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Eu sou amaz√īnida, e voc√™?

L√ļcio Fl√°vio Pinto - Julho 2006
 

Em 1984 voltei de uma temporada de estudos nos Estados Unidos disposto a fazer o mais crítico acompanhamento possível da construção da hidrelétrica de Tucuruí, a quarta maior do mundo, que estava na sua fase final, antes do enchimento do reservatório. Escrevia todos os dias sobre o tema na coluna de opinião que assinava em O Liberal. A Eletronorte, responsável pela obra, não suportando a cobrança diária, se comprometeu a me avisar em tempo de estar em Tucuruí para o início da formação do lago artificial, o segundo maior do país. Mas não cumpriu a palavra.

Informado por outra fonte de que a √ļltima adufa se fechara, fretei um t√°xi-a√©reo em Bel√©m e voei imediatamente para Tucuru√≠. Um engenheiro da Eletronorte j√° me esperava no aeroporto (operado pela empresa, que tudo controlava) quando o avi√£o aterrissou. Mandei tocar direto para a usina. De um ponto elevado divisei a paisagem: o Tocantins a jusante j√° sem o suprimento da √°gua de montante e a enorme estrutura de concreto segurando aquele rioz√£o, com mais de dois mil quil√īmetros de extens√£o, o 25¬ļ maior rio do planeta. Ali, o homem estava desafiando a natureza. Estancara o movimento natural daquelas √°guas pela primeira vez em milh√Ķes de anos.

O choro, mais forte do que eu, veio sem controle. Ao meu lado, o engenheiro Washington n√£o sabia o que fazer. Por que eu chorava? Porque ali, naquele momento, diante de uma incr√≠vel obra do homem, ao mesmo tempo maravilhosa e diab√≥lica, eu senti um outro rio pujante a fluir pelas minhas veias de caboclo das margens alvas do belo Tapaj√≥s. Uma das minhas fontes vitais, a √°gua (mas n√£o uma √°gua qualquer: aquela √°gua cristalina e refrescante da minha inf√Ęncia feliz), estava irremediavelmente tocada ¬Ė e alterada ¬Ė pela m√£o do homem, humana m√°quina, deus ex-machina.

Foi um dos momentos mais fortes e reveladores da minha vida. Refeito do choro, mirei o engenheiro da Eletronorte e ordenei: siga-me! E foi um tal de subir e descer escadas de adufas, dezenas, centenas, at√© que Washington, menos preparado para a tarefa herc√ļlea, bateu lona: "Juro que todas s√£o iguais, n√£o precisamos examin√°-las por inteiro".

Eu sabia disso, claro. Mas queria aplacar a minha f√ļria de caboclo, ludibriado pela grande empresa, como de regra, v√≠tima de sua agress√£o supostamente bem intencionada. Come√ß√°vamos o ciclo das grandes hidrel√©tricas. Os rios jamais voltariam a ser os mesmos. A partir daquele momento, deixariam de ser caminhos naturais, abrigo aquoso dos nossos mergulhos, c√ļmplice dos amores que juramos como botos na f√≠mbria das areias sem igual das nossas praias.

Vivi situa√ß√£o semelhante, em outro contexto, no meu querido Tapaj√≥s. Duas semanas atr√°s, ao deparar com fotos a√©reas produzidas pelo Greenpeace sobre √°reas de floresta que os plantios de soja substitu√≠ram, senti a mesma dor no cora√ß√£o. Como estava apenas virtualmente no cen√°rio ¬Ė e n√£o de corpo presente, como em Tucuru√≠ ¬Ė desta vez n√£o chorei. Mas talvez tenha sido pior. A l√°grima alivia, consola, acalma. Sem ela, estamos entregues ao pleno dom√≠nio da consci√™ncia. E a lucidez d√≥i muito na Amaz√īnia, sangra no Par√°, aniquila no Tapaj√≥s.

Neste exato instante, a discuss√£o sobre o significado da substitui√ß√£o da floresta amaz√īnica por novos cultivos, embora necess√°ria, n√£o √© o que mais importa. Ela ter√° que vir ¬Ė e logo. Mas no impacto da instantaneidade, o que conta √© a dor. Aquela paisagem, antes dominada por √°rvores de copas gigantes e com ra√≠zes de an√£o, e agora reduto de rasteira vegeta√ß√£o homog√™nea, de planta ex√≥tica, fere a alma, quebra a unidade, rasga a identidade, √© pura e bestial viol√™ncia, como diriam nossos antepassados portugueses.

Amaz√īnidas, somos filhos da √°gua e da floresta. Temos 12% da √°gua doce superficial da Terra e um ter√ßo de suas florestas tropicais remanescentes, que s√£o as mais ricas em biodiversidade desta nossa Gaia. √Āgua e floresta se formaram e nos antecederam desde milh√Ķes de anos atr√°s. H√° uns oito mil anos os primeiros descendentes do Homo Sapiens se estabeleceram √†s margens desses cicl√≥picos cursos d¬í√°gua e √† sombra dessas √°rvores sem igual.

Durante 7.500 anos a esp√©cie humana conviveu com os elementos naturais num cen√°rio de harmonia (o "para√≠so perdido" que Euclides da Cunha procurou no s√©culo XX). Nos √ļltimos 500 anos esse organismo harm√īnico, formado por homens, √°rvores e √°gua, se tem desintegrado. Nos √ļltimos 50 anos desse meio mil√™nio o processo de destrui√ß√£o dos elementos naturais foi avassalador. Nunca o descendente do Homo Sapiens, ao longo de uma trajet√≥ria de 20 mil anos, destruiu tanta floresta quanto na Amaz√īnia neste √ļltimo meio s√©culo. E nunca desperdi√ßou tanta √°gua, seja ela em si como em suas extens√Ķes utilit√°rias, especialmente na forma de energia.

Quem disse que precisa ser assim? Quem determinou que não pode ser de outra maneira senão assim? Quem apurou que desta maneira, substituindo o reino da floresta por novas práticas agrícolas e supostamente silviculturais, nos desenvolveremos e seremos felizes?

N√£o fui eu, √© claro. Eu n√£o aprisionaria um rio de dois mil quil√īmetros por uma barragem de 75 metros de altura para faz√™-lo refluir sobre suas √°guas 200 quil√īmetros, submergindo 2.850 quil√īmetros quadrados, cobertos, sobretudo, por vegeta√ß√£o, com o ac√ļmulo de mais de 50 trilh√Ķes de litros de √°gua, para transmitir energia por centenas de quil√īmetros at√© grandes consumidores, que pagam uma tarifa inferior √† de custo (e, ainda assim, relativamente cara em compara√ß√£o ao que seria vi√°vel por outro caminho de engenharia e outros padr√Ķes de gest√£o no servi√ßo p√ļblico).

Caboclo do Tapajós, eu não mandaria derrubar árvores de 50 metros de altura, congregadas num mutualismo sem paralelo, uma na dependência e na complementaridade da outra (processo que malmente começamos a conhecer, com um sentido que ainda nem somos capazes de divisar), para em seu lugar fincar plantas de uma complexidade fisiológica, genética e biológica em geral que guarda, em relação à floresta, ordem de grandeza de uma gota de água em relação ao oceano.

Ficaremos mais ricos e mais desenvolvidos com essas novas culturas? Du-vi-de-o-d√≥, como diz√≠amos antes de s√≥ repetirmos a sintaxe da TV Globo. Mas, se ficarmos, n√£o ser√° a gente amaz√īnica a beneficiada. Desapareceremos enquanto seres amaz√īnicos, filhos da floresta e da √°gua, √ļltimos dos moicanos em uma cultura que n√£o √© o produto da mec√Ęnica de sempre: do desmatamento.

Por que n√£o podemos erguer a cultura da floresta, n√£o como uma etiqueta abstrata nem como um presente de deuses internacionais (mesmo que sejam guerreiros da paz verde), mas como uma op√ß√£o inteligente do Homo Sapiens do s√©culo XXI? Por que n√£o podemos continuar tentando comandar a nossa vida, pelos nossos padr√Ķes, conforme o nosso sentido?

Uma avalia√ß√£o simples, mas nem por isso destitu√≠da de significado, calculou em 1,6 trilh√£o de d√≥lares o valor dos min√©rios depositados no subsolo amaz√īnico. Pelo padr√£o de explora√ß√£o do ano passado, de US$ 3 bilh√Ķes de renda gerada pelos produtos de origem mineral, √© riqueza capaz de garantir essa renda durante mais de 500 anos. Mas a biodiversidade √© calculada, por esses mesmos analistas, em US$ 4 trilh√Ķes.

Por que, ent√£o, n√£o dar uma tr√©gua na expans√£o das frentes econ√īmicas para prepararmos uma explora√ß√£o racional e permanente desse tesouro produzido pela natureza amaz√īnica? Por que vender o lauto almo√ßo para ter o magro jantar? Por que n√£o tr√™s boas refei√ß√Ķes di√°rias, sem exaurir a dispensa?

Dois anos atrás quase chorei também ao ver as fotos de manchas de barro e produto químico drenando para o Tapajós por seus afluentes e igarapés, sangrados a partir dos garimpos de ouro. Há meio século eles surgiram no alto rio, acima de Itaituba, como a redenção de Santarém. Garimpeiros enriquecidos apareceram na cidade a comprar terrenos e casas, a montar negócios, a gastar a rodo. O que sobreviveu dessas várias ondas de "bamburros"? A soja é esse novo ouro? E nós, somos o quê?

Eu sou o caboclo que chora seu rio aprisionado e sua floresta derrubada. Chora, se indigna, reage e escreve um texto como este, pedindo aos novos bwanas que cheguem-se a n√≥s, sejam mais um de n√≥s, mas como n√≥s, que somos amaz√īnidas.

E o que √© ser amaz√īnida? Foi o que um valente advogado paranaense (futuro presidente da Funai) me perguntou em 1990, quando particip√°vamos, em Paris, da sess√£o do Tribunal Permanente dos Povos dedicada √† Amaz√īnia. "Somos todos brasileiros. N√£o existe esse neg√≥cio de amaz√īnida", insistiu o advogado, que se aproximou de mim, aflito, quando usei essa express√£o na minha exposi√ß√£o aos membros do tribunal. Ele temia que eu estivesse sugerindo (ou propondo diretamente) que √©ramos um pa√≠s dentro do pa√≠s.

E n√£o somos mesmo? Somos, sim. Primeiro porque somos o Brasil tardio, a √ļltima regi√£o que se tornou brasileira no Imp√©rio (e, ao tentar se integrar, durante a Cabanagem, foi reprimida brutalmente pelo governo do Rio de Janeiro). E que permaneceu √† parte at√© o advento da Rep√ļblica, como se fosse um anexo nacional. E, segundo, porque somos uma regi√£o dominada pela floresta num pa√≠s de bandeirantes, quase sin√īnimo de preador de gente e predador de mata. Somos a √ļltima possibilidade de civiliza√ß√£o florestal. N√£o s√≥ no pa√≠s, √© bom acrescentar: na hist√≥ria do g√™nero humano.

Queremos o Brasil aqui conosco, partilhando nossa rica hist√≥ria, t√£o ou mais exuberante do que a de qualquer outra regi√£o do pa√≠s. Mas queremos que os brasileiros, reconhecendo nossa condi√ß√£o de amaz√īnidas, queiram ser amaz√īnidas como n√≥s, ao inv√©s de combater esse nosso ethos. Prometemos ser tamb√©m bons brasileiros, fazendo a fus√£o que criar√° um novo e glorioso cap√≠tulo na hist√≥ria da humanidade, sem rios violentados e √°rvores desbastadas. Um Brasil verdadeiramente amaz√īnida e uma Amaz√īnia genuinamente brasileira.

Por que n√£o a utopia em Santar√©m? E em Bel√©m, Manaus, Rio Branco, Porto Velho, Juruti? Sem utopia, a Amaz√īnia ser√° uma sucess√£o de fotos lancinantes na parede. E como elas doem!

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L√ļcio Fl√°vio Pinto √© o editor do Jornal Pessoal, de Bel√©m, e autor, entre outros,¬†de O jornalismo na linha de tiro¬†(2006). Este texto tamb√©m foi publicado em La Insignia.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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