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Por que Gramsci na América Latina?

José Aricó - 1998
Tradução: Alberto Aggio
 

Um fato significativo que se observou no Col√≥quio de Ferrara, de outubro de 1985, foi a exist√™ncia de uma certa assincronia do debate pol√≠tico e intelectual em torno de Gramsci na Am√©rica Latina em rela√ß√£o √† sua regi√£o de origem. A fortuna que o autor dos Cadernos alcan√ßou em nosso continente, desde a d√©cada de setenta e fundamentalmente na d√©cada de oitenta, n√£o parecia ter correspond√™ncia com o decl√≠nio de sua presen√ßa em seu pr√≥prio pa√≠s. Frente ao ineg√°vel refluxo de sua gravita√ß√£o nos meios intelectuais italianos, ocorria em nosso continente um fen√īmeno que talvez seja compar√°vel com o que se est√° produzindo em pa√≠ses como a Rep√ļblica Federal Alem√£ em rela√ß√£o ao reexame da cultura socialdemocrata, ou nos Estados Unidos frente aos desenvolvimentos da vida intelectual naquele pa√≠s [1]. Desde meados da d√©cada de setenta em diante, o conhecimento da obra de Gramsci progrediu de maneira constante e significativa entre os intelectuais e cientistas sociais n√£o apenas da √°rea de l√≠ngua espanhola, como tamb√©m portuguesa. Uma s√©rie de conceitos pr√≥prios da elabora√ß√£o gramsciana, mesmo aqueles mais complexos e espec√≠ficos como o de bloco hist√≥rico, revolu√ß√£o passiva, guerra de posi√ß√£o, guerra de movimento, reforma intelectual e moral, etc., generalizaram-se de maneira tal que se transformaram em algo pr√≥prio, uma esp√©cie de "sentido comum", n√£o apenas do discurso mais estritamente intelectual, mas tamb√©m do discurso pol√≠tico da esquerda - ainda que n√£o somente desta.

A circula√ß√£o dos seus escritos e a incorpora√ß√£o de suas id√©ias percorreu, contudo, caminhos singulares, com prolongados per√≠odos de clandestinidade - como na Argentina, na √©poca da ditadura militar -, mas com repercuss√Ķes not√°veis naqueles lugares onde situa√ß√Ķes externas √† sua capacidade de circula√ß√£o deixaram de ter efeitos. A conquista da democracia na Argentina permitiu redescobri-lo, da mesma forma que, anos antes, a transi√ß√£o democr√°tica no Brasil expandiu consideravelmente sua difus√£o. No M√©xico, a presen√ßa do pensamento de Gramsci nos centros de estudos e de investiga√ß√£o, bem como nas organiza√ß√Ķes pol√≠ticas de esquerda, √© muito forte, conseguindo deslocar algumas correntes do marxismo que alcan√ßaram, em seu tempo, uma expans√£o desconhecida em outras partes

Um simples olhar sobre a imponente quantidade de trabalhos e publica√ß√Ķes referidos √† problem√°tica latino-americana em todos os seus aspectos, desde aqueles hist√≥ricos at√© os mais estritamente culturais, d√° conta da presen√ßa que assinalamos e da difundida utiliza√ß√£o dos instrumentos conceituais que Gramsci colocou em circula√ß√£o para analisar velhas e novas dimens√Ķes da realidade de pa√≠ses colocados frente √† disjuntiva de encarar profundas transforma√ß√Ķes para superar suas crises e possibilitar a abertura para sociedades mais justas. Desta perspectiva e com as pontua√ß√Ķes que neste caso, como em qualquer outro, devem sempre ser feitas, pode-se afirmar que as formula√ß√Ķes de Gramsci fazem parte da nossa cultura e constituem um patrim√īnio comum de todas aquelas correntes de pensamento democr√°ticas e reformadoras do continente. Todos somos, em certo sentido, tribut√°rios do seu pensamento, ainda que alguns n√£o o sejam ou n√£o estejam dispostos a reconhec√™-lo. E se h√° raz√Ķes para pensar que as incertezas nas quais se debatem as correntes de esquerda colocam em quest√£o a atualidade de tais formula√ß√Ķes, torna-se dif√≠cil acreditar tamb√©m que as respostas √†s novas perguntas da sociedade possam encontrar-se mais aqu√©m e n√£o mais al√©m do seu pensamento.

Quais foram as raz√Ķes de tal expans√£o e em torno de que eixos problem√°ticos o pensamento de Gramsci foi incorporado como um instrumental eficaz para examin√°-los a partir de novas perspectivas anal√≠ticas? Diante de quais demandas da realidade, as formula√ß√Ķes dos Cadernos do c√°rcere, que come√ßaram e continuam a ser publicadas, demonstraram estar aptas para admitir tradu√ß√Ķes at√© mesmo pontuais? Para esbo√ßar um quadro de conjunto, mas que retenha ao mesmo tempo as diferen√ßas tem√°ticas e as formas distintas de assimila√ß√£o que se efetivaram nas diversas √°reas nacionais, ou mesmo regionais, como a Am√©rica Central, √© preciso recordar o contexto pol√≠tico e intelectual em que foram produzidas. A difus√£o de suas id√©ias ocorre na Am√©rica Latina no bojo de dois momentos hist√≥ricos diferentes, divididos, como estiveram, pela derrota da ilus√Ķes revolucion√°rias que o "Outubro cubano" despertou no continente [2]. No in√≠cio da d√©cada de setenta, a onda expansiva da Revolu√ß√£o Cubana j√° se havia consumado e uma torrente de golpes militares modificou a face de um continente erodido pela viol√™ncia armada e pela contra-revolu√ß√£o. Nesta situa√ß√£o - e de modo que n√£o podia ser sen√£o contradit√≥rio -, as id√©ias de Gramsci contribu√≠ram, primeiro, para alimentar projetos radicais de transforma√ß√£o, para depois possibilitar, e rapidamente, reflex√Ķes mais cr√≠ticas e realistas sobre as raz√Ķes de uma tr√°gica desventura.

Como √© l√≥gico, num e noutro momento, as inflex√Ķes foram distintas, como distinto tamb√©m foi o lugar que lhe foi atribu√≠do no interior de uma tradi√ß√£o de pensamento que havia estruturado, a partir da Revolu√ß√£o Russa e da√≠ em diante, a matriz essencial da cultura de esquerda. Se na d√©cada de sessenta e in√≠cio da de setenta, os "anos de Cuba", para utilizar uma express√£o sint√©tica por√©m acertada, o Gramsci que se incorpora adentra por inteiro na hist√≥ria do leninismo americano, na nova etapa que se inicia a partir da decomposi√ß√£o dos regimes autorit√°rios, Gramsci, enquanto marxista, aparece como irredut√≠vel ao leninismo, ainda que o pressuponha e se nutra de sua subst√Ęncia. Esta foi uma convic√ß√£o compartilhada pela maior parte das interven√ß√Ķes no semin√°rio de Morelia, de fevereiro de 1980, que girou fundamentalmente em torno da validade te√≥rica e pol√≠tica do conceito gramsciano de hegemonia para analisar os problemas decorrentes das transforma√ß√Ķes na Am√©rica Latina. Ao resumir as conclus√Ķes daquele riqu√≠ssimo debate de id√©ias, me permiti expressar da seguinte forma o que, sem d√ļvida, foi um dos resultados do semin√°rio:

O conceito gramsciano de hegemonia, aquilo que [...] o transforma num ponto de ruptura de toda elabora√ß√£o marxista que o precedeu, baseia-se no fato de que se postula como uma supera√ß√£o da no√ß√£o leninista de alian√ßa de classes, na medida em que privilegia a constitui√ß√£o de sujeitos sociais atrav√©s da absor√ß√£o e deslocamento de posi√ß√Ķes que Gramsci define como ''econ√īmico-corporativas'' e, portanto, incapazes de se tornar ''Estado''. Assim entendida, a hegemonia √© um processo de constitui√ß√£o dos pr√≥prios agentes sociais em seu processo de tornar-se Estado, ou seja, for√ßa hegem√īnica. De tal maneira, ao assimilarmos as categorias gramscianas como as de ''forma√ß√£o de uma vontade nacional-popular'' e de ''reforma intelectual e moral'' - e tudo o que elas implicam, para al√©m do terreno hist√≥rico-concreto em que emergiram -, o processo de configura√ß√£o da hegemonia aparece como um movimento que diz respeito, sobretudo, √† constru√ß√£o social da realidade e que se conclui recompondo de maneira in√©dita os pr√≥prios sujeitos sociais [3].

Admitindo-se estas considera√ß√Ķes, n√£o se pode deixar de aceitar as conclus√Ķes que dela derivam e que distinguem nitidamente o pensamento de Gramsci de um dos fil√Ķes culturais que contribuiu para constru√≠-lo, por mais importante que este tenha sido em sua forma√ß√£o intelectual e pol√≠tica. N√£o se pode negar que o conceito de hegemonia pressup√Ķe o conceito leniniano de alian√ßa de classes. Se nos recusarmos a admitir que por tr√°s de Gramsci est√° Lenin, cometer√≠amos um pecado de anacronismo hist√≥rico e nos impedir√≠amos de compreender at√© que ponto seu pensamento atravessa as formula√ß√Ķes e a experi√™ncia da Terceira Internacional. Por√©m, quando em meu texto insistia na irredutibilidade de Gramsci √† matriz leninista, simplesmente queria lembrar que de tal nexo n√£o se poderia deduzir uma filia√ß√£o gen√©rica que mutilaria os elementos de novidade do seu pensamento. E, por essa raz√£o, assinalava que "diante de Gramsci √© preciso realizar uma leitura que coloque no devido lugar (e este j√° √© todo um problema n√£o apenas hermen√™utico mas tamb√©m ideol√≥gico-pol√≠tico) a ineg√°vel rela√ß√£o que suas reflex√Ķes mant√™m com a experi√™ncia mutilada de implementa√ß√£o de um projeto hegem√īnico revolucion√°rio como foi o iniciado pela Revolu√ß√£o de Outubro". Porque, se √© verdade que a discuss√£o sobre os par√Ęmetros fundamentais em torno dos quais se elaborou o leninismo, como uma leitura fortemente politizada do marxismo da Segunda Internacional, e a proximidade ou a dist√Ęncia que frente a ele manteve Gramsci, tem uma import√Ęncia te√≥rica geral, para o caso da Am√©rica Latina adquire uma relev√Ęncia particular no sentido de poder dar conta de processos espec√≠ficos de vincula√ß√£o entre a teoria e a pr√°tica. N√£o √© necess√°rio insistir muito sobre o relativo estranhamento do debate marxista em rela√ß√£o √† problem√°tica concreta do movimento oper√°rio do nosso continente. Mesmo nos casos, certamente bastante isolados, em que existiu uma vincula√ß√£o mais ou menos estreita entre o mundo dos trabalhadores e o referente te√≥rico marxista, nunca a rela√ß√£o adquiriu caracter√≠sticas pr√≥ximas √† constela√ß√£o das formas europ√©ias. Nem a extens√£o e densidade hist√≥rica do proletariado foi compar√°vel, nem seu horizonte ideal tendeu a reconhecer o socialismo, mais ou menos impregnado de marxismo, como uma express√£o pol√≠tica pr√≥pria.

A partir desta constata√ß√£o, torna-se necess√°rio confrontar as diferenciadas realidades latino-americanas com aqueles paradigmas te√≥ricos e pol√≠ticos que, para poderem ser utilizados, requerem "tradu√ß√Ķes" menos pontuais e infinitamente mais cautelosas. E, no sentido gramsciano, utilizo o conceito de "tradutibilidade" das linguagens, referindo-me √† possibilidade de algumas experi√™ncias hist√≥ricas, pol√≠ticas e sociais, encontrarem uma equival√™ncia em outras realidades [4]. Se a tradutibilidade sup√Ķe que uma fase determinada da civiliza√ß√£o tenha uma express√£o cultural "fundamentalmente" id√™ntica, ainda que a linguagem seja historicamente distinta na medida em que est√° determinada por tradi√ß√Ķes espec√≠ficas de cada cultura nacional e tudo o que dela se depreende, Gramsci podia ser traduzido em chave latino-americana se fosse poss√≠vel estabelecer algum tipo de similitude ou sintonia hist√≥rico-cultural entre seu mundo e o nosso. E n√£o √© casual que a primeira obra significativa sobre o pensamento de Gramsci escrita por um latino-americano tenha se proposto a tarefa de encontrar nele uma chave de leitura que permitiria encontrar sua efic√°cia no fato de que "podia ser expresso nas linguagens das situa√ß√Ķes concretas particulares". Refiro-me ao livro de Portantiero, Los usos de Gramsci, e em particular a sua interven√ß√£o no col√≥quio do M√©xico, de setembro de 1978 [5], dedicada especialmente a este tema. Anos antes havia sido publicada a edi√ß√£o cient√≠fica dos Cadernos do c√°rcere que permitiu descobrir quest√Ķes at√© ent√£o desconsideradas e vinculadas √† reconsidera√ß√£o do significado dos processos de revolu√ß√Ķes passivas dos anos 30. A fortuna de Gramsci na Europa da d√©cada de setenta assentava-se na convic√ß√£o compartilhada de que era um te√≥rico - o maior marxista ocidental deste s√©culo, como o definiu Hobsbawm - da revolu√ß√£o no Ocidente, quer dizer, nos pa√≠ses de capitalismo avan√ßado. Redescobria-se em Gramsci sua perspic√°cia para analisar situa√ß√Ķes de transi√ß√£o em sociedades de capitalismo maduro ou avan√ßado e atrav√©s desta finalidade prestou-se a in√ļmeras interpreta√ß√Ķes, que deram lugar a novos esclarecimentos acerca de seus apontamentos sobre americanismo e fordismo e, de forma mais geral, sobre a categoria de "revolu√ß√£o passiva".

Portantiero se perguntava se esta n√£o era uma leitura, em parte, redutiva, como haviam sido outras; pois, se nos prend√™ssemos estritamente a ela, estar√≠amos vedando a possibilidade de recolher uma mensagem te√≥rica e pol√≠tica que ele suspeitava ser de suma utilidade para n√≥s. "Ocorre-me - afirmava - que o uso das categorias gramscianas de an√°lise aparece como absolutamente pertinente para n√≥s", e mais ainda, "boa parte do arsenal te√≥rico-gramsciano √© diretamente pertinente" na an√°lise das sociedades latino-americanas. No seu entendimento, e recuperando uma observa√ß√£o de Colletti, a obra de Gramsci consistia, na verdade, "num estudo sociol√≥gico sobre a sociedade italiana, quer dizer, sobre uma sociedade t√≠pica do 'capitalismo tardio' no sentido que Gerschenkron d√° √† express√£o. Uma sociedade complexa, mas desarticulada, atravessada por uma profunda crise estatal, no seu sentido integral, marcada por um desenvolvimento econ√īmico desigual e sobre a qual o fascismo, a partir de uma derrota catastr√≥fica do movimento oper√°rio e popular, tentou reconstruir, via Estado, a unidade das classes dominantes e desagregar a vontade pol√≠tica das classes populares, num movimento convergente com um processo de centraliza√ß√£o do capitalismo que se operava na economia" [6].

Mas, se este era o terreno hist√≥rico-pol√≠tico sobre o qual se fundaram as reflex√Ķes de Gramsci, "elas estariam mais pr√≥ximas de um certo tipo de sociedades latino-americanas atualmente vigentes do que das forma√ß√Ķes sociais do capitalismo contempor√Ęneo mais avan√ßado e maduro. Precisamente, s√£o as caracter√≠sticas deste tipo de sociedade que lhe permitem repensar de maneira original o tipo de articula√ß√£o entre sociedade e pol√≠tica, isto √©, a forma do pol√≠tico, distinguindo-a do que seria a forma ideal t√≠pica do pol√≠tico no liberalismo representativo" [7]. A delimita√ß√£o de Gramsci como pensador do "Ocidente" tem sentido apenas com a condi√ß√£o de n√£o convert√™-lo em um eurocomunista avant la lettre e de admitir que suas reflex√Ķes s√£o aplic√°veis a situa√ß√Ķes que n√£o s√£o tipicamente ocidentais. Ele √©, sobretudo, o pensador de uma √©poca nova do capitalismo, caracterizada pela profundidade das mudan√ßas morfol√≥gicas nas rela√ß√Ķes entre o Estado e a sociedade, que a crise da d√©cada de trinta desencadeia, mas que j√° estavam molecularmente em curso desde o final do s√©culo. Por isso suas notas sobre o americanismo, como a imanente necessidade do capitalismo moderno de alcan√ßar a organiza√ß√£o de uma economia program√°tica, formam o pendant necess√°rio da an√°lise das diversas formas de resist√™ncia que este movimento de desenvolvimento gera, e que Gramsci define como processos de "revolu√ß√£o passiva" ou de "moderniza√ß√£o conservadora", para utilizar a express√£o de Barrington Moore. Como indica Portantiero, estas notas "s√£o absolutamente pertinentes enquanto est√≠mulo para se indagar a respeito das caracter√≠sticas dos fen√īmenos [...] atrav√©s dos quais se realiza, tamb√©m hoje, uma reorganiza√ß√£o dos la√ßos entre economia e pol√≠tica nos pa√≠ses de maior desenvolvimento relativo da Am√©rica Latina" [8]. Tamb√©m entre n√≥s, e com todas as diferen√ßas resultantes de processos hist√≥ricos particulares, se est√° operando um processo de recomposi√ß√£o capitalista, algo assim como uma terceira revolu√ß√£o burguesa descrita pelo brasileiro Florestan Fernandes, em uma obra not√°vel que os leitores de l√≠ngua espanhola ainda n√£o descobriram [9]. Sua caracter√≠stica distintiva est√° em ser um processo de transforma√ß√£o a partir de cima, de revolu√ß√£o pelo alto, que est√°, por suposto, nos ant√≠podas da t√£o desejada revolu√ß√£o democr√°tico-burguesa que os partidos comunistas latino-americanos institu√≠ram como modelo te√≥rico e pol√≠tico de transforma√ß√£o e que pretenderam levar √† pr√°tica atrav√©s de m√ļltiplas combina√ß√Ķes t√°ticas desde o final da d√©cada de vinte.

As desventuras da esquerda latino-americana derivam do fato de que seus estritos paradigmas ideol√≥gicos a impediram de compreender a singularidade de um continente habitado por profundas e violentas lutas de classes, mas onde estas n√£o foram os atores principais de sua hist√≥ria. Como recordou Touraine, "a nitidez das situa√ß√Ķes de classe n√£o leva √†s pr√°ticas aut√īnomas de classe. Mais profundamente, a an√°lise das rela√ß√Ķes de classes est√° limitada pela de depend√™ncia". Os personagens principais da hist√≥ria latino-americana recente n√£o parecem ser a burguesia nem o proletariado, nem tampouco os latifundi√°rios e os camponeses dependentes. S√£o, contudo, segundo o mesmo autor, o capital estrangeiro e o Estado [10]. Entende-se, assim, por que o desenvolvimento de toda a sociologia latino-americana, desde a d√©cada de cinq√ľenta em diante, tenha partido da cr√≠tica da id√©ia de burguesia nacional, ou melhor, da cr√≠tica da teoria e da pr√°tica de uma esquerda que fez do modelo da revolu√ß√£o democr√°tico-burguesa sua matriz ideol√≥gica fundante e seu ponto de refer√™ncia indispens√°vel para caracterizar a realidade. De tal modo que, entre ci√™ncia cr√≠tica da realidade e propostas pol√≠ticas de transforma√ß√£o, abriu-se uma brecha que gerou conseq√ľ√™ncias negativas para ambas as dimens√Ķes. A reflex√£o acad√™mica ficou mutilada em sua capacidade de expandir-se para o mundo da pol√≠tica, ao mesmo tempo que uma canhestra e ancilosada reflex√£o pol√≠tica excluiu, de fato, o reconhecimento daqueles novos fen√īmenos tematizados pelos intelectuais. Parafraseando Marx, nem a cr√≠tica se exercia como arma, nem as armas necessitaram da cr√≠tica para encontrar um fundamento [11].

Constrangida por sua vis√£o sociologizante - que sempre colocava a estrutura de classes e as rela√ß√Ķes que da√≠ emergiam num plano quase que excludente em rela√ß√£o aos demais -, a esquerda de tradi√ß√£o marxista se recusou a reconhecer e admitir a funcionalidade espec√≠fica de um Estado que, na aus√™ncia de uma classe nacional, operava como uma esp√©cie de Estado "puro", empurrando a sociedade para mudan√ßas e fabricando, de cima, a classe dirigente. Onde se produziam metamorfoses profundas do capitalismo "dependente", a esquerda s√≥ podia descobrir desagrega√ß√Ķes catastr√≥ficas, pren√ļncios de colapsos que alimentavam seus impulsos jacobinos; n√£o estava em condi√ß√Ķes de observar e de aproveitar em seu benef√≠cio os processos de moderniza√ß√£o a que estiveram submetidas as sociedades latino-americanas a partir da crise de 1930. E √© em torno das formas novas de articula√ß√£o entre sociedade e Estado em pa√≠ses de industrializa√ß√£o tardia e "derradeira" [12], como Argentina, Brasil, Col√īmbia, Chile, M√©xico e Uruguai, que o pensamento de Gramsci parece poder expressar-se em "l√≠nguas particulares" concretas, transformando-se, deste modo, num est√≠mulo √ļtil, num instrumento cr√≠tico capaz de dar conta das facetas mais complexas do real.

Gramsci j√° havia chamado a aten√ß√£o, num dos seus √ļltimos trabalhos redigidos antes de sua pris√£o, a respeito da situa√ß√£o particular de uma s√©rie de pa√≠ses que chamou de "Estados perif√©ricos" (It√°lia, Pol√īnia, Espanha, Portugal), em rela√ß√£o aos pa√≠ses europeus de capitalismo avan√ßado, nos quais a articula√ß√£o entre Estado e sociedade operava-se atrav√©s da presen√ßa de um variad√≠ssimo estrato de classes intermedi√°rias "que querem, e em certa medida conseguem, levar uma pol√≠tica pr√≥pria, com ideologias que, regra geral, influenciam vastos estratos do proletariado, mas que t√™m uma particular influ√™ncia sobre as massas camponesas" [13]. Na distin√ß√£o entre as categorias de "Oriente" e "Ocidente", que Gramsci instaura nos Cadernos, fica evidente que ele coloca esta zona perif√©rica no interior da segunda. Do ponto de vista das formas diferenciadas de articula√ß√£o da sociedade com o Estado, a categoria, ou mais precisamente, a met√°fora "Ocidente" √© suficientemente ampla para incluir esta vasta √°rea de pa√≠ses europeus de fronteira e, por que n√£o, tamb√©m aquelas sociedades latino-americanas onde mais avan√ßou o processo de industrializa√ß√£o. Para estas sociedades, insiste Portantiero, o pensamento de Gramsci demonstra ser de extrema potencialidade anal√≠tica:

Compar√°veis por seu tipo de desenvolvimento, diferenci√°veis como forma√ß√Ķes hist√≥ricas ''irrepet√≠veis'', estes pa√≠ses t√™m, ainda neste n√≠vel, tra√ßos comuns: essa Am√©rica Latina n√£o √© ''Oriente'', est√° claro, mas se aproxima muito do ''Ocidente'' perif√©rico e tardio. De uma forma ainda mais clara que nas sociedades deste segundo ''Ocidente'', conformado na Europa no final do s√©culo XIX, na Am√©rica Latina s√£o o Estado e a pol√≠tica que modelam a sociedade. Mas um Estado - e est√° aqui uma das determina√ß√Ķes da depend√™ncia - que, ainda que busque constituir a comunidade nacional, n√£o alcan√ßa os graus de autonomia e soberania dos modelos ''bismarquianos'' ou ''bonapartistas''. Todos os embates pol√≠ticos do s√©culo XIX s√£o embates entre grupos que, do ponto de vista econ√īmico, encontram-se escassamente diferenciados e que aspiram o controle do aparelho de Estado para desenvolver, a partir dele a economia e produzir, com ele, uma estrutura de classes mais complexa [14].

O processo de constru√ß√£o dos estados latino-americanos operou sobre este virtual vazio social, que nos casos dos pa√≠ses andinos e de popula√ß√£o ind√≠gena foi obtido √† custa da reprodu√ß√£o da rela√ß√£o colonizador-colonizado imposta pelos grandes imp√©rios. Amparado pela for√ßa dos ex√©rcitos - cuja casta militar, em conjunto com o clero, constituem essas categorias de intelectuais tradicionais fossilizadas na forma da m√£e-p√°tria europ√©ia, segundo a caracteriza√ß√£o que dela faz Gramsci -, criam-se os estados nacionais e, com estes, os espa√ßos econ√īmicos favor√°veis √† r√°pida penetra√ß√£o do capital estrangeiro. Desta maneira, configura-se a parceria daqueles que haver√£o de ser os personagens principais da vida social e pol√≠tica latino-americana, das suas origens √†s √©pocas mais recentes.

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Este texto √© uma vers√£o parcial do cap√≠tulo "Por que Gramsci en Am√©rica Latina?", que comp√Ķe o livro La cola del diablo - el itiner√°rio de Gramsci en Am√©rica Latina, publicado por Jos√© Aric√≥ em 1988, na Argentina por Editorial Punto Sur e na Venezulela por Editorial Nueva Sociedad.¬†

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Notas

[1] Ver Giuseppe Vacca. "La sinistra europea e il tema dell`egemonia". Rinascita/ Il Contemporaneo, "Gramsci nel mondo", n. 2, 28 fev. 1987, p. 17.

[2] Este √© o t√≠tulo da bel√≠ssima cr√īnica dos avatares da revolu√ß√£o cubana publicada por Saverio Tutino, a partir do seu contato direto com tal experi√™ncia, como correspondente de L`Unit√† em Havana: L`Ottobre Cubano. Lineamenti di una storia della rivoluzione castrista. Turim: Einaudi, 1968.

[3] Jos√© Aric√≥. "Pr√≥logo". In: VV.AA. Hegemonia y Alternativas Pol√≠ticas en Am√©rica Latina. Org. por Julio Labastida Mart√≠n del Campo. M√©xico: Siglo XXI, 1985, p. 14-5. Este livro re√ļne as comunica√ß√Ķes apresentadas no Semin√°rio de Morelia (Michoac√°n, M√©xico), dedicado especificamente √† an√°lise da funcionalidade metodol√≥gica e pol√≠tica do conceito de hegemonia.

[4] Sobre este tema ver o conjunto de notas reunidas sob o t√≠tulo de "Traducibilidad de los lenguajes cient√≠ficos y filos√≥ficos" que est√£o no Caderno 11 (1932-1933), ou seja, aquele dedicado fundamentalmente a refutar a interpreta√ß√£o mecanicista do marxismo feita por Bukharin em Teor√≠a del materialismo hist√≥rico. Em espanhol, estes textos podem ser lidos na edi√ß√£o Era dos Cadernos do C√°rcere (t. 4, p. 317-22), mas tamb√©m em El materialismo hist√≥rico y la filosofia de Benedetto Croce, M√©xico, Juan Pablos, 1975, p. 71-9. Gramsci refere-se, em in√ļmeras partes dos seus Cadernos e dos seus escritos anteriores √† pris√£o, a este problema, frente ao qual sua condi√ß√£o de sardo de nascimento e fil√≥sofo de forma√ß√£o o tornava particularmente sens√≠vel. N√£o deixa de ser surpreendente que estas reflex√Ķes n√£o tenham despertado um interesse maior dos comentadores. Neste sentido, n√£o √© por acaso que o conceito de tradutibilidade tenha sido utilizado, com imagina√ß√£o e intelig√™ncia, para encarar um estudo comparativo da difus√£o de Gramsci e de Jos√© Carlos Mari√°tegui. Refiro-me √† comunica√ß√£o apresentada por Robert Paris no col√≥quio de Culiac√°n (Sinaloa) sobre Mari√°tegui, em 1980, e publicada como "Mari√°tegui y Gramsci: proleg√≥menos a un estudio contrastado de la difusi√≥n del marxismo". Socialismo y Participaci√≥n, n. 23, Lima, set. 1983, p. 31-54.

[5] Juan Carlos Portantiero. Los usos de Gramsci. México: Folios Ediciones, 1981 (contudo, os textos incluídos no livro foram escritos num período de tempo que vai de 1975 a 1981); do mesmo autor, "Gramsci para latinoamericanos". In: C. Buci-Glucksmann, J. C. Portantiero, G. Vacca, M. A. Macciocchi. Gramsci y la política. Org. por Carlos Sirvent. México DF: UNAM, 1980, p. 29-51.

[6] "Gramsci para latinoamericanos", cit., p. 36-7.

[7] Ib., p. 37.

[8] Ib., p. 41; no mesmo sentido e com ênfase idêntica ver em Los usos de Gramsci, cit., todo o item 5: "Por qué Gramsci?" (p. 123-40 e 145-6).

[9] Florestan Fernandes. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. O autor utiliza a expressão "contra-revolução prolongada" para designar o processo, pelo alto, de transformação capitalista da sociedade brasileira, segundo o modelo de revolução passiva descrito por Gramsci. O livro de Florestan Fernandes apresenta uma evidente inspiração gramsciana, ainda que seu nome seja mencionado apenas na bibliografia.

[10] Ver Alain Touraine. Las sociedades dependientes. Ensayos sobre Am√©rica Latina. M√©xico: Siglo XXI, 1978, p. 81. A cita√ß√£o est√° no ensaio "Las clases sociales en una sociedad dependiente" (p. 81-100), motivado pelo debate que se travou no Semin√°rio de M√©rida, Yucat√°n, sobre as classes sociais e os problemas metodol√≥gicos que se apresentam √† an√°lise hist√≥rica e estrutural de sociedades "an√īmalas". As interven√ß√Ķes e discuss√Ķes foram agrupadas num volume que ainda permanece como de imprescind√≠vel consulta: Las clases sociales en Am√©rica Latina. Org. por Ra√ļl Ben√≠tez Centeno. M√©xico DF: Siglo XXI, 1973.

[11] Foi o reconhecimento da exist√™ncia desta dist√Ęncia entre "o acad√™mico" e "o pol√≠tico" - e a busca de caminhos para a sua supera√ß√£o - que impulsionou o Instituto de Investigaciones Sociales da UNAM a organizar um semin√°rio que reuniu cientistas sociais e dirigentes pol√≠ticos da esquerda latino-americana. Elegeu-se como tema a categoria gramsciana da hegemonia, "cujas fortes conota√ß√Ķes pol√≠ticas n√£o puderam ser esquecidas, na medida em que colocava no centro do debate a rela√ß√£o entre projeto de transforma√ß√£o e sujeito hist√≥rico transformador" (ver Hegemonia y alternativas en Am√©rica, cit., p. 12; como j√° dissemos, este livro re√ļne as interven√ß√Ķes do Semin√°rio realizado em 1980, em Morelia).

[12] A express√£o "industrializa√ß√£o tardia e derradeira" pertence a Albert Hirschman (in Desarrollo y Am√©rica Latina. Obstinaci√≥n por la esperanza. Lecturas del Trimestre Econ√≥mico 5. M√©xico DF: FCE, 1973, p. 96-8). √Č utilizada para diferenciar os pa√≠ses de industrializa√ß√£o "tardia" (Alemanha, It√°lia e R√ļssia) dos pa√≠ses que ingressaram mais tarde no processo industrializador, fazendo tal percurso com diferen√ßas qualitativas importantes em rela√ß√£o aos padr√Ķes de acumula√ß√£o. Uma delas, a restrita ou ausente produ√ß√£o de bens de capital. De toda forma, Hirschman chama a aten√ß√£o para que n√£o se exagere na diferen√ßa entre ambos os processos de industrializa√ß√£o (p. 97), e esta √© uma recomenda√ß√£o que seria conveniente estender, ainda que contrario sensu, a toda unifica√ß√£o, um tanto descuidada, de um grupo de na√ß√Ķes a partir de certas caracter√≠sticas comuns. Como lembra Portantiero, "cada uma das sociedades em considera√ß√£o √© definida n√£o somente pelo tipo de rela√ß√£o entre Estado e economia [...] mas tamb√©m, e sobretudo, pelo n√≠vel que define as rela√ß√Ķes entre Estado e massas [...]. Por isso, uma sociedade como a boliviana, cuja industrializa√ß√£o se inicia imediatamente ap√≥s a segunda guerra, mas em que a for√ßa pol√≠tica do movimento sindical alcan√ßou uma enorme influ√™ncia, integra o referencial hist√≥rico destas notas. Ainda que n√£o tenha a mesma magnitude econ√īmica que o resto dos pa√≠ses em considera√ß√£o, a densidade do sistema pol√≠tico boliviano e a influ√™ncia que nele exerce o movimento oper√°rio, desde 1952, aproximam muito mais a Bol√≠via, no sentido que t√™m estas notas, da Argentina e do Chile, por exemplo, que dos pa√≠ses da Am√©rica Central ou de outros pa√≠ses andinos" (Los usos de Gramsci, cit., p. 172).

[13] Antonio Gramsci. "Un examen de la situaci√≥n italiana", inclu√≠do em Escritos pol√≠ticos (1917-1933). Cuadernos de Pasado y Presente, n. 54, 2. ed. modificada. M√©xico: Siglo XXI, 1981, p. 286: "Nos estados perif√©ricos t√≠picos do grupo, como It√°lia, Pol√īnia, Espanha e Portugal, as for√ßas estatais s√£o menos eficientes".

[14] J. C. Portantiero. Los usos de Gramsci, cit., p. 127 s.



Fonte: Estudos de Sociologia, n. 5, Unesp/Araraquara.

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