tica feroz do que foi a hist√≥ria do PT. Como √© que um partido de esquerda, que nasce com fuma√ßas radicais, ao cumprir sua trajet√≥ria vitoriosa em 20 anos se torna um partido de centro?

Qual sua expectativa para o PT nas elei√ß√Ķes municipais de 2004?

Acho que ele vai bem. A máquina governamental é muito poderosa para agir nesse terreno e a maioria que o PT conseguiu montar no Congresso vai repercutir no plano municipal. Esse tipo de solda política que foi feita no Congresso vai repercutir embaixo. Acho que o PT vai avançar bastante, essa é a previsão de todos. Essa eleição municipal vai beneficiar o partido, o que não quer dizer que ele ganhe nas grandes capitais.

A jóia da coroa do PT é a Prefeitura de São Paulo...

Essa é central, tem um efeito simbólico de apontar para a próxima sucessão. Se o Serra se aventura e ganha a eleição municipal, será um candidato fortíssimo à Presidência. Ele vai ser candidato à Presidência de todo jeito, eu penso. A não ser que o Fernando (Henrique) não deixe.

Por enquanto, a popularidade do presidente Lula vem se sustentando. Essa lua-de-mel com a opini√£o p√ļblica poder√° durar muito mais?

Pode ser. Mas sem alternativas de oportunidade de vida, acho que n√£o h√° lua-de-mel que dure. E oportunidade de vida √© cria√ß√£o de emprego. Perdemos 600 mil empregos este ano. Agora, essa batalha est√° em curso. O que ele (Lula) disse √© o seguinte: "Eu posso ganh√°-la. E para ganh√°-la n√£o preciso fazer ruptura de contrato, n√£o preciso enfrentar o tema da d√≠vida externa de maneira radical, tenho outros modos. Eu acredito que o mercado, ao se regenerar, vai me trazer possibilidades de crescimento, de expans√£o". O caminho que o governo est√° seguindo √© um caminho que aposta mais no mercado do que no Estado, n√£o √© isso? Mas h√° quem esteja dentro do governo que diga: √© mercado e Estado, precisa de mais Estado. Esse pessoal, por hora, n√£o est√° ganhando. Qual ser√° a posi√ß√£o dominante para os anos seguintes? N√≥s s√≥ podemos especular. H√° uma s√©rie de indicadores que dizem que a aposta maior √© mesmo no mercado. Por exemplo, ter o Palocci (Antonio Palocci, ministro da Fazenda) como um emblema do governo, a vitrine principal. √Č assim que o presidente o apresenta publicamente. Pensei que ele (Palocci) fosse seguir uma linha prudencial mas com elementos de descontinuidade em rela√ß√£o √† pol√≠tica anterior. Mas ele radicalizou a agenda anterior. O governo Lula tem sido a radicaliza√ß√£o do governo do PSDB.

Qual a sua an√°lise sobre as reformas tribut√°ria e previdenci√°ria aprovadas no Congresso?

Essa reformas podiam ter sido aprovadas no governo anterior, não fosse a oposição do PT. Quando o PT adere à agenda anterior, facilitou tudo porque não há um PT que faça oposição ao PT. A oposição agora ficou numa situação muito complicada porque se opor às medidas preconizadas pelo governo seria opor-se a si mesmo, perder a credibilidade, cair num pragmatismo canhestro, sem sustentação, num oportunismo político eleitoreiro.

Para 2004, PSDB e PFL j√° avisaram que n√£o ser√° t√£o f√°cil...

Em 2003, a agenda foi a deles nos dois governos anteriores. Isso facilitou tudo. No tema da legislação trabalhista, também não vejo maiores dificuldades, não. Esse foi um ponto anunciado no governo anterior. E o PT barrou. Na medida em que o governo se compromete a realizar a agenda anterior, sua pauta política fica muito facilitada.

Deixando de lado essa agenda, j√° formulada durante o governo Fernando Henrique, sobram bandeiras para Lula?

Temos que ver o que ele ir√° fazer na √°rea de ci√™ncia e tecnologia, o que ele vai fazer com a quest√£o agr√°ria, com o tema da legisla√ß√£o do trabalho, com a universidade. H√° indicadores para tudo isso que s√£o muito negativos. O grande contraponto est√° entre os diagn√≥sticos do Marcos Lisboa (secret√°rio de Pol√≠tica Econ√īmica do Minist√©rio da Fazenda) e do M√°rcio Pochmann, que √© o secret√°rio de Trabalho da Marta Suplicy. Est√£o a√≠ esses dois diagn√≥sticos contrapostos, ambos vindos do PT. E de posi√ß√Ķes governamentais: uma no plano federal e outra no plano municipal. Nesse momento est√° havendo um embate e o Marcos Lisboa est√° ganhando. Vai ganhar o tempo todo? N√£o sei, acho que isso depende muito tamb√©m de que a intelligentsia n√£o deserte do campo. Este n√£o √© um governo reacion√°rio, n√£o √© um governo antidemocr√°tico.

O senhor considera importante o fato de o PT ter perdido o apoio de parte da intelligentsia?

Perder a parada da intelligentsia no Brasil é sério. Com a reforma da Previdência, um setor já foi perdido, que é um setor formador de opinião. Essa questão das universidades está muito mal posta. As universidades estão à míngua e sendo objeto de projetos tenebrosos por parte de círculos governamentais. A área de ciência e tecnologia está se sentindo muito desatendida. E é verdade que não está sendo bem atendida. Uma parte de apoio importante para o Fernando Henrique foi a USP (Universidade de São Paulo). O presidente Lula já perdeu a USP. A perda do espírito de mudança, do Paulo Arantes, do Francisco de Oliveira. Até quando a Marilena Chauí ficará? Aquele advogado lá, de São Paulo, o (Fábio) Konder Comparato também já escreveu um manifesto severo. Essas pessoas foram todas muito importantes na formação do PT, homens como Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Antonio Candido. O crescimento do PT não se deu sem esse resguardo de um setor importante da intelligentsia brasileira.

O embate dentro do governo poder perdurar ao longo dos próximos três anos?

No governo Fernando Henrique, durou oito. O quer dizer que um lado n√£o ganha mas tamb√©m n√£o √© banido. Continua presente, vivo, atuante e impondo restri√ß√Ķes ao outro. Isso √© bom. Mesmo que n√£o aconte√ßa (uma mudan√ßa de rumo), imp√Ķe restri√ß√Ķes ao outro. A a√ß√£o do Carlos Lessa no BNDES imp√Ķe certas restri√ß√Ķes ao outro lado. Tanto √© que tenta se fazer do Lessa um entrave a ser eliminado para que a boa pol√≠tica flua. Mas o governo tem medo de tirar o Lessa e se render inteiramente ao outro lado.

Ainda restam pontos a serem explorados pela oposição?

Ciência e tecnologia é um. O tema do crescimento é outro. E a questão central que se afirma sobre todas as outras é a dependência externa do país. A questão agrária é potencialmente explosiva, como foi no governo Fernando Henrique.

E o que esperar das elei√ß√Ķes de 2006? H√° algum indicativo?

Tudo vai depender de como essa controv√©rsia se resolve, entre esses dois caminhos. Esse governo, sem fazer grandes altera√ß√Ķes em si mesmo, pode ganhar a elei√ß√£o. Pode ganhar a elei√ß√£o como uma for√ßa de centro, sem se abrir para as grandes mudan√ßas. Para isso, ele vai ter que ser mais feliz no desempenho econ√īmico. N√£o precisa ser o espet√°culo do crescimento. O presidencialismo de coaliz√£o que o presidente armou d√° muita estabilidade pol√≠tica. A desgra√ßa dos presidentes brasileiros tem sido se contrapor ao Legislativo, ao Congresso. Presidente com forte base congressual est√° com a vida pol√≠tica resolvida. Seus problemas s√£o outros, ele com a popula√ß√£o ou o desempenho econ√īmico. No terreno especificamente pol√≠tico, ele vai bem. Nesse primeiro ano (de governo Lula), qual o problema? A vinda do PMDB refor√ßa ainda mais isso, a sustenta√ß√£o pol√≠tica, congressual. A quest√£o √© como isso chega at√© embaixo, at√© a sociedade. S√≥ vai chegar de uma forma exitosa com pol√≠ticas de crescimento e pol√≠ticas sociais atrativas.

Qual o panorama para a reforma ministerial?

Se o José Dirceu (ministro-chefe da Casa Civil) conta mesmo, pesa mesmo, acho que o PMDB vai entrar para o governo. Faz parte da estratégia dele ampliar ao máximo a base de sustentação política e congressual do PT. Para isso, falta o PMDB.

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Fonte: Valor econ√īmico, 29 dez. 2003.

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