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Lima Barreto e a cultura nacional

Berthold Zilly - Abril 2006
Tradução: Simone de Mello
 

1. Marginalidade e canonização

Em 1919, o escritor carioca Afonso Henriques de Lima Barreto volta a concorrer, aos 38 anos, √† Academia Brasileira de Letras. √Č sua segunda tentativa de ingressar na institui√ß√£o cultural mais prestigiosa de seu pa√≠s, fundada duas d√©cadas antes por Machado de Assis, segundo o modelo da Acad√©mie Fran√ßaise. V√°rios de seus textos em prosa, especialmente o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, j√° haviam sido elogiados por cr√≠ticos importantes, n√£o restando, portanto, d√ļvidas sobre o m√©rito liter√°rio do candidato. Entre tantas decep√ß√Ķes sociais na vida de Lima Barreto, a segunda recusa da Academia provavelmente nem chegou a surpreender.

Tanto a candidatura como¬†a sua derrota¬†remetem √† posi√ß√£o amb√≠gua do escritor com respeito ao establishment, ao qual ele pertencia de alguma maneira, estando ao mesmo tempo √† margem. Apesar de lhe concederem uma certa proje√ß√£o como jornalista e escritor, as institui√ß√Ķes culturais o mantinham √† dist√Ęncia, ao passo que ele, mesmo parodiando-as e ridicularizando-as, nunca deixou de esperar um reconhecimento oficial. Tomava os estatutos, regulamentos e princ√≠pios das entidades culturais ao p√© da letra, levando-as por vezes mais a s√©rio do que seus pr√≥prios membros. Combinando, apesar das desilus√Ķes, uma boa dose de otimismo com sua t√≠pica falta de cinismo e, talvez, uma certa ingenuidade, ele acreditava que uma academia de letras tivesse que incentivar a vida liter√°ria e intelectual, integrando homens de letras, a serem selecionados de acordo com m√©ritos liter√°rios. Avaliava institui√ß√Ķes e pessoas nas √°reas cultural, pol√≠tica, jur√≠dica segundo os crit√©rios estabelecidos por elas mesmas ¬Ė uma postura t√≠pica de moralistas e autores sat√≠ricos.

O papel representativo, oficial e quase estatal que criticava na Academia foi justamente o que levou seus membros a recusar um colega relativamente jovem, tido como bo√™mio e inadaptado, cuja conduta, modo de pensar, estilo de vida e estilo de escrita n√£o correspondiam √† imagem de um escritor comme il faut, respeitador das conveni√™ncias, digno do prest√≠gio da categoria e merecedor de consagra√ß√£o. A ambi√ß√£o de usar o talento liter√°rio como meio de ascens√£o social entrava em conflito com sua honestidade e incorruptibilidade ¬Ė um dilema de que Lima Barreto tratou em seu primeiro romance, Recorda√ß√Ķes do Escriv√£o Isa√≠as Caminha (1909). Orgulhoso de sua origem modesta e da ascend√™ncia dos av√≥s, antigos escravos, seu objetivo era expressar "os sofrimentos e sonhos do povo", compreendendo sua vida e obra como um "cont√≠nuo protesto contra toda e qualquer injusti√ßa". Ele n√£o deixava escapar nenhuma oportunidade de denunciar os desmandos sociais e ridicularizar os respons√°veis, dando mais valor √† radical veracidade do que ao refinamento de linguagem e composi√ß√£o.

Quem entrar numa livraria hoje em dia e pedir alguma obra de um antigo membro da Academia provavelmente deixar√° o vendedor perplexo. Afinal, a maioria dos escritores que consideravam Lima Barreto indigno de ingressar em seu ilustre c√≠rculo, em 1919, j√° ca√≠ram em absoluto esquecimento h√° d√©cadas ¬Ė isso, sem falar de outros acad√™micos que nem eram literatos, mas figur√Ķes com veleidades beletristas: pol√≠ticos, donos e¬†estrelas de jornais, ou generais. Os livros e antologias de contos do antigo subversor e outsider Lima Barreto podem ser encontrados, por sua vez, em qualquer livraria e biblioteca, principalmente Triste Fim de Policarpo Quaresma. Este romance, transcendendo o √Ęmbito estritamente liter√°rio, ingressou, desde a edi√ß√£o organizada por Francisco de Assis Barbosa nos anos cinq√ľenta, no c√Ęnone nacional daqueles livros b√°sicos, quase fundacionais, que s√£o considerados indispens√°veis para o Brasil compreender a si mesmo. Pertence a uma biblioteca can√īnica de obras ficcionais, ensa√≠sticas e acad√™micas, como por exemplo O Guarani e Iracema de Jos√© de Alencar (1857 e 1865, respectivamente), Mem√≥rias P√≥stumas de Br√°s Cubas, de Machado de Assis (1880), Os Sert√Ķes, de Euclides da Cunha (1902), Macuna√≠ma, de M√°rio de Andrade (1928), Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (1933), Ra√≠zes do Brasil, de S√©rgio Buarque de Hollanda (1936), Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1938), Grande Sert√£o: Veredas, de Guimar√£es Rosa (1956), Forma√ß√£o da Literatura Brasileira, de Antonio Candido (1959), ou Carnavais, Malandros e Her√≥is, de Roberto DaMatta (1982). Policarpo Quaresma √© leitura escolar, fonte de adapta√ß√Ķes teatrais, objeto de in√ļmeros estudos acad√™micos e ensaios jornal√≠sticos, volume de cole√ß√Ķes representativas, como a Biblioteca Ayacucho, uma sele√ß√£o de obras-chave da literatura latino-americana, exemplarmente comentadas, ou a Colecci√≥n Archivos, da Unesco, uma colet√Ęnea de edi√ß√Ķes cr√≠ticas de textos representativos das letras ib√©ricas, acompanhadas de ensaios elucidativos. A edi√ß√£o de Policarpo Quaresma em l√≠ngua alem√£, publicada em 2001 pela editora Ammann, de Zurique, amplia a lista de tradu√ß√Ķes para numerosos idiomas.

Em 1998, o romance foi adaptado para o cinema pelo diretor Paulo Thiago, numa vers√£o bastante peculiar, mas digna de ser vista: Policarpo Quaresma ¬Ė Her√≥i do Brasil. O t√≠tulo do filme j√° estabelece um contraponto com o romance de M√°rio de Andrade, Macuna√≠ma ¬Ė o her√≥i sem nenhum car√°ter, filmado por Joaquim Pedro de Andrade no fim da d√©cada de 60, sob o signo do Tropicalismo. Ao contr√°rio do malandro Macuna√≠ma, o anti-her√≥i de Lima Barreto ¬Ė como o de Paulo Thiago ¬Ė tem car√°ter demais, numa sociedade sem nenhum car√°ter. Com certeza, h√° muito do pr√≥prio escritor neste personagem. Remetendo-se a um epis√≥dio da vida do autor, uma das primeiras cenas do filme mostra o protagonista como membro de um j√ļri, apurando o homic√≠dio cometido por um militar na chamada primavera de sangue, em 1909, apesar de o enredo do romance se passar nos anos noventa do s√©culo XIX.

Gra√ßas ao Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto foi bastante discutido e celebrado como redescobridor do pa√≠s no ano 2000, por ocasi√£o da comemora√ß√£o dos quinhentos anos do "descobrimento" do Brasil pelo navegador portugu√™s Cabral. De fato, o Brasil ¬Ė com sua hist√≥ria, sua cultura, suas excel√™ncias, mas tamb√©m suas mazelas, seus desmandos e os poss√≠veis meios de combat√™-los ¬Ė √© o tema central do romance, o principal interesse do her√≥i e a maior preocupa√ß√£o do autor. Essa indaga√ß√£o sobre o Brasil, por sua vez, √©¬†feita criticamente atrav√©s do personagem ris√≠vel e simp√°tico de Policarpo e da sua v√£ busca por uma p√°tria verdadeira,¬†de modo¬†que o autor estimula uma auto-reflex√£o metacr√≠tica sobre o car√°ter e os destinos da na√ß√£o. O enredo questiona e desmonta n√£o s√≥ determinadas defini√ß√Ķes da brasilidade, mas qualquer tentativa de defini√ß√£o un√≠voca de uma cultura. N√£o s√≥ os resultados da busca pela ess√™ncia do Brasil, mas a pr√≥pria busca revela-se perigosa ou quim√©rica.

2. A vida de um literato no Rio de Janeiro da Belle √Čpoque

A vida de Afonso Henriques de Lima Barreto sugere uma compara√ß√£o com a de Machado de Assis (1839-1908), at√© hoje o decano dos prosadores brasileiros, nascido quase duas gera√ß√Ķes antes, mas ainda vivo quando o mais jovem publicou¬†o primeiro romance, o j√° mencionado Isa√≠as Caminha. Como Machado, era mulato provindo das classes subalternas da sociedade carioca, entre o operariado e a baixa pequena burguesia. Como Machado, ele se tornaria cronista de sua cidade natal, capital do Brasil at√© 1960. Como Machado, teve que conviver com a instabilidade ps√≠quica, tematizando reiteradamente o limite t√™nue entre loucura e raz√£o. Pelo menos durante a juventude, Lima Barreto tamb√©m recebeu de bom grado a prote√ß√£o de pol√≠ticos influentes. Assim como Machado e a maioria dos escritores brasileiros, iniciou a carreira liter√°ria na imprensa, escrevendo sobretudo cr√īnicas, g√™nero cambiante entre jornalismo, memorialismo, ensaio e fic√ß√£o. Como o pai de Machado, o de Lima Barreto era prelista, tornando-se tip√≥grafo gra√ßas √† sua compet√™ncia e aos favores do ministro do Imp√©rio Afonso Celso, mais conhecido como Visconde de Ouro Preto. √Č a ele, seu padrinho, que o futuro escritor deve em parte¬†o prenome duplo, que tamb√©m remete ao primeiro rei de Portugal.

Isso n√£o impediu Lima Barreto de parodiar implicitamente, no Policarpo Quaresma, o op√ļsculo patrioteiro de Afonso Celso, filho de seu protetor, intitulado Por que me ufano do meu pa√≠s? (1901), livro muito popular no come√ßo do s√©culo XX, que deu origem ao termo ufanismo e foi traduzido para diversas l√≠nguas na √©poca, inclusive o alem√£o. Por outro lado, embora tivesse posi√ß√Ķes radicalmente democr√°ticas, quase anarquistas, e simpatizasse com a Revolu√ß√£o Bolchevique de 1917, Afonso Henriques manteria suas veleidades monarquistas a vida toda.

Apesar de provirem de camadas semelhantes, Machado de Assis e Lima Barreto seguiriam caminhos diferentes. A fa√ßanha do primeiro ¬Ė inscrever-se na elite do pa√≠s, denunciando ao mesmo tempo seus ego√≠smos, dissimula√ß√Ķes e imposturas, combinando magistralmente um tom cort√™s e cl√°ssico com o teor impiedoso de sua cr√≠tica sarc√°stica e mordaz ¬Ė n√£o foi o caminho de Lima Barreto, que sempre manteve uma atitude entre pleb√©ia e pequeno-burguesa. Sua ambi√ß√£o n√£o era pertencer √† nata da sociedade, mas sim ao c√≠rculo dos autores formadores da opini√£o p√ļblica e do estilo liter√°rio. No entanto, esta dissocia√ß√£o se mostrou praticamente invi√°vel, considerando-se a estreita interdepend√™ncia entre as elites social e cultural.

O sucesso liter√°rio n√£o era realmente o destino de Afonso Henriques de Lima Barreto, quando nasceu em 1881. √ďrf√£o, aos quatro anos, da m√£e que dirigia uma pequena escola prim√°ria, era o mais velho de quatro filhos de um tip√≥grafo que seria demitido pelos republicanos¬†em 1889, por causa de sua proximidade com os pol√≠ticos do Imp√©rio, conseguindo depois um modesto emprego como almoxarife num manic√īmio, na Ilha do Governador. O futuro escritor, por√©m, gra√ßas √† ajuda de seu protetor, teve a chance de freq√ľentar boas escolas, conseguindo passar no vestibular da Escola Polit√©cnica. Ao lado das poucas faculdades de Medicina e de Direito, dos semin√°rios de padres e da Escola Militar, o curso de Engenharia nas Escolas Polit√©cnicas do Rio e de S√£o Paulo era uma das poucas possibilidades de forma√ß√£o acad√™mica no Brasil daquela √©poca, talvez at√© a mais moderna. Apesar de ter amigos entre os estudantes ¬Ė a um deles, o¬†futuro engenheiro civil Jo√£o Lu√≠s Ferreira, viria a dedicar Policarpo Quaresma ¬Ė, Lima Barreto se sentia discriminado no meio acad√™mico, pela origem inferior e a condi√ß√£o de mulato. Al√©m disso, devido √† inclina√ß√£o pela literatura e pelo jornalismo, dedicou-se a leituras obsessivas, relegando para segundo plano os estudos que poderiam lhe ter garantido, talvez, uma carreira bem remunerada e de prest√≠gio social.

Naquela √©poca, poucos anos ap√≥s a Aboli√ß√£o tardia,¬†em 1888, a cor negra significava proximidade dos antigos p√°rias, indicando um status social humilde. Sobretudo para as pessoas sem posses, todo esfor√ßo era pouco para se distanciar dessa origem: vestir-se e comportar-se de acordo com a etiqueta, silenciar obstinadamente o preconceito racial e, se poss√≠vel, casar com uma mulher branca, como o fizeram Machado de Assis ou, no s√©culo XX, o jogador de futebol e posterior ministro Pel√©. Como muitas pessoas n√£o brancas no Brasil at√© hoje, Lima Barreto reclamava de ser tido √†s vezes por servidor subalterno, como porteiro ou cont√≠nuo, confessando certa vez em seu di√°rio: "√Č triste n√£o ser branco".

Em 1902, justamente quando come√ßava a escrever, Lima Barreto foi obrigado a abandonar definitivamente os estudos acad√™micos. Ap√≥s a invalidez do pai, em decorr√™ncia de doen√ßa mental, Afonso Henriques assumiu o papel de chefe de fam√≠lia, aos 21 anos, vendo-se obrigado a tomar conta dos tr√™s irm√£os mais novos. Conseguiu um emprego como funcion√°rio no Minist√©rio da Guerra, um posto inferior ao do her√≥i de seu romance, um ganha-p√£o indesejado, que lhe garantia ¬Ė no entanto ¬Ė modesta seguran√ßa financeira e tempo para escrever, pois ele trabalhava, como o Major Quaresma, diariamente das 10 √†s 15 horas, passando depois numa reda√ß√£o de jornal ou num dos caf√©s, pontos de encontro da intelectualidade carioca.

Acompanhado do pai, dos irm√£os e do velho criado Manuel Oliveira, o jovem funcion√°rio p√ļblico mudou-se para o sub√ļrbio de Todos os Santos, na Zona Norte do Rio, onde vivia e ainda vive a popula√ß√£o menos favorecida da cidade. "O sub√ļrbio √© o ref√ļgio dos infelizes": a frase do personagem de um de seus romances poderia se aplicar ao pr√≥prio autor. Todos os dias pegava o trem de sub√ļrbio at√© a esta√ß√£o Dom Pedro II, hoje Central do Brasil, seguindo a p√© o resto do caminho at√© a sua reparti√ß√£o numa depend√™ncia do hoje Museu Hist√≥rico Nacional. Achava por vezes deprimente voltar √† noite para o seu bairro, confrontar-se com problemas dom√©sticos, comer apressadamente um prato requentado, para enfim poder se dedicar aos queridos livros, muitos dos quais tamb√©m faziam parte da biblioteca de Policarpo. Voltava, algumas vezes, para casa mais tarde de prop√≥sito, para n√£o ter que aturar o que interpretava como o olhar de superioridade dos burgueses de sub√ļrbio, mais bem vestidos do que ele. No entanto, dificilmente conseguia escapar dos constantes gritos de seu pai ensandecido.

Com sua obra, Lima Barreto prestou homenagem √†s pessoas humildes e at√© √†s mais abastadas do sub√ļrbio ¬Ė aquela fauna humana que satirizou com tanto carinho ¬Ė com que ele n√£o deixava de se sentir solid√°rio,¬†embora elas mal reconhecessem seu talento liter√°rio e n√£o pertencessem ao seu p√ļblico leitor. Seu personagem Ricardo Cora√ß√£o dos Outros teve mais sorte neste sentido, pois chegou pelo menos a ouvir uma lavadeira negra cantar suas rimas e melodias. O abismo entre personagens liter√°rios e leitores, entre o ambiente popular ficcional e o p√ļblico real de classe m√©dia alta ¬Ė fen√īmeno t√≠pico da literatura latino-americana engajada, geralmente qualificado como heterogeneidade cultural ¬Ė tamb√©m caracteriza a obra de Lima Barreto. As pessoas que ganharam vida e voz em sua obra pertenciam √†quele "mar de analfabetos", ao qual o poeta elitista Olavo Bilac ¬Ė parnasiano e patrioteiro, embora de certa popularidade, e at√© hoje autor escolar ¬Ė se referia com desprezo.

N√£o √© √† toa que o cantor popular de Lima Barreto, com o nome eloq√ľente de Ricardo Cora√ß√£o dos Outros, critica Bilac, acusando-o de n√£o entender nada do g√™nero sentimental e popular da modinha.

O funcionalismo p√ļblico n√£o era apenas uma tortura para o nosso escritor. Pelo menos nos primeiros anos de carreira, este jovem com talento para escrita, de s√≥lida cultura geral e de mentalidade vers√°til, cumpriu as tarefas burocr√°ticas sem decepcionar seus superiores, apesar da sua caligrafia imperfeita. De certa forma, soube conciliar as responsabilidades familiares e profissionais com a vida bo√™mia de literato. Enquanto exerceu sua fun√ß√£o de funcion√°rio p√ļblico, sempre se sentiu obrigado a assegurar uma certa lealdade ao Ex√©rcito e ao governo.

Lima Barreto oscilava entre o descomprometimento da boemia e o convencionalismo dos escritores acad√™micos. Voltou-se contra¬†a institucionalidade¬†cultural da Belle √Čpoque, que encarava a literatura sobretudo como ornamento e decora√ß√£o, como o "sorriso da sociedade", conforme formulou Afr√Ęnio Peixoto, um dos mais famosos escritores em moda na √©poca e¬†hoje praticamente esquecido: literatura como a cereja em cima do bolo a ser¬†degustado apenas por uma elite. Lima Barreto, por sua vez, condenava a literatura predominante como literatura da classe dominante. Apesar de n√£o fazer jus a alguns escritores contempor√Ęneos, ignorados por ele ¬Ė como Euclides da Cunha, descobridor liter√°rio do sert√£o brasileiro ¬Ė, no conjunto Lima Barreto n√£o deixava de ter raz√£o. Nas duas primeira d√©cadas do s√©culo XX, durante o Pr√©-Modernismo, isto √©, entre a publica√ß√£o das duas √ļltimas grandes obras de Machado de Assis e a Semana de Arte Moderna de S√£o Paulo, em 1922, a literatura brasileira produziu bastante epigonismo, exerc√≠cios academicistas, vocabul√°rio rebuscado e sintaxe preciosa, ornamenta√ß√Ķes ling√ľ√≠sticas e brincadeiras formais, ou seja, arte como representa√ß√£o e espelho de elites narcisistas. As elites usavam e¬†abusavam da¬†cultura, da literatura e¬†das artes¬†para¬†manifestar diferen√ßas sociais, para simbolizar o status, como instrumentos da segrega√ß√£o social. Na vis√£o de Lima Barreto, por√©m, a literatura devia unir as pessoas, as classes, as na√ß√Ķes, devendo falar em primeiro lugar da cidade, do pa√≠s, da vida das camada mais humildes, mas tamb√©m da classe m√©dia que formava grande parte do p√ļblico leitor. Os intelectuais mais influentes da Rep√ļblica Velha, ao contr√°rio, voltavam seu olhar para Europa como se fossem expatriados, como se tivessem vergonha de seu pr√≥prio pa√≠s, que eles ainda pretendiam equiparar ao Velho Continente o mais r√°pido poss√≠vel. "S√≥ a Europa nos interessava. Era a Terra Prometida dos nossos sonhos" ¬Ė confessaria posteriormente o ensa√≠sta Paulo Prado, bar√£o do caf√© e mecenas dos modernistas.

Ao denunciar o mero culto ao belo como tentativa de encobrir a pobreza e as injusti√ßas sociais, Lima Barreto n√£o professou a est√©tica do feio, o realismo socialista ¬Ė que nem sequer existia ¬Ė, a est√©tica do choque¬†ou¬†a atitude¬†de √©pater le bourgeois t√≠pica das vanguardas iconoclastas, inclusive do nascente Modernismo. Na verdade, apenas se manteve fiel ao modelo do romance realista e naturalista do final do s√©culo XIX, cuidando de desenvolv√™-lo. Conseguiu resgatar as tradi√ß√Ķes c√īmicas, carnavalescas e picarescas da cultura popular, associando-as ¬Ė por um lado ¬Ė ao austero J¬íaccuse de um Zola e ¬Ė por outro ¬Ė a uma vis√£o neo-rom√Ęntica e eleg√≠aca da natureza, da cidade e do ser humano. Ampliou o uso liter√°rio da linguagem coloquial, principalmente no discurso direto dos personagens do povo, cujo registro √© diferenciado conforme a posi√ß√£o social e o car√°ter de cada um. Se o narrador emprega um estilo correto e lhano, de acordo com a norma culta da √©poca, tamb√©m tende a ser despretensioso e at√© descontra√≠do, incluindo vez por outra elementos lexicais ou sint√°ticos da l√≠ngua falada de pessoas cultas. Em muitos trechos, o autor fez uso do discurso indireto livre, aproximando o narrador letrado da linguagem de seus personagens, inclusive do povo, sem condescend√™ncias nem distanciamentos, e criando linguagens intermedi√°rias entre a fala popular e a escrita culta, o discurso direto e o discurso do narrador. Tanto a sua atitude antipurista e antiacad√™mica no estilo,¬†em n√≠vel est√©tico,¬†quanto a sua vontade de descobrir seu pr√≥prio pa√≠s o ligam ao nascente Modernismo. Das tr√™s tradi√ß√Ķes culturais do Brasil, que deixam transparecer tr√™s diferentes posturas diante da realidade ¬Ė a s√©ria, a c√īmico-desrespeitosa e a l√≠rica -, a mais evidente em Lima Barreto, especialmente em Policarpo Quaresma, √© a c√īmico-desrespeitosa, ou irreverente-galhofeira.

Ao mencionado romance de tem√°tica jornal√≠stica, Recorda√ß√Ķes do Escriv√£o Isa√≠as Caminha, seguiu-se uma s√©rie de outros romances e contos predominantemente caricaturais e em parte comerciais, como ¬Ė por exemplo ¬Ė Numa e a Ninfa (1915), romance-chave sobre um pol√≠tico ambicioso instigado pela mulher ao carreirismo. Lima Barreto abordou diversas vezes a discrimina√ß√£o dos negros e mulatos, como no romance p√≥stumo Clara dos Anjos, a hist√≥ria de uma negra da classe baixa, v√≠tima de sedu√ß√£o. Em 1919, finalmente foi publicado o romance dram√°tico Vida e Morte de M. J. Gonzaga de S√° (1919), escrito num per√≠odo anterior e ainda bastante lido hoje: um livro contemplativo, composto de maneira solta e repleto de uma ironia carinhosa pela cidade e pela na√ß√£o. √Č a hist√≥ria de um carioca que personifica a alian√ßa ut√≥pica entre a aristocracia do per√≠odo imperial e a popula√ß√£o simples, decididas a se unirem contra a burguesia gananciosa, carreirista e sem cultura, que ascendera ao poder com a Rep√ļblica. Al√©m disso, Lima Barreto escreveu uma s√©rie de contos sat√≠ricos mais extensos, como Aventuras do Dr. Bog√≥loff, sobre as experi√™ncias de um simp√°tico impostor e malandro russo no Brasil, e Os Bruzundangas, descri√ß√£o √† maneira do S√©culo das Luzes¬†de um povo ex√≥tico, por tr√°s do qual n√£o √© dif√≠cil identificar seus conterr√Ęneos. O di√°rio romanceado e fragment√°rio O Cemit√©rio dos Vivos, publicado postumamente, √© um impressionante testemunho de seu √ļltimo internamento (1919) no Hosp√≠cio Nacional dos Alienados, que n√£o deixa de lembrar Dostoievski. Fora nesta cl√≠nica psiqui√°trica, a mais famosa do pa√≠s na √©poca, situada na hoje Avenida Pasteur, que Policarpo ficara internado por motivos semelhantes, um fato sugestivo que mostra¬†como o autor viria a "imitar" seu personagem.

Lima Barreto n√£o seria privado apenas de proje√ß√£o social, mas tamb√©m de alegrias na vida particular. As pesquisas de seu bi√≥grafo Francisco de Assis Barbosa n√£o revelaram ind√≠cios de qualquer felicidade amorosa. Assim como o her√≥i Policarpo Quaresma, o escritor n√£o dedicava seu erotismo √†s mulheres mas sim a determinados valores e metas. Ele mesmo chegou a admitir que se havia casado com a literatura. Amigos e conhecidos o descreviam como um homem t√≠mido e reservado, mas, depois de estabelecida uma certa familiaridade, at√© afetuoso e caloroso, raramente irritado ou col√©rico, a n√£o ser sob efeito do √°lcool; ou seja, no fundo, um temperamento sincero, solid√°rio, corajoso, muito sens√≠vel, tendendo a se ofender com facilidade. Negava-se a agir de maneira estrat√©gica ou oportunista, comportando-se com arrog√Ęncia somente diante de pessoas arrogantes. Lima Barreto era um sofredor contumaz: sofria com sua pr√≥pria situa√ß√£o e com o pa√≠s, que ele, cr√≠tico do patriotismo, amava mais do que os patriotas oficiais, autonomeados. Mal atingira a idade madura, este homem de vulto, bem apessoado, j√° estava exausto e acabado. Teve que se aposentar como funcion√°rio p√ļblico aos 38 anos, sem nunca ter sido promovido, morrendo tr√™s anos depois. Assim como o her√≥i Policarpo Quaresma, teve um triste fim, sendo morto pela p√°tria, n√£o a tiros, mas por uma longa s√©rie de desgostos e m√°goas.

Foi encontrado no leito de morte com um exemplar da Revue des Deux Mondes na m√£o, um gesto simb√≥lico de sua persistente cren√ßa na for√ßa humanizadora e comunicativa que a literatura exerce, transpondo fronteiras nacionais. O nobre bairro de Botafogo, que se recusou a abrir as portas para ele em vida ¬Ė bem como para o cantor popular Ricardo Cora√ß√£o dos Outros ¬Ė, teve que receb√™-lo morto. Assim como¬†o pai, falecido dois dias depois de sua morte, Lima Barreto foi enterrado no cemit√©rio S√£o Jo√£o Batista, onde tradicionalmente s√£o sepultados os "imortais" da Academia de Letras. Seu t√ļmulo fica a poucos passos da Rua Real Grandeza, onde a nobre e sensata Olga ¬Ė talvez a mais simp√°tica de suas personagens femininas ¬Ė morava, num¬†suntuoso casar√£o, na companhia do pai inculto mas generoso e do marido sem car√°ter. Ela, que fez tudo para salvar¬†o padrinho Policarpo, com certeza tamb√©m teria tentado salvar seu criador Lima Barreto. Este, contudo,¬†jamais encontrou uma mulher como ela.

3. Um patriota da triste figura

Lima Barreto atingiu o √°pice de sua criatividade em 1911, um per√≠odo em que ainda n√£o tinha capitulado diante da cacha√ßa, ainda se importava com sua imagem p√ļblica, cuidava do seu vestu√°rio e burilava os seus textos. Quase todas as suas obras posteriores foram concebidas e em grande parte escritas neste per√≠odo. O romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em s√©rie no folhetim do Jornal do Commercio, mal foi levado em considera√ß√£o pela cr√≠tica, recebendo, por√©m, aprova√ß√£o un√Ęnime em 1915-16, ao ser lan√ßado como livro.

Oscilando entre o c√īmico e o s√©rio, o t√≠tulo nomeia o protagonista do romance com um espirituoso trocadilho, ox√≠moro ou paradoxo: "Policarpo", o que frutifica diversas vezes, se contrap√Ķe ao sobrenome "Quaresma", do latim "quadragesima", per√≠odo de 40 dias entre quarta-feira de Cinzas e domingo de P√°scoa, ou seja, o per√≠odo da Paix√£o, que confere de princ√≠pio uma certa conota√ß√£o religiosa ao romance. Al√©m disso, o historiador franc√™s Ernest Renan, uma das grandes admira√ß√Ķes de Lima Barreto, faz men√ß√£o a um certo Policarpo de Smyrna, bispo na √Āsia Menor no in√≠cio do Cristianismo. "Quaresma", por sua vez, tamb√©m designa diversas esp√©cies de arbustos ornamentais, que d√£o uma flor geralmente violeta, no in√≠cio da quaresma.

O romance narra a hist√≥ria tragic√īmica de um exc√™ntrico funcion√°rio p√ļblico do Arsenal de Guerra, humanista convicto, no fundo quase pacifista, que dedica toda a sua vida √† "grandeza e emancipa√ß√£o da P√°tria". O perfil do protagonista remete a uma gera√ß√£o de intelectuais brasileiros √≠ntegros, cultos e idealistas, de Alexandre Rodrigues Ferreira at√© Antonio Callado, passando ¬Ė entre outros - por Gon√ßalves Dias, Couto de Magalh√£es, Euclides da Cunha, C√Ęndido Rondon, Monteiro Lobato, M√°rio de Andrade, Nelson Werneck Sodr√©, Darcy Ribeiro, s√≥ para mencionar alguns poucos, dos quais quatro eram militares e n√£o por acaso. No in√≠cio do livro, o her√≥i de 50 anos de idade j√° tinha dedicado tr√™s d√©cadas de sua vida √† paix√£o patri√≥tica e a uma investiga√ß√£o cient√≠fica bastante romantizada de seu pa√≠s, conduzida com esp√≠rito enciclop√©dico e o aux√≠lio de uma biblioteca brasilianista. Ap√≥s o amadurecimento das leituras, chegava a hora de colocar em pr√°tica os conhecimentos adquiridos e seus planos de combate ao atraso, √† pobreza e √† depend√™ncia econ√īmica do Brasil.¬†Alterando um ditado de Marx: Policarpo havia estudado e interpretado a realidade brasileira, impunha-se agora o desafio de transform√°-la.

Tenta viabilizar seus planos de reforma em tr√™s √Ęmbitos sociais: cultura, economia e pol√≠tica. Analogamente, o enredo do romance √© estruturado em tr√™s partes e tr√™s ambientes. Primeiro, Policarpo atua como pesquisador de folclore e reformador cultural nos sub√ļrbios pequeno-burgueses do Rio de Janeiro, em sua reparti√ß√£o p√ļblica no Centro da cidade e at√© no Congresso, de onde ele planeja atingir todo o pa√≠s. Na segunda parte, administra uma fazenda-modelo em Curuzu, munic√≠pio fict√≠cio nas imedia√ß√Ķes do Rio, cujo nome remete √† Guerra do Paraguai. Na terceira parte, assume a fun√ß√£o de oficial na guerra civil e tenta implementar suas reformas pol√≠ticas durante a repress√£o do levante da Marinha na Ba√≠a da Guanabara. Como um Dom Quixote do patriotismo, sempre fracassa por tentar aplicar mecanicamente √† realidade as doutrinas alienadoras que aprendeu nos livros.

J√° nas primeiras p√°ginas, Policarpo Quaresma resgata o tema da media√ß√£o liter√°ria como alheamento da realidade, podendo ser lido como livro sobre a leitura equivocada, como livro sobre os livros. De in√≠cio, o instrumento utilizado pelo her√≥i √© uma biblioteca hist√≥rico-liter√°ria. Ao perceber, posteriormente, sua relativa inutilidade, come√ßa a reunir um acervo mais pragm√°tico de obras agron√īmicas e militares e, apesar dos livros irem perdendo a fun√ß√£o, continua sendo um leitor voraz at√© o fim da vida. A prioridade da leitura e o sedentarismo o distinguem dos verdadeiros estudiosos do Brasil, que n√£o eram somente leitores mas sobretudo viajantes e escritores. Policarpo, t√£o rico em talentos e em curiosidade, n√£o pode se dar ao luxo de viajar. Quase n√£o produz escritos, a n√£o ser of√≠cios na sua reparti√ß√£o, assim como n√£o chega a ter filhos. Apesar da voca√ß√£o did√°tica, ridicularizada por seus colegas, n√£o se torna professor, de forma que sua atua√ß√£o ¬Ė discreta e silenciosa ¬Ė permanece v√£ e est√©ril.

Policarpo at√© faz alguns esfor√ßos para, de certa maneira, ser autor, ciente de que n√£o pode prescindir da comunica√ß√£o escrita para servir √† p√°tria; afinal, agir tamb√©m significa escrever. Sua primeira tentativa de intervir na vida social, portanto, coincide com o primeiro escrito, uma peti√ß√£o ao Congresso. Entre os textos que vem a escrever depois, o de maior significado pol√≠tico √© uma reflex√£o sobre a reforma da agricultura, que ¬Ė apesar de ser provavelmente mais informativa e √ļtil do que sua alienada peti√ß√£o ¬Ė tamb√©m n√£o √© levada em conta por ningu√©m. Por fim, seu √ļltimo escrito, uma carta de protesto contra execu√ß√Ķes arbitr√°rias, ocasiona sua pr√≥pria morte, por ironia do destino.

Al√©m da evidente alus√£o a Dom Quixote, de Cervantes, o romance se refere √† tradi√ß√£o do bovarismo, um conceito bastante corrente do ensa√≠smo cultural da √©poca, cunhado a partir de Madame Bovary, de Flaubert, pelo fil√≥sofo franc√™s Jules de Gaultier atrav√©s da obra Le Bovarysme. Outra refer√™ncia √© o C√Ęndido, de Voltaire, cujo protagonista √© levado por leituras alienadoras a construir uma vis√£o de mundo ilus√≥ria e otimista demais, decepcionando-se por fim com o amargo choque da realidade, sem que o narrador tenha a inten√ß√£o de nos dar uma li√ß√£o¬†de cinismo. O que Cervantes, Flaubert e Voltaire t√™m em comum √© a maneira ao mesmo tempo cr√≠tica e compreensiva de encarar a perigosa e cega cren√ßa humanit√°ria nos livros. Numa mistura de orgulho e autocr√≠tica, Lima Barreto se dizia adepto do bovarismo, ao mesmo tempo que amava Dom Quixote e C√Ęndido, livros imprescind√≠veis de sua biblioteca particular. O Major Quaresma tem at√© seu Sancho Pan√ßa: assim como o escudeiro espanhol, Ricardo Cora√ß√£o dos Outros √© um semiburlesco imitador e s√≥brio cr√≠tico e ant√≠poda de seu senhor, no fundo quase um amigo, apesar da dist√Ęncia social.

Como em Cervantes, o ponto de vista da narrativa √© primordialmente sat√≠rico e par√≥dico. A sociedade, caracterizada com um grau vari√°vel de exagero, √© avaliada segundo suas pr√≥prias afirma√ß√Ķes e exig√™ncias e condenada por seus equ√≠vocos, sua falsidade e incoer√™ncia. A maneira caricatural de caracterizar os personagens atrav√©s da repeti√ß√£o mec√Ęnica de comportamentos remete √† defini√ß√£o do c√īmico formulada por Bergson em seu famoso ensaio sobre o riso: du m√©canique plaqu√© sur du vivant. Os personagens c√īmicos reagem de maneira inflex√≠vel, autom√°tica e insens√≠vel √†s diferentes situa√ß√Ķes de uma realidade em constante transforma√ß√£o, recorrendo aos padr√Ķes discursivos e comportamentais a que est√£o acostumados, sem perceber o absurdo de sua inadequa√ß√£o. Quaresma n√£o cansa de elogiar a fertilidade do solo brasileiro, antes mesmo de t√™-la comprovado; o General Albernaz n√£o p√°ra de se gabar das batalhas da Guerra do Paraguai, das quais nem chegou a participar; o Contra-Almirante Caldas vive lamentando nunca ter recebido condecora√ß√Ķes, embora jamais tenha comandado um navio. Dependendo do personagem ou da situa√ß√£o enfocada, o teor c√īmico oscila entre o humor compreensivo, a ironia denunciadora ou o sarcasmo amargo. Gra√ßas a uma certa capacidade de aprendizado, Quaresma vai se tornando, no decorrrer do enredo, cada vez menos ris√≠vel. O senso de justi√ßa parece levar o autor a romper a caracteriza√ß√£o exclusivamente sat√≠rica dele e de outros personagens, quebrando diversas vezes a dist√Ęncia requerida pela s√°tira. Esta, afinal, tem como condi√ß√£o vital a parcialidade, ou seja, a n√£o-pondera√ß√£o da totalidade de aspectos de um car√°ter ou de uma situa√ß√£o por parte daquele que ri. √Č preciso ser um pouco injusto para ser um bom sat√≠rico.

4. Glória e decadência de uma época fundadora

N√£o √© √† toa que Policarpo escolhe a fase imediatamente posterior √† proclama√ß√£o da Rep√ļblica para colocar seus estudos a servi√ßo da p√°tria. O corrupto Imp√©rio acabara de ser derrubado por um golpe militar apoiado pelos influentes produtores de caf√© de S√£o Paulo e aclamado pela maioria das pessoas cultas e letradas. No entanto, ao contr√°rio do esperado, os militares n√£o voltaram aos quart√©is imediatamente, mas somente cinco anos depois. O romance se passa nos primeiros anos da Rep√ļblica Velha, entre 1889 e 1894, durante governos militares marcados por constantes crises e agita√ß√Ķes. Na primeira parte do livro, ainda s√£o vagas as alus√Ķes hist√≥ricas, que v√™m a se tornar mais n√≠tidas na segunda e factualmente identific√°veis s√≥ na terceira.

Logo depois de 1889, o clima era de euforia e otimismo, pois o Brasil parecia estar renascendo e inaugurando uma nova era. Idealistas, negociantes e carreiristas passaram a ver uma chance de reorganizar ou simplesmente explorar o Estado e a sociedade como bem entendessem. Em fevereiro de 1891, o Congresso Constituinte promulgou a nova Constitui√ß√£o dos Estados Unidos do Brasil e convocou o primeiro Congresso da era republicana, ao qual Policarpo enviaria sua peti√ß√£o por uma nova l√≠ngua nacional. Assim como a Fran√ßa revolucion√°ria, cem anos antes, o Brasil estava passando por uma s√©ria crise econ√īmica e financeira, tendo que se defender tamb√©m de revoltas tachadas de contra-revolucion√°rias.

A maior parte da opini√£o p√ļblica esperava uma solu√ß√£o para os desmandos do imp√©rio e exigia reformas democr√°ticas, a consolida√ß√£o de um Estado de direito, maiores perspectivas de carreira para a classe m√©dia, medidas de descentraliza√ß√£o, mais efici√™ncia na administra√ß√£o p√ļblica e maior dinamismo no com√©rcio. Os republicanos radicais, sobretudo os nacionalistas pequeno-burgueses, se autodenominavam "jacobinos" ¬Ė sendo a refer√™ncia aos precursores franceses um equ√≠voco hist√≥rico at√© compreens√≠vel ¬Ė, chamavam-se entre si de "cidad√£os", al√©m de terem conseguido declarar o dia 14 de julho feriado nacional, dia da Tomada da Bastilha em 1789.

Foi nessa √©poca que Tiradentes, l√≠der da Inconfid√™ncia Mineira, tamb√©m de 1789, passou a ser homenageado a posteriori como her√≥i nacional. Assim, n√£o √© por acaso que o Policarpo preso no fim do livro se lembra dos inconfidentes que estiveram no mesmo c√°rcere havia um s√©culo. As constantes refer√™ncias √† Guerra do Paraguai, aparentemente uma mera nostalgia de veteranos exc√™ntricos, tamb√©m faziam parte deste clima de euforia e da tentativa de resgatar as tradi√ß√Ķes nacionais. Apesar de n√£o significar propriamente a g√™nese do Ex√©rcito brasileiro, aquela guerra j√° remota representava o seu batismo de fogo e o primeiro momento de gl√≥ria militar da na√ß√£o, ao qual o Ex√©rcito devia sua reputa√ß√£o e a legitima√ß√£o de sua atual participa√ß√£o pol√≠tica.

A proclama√ß√£o da Rep√ļblica possibilitou uma s√©rie de avan√ßos jur√≠dicos e econ√īmicos e o governo militar tomou algumas medidas em favor das camadas desprivilegiadas da popula√ß√£o, como o estabelecimento de um limite de pre√ßos e alugu√©is. Contudo, n√£o houve uma ruptura sociopol√≠tica significativa. A Rep√ļblica herdara certos v√≠cios do Imp√©rio, entre os quais o coronelismo, ou seja, a hegemonia de l√≠deres locais, sobretudo latifundi√°rios, que praticavam o clientelismo com a coniv√™ncia de autoridades estaduais e federais e conseguiam controlar um ou mais munic√≠pios atrav√©s de intrigas, viol√™ncia e fraudes eleitorais, combatendo todos os que n√£o se enquadrassem nesta estrutura. Um dos instrumentos de poder mais apreciados pelo coronelismo √© a parcialidade com que se cumprem regulamentos e leis, segundo o princ√≠pio: "para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei". Ao inv√©s de aplicar a lei a todos, indiscriminadamente, a Justi√ßa e a administra√ß√£o p√ļblica s√£o usadas como instrumentos de poder, para punir e rebaixar uns e garantir privil√©gios¬†de outros. Quando Policarpo percebe que seus planos de reforma rural est√£o para fracassar, um acontecimento lhe d√° esperan√ßa de criar uma base pol√≠tica para implementar suas id√©ias.

No dia 6 de setembro de 1893, na v√©spera da comemora√ß√£o dos 71 anos de independ√™ncia do pa√≠s, eclode a Revolta da Armada no Forte de Santa Cruz, na barra da Ba√≠a da Guanabara. Com este acontecimento, reacende-se uma antiga rivalidade entre a Marinha ¬Ė tradicionalmente conservadora, comandada por uma elite da classe alta, contr√°ria ou indiferente √† Rep√ļblica ¬Ė e o Ex√©rcito, com seus oficiais recrutados da classe m√©dia, adeptos do republicanismo. Simultaneamente a esta revolta, mas independente dela de in√≠cio, houve no Rio Grande do Sul um levante contra o governo federal, em defesa de maior autonomia regional. Os l√≠deres de ambos os movimentos ¬Ė representantes de diferentes setores das elites, menos interessados num programa pol√≠tico do que em poder e prest√≠gio ¬Ė n√£o hesitaram em se aliar, assumindo uma difusa posi√ß√£o monarquista. Em mar√ßo de 1894, os oficiais da Marinha capitularam e abandonaram suas posi√ß√Ķes, fugindo para os navios de guerra portugueses. A revanche dos vencedores, que maltrataram, deportaram e mandaram matar diversos rebeldes presos, afetou sobretudo inocentes, pois ¬Ė assim como a popula√ß√£o ¬Ė a maioria dos soldados, recrutada √† for√ßa por ambas as partes, mal sabia qual era o motivo da guerra civil.

O que decerto tamb√©m inspirou o escritor foram analogias entre a revolta da Marinha de 1893-94, que comp√Ķe o pano de fundo hist√≥rico da terceira parte do romance, e o clima pol√≠tico dos anos de 1909-11, per√≠odo em que Lima Barreto concebeu e escreveu Policarpo Quaresma. Pela primeira vez na hist√≥ria do Brasil, em 1909-10, houve uma elei√ß√£o que n√£o foi inteiramente negociada de antem√£o entre as elites pol√≠ticas ¬Ė acontecimento que mobilizou a opini√£o p√ļblica de forma in√©dita. Os dois candidatos √† presid√™ncia eram o Marechal Hermes da Fonseca, um¬†militar autorit√°rio, n√£o necessariamente ditatorial, que fora ministro da Guerra do governo anterior, e o jurista liberal e homem de letras Rui Barbosa, uma celebridade nacional e internacional. Em sua campanha eleitoral, norteada por princ√≠pios civilistas, Rui Barbosa defendia sobretudo o afastamento do Ex√©rcito da pol√≠tica. Este foi o motivo de Lima Barreto apoi√°-lo, apesar de n√£o morrer de amores por ele, pois o considerava representante de uma ret√≥rica vazia e elitista. Uma das den√ļncias da Campanha Civilista era interven√ß√£o repressora da pol√≠cia militar na chamada "Primavera de Sangue", em 1909, que culminara com a morte de dois estudantes. O processo contra os respons√°veis acabou se transformando num acerto de contas p√ļblico com o Ex√©rcito, e, ao que parece, a atua√ß√£o do jurado Lima Barreto foi decisiva para a condena√ß√£o do tenente respons√°vel pelos desmandos. Os adeptos de Rui Barbosa alertavam contra o perigo de um retrocesso da Rep√ļblica para o estado ditatorial de 1893-94 ¬Ė uma preocupa√ß√£o n√£o infundada, mas decerto exagerada do ponto de vista da atual pesquisa hist√≥rica.

Numa das suas primeiras medidas, mesmo antes de tomar posse, o presidente eleito Hermes da Fonseca pareceu se revelar herdeiro pol√≠tico do ditador Floriano Peixoto, ordenando um massacre. Em novembro de 1909, eclodira a Revolta da Chibata dentro da Armada. Os rebeldes voltaram os navios contra o Rio, como em 1893-94, mas desta vez os marinheiros comandados pelo "Almirante Negro" Jo√£o C√Ęndido ¬Ė assim denominado por causa de sua cor e de suas qualidades de lideran√ßa ¬Ė apontaram os canh√Ķes diretamente contra a cidade. N√£o pretendiam derrubar o governo, mas apenas protestar contra as deplor√°veis condi√ß√Ķes do servi√ßo a bordo, contra a comida deteriorada e sobretudo contra os castigos f√≠sicos e a humilhante puni√ß√£o com a "chibata". Ap√≥s o Congresso e o governo garantirem que cumpririam as reivindica√ß√Ķes e n√£o puniriam os respons√°veis pelo motim, os revoltosos se entregaram. Todavia, as autoridades n√£o cumpriram sua palavra, punindo-os de forma t√£o b√°rbara quanto aos marinheiros tra√≠dos por seus oficiais dezesseis anos antes. Desta forma, Lima Barreto transformou seu romance hist√≥rico, o que era compreens√≠vel a qualquer leitor da √©poca, num coment√°rio impl√≠cito sobre acontecimentos bastante recentes, quase contempor√Ęneos. Inseriu tais eventos numa tradi√ß√£o funesta, a do massacre usado como meio de domina√ß√£o, puni√ß√£o e intimida√ß√£o ¬Ė justamente num pa√≠s que fora um dos primeiros a abolir a pena de morte, ainda no s√©culo XIX, no tempo do Imp√©rio.

A √©poca aparentemente fundadora da Rep√ļblica √© apresentada como uma √©poca de decad√™ncia, de expectativas frustradas, o que coloca Policarpo Quaresma em constraste com a "fic√ß√£o fundadora [fundacional]" apontada por Doris Sommer como importante tem√°tica na literatura das Am√©ricas.

5. Em busca de uma cultura nacional

Como aut√™ntico idealista, Policarpo come√ßa suas reformas pela superestrutura, falando-se em termos marxistas. No s√©culo XIX, √©poca cl√°ssica da forma√ß√£o dos Estados nacionais, a situa√ß√£o do Brasil era diferente da de pa√≠ses como It√°lia e Alemanha. N√£o se tratava de criar um Estado para a na√ß√£o, mas sim uma na√ß√£o para o Estado herdado dos colonizadores. A elite letrada fora convocada a contribuir para este processo. J√° que a alta cultura e suas institui√ß√Ķes tinham sido importadas da Europa, restavam dois √Ęmbitos em que o pa√≠s podia se diferenciar do colonizador e legitimar o que no s√©culo XX se denominaria identidade nacional: a natureza tropical e a cultura ind√≠gena, de prefer√™ncia a de um passado long√≠nquo. O Museu Nacional, fundado logo depois da Independ√™ncia e sediado desde 1892 no Solar da Quinta da Boa Vista, a moradia do Imperador ¬Ė n√£o muito distante da casa de Policarpo, em S√£o Crist√≥v√£o ¬Ė, ilustra esta concep√ß√£o, reunindo em seu acervo cole√ß√Ķes de etnologia e ci√™ncias naturais.

Policarpo tamb√©m se deixa fascinar pela natureza e pelos ind√≠genas, embora sua concep√ß√£o de na√ß√£o seja mais abrangente. Ele percebe que a na√ß√£o ¬Ė como forma√ß√£o social artificial, ou seja, como "comunidade imaginada", conforme formulou Benedict Anderson, lembrando que seus membros n√£o se conhecem pessoalmente ¬Ė requer consci√™ncia dos elementos culturais comuns, isto √©, consci√™ncia de uma cultura nacional. Para o pesquisador Policarpo, assim como para os nacionalistas europeus, aquilo que mais profundamente unia o Brasil era a m√ļsica, a poesia popular, a dan√ßa, a l√≠ngua, a literatura, as receitas culin√°rias, os rituais de recep√ß√£o e, sobretudo, a imagem que se fazia da pr√≥pria hist√≥ria. Tanto o protagonista como o narrador suspeitam que a na√ß√£o e as tradi√ß√Ķes n√£o passam de inven√ß√Ķes. Neste sentido, o livro de Lima Barreto pode ser considerado uma ilustra√ß√£o das teses de Eric Hobsbawm sobre o assunto. Como as na√ß√Ķes europ√©ias, o Brasil tem que come√ßar a restaurar edif√≠cios, construir monumentos, fundar museus, estudar e reavivar o folclore, colocar a historiografia e as ci√™ncias humanas a servi√ßo da cultura nacional, projetando-a num passado long√≠nquo, a fim de atribuir-lhe ancestralidade, dignidade e irreversibilidade. As na√ß√Ķes n√£o apenas investigam a cultura nacional, mas tamb√©m a constroem, ao compilar fragmentos de tradi√ß√Ķes passadas e regionais e eleg√™-los como s√≠mbolos nacionais.

A busca de Policarpo por autenticidade e genuinidade, semelhante √† dos nacionalistas europeus dos s√©culos XIX e XX, acaba se tornando uma obsess√£o purista, que no Brasil ¬Ė diante da origem cultural multi√©tnica ¬Ė ainda √© mais absurda do que no Velho Mundo. A compreens√£o da originalidade de uma cultura nacional, no seu car√°ter¬†primordial e singular, leva Policarpo a um m√©todo eliminat√≥rio: genuinamente brasileiro seria apenas aquilo que n√£o cont√©m nenhuma influ√™ncia estrangeira. √Ä medida que ele vai descobrindo que os fen√īmenos culturais considerados tipicamente brasileiros s√£o parcial ou inteiramente europeus ou africanos, inclusive a t√£o apreciada modinha, aquilo que ele considera autenticamente brasileiro vai se reduzindo cada vez mais. Ent√£o, ele se v√™ obrigado a se distanciar do presente e da cultura urbana, que lhe parece contaminada por influ√™ncias estrangeiras, e vai penetrando cada vez mais no passado e no interior do pa√≠s, a fim de se ver livre dos influxos africanos e europeus.

Primeiro, ele localiza o Brasil puro, sem misturas, na √©poca imperial; depois, no fim do per√≠odo colonial; e, posteriormente, no in√≠cio da coloniza√ß√£o. Por fim, resta-lhe considerar genuinamente brasileira apenas a cultura tupi-guarani. Este absurdo √© ocasionado pelo m√©todo de buscar a ess√™ncia de uma cultura em sua origem aut√≥ctone, eliminando todas as influ√™ncias posteriores como impurezas. Policarpo realmente merece ser apelidado por seus colegas de Ubirajara, protagonista do romance hom√īnimo de Jos√© de Alencar, ambientado na √©poca pr√©-colonial, numa sociedade bem mais fict√≠cia do que a de suas demais obras, imposs√≠vel de ser enquadrada em qualquer realidade espacial e temporal. Mistura cultural e √©tnica, bem como¬† interc√Ęmbio transnacional existiram desde sempre, sobretudo no Brasil. Desta forma, o enredo do romance desmonta os conceitos puristas e essencialistas de genuinidade nacional e identidade cultural. A pureza de uma cultura √© um fantasma e a busca desta pureza s√≥ pode levar √† loucura e √† casa de loucos.

Desde a √©poca dos descobrimentos, havia ¬Ė na literatura europ√©ia e, posteriormente, na literatura do Novo Mundo ¬Ė uma disputa entre duas imagens contradit√≥rias dos ind√≠genas: o bom selvagem e o canibal monstruoso, ambos uma proje√ß√£o m√≠tica do Velho Mundo e express√£o das vis√Ķes de para√≠so e inferno. Se, para Policarpo, os tupis-guaranis representavam o ideal humano e a ess√™ncia do brasileiro, para uma parte da opini√£o p√ļblica e para os defensores do progresso t√©cnico e econ√īmico, eles n√£o passavam de b√°rbaros antrop√≥fagos, desprovidos do status posteriormente reabilitado pelos modernistas. Isto explica o tratamento caricatural que a imprensa faz de Quaresma como "a√ßougueiro de Santa Cruz", um ep√≠teto que se refere ao primeiro nome do Brasil e ao sub√ļrbio carioca, na parte oeste do munic√≠pio, onde se localizava o matadouro na √©poca. O resgate do passado ind√≠gena, sobretudo da cultura e da l√≠ngua tupi-guaranis, se insere numa tradi√ß√£o brasileira, com tra√ßos retr√≥grados e passadistas, mas tamb√©m progressistas e emancipat√≥rios, existente desde o nativismo, passando pelo patriotismo dos cronistas e poetas do s√©culo XVIII, pelo romantismo indianista, at√© modernistas como M√°rio e Oswald de Andrade. Com a publica√ß√£o do Manifesto Antropof√°gico, de 1928, Oswald esbo√ßou uma cultura tropical, igualit√°ria, matriarcal e vanguardista, a ser constru√≠da atrav√©s da incorpora√ß√£o "canibalesca" da parte mais valiosa da cultura europ√©ia e do cultivo de tradi√ß√Ķes ind√≠genas. A reavalia√ß√£o da heran√ßa ind√≠gena culminou em um dito que certamente teria agradado ao Major Quaresma, apesar do estrangeirismo: Tupi or not tupi, that¬īs the question.

A id√©ia de que a cria√ß√£o de uma na√ß√£o implica uma l√≠ngua pr√≥pria n√£o √© t√£o absurda como soa de in√≠cio. Desde o s√©culo XIX, √© corrente entre os nacionalistas de todos os pa√≠ses a id√©ia de que a na√ß√£o √© uma comunidade ling√ľ√≠stica e cultural, tendo, como tal, direito a um Estado pr√≥prio. Portanto, o racioc√≠nio inverso √© absolutamente l√≥gico: um Estado nacional j√° existente tem direito √† uma l√≠ngua pr√≥pria e, quando n√£o existe no presente, tem que ser procurada no passado; basta ver o exemplo da Irlanda. Claro que Estados transnacionais sempre se voltaram contra este tipo de reivindica√ß√£o, seja o Imp√©rio Otomano,¬†seja a Monarquia Austro-H√ļngara, √† qual a personagem Olga se refere, ao mencionar a luta dos checos por uma l√≠ngua nacional. Talvez se possa ver um n√ļcleo racional no nacionalismo ling√ľ√≠stico de Policarpo: a reivindica√ß√£o de abrasileirar o portugu√™s liter√°rio, uma meta tra√ßada por muitos escritores desde o Romantismo, inclusive por Lima Barreto, e seguida com maior ou menor radicalismo pelos modernistas, por Guimar√£es Rosa e outros.

6. Reformas na zona rural

Policarpo defende e pratica um nacionalismo econ√īmico. Assim como os pol√≠ticos positivistas da √©poca, ele reivindica medidas protecionistas para a ind√ļstria brasileira e s√≥ compra produtos nacionais, se poss√≠vel. Mas atribui um valor ainda maior ao desenvolvimento da agricultura como alicerce de uma p√°tria forte, pr√≥spera e socialmente justa.

Ap√≥s constatar o fracasso e a inutilidade de suas reformas no √Ęmbito da cultura, Policarpo muda para o campo, para cuidar da sa√ļde e tamb√©m para montar uma fazenda que possa servir de modelo para uma reforma regional e nacional da agricultura. Sem jamais perder de vista a "grandeza e emancipa√ß√£o da p√°tria" como pressuposto e meta, ele quer provar que o Brasil ¬Ė ao seu ver o pa√≠s mais f√©rtil do mundo ¬Ė tem condi√ß√Ķes de alimentar toda a popula√ß√£o, preocupa√ß√£o compreens√≠vel numa √©poca em que o pa√≠s, apesar de ter apenas uns 15 milh√Ķes de habitantes, gastava mais de um quinto de suas divisas para importar alimentos. Apesar de n√£o ter a mesma obsess√£o bras√≠lica de seu padrinho, a afilhada Olga tamb√©m tem interesse em aumentar a produ√ß√£o agr√≠cola e melhorar as condi√ß√Ķes de vida no campo. √Č com grande compaix√£o que ela come√ßa a se informar por que existe tanta pobreza e mis√©ria na ro√ßa, n√£o s√≥ em regi√Ķes long√≠nquas mas tamb√©m nas imedia√ß√Ķes da grande cidade. Sua conclus√£o parcial √© a de que a vigente distribui√ß√£o da propriedade do solo e a pol√≠tica do governo n√£o incentivam o desenvolvimento de iniciativas pr√≥prias. Diferentemente de Quaresma, ela se v√™ impossibilitada de agir e de intervir numa realidade t√£o lastim√°vel, devido √† sua condi√ß√£o de mulher.

O seu padrinho, por√©m, em cada uma das suas iniciativas, se v√™ frustrado, ainda que esteja disposto a mudar, a adequar, at√© certo ponto, as suas opini√Ķes ilus√≥rias √† realidade, caindo, por√©m, logo depois, em outras ilus√Ķes. Resta perguntar se ele √© o √ļnico "culpado" das suas ilus√Ķes¬†ou se aqueles "realistas", que n√£o as partilham, prestam melhores servi√ßos ao pa√≠s do que ele. Como resultado de todo um aprendizado, Policarpo descobre que ¬Ė al√©m de novos livros especializados para a sua biblioteca ¬Ė precisa de aparelhos de medi√ß√£o meteorol√≥gica, maquinaria agr√≠cola e pesticidas. No entanto, todo esse instrumental n√£o adianta muito, pois ele n√£o sabe utiliz√°-lo adequadamente, tendo tamb√©m que admitir que o solo brasileiro n√£o √© t√£o f√©rtil como ele pensava. Al√©m disso, ele percebe que certas doen√ßas e pragas, como a sa√ļva, por exemplo, dificilmente podem ser combatidas por um s√≥ agricultor, exigindo a coopera√ß√£o dos agricultores e o esfor√ßo organizado da ci√™ncia e do Estado. As sa√ļvas s√£o um leitmotiv da literatura brasileira, remetendo por exemplo a um dito recorrente em Macuna√≠ma: "Muita sa√ļva e pouca sa√ļde os males do Brasil s√£o". Policarpo, por√©m, faz progressos e adota atitudes sensatas. Ao se opor √†s queimadas, por exemplo, mostra que disp√Ķe de conhecimentos ou intui√ß√Ķes ecol√≥gicas. Ao contr√°rio dos acad√™micos pedantes, constantemente caricaturados pelo autor, n√£o tem vergonha de aprender com o povo, com seu criado negro Anast√°cio, no caso. Todavia, em se tratando de sa√ļvas, este tamb√©m n√£o consegue ajud√°-lo.

O que tamb√©m dificulta o desenvolvimento da fazenda-modelo e da agricultura como um todo s√£o certas estruturas sociopol√≠ticas, como o coronelismo e a hegemonia do latif√ļndio, ligada a essa estrutura clientelista do poder. Com uma m√£o-de-obra praticamente gratuita e o excesso de terra cultiv√°vel, n√£o h√° motivo para aumentar a produtividade. Um processo de moderniza√ß√£o subsidiado pelo governo e incentivado pela demanda estrangeira s√≥ se d√° com produtos de exporta√ß√£o, como o caf√©, por exemplo. Um outro obst√°culo √© o papel monopolista do atravessador, que encarece os produtos agr√≠colas no mercado interno, impede a expans√£o da produ√ß√£o, bloqueia a concorr√™ncia e atrasa o desenvolvimento capitalista da zona rural. Se at√© Policarpo fracassa como pequeno agricultor ¬Ė embora seja bem informado e propriet√°rio das terras que cultiva, dispondo de certo capital e de um know-how constantemente ampliado ¬Ė, o que ser√° ent√£o dos pequenos lavradores, moradores, meeiros e jornaleiros, que n√£o t√™m terra pr√≥pria para morar nem para lavrar e plantar?

Nesta parte do romance, Lima Barreto ridiculariza os clich√™s rom√Ęnticos e arc√°dicos, mas tamb√©m contempor√Ęneos, do aconchego patriarcal, do pitoresto nost√°lgico, do bucolismo inocente da popula√ß√£o rural, propagados naquela √©poca sobretudo pelos prosadores Coelho Neto e Afonso Arinos, e pelo poeta popular Catulo da Paix√£o Cearense, ao qual remonta o personagem de Ricardo Cora√ß√£o dos Outros. Se o campo, no plano socioecon√īmico, √© pobre e at√© miser√°vel, tamb√©m √© decepcionante no plano est√©tico, ficando muito aqu√©m das imagens liter√°rias, aparecendo freq√ľentemente como entediante, desolado, desertado e at√© feio e repulsivo. S√≥ em poucos momentos a paisagem toca o observador pelo sil√™ncio e pela gra√ßa, sobretudo a cachoeira de Carico, descrita como locus amoenus na acep√ß√£o da po√©tica cl√°ssica.

7. Desenvolvimento por meios ditatoriais?

O plano de Policarpo para renovar a na√ß√£o requer um Estado forte, acima dos interesses particulares e de classe das oligarquias, dos carreiristas e oportunistas. S√≥ assim seria poss√≠vel realizar as reformas necess√°rias e encarregar os melhores peritos do pa√≠s com fun√ß√Ķes governamentais, seguindo a concep√ß√£o de Augusto Comte. Nosso patriota une a fascina√ß√£o rom√Ęntica pelo √≠ndio √† cren√ßa moderna, positivista e republicana no progresso. Desta forma, ele n√£o hesita em apoiar a "ditadura desenvolvimentista" ¬Ė como se diria mais tarde ¬Ė do marechal Floriano Peixoto, um conhecido do major Quaresma de outros tempos, sem procurar. no entanto, tirar proveito pessoal deste contato.

O limite entre patriotismo tradicional e nacionalismo moderno acaba se diluindo na rec√©m-proclamada Rep√ļblica, cuja meta √© consolidar o Estado nacional que ainda n√£o existia durante o Imp√©rio, um regime no qual os escravos e a maioria dos √≠ndios n√£o tinham direitos de cidad√£o. Embora mais patriota do que nacionalista, Policarpo ap√≥ia os militares representantes de um nacionalismo agressivo e excludente, ligados, entretanto, a uma doutrina positivista humanit√°ria e aos modelos franceses. Ao apoi√°-los, Policarpo endossa involuntariamente o nacionalismo fan√°tico, o republicanismo autorit√°rio, o culto ao Estado e as viola√ß√Ķes dos direitos humanos e do cidad√£o.

A inten√ß√£o de Policarpo de se tornar soldado na juventude e o absurdo fato de seus planos de reforma o obrigarem a virar oficial, sem nunca ter pegado numa arma, se explicam pela √≠ntima liga√ß√£o entre patriotismo, nacionalismo, Rep√ļblica e Ex√©rcito existente no Brasil daquela √©poca. As For√ßas Armadas se consideravam porta-voz da na√ß√£o e achavam que a melhor forma de servi-la era recorrer √†s armas. Apesar do baixo contingente de aproximadamente 20 mil soldados registrado em 1890, o Ex√©rcito ¬Ė mais do que a Marinha ¬Ė era uma das poucas institui√ß√Ķes que conferia vulto ao Estado, garantia o contato entre a capital e regi√Ķes distantes, atrav√©s da constru√ß√£o de tel√©grafos, por exemplo, e mantinha a unidade territorial desse pa√≠s de dimens√Ķes continentais, t√£o grande quanto a Europa. A primeira Constitui√ß√£o republicana conferiu ao Ex√©rcito a fun√ß√£o de √°rbitro entre os tr√™s poderes constitucionais e de guardi√£o da seguran√ßa externa e interna, permitindo-lhe preencher em parte a fun√ß√£o do imperador, qualificada como poder moderador.

Ap√≥s duas tentativas fracassadas de reforma, nosso her√≥i volta a ter uma amarga decep√ß√£o. Justamente o regime que inscreveu o lema "Ordem e Progresso" na bandeira nacional e prometeu abrir chances de carreira para a classe m√©dia acaba colocando incompetentes em posi√ß√Ķes de lideran√ßa. Mas isso ainda √© relativamente inofensivo. Generais e almirantes que se enfeitavam com condecora√ß√Ķes da Guerra do Paraguai, na melhor tradi√ß√£o do miles gloriosus da com√©dia romana, s√£o obrigados a pedir conselhos a jovens oficiais, para compensar sua incompet√™ncia. Um deles, o Tenente Fontes acaba ganhando um destaque not√°vel. Sua integridade, presen√ßa de esp√≠rito e compet√™ncia militar, sua forma√ß√£o positivista superficial, a mentalidade pequeno-burguesa, a ambi√ß√£o autorit√°ria de realizar reformas republicanas, bem como a disposi√ß√£o fan√°tica de morrer e de matar pela p√°tria s√£o caracter√≠sticas do tenentismo, um movimento de reforma pol√≠tica iniciado na d√©cada de 20 por oficiais de posi√ß√£o hier√°rquica inferior, compar√°veis aos Jovens Turcos de Atat√ľrk e respons√°veis pela ascens√£o de Get√ļlio Vargas ao poder, em 1930. Era um movimento antiolig√°rquico e autorit√°rio, que correspondia aos interesses da classe m√©dia n√£o-abastada, prevendo a melhora das condi√ß√Ķes de vida do povo, mas sem a sua participa√ß√£o. Se os oficiais s√£o riducularizados, os adeptos civis do regime, como o escritur√°rio do Tesouro Genel√≠cio ou o m√©dico Armando Borges, por exemplo, s√£o apresentados como incompetentes, pedantes e altamente ambiciosos, caracterizados, portanto, de forma ainda mais negativa e caricatural do que os militares.

O chefe de Estado Floriano Peixoto √© uma verdadeira decep√ß√£o. Com sua inexpressividade e dissimula√ß√£o, ele funciona como uma perfeita superf√≠cie de proje√ß√£o para as mais fantasiosas expectativas de seus conterr√Ęneos e seguidores. Apesar da representa√ß√£o caricatural, Lima Barreto apreendeu tra√ßos essenciais da personalidade hist√≥rica do "Marechal de Ferro", aquele governante provinciano, bonach√£o, acess√≠vel, cruel e absolutamente impass√≠vel, n√£o muito distante da esfinge meio banal que viu nele Euclides da Cunha. O fato de ele instrumentalizar as vis√Ķes positivistas de seus adeptos militares e civis, sem acreditar nelas, e o de desprezar os camponeses nacionais s√£o bastante veross√≠meis. No entanto, gra√ßas a um certo sangue-frio, ele teve o m√©rito de reprimir duas revoltas que n√£o eram nem um pouco progressistas. Com o personagem do marechal e a descri√ß√£o do clima de terror, Lima Barreto antecipa aspectos do g√™nero latino-americano do romance de ditador, como O Senhor Presidente, de Asturias, Eu, O Supremo, de Roa Bastos, ou O Outono do Patriarca, de Garc√≠a M√°rquez.

O narrador certamente ironiza os padr√Ķes idealizadores de Policarpo, inspirados no monarca pr√©-absolutista Henrique IV e em seu ministro Sully ou em Turgot, ministro iluminista da Fran√ßa pr√©-revolucion√°ria. Por outro lado, ele tamb√©m os adota, pois estes tr√™s estadistas, profundamente respeitados at√© hoje, evocam certos valores, como concilia√ß√£o e toler√Ęncia, e certas conquistas pol√≠ticas e sociais, como reformas da agricultura e efici√™ncia administrativa. Alheio ao oportunismo t√≠pico dos renegados e promulgador do Edito de Nantes em favor dos huguenotes, este rei, originalmente protestante, para quem Paris valia uma missa, deve sua popularidade sobretudo √† m√°xima de que cada franc√™s tivesse um frango na panela aos domingos, ditado que devia agradar a Lima Barreto e ao seu her√≥i patri√≥tico.

8. Sobre a dialética da humanidade, nacionalidade e bestialidade

Guerras e guerras civis exercem um papel fundamental na constitui√ß√£o das na√ß√Ķes, sendo idealizadas pelos nacionalistas justamente por este motivo. Vistas de perto, no entanto, as guerras, al√©m de devastarem na√ß√Ķes, s√£o quase sempre decepcionantes, pouco her√≥icas, degradantes, assustadoras ou cru√©is. As literaturas de todos os tempos e de todas as culturas t√™m, assim como as artes e as religi√Ķes, um importante papel na cria√ß√£o de ilus√Ķes belicistas, na heroiciza√ß√£o de combates e combatentes, na glorifica√ß√£o e transfigura√ß√£o dos mortos em her√≥is e m√°rtires. Mas, se os literatos s√£o c√ļmplices dos guerreiros, tamb√©m se redimem, em parte, por desmascarar a guerra como seq√ľ√™ncia de massacres sem sentido e causa de sofrimentos sem fim. Estas duas tend√™ncias j√° existem em Homero. Na Idade Moderna, o nacionalismo instigou enormemente as guerras, democratizando-as, emocionalizando-as, acirrando-as. At√© mesmo Policarpo,¬†cujo car√°ter humanit√°rio e pacifista destoa de suas id√©ias fixas de guerra e p√°tria, acaba se entregando a uma bestialidade arcaica avessa ao seu entusiasmo pelo progresso. Numa emocionante carta √† irm√£, confessa que a guerra ¬Ė uma barb√°rie permitida em todas as civiliza√ß√Ķes ¬Ė passou a inquiet√°-lo depois que ele aderiu √† luta, n√£o s√≥ por ser um sacrif√≠cio v√£o mas tamb√©m por incentivar e at√© requerer a brutalidade e crueldade, um lado de si mesmo que as pessoas costumam ignorar. Afinal, um soldado cordial e humano seria um contra-senso. O nacionalismo n√£o inventou os confrontos armados, mas, ao mobilizar na√ß√Ķes inteiras para este prop√≥sito, tornou a guerra passional, perigosa e total. Ser√° que a na√ß√£o tem o direito de exigir sacrif√≠cio humano como os deuses antigos?

O desenvolvimento do enredo, sobretudo na terceira parte do romance, ilustra o potencial b√°rbaro de um patriotismo fan√°tico colocado a servi√ßo do Estado nacional. Ao mostrar que os idealistas podem se tornar t√£o perigosos quanto os soberanos e seus bajuladores, Lima Barreto assume uma posi√ß√£o pessimista e cr√≠tica em rela√ß√£o √†s concep√ß√Ķes iluministas da Hist√≥ria. Al√©m disso, expressa a preocupa√ß√£o de que posturas humanizadoras e progressistas possam se transformar em √≥dio, viol√™ncia e desumanidade, sobretudo em √©pocas de nacionalismo desenfreado e de endeusamento do Estado. Despojadas de sua aura m√≠tica, todas as √©pocas ¬Ė inclusive o passado recente ¬Ė remetem √† no√ß√£o hegeliana de que a hist√≥ria √© um matadouro que raramente propicia a felicidade humana. O dramaturgo Franz Grillparzer, patriota din√°stico da fase tardia do Imp√©rio multicultural e multinacional dos Habsburgos, parece ter pressentido as duas Guerras Mundiais, ao resumir da seguinte forma a face obscura da "dial√©tica do Iluminismo": "A trajet√≥ria da cultura moderna vai da humanidade at√© a bestialidade, passando pela nacionalidade".

Para combater o nacionalismo, Lima Barreto teve que questionar as imagens err√īneas que o Brasil fazia de si mesmo. Ele leva ad absurdum os clich√™s e mitos nacionalistas e os desmascara um a um: a maravilhosa fertilidade do solo, o profundo arraigamento da cultura popular, a pac√≠fica harmonia e serenidade do povo ou a integridade dos governantes. Por fim, restam apenas indaga√ß√Ķes sobre a ess√™ncia do Brasil, sua hist√≥ria e sua cultura. Um dos mitos mais perigosos √© o do patriotismo. No fundo, os patriotas grandiloq√ľentes de plant√£o n√£o passam de traidores da p√°tria, pois a usam para a sua pr√≥pria autopromo√ß√£o e enriquecimento. Lima Barreto n√£o argumenta de fora, a partir de um ideal abstrato e cosmopolita de humanidade, mas sim a partir das pretens√Ķes do pr√≥prio patriotismo. Teme uma perspectiva intr√≠nseca, considerando os interesses da maioria da popula√ß√£o, atitude que se poderia chamar de patriotismo alternativo, √† medida que condena a sociedade de classes e o Estado de n√£o-direito por instrumentalizarem o patriotismo e o nacionalismo em favor do interesse das elites. Esbo√ßa uma utopia ex negativo, um patriotismo social, com consci√™ncia hist√≥rica e respeito pela cidadania, ancorado na cultura pr√≥pria e aberto a influ√™ncias estrangeiras, ou seja, um patriotismo compat√≠vel que se auto-supera e se neutraliza, tornando-se compat√≠vel com o cosmopolitismo. Al√©m disso, a desmontagem de posi√ß√Ķes puristas e essencialistas de cultura nacional implica o reconhecimento da mesti√ßagem no Brasil, n√£o apenas como resultado das origens do pa√≠s, mas como processo permanente, devido tamb√©m √† abertura do Brasil em rela√ß√£o ao mundo, que, por sua vez, naturalmente, tamb√©m √© mesti√ßo.

Gra√ßas √† sua boa √≠ndole, divergente do discurso humanizador vazio dos positivistas e do oportunismo dos vira-casacas, Policarpo desmascara o regime e deixa de ser conivente com ele, redimindo-se de boa parte de sua culpa atrav√©s de seu mart√≠rio. Ao contr√°rio de Dom Quixote, ele √© altamente incoerente, sendo levado por sua bondade e benevol√™ncia a reiteradas contradi√ß√Ķes entre convic√ß√£o e comportamento, comendo, por exemplo, p√£o franc√™s, comprando maquinaria norte-americana para sua fazenda, mantendo rela√ß√Ķes de compadrio com um italiano ou citando um viajante ingl√™s em Lisboa como testemunha da qualidade da modinha "genuinamente brasileira".

A forma√ß√£o afetiva e as qualidades morais do Major Quaresma e de outros personagens tamb√©m se devem √† literatura e √† poesia. Os leitores entusiastas s√£o menos ridicularizados pelo narrador do que os inimigos dos livros, com todo o seu realismo e pragmatismo. O partid√°rio do governo, Dr. Borges, por exemplo, que costuma pegar no sono enquanto l√™ livros de qualidade, procura¬†zombar da coragem civil de sua mulher, que tenta salvar a vida do padrinho, qualificando sua atitude de teatral e alienada: "Est√°s no teatro?" A essa pergunta ret√≥rica e ir√īnica, que pressup√Ķe uma divis√£o n√≠tida entre vida e arte, a rom√Ęntica mas sensata Olga, aliada do exc√™ntrico e √≠ntegro Policarpo, responde com seriedade: "Se √© s√≥ no teatro que h√° grandes coisas, estou". Ela defende as artes como esfera da humanidade e integridade, rejeitando a pequenez e a pusilanimidade, o oportunismo e a trai√ß√£o. Apesar da necess√°ria cr√≠tica, n√£o daria para imaginar mais bela reabilita√ß√£o do bovarismo do que esta - a¬†esperan√ßa de que algo dos sonhos generosos de uma vida melhor de que falam as artes possa virar realidade. Quando a fantasia de inspira√ß√£o est√©tica se choca com a realidade, Lima Barreto parece nos dizer,¬†alterando um ditado de Hegel: "O azar √© da realidade". Pois a ridiculariza√ß√£o das quimeras liter√°rias n√£o implica em absoluto a contesta√ß√£o da literatura de um modo geral. Por mais que a literatice patri√≥tica seja satirizada, Policarpo e Olga n√£o chegam a presenciar nenhuma queima de livros, ao contr√°rio do exc√™ntrico cavaleiro espanhol.

Oscilando entre seriedade e humor, s√°tira e nostalgia, este romance √© uma declara√ß√£o de amor √†s pessoas simples da cidade e do campo, ao Rio de Janeiro, ao Brasil, √† humanidade. O desenlace √© triste, quase tr√°gico, mas n√£o de todo pessimista. No fim do romance, dois amigos do her√≥i t√£o c√īmico quanto nobre ¬Ė uma mulher burguesa e um artista popular, dois seres, portanto, at√© certo ponto marginalizados, ao mesmo tempo √≠ntegros, benevolentes, descritos pelo narrador apenas com uma ponta de ironia ¬Ė encontram-se num parque, no Campo de Sant¬íAna, perto do Quartel General, onde a humanidade, a natureza, a arquitetura e o c√©u parecem harmonizar: Olga, a mo√ßa de origem italiana, e Ricardo Cora√ß√£o dos Outros, plebeu, poeta e cantor sertanejo. Embora n√£o formem um casal, ambos representam a esperan√ßa, dentro de um contexto de transforma√ß√£o hist√≥rica e de uma poss√≠vel humaniza√ß√£o da natureza e da sociedade:

Saiu e andou. Olhou o c√©u, os ares, as √°rvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, j√° tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora h√° quatro s√©culos. Olhou de novo o c√©u, os ares, as √°rvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas; viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando j√° a entrar do campo... Tinha havido grandes e in√ļmeras modifica√ß√Ķes. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modifica√ß√Ķes nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Cora√ß√£o dos Outros.

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Berthold Zilly √© professor da Universidade Livre de Berlim. Este artigo, originalmente intitulado "Uma cr√≠tica a vis√Ķes puristas e essencialistas da cultura nacional: Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto",¬†baseia-se no posf√°cio da tradu√ß√£o alem√£: Das traurige Ende des Policarpo Quaresma. Tradu√ß√£o, cronologia, gloss√°rio e posf√°cio de Berthold Zilly. Z√ľrich: Ammann, 2001. Em 2002 saiu uma nova edi√ß√£o no c√≠rculo de livros B√ľchergilde e, em 2003, uma edi√ß√£o em livro de bolso na Berliner Taschenbuch Verlag.¬†

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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