Busca:     


O Gramsci do Presidente

Marco Aurélio Nogueira - 1997
 

Nas sociedades em que a pol√≠tica virou espet√°culo, nem sempre os que falam dominam os conte√ļdos que inserem em seus discursos. Existe, em outros termos, muita pose e jogo de cena. Mundo repleto de "faz-de-conta", a pol√≠tica-espet√°culo opera com os olhos nos ganhos de audi√™ncia, no tempo de exposi√ß√£o, na capacidade de produzir fatos, not√≠cias, "fact√≥ides". O resultado, dentre outras coisas, √© o impulsionamento da confus√£o entre os cidad√£os e, acima de tudo, o aumento do esvaziamento √©tico-valorativo da pol√≠tica. N√£o surpreende que a pol√≠tica perca sentido, que os eleitores "flutuem" e n√£o manifestem maiores lealdades, limitando-se, na maioria das vezes, a acompanhar em chave moralizante a conduta dos pol√≠ticos, dos governantes e dos servidores p√ļblicos. N√£o se pode exigir coer√™ncia dos homens e mulheres "comuns" da sociedade se os seus representantes s√≥ transmitem mensagens enviesadas, tr√īpegas, maliciosas e ainda por cima incapazes de produzir energias c√≠vicas superiores.¬†

N√£o houve quem n√£o lesse a entrevista concedida pelo Presidente da Rep√ļblica √† revista Veja de semanas atr√°s. Fernando Henrique Cardoso falou como Presidente e como soci√≥logo. Usou e abusou de cita√ß√Ķes, refer√™ncias eruditas, cr√≠ticas e ironias. Mostrou estar t√£o afiado quanto nos tempos em que, como intelectual e como parlamentar, se batia pela democratiza√ß√£o do pa√≠s. Mostrou, tamb√©m, n√£o ter perdido a habilidade de difundir uma explica√ß√£o do Brasil, de que √© t√£o rica sua trajet√≥ria pessoal. Como n√£o poderia deixar de ser, tratou-se de uma fala program√°tica, no melhor estilo: uma apresenta√ß√£o de prioridades, √™nfases, sinaliza√ß√Ķes, quase uma agenda de persuas√£o.¬†

Vista deste √Ęngulo, a entrevista presidencial s√≥ merece aplausos. Pode-se dela discordar, mas n√£o se pode negar a ela o m√©rito de ter sido propositiva e, ao s√™-lo, de oferecer um fino panorama do est√°gio atual do pensamento de FHC.¬†

Revelando clara voca√ß√£o ecl√©tica, o presidente-soci√≥logo cercou-se de s√≠mbolos para legitimar seu discurso e direcion√°-lo para o refor√ßamento das bases de sustenta√ß√£o de seu governo. Foi da direita √† esquerda como se passa da noite ao dia. Relutou em rotular o campo mais conservador, preferindo confiar nas inten√ß√Ķes "socialistas" de alguns de seus integrantes. Foi ameno com os neoliberais e os arautos da globaliza√ß√£o, que apresentariam a vantagem de andar com o foco no futuro. Mas n√£o poupou farpas, evidentemente, √† esquerda, da qual julga ser o √ļnico representante aut√™ntico: "uma esquerda que √© contra reformar e que n√£o tem o pensamento da transforma√ß√£o n√£o √© esquerda; esquerda sou eu".¬†

O Presidente quis demonstrar que est√° filiado ao que h√° de mais avan√ßado no mundo: a interdepend√™ncia econ√īmica, a radicaliza√ß√£o da democracia, a reforma do Estado, o fim dos privil√©gios. Para tanto, n√£o poupou esfor√ßos: chamou em seu aux√≠lio os mais variados √≠cones e conceitos, tomando de empr√©stimo peda√ßos inteiros do arsenal ideol√≥gico de seus advers√°rios. Remeteu-se, por exemplo, a Antonio Gramsci, celebrado pensador comunista italiano, um dos mais poderosos te√≥ricos marxistas da pol√≠tica, autor de uma vasta e renovadora obra sobre o Estado, a sociedade civil, a hegemonia, a revolu√ß√£o. O Presidente, por√©m, n√£o foi √† fonte: trouxe-nos um Gramsci processado pela luta pol√≠tica, seguindo a interpreta√ß√£o de Massimo D''Alema, principal dirigente do Partido Democr√°tico da Esquerda, uma das fam√≠lias em que se dividem os comunistas italianos. O Gramsci presidencial n√£o √© um revolucion√°rio, mas um "democrata progressista", talvez um "p√≥s-comunista", mas seguramente algu√©m bem pr√≥ximo do liberalismo. "Seja qual for a origem dos que est√£o pensando o progressismo hoje, s√£o gramscianos", disse, insinuando ser esse o grupo a que ele pr√≥prio pertence. Mas como Gramsci, perguntar√° o leitor mais bem informado? O grande italiano n√£o era um revolucion√°rio, um comunista, um radical? Era, responderia FHC, mas n√£o era mais marxista-leninista-estatizante: era um "social-democrata" de novo tipo, admirador apaixonado dos "valores de liberdade, dinamismo e responsabilidade individual", de tudo o que "hoje seria chamado de liberalismo".¬†

N√£o h√° como impedir que grandes pensadores sejam objeto de disputas acerbas. O Gramsci presidencial mostra, claramente, a for√ßa e a vitalidade do pensamento deste comunista que, morto ao final do fascismo, h√° exatos sessenta anos, manteve-se como refer√™ncia para a an√°lise dos complexos problemas do mundo contempor√Ęneo. Mas o "gramscianismo" √† moda de FHC n√£o expressa uma admira√ß√£o, nem muito menos a aceita√ß√£o de um pensamento: √© acima de tudo uma deliberada manipula√ß√£o ideol√≥gica, uma tentativa de transfigura√ß√£o. O Gramsci liberal de Fernando Henrique √© uma boutade te√≥rica e um mau-passo pol√≠tico-doutrin√°rio: sendo Gramsci o que √© -¬†um comunista democr√°tico e revolucion√°rio em pol√≠tica, materialista e dial√©tico em filosofia -, n√£o se sabe bem que "estragos" poder√° ele causar ao entrar em contato com as outras propostas aninhadas no ecletismo presidencial. Pode ajudar o Presidente a incomodar a esquerda e a afagar os "ex-comunistas gramscianos" do Senador Roberto Freire, misturando ainda mais as cartas j√° confusas do comunismo tupiniquim. Mas pode tamb√©m ser a porta de entrada de um processo de banaliza√ß√£o e falseamento te√≥rico que n√£o s√≥ desmerecer√° a intelig√™ncia presidencial como poder√° abalar, no m√©dio prazo, sua pr√≥pria opera√ß√£o pol√≠tica pr√°tica.

----------

Marco Aurélio Nogueira é professor de Teoria Política da Unesp/Araraquara.



Fonte: Jornal da Tarde, S√£o Paulo, 25 out. 1997, p. 2.

  •