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Jornalismo na linha de tiro

L√ļcio Fl√°vio Pinto - Janeiro 2006
 

L√ļcio Fl√°vio Pinto.¬†O jornalismo na linha de tiro (de grileiros, madeireiros, pol√≠ticos, empres√°rios,¬†intelectuais & poderosos em geral). Bel√©m: Edi√ß√£o Jornal Pessoal, 2006. 513p.

Jornalismo √© oposi√ß√£o, o resto √© armaz√©m de secos & molhados - disse Mill√īr Fernandes certa vez. N√£o √© bem assim, mas como a frase √© inspirada, conv√©m us√°-la. Ainda mais porque, nestes nossos tempos de sincronismo e cinismo, os mais jovens s√£o tentados a achar que jornalismo √© marketing & rela√ß√Ķes p√ļblicas. Quando n√£o, um of√≠cio que se exercita √† frente de um computador, navegando pelo mundo virtual sem o risco de furac√Ķes e tempestades. Tudo √© ass√©ptico e inodoro. Mesmo o jornalismo investigativo consiste em debulhar dossi√™s e repassar material de fonte secund√°ria. O bom jardineiro √© aquele que encontra orqu√≠deas no turbilh√£o de mato que germina como praga na horta do google.

O jornalismo √© muito mais do que tudo isso. Sou tentado a buscar em Jo√£o Cabral de Mello Neto, o diplomata que entendeu muito mais de fome & seca nordestina do que o retirante-oper√°rio paulista Luiz In√°cio Lula da Silva, a inspira√ß√£o para a metodologia desse aprendizado. Aprendemos com as pedras, trilhando um caminho sofrido e trepidante, que talvez nos conduza a Canossa se os personagens das hist√≥rias que relatamos, ao inv√©s de reagir com palavras duras, agress√Ķes f√≠sicas ou balas, mais duras ainda, reconhecerem que √© assim que se constr√≥i a hist√≥ria e √© assim que damos nossa contribui√ß√£o ao que interessa nessa estrada de Damasco: a mem√≥ria dos homens (e mulheres, no aposto populista do ritual politicamente correto).

Estruturei este livro sem desnaturar o que lhe constitui o conte√ļdo: o jornalismo. N√£o considero que jornalismo seja um g√™nero maior ou menor. √Č bom ou ruim, conforme √© realizado. Se o jornalista cumpre a tarefa que lhe cabe, centrando-a nos fatos, mas bem atento √†s suas circunst√Ęncias, estar√° fornecendo mat√©ria-prima para um sem-n√ļmero de outros aproveitamentos. Nessa √°rvore frondosa colher√£o seus frutos o cientista pol√≠tico, o soci√≥logo, o economista, o antrop√≥logo, o psic√≥logo & etc., neste geral incluindo-se o personagem que mais interessa: o cidad√£o.

Nosso oxig√™nio √© a verdade. Sem letra mai√ļscula, sem grandiloq√ľ√™ncia, sem hero√≠smo. Para que ser "escravo da verdade" v√° al√©m da figura de ret√≥rica usual, temos que encar√°-la como algo bem natural para quem decide ser jornalista. Quando sa√≠mos para a cobertura de um acontecimento previamente agendado, quando recebemos uma "visita na reda√ß√£o" ou quando somos despertados na madrugada por uma convoca√ß√£o ao desconhecido, a primeira arma que devemos pegar √© o sism√≥grafo dos fatos. Esse objeto, evidentemente, n√£o existe. Mas est√° dentro da nossa cabe√ßa, plenamente vis√≠vel, integralmente materializado. Se divisarmos os fatos na rotina da pauta ou nas circunst√Ęncias descontroladas de uma miss√£o de enviados especiais, iremos com seguran√ßa atr√°s da verdade.

Nesse caso, a veremos. Talvez n√£o a entendamos, por√©m. Por isso, √© necess√°rio estar sempre em ronda pelos v√°rios compartimentos do saber e do fazer humanos. Batendo um papo com um cientista, indo a um local de acesso p√ļblico, consultando o documento chato que todos citam e raros l√™em, enfrentando aquele livro indigesto, cheio de n√ļmeros frescos √† espera de quem lhes d√™ vida. Seguindo o conselho do s√°bio Gentil Cardoso, o maior dos fil√≥sofos a servi√ßo da paix√£o nacional, o futebol: √© indispens√°vel pedir e se deslocar. Quem pede tem prefer√™ncia, quem se desloca recebe (a bola, no caso).

O jornalista √© aquele profissional que mais desenvoltamente pode se deslocar. Um dia ele est√° na entrevista coletiva com o presidente da Rep√ļblica. No outro, "cobre" tiroteio na favela mais barra-pesada da cidade. Passa dias e meses na sua base operacional. Subitamente, amanhece na China. Se for um bom profissional, jamais se limitar√° a cumprir um roteiro tur√≠stico. Enquanto o turista rico pode ir a todos os points caros, ele pode chegar a lugares interditados a todos os dinheiros. Bunkers de traficantes, por exemplo. Ou mansarda onde o famoso mis√≥gino se esconde. Pode at√© obrigar a que lhe abram as portas de depend√™ncias proibidas ou ao gabinete de poderosos furibundos. Eles mandariam o importuno para aquele lugar se n√£o tivessem que pensar nas conseq√ľ√™ncias desse ato. Esmurram paredes, tomam tranq√ľilizantes ou simplesmente vestem a m√°scara se temem o intruso audacioso. Mas o recebem.

O que h√° a temer? Por que ceder? A causa √© uma s√≥: a opini√£o p√ļblica. Se cumprimos decentemente nosso of√≠cio, somos seus auditores, seus porta-vozes, seus emiss√°rios. Por nosso interm√©dio, √© o povo quem quer saber. O que soubermos, a ele comunicaremos. N√£o principalmente em palestras em circuito fechado ou em recep√ß√Ķes, mas da forma mais p√ļblica e democr√°tica poss√≠vel: atrav√©s do ve√≠culo de comunica√ß√£o de massa, de maior ou menor potencial de difus√£o das informa√ß√Ķes apuradas. Queremos que essas informa√ß√Ķes estejam acess√≠veis o mais rapidamente poss√≠vel para que, cada um sabendo sua hora e sua vez, fa√ßa o que precisa fazer. Fazer - no tempo certo, com a informa√ß√£o adequada - a hist√≥ria. O jornalismo √© isso: a ante-sala dessa depend√™ncia mais vasta da cria√ß√£o humana. S√≥ por isso nos temem. S√≥ por isso nos abrem as portas mais maci√ßas. Se n√£o as abrem, as arrombamos. Sabemos que uma porta fechada costuma esconder a verdade.

√Č este o jornalismo que tenho feito. Nasci para faz√™-lo, acho eu, porque meu pai fez jornalismo, quatro dos meus sete irm√£os s√£o jornalistas e me tornei jornalista desde quando pude agir com base na raz√£o operativa. Fiz jornal de classe, jornal de bairro, jornal de clube e, finalmente, jornal profissional, a partir dos 16 anos e at√© agora, 40 anos depois. E fiz jornalismo num lugar que dele mais precisa para fazer sua pr√≥pria hist√≥ria: a Amaz√īnia. N√£o a hist√≥ria que j√° vem pronta, trazida de fora (S√£o Paulo ou Nova York, Bras√≠lia ou Pequim) por quem decide o que deve ser a Amaz√īnia dos nossos dias. Uma Amaz√īnia cada vez mais sem floresta, sem √°gua, sem seu primeiro habitante. Uma Amaz√īnia muito parecida com a que esses bwanas criaram na √Āfrica e na √Āsia. Uma Amaz√īnia cada vez menos amaz√īnica.

Quando descobri a urdidura do enredo, me revoltei. Neste livro documento o rastro dessa revolta, as marcas da minha indigna√ß√£o, as pistas do agressor, seu ponto de fuga, seu rito da agress√£o. A verdade √© sempre subversiva numa regi√£o onde a verdade, talvez, s√≥ venha a ser recuperada quando se tornar elemento de uma arqueologia in√ļtil. A verdade n√£o tem que estar na agenda do cidad√£o. √Č esse o desejo dos poderosos, locais e metropolitanos. Contra eles me insurgi. Meu jornalismo √© o produto dessa insubmiss√£o.

Espero que seja √ļtil tanto a jornalistas quanto a todo leitor que se dispuder a participar dessa travessia (no sentido b√≠blico mesmo). A canoa de textos podia ser melhor, mais confort√°vel e segura. Mas escrevendo este livro em meio a uma guerra judicial, tentando escapar ao destino de Prometeu tropical, isto √© o que pude fazer, na urg√™ncia e na emerg√™ncia de fazer a verdade. "Isto" √© apenas isto. E carrega consigo minha alma, meu cora√ß√£o e, quem sabe, o h√°lito do meu amor. A mat√©ria-prima que me mant√©m vivo e revoltado, que me faz acreditar no futuro e trabalhar pela utopia.

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Este texto √© a apresenta√ß√£o do livro Guerra Amaz√īnica. Tamb√©m publicado em La Insignia.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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