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Gramsci e Togliatti

Guido Liguori - 2001
 

1. A reapresenta√ß√£o dos escritos togliattianos dedicados a Gramsci, numa colet√Ęnea ampliada em rela√ß√£o √†s anteriores [1] - faz tempo esgotadas e n√£o dispon√≠veis - tem uma precisa raz√£o de ser: entre os cerca de quinze mil itens na bibliografia mundial dos escritos sobre Gramsci [2], o "livro" que Togliatti comp√īs paulatinamente sobre seu antigo companheiro de lutas, num arco de tempo que vai de 1927 a 1964 (desde o processo que se concluiu com a condena√ß√£o do comunista sardo at√© a morte do l√≠der do PCI), tem, de fato, poucos outros iguais em rela√ß√£o √† influ√™ncia historicamente exercida e ao papel decisivo em determinar a "fortuna" do autor dos Cadernos do c√°rcere [3]. Sem o trabalho de editor e int√©rprete desempenhado por Togliatti, hoje talvez Gramsci n√£o seria o Gramsci que conhecemos: suas anota√ß√Ķes carcer√°rias e suas cartas provavelmente s√≥ teriam emergido em anos recentes dos arquivos da ex-Uni√£o Sovi√©tica, com as respectivas inc√≥gnitas ligadas √† sua compreens√£o e valoriza√ß√£o; seu nome seria hoje o de um m√°rtir antifascista, de um comunista original e inovador, "desaparecido" talvez cedo demais para demonstrar plenamente o pr√≥prio valor. O rico laborat√≥rio dos Cadernos e a grandeza moral das Cartas n√£o seriam conhecidos al√©m de um c√≠rculo muito restrito de parentes e amigos. De qualquer modo, Gramsci n√£o teria se tornado o ensa√≠sta italiano moderno mais lido, mais traduzido, mais citado, mais conhecido no mundo.

Mas n√£o √© s√≥ uma raz√£o de car√°ter historiogr√°fico - inerente √† hist√≥ria da fortuna de Gramsci - que sugere a oportunidade do presente volume. O conjunto dos escritos, dos discursos, das leituras dedicadas por Togliatti ao comunista sardo tamb√©m merece ser lido, ou relido, porque fornece ainda hoje - misturados com elementos efetivamente corro√≠dos pelo tempo - indica√ß√Ķes e chaves de leitura √ļteis para compreender o pensamento complexo, tortuoso, dif√≠cil dos Cadernos. Gramsci √© um autor mais vital e moderno, maior, sob muitos pontos de vista, do que aquele que emerge do "uso" que dele fizeram Togliatti e o PCI (como, no fim, o pr√≥prio Togliatti compreendeu e fez quest√£o de dizer) [4]. Mas este Gramsci "togliattiano" tamb√©m est√° cheio de indica√ß√Ķes essenciais, que, quando foram esquecidas ou intencionalmente ignoradas, levaram, e ainda apresentam o risco de levar, a equ√≠vocos substanciais sobre o legado do pensador sardo.

J√° faz tempo (ainda vivo Togliatti) que desapareceu a representa√ß√£o da rela√ß√£o entre os dois dirigentes comunistas em termos de total continuidade. J√° faz tempo que se insiste, at√© o exagero, mais sobre suas diferen√ßas do que sobre suas afinidades. Talvez tenha chegado o momento de tornar a ler a rela√ß√£o entre estes dois personagens t√£o ricos e complexos, evitando tanto os mitos do passado quanto a atitude oposta que, talvez por rea√ß√£o, ou mesmo por mal√≠cia pol√≠tica, quis sublinhar apenas a dist√Ęncia entre eles. Ler hoje estes escritos sine ira et studio, obviamente livres de qualquer hipoteca hagiogr√°fica, mas tamb√©m de qualquer hostilidade preconcebida, j√° serviria para evitar muitas das dificuldades interpretativas e dos verdadeiros equ√≠vocos que se registraram no curso das √ļltimas d√©cadas.

2. As leituras togliattianas de Gramsci podem ser subdivididas em três fases distintas: os anos do fascismo, a partir da detenção do comunista sardo; o período que vai da Libertação até o fim do stalinismo; os anos compreendidos entre "o inesquecível ano de 1956" e a morte de Togliatti.

O primeiro escrito - "Antonio Gramsci, um dirigente da classe operária (por ocasião do processo de Roma)" - apareceu em Lo Stato operaio, a revista teórico-política do PCI, em outubro de 1927. Gramsci tinha sido detido um ano antes e se preparava aquele "grande processo" contra o grupo dirigente comunista, que, em junho de 1928, condenaria o líder sardo a vinte anos de cárcere. O artigo de Togliatti se insere no quadro da campanha de imprensa que foi deflagrada em apoio aos comunistas prisioneiros dos cárceres fascistas. Mas, ao mesmo tempo, dela se afasta muito, pela profundidade de reflexão, pela incisividade com a qual era sublinhada a estatura intelectual do comunista sardo e narrada sua biografia cultural e política.

Havia transcorrido um ano n√£o s√≥ desde a deten√ß√£o de Gramsci, mas tamb√©m desde a profunda diverg√™ncia que havia contraposto, imediatamente antes, os dois dirigentes m√°ximos do partido italiano, com a conhecida troca de cartas sobre a luta interna do grupo dirigente bolchevique. Os estudos mais recentes [5] e a documenta√ß√£o que s√≥ se tornou dispon√≠vel nos √ļltimos anos convergem no sentido de fornecer uma leitura parcialmente nova dos acontecimentos [6]. Antes de mais nada, desmontando a "acusa√ß√£o", por muito tempo dirigida a Togliatti, de n√£o ter querido entregar a primeira das duas cartas escritas por Gramsci, em nome do bir√ī pol√≠tico do PCI e endere√ßada ao comit√™ central do Partido Comunista Russo [7]. Os documentos hoje nos dizem que Togliatti-Ercoli (que, desde fevereiro de 1926, se encontrava em Moscou como representante do partido italiano junto √† Internacional), autorizado pelo pr√≥prio Gramsci a mostrar a carta, pr√©via e reservadamente, a alguns dos dirigentes russos mais "respons√°veis" [8], considerando-a equivocada e superada pelos acontecimentos, pediu ao mesmo bir√ī pol√≠tico permiss√£o para n√£o entreg√°-la [9] e discutir em breve seus temas numa outra inst√Ęncia pol√≠tica j√° convocada, e obteve autoriza√ß√£o para tanto [10].

√Ä parte este comportamento formalmente correto (que, no entanto, √© um ponto importante), resta a divis√£o profunda entre Gramsci e Togliatti em outubro de 1926, testemunhada pela segunda carta que Gramsci escreveu, desta vez a t√≠tulo pessoal e endere√ßada a Togliatti [11]. Um conflito eminentemente pol√≠tico - como j√° se disse [12] -, que dava seq√ľ√™ncia a toda uma s√©rie de diverg√™ncias surgidas no curso daquele ano (sobre a t√°tica sindical, sobre o "caso Bordiga") entre Togliatti em Moscou e o grupo dirigente comunista na It√°lia, e que culminou na diverg√™ncia pol√≠tico-estrat√©gica de outubro, que se pode resumir nas dram√°ticas quest√Ķes sobre a possibilidade-necessidade de edificar o socialismo "num s√≥ pa√≠s" ou sobre as possibilidades da revolu√ß√£o no Ocidente numa fase de "estabiliza√ß√£o capitalista". Sobre este tema, a posi√ß√£o de Togliatti aparece, de fato, n√£o s√≥ mais "realista" mas tamb√©m politicamente "justa", incorporando o dado (que tamb√©m vai estar na base da reflex√£o carcer√°ria de Gramsci) de que j√° se estava diante de uma derrota epocal. O que tamb√©m √© atestado pelo fato de que o pr√≥prio Gramsci, nos Cadernos, n√£o teria d√ļvidas em afirmar o car√°ter err√īneo da linha pol√≠tica de Trotski, alternativa √†quela proposta pela maioria √† qual Togliatti aderia com convic√ß√£o [13]. Ainda que seja verdade que a carta de Gramsci ao grupo dirigente bolchevique - acusado de n√£o saber conduzir as divis√Ķes em seu interior de modo pol√≠tico, e n√£o disciplinar -, lida hoje, mostra-se rica de uma extraordin√°ria capacidade "prof√©tica" sobre os riscos do processo degenerativo da revolu√ß√£o sovi√©tica, o "stalinismo", ent√£o apenas no in√≠cio [14].

Resta o fato de que, deste reexame, sai parcialmente reduzida a "ruptura" entre Gramsci e Togliatti em 1926. Houve certamente um duro choque (mas a dureza, no embate pol√≠tico, era pr√≥pria da √©poca, e Gramsci, por certo, dela n√£o estava isento), uma diverg√™ncia profunda, que a deten√ß√£o de Gramsci, em 8 de novembro de 1926, n√£o permitiu superar explicitamente: a divis√£o permaneceu cristalizada, sobretudo aos olhos dos p√≥steros. A verdadeira ruptura (pol√≠tica, mas tempor√°ria, n√£o disciplinar-organizativa nem definitiva) entre Gramsci e o PCI, Togliatti inclusive, se deu mais adiante, diante da "virada" de 1929 e da pol√≠tica do "socialfascismo". Gramsci no c√°rcere e Togliatti em Moscou ou em Paris continuaram a se falar √† dist√Ęncia e por interposta pessoa - atrav√©s de Tania, de Sraffa e do "c√≠rculo virtuoso" de cartas que uniu singularmente estes personagens por um dec√™nio -, uma condi√ß√£o dif√≠cil, inclusive pelos graves erros que foram cometidos pelos comunistas, italianos e n√£o-italianos, sobre o modo de ajudar Gramsci no c√°rcere e de tentar sua liberta√ß√£o [15]. De resto, as leituras que insistiram excessivamente na suposta "ruptura" entre Gramsci no c√°rcere e o movimento comunista [16] - √†s vezes de boa-f√©, mas freq√ľentemente de modo encoberto e malicioso, especulando, por exemplo, sobre a "estranha" carta de Grieco em 1928 [17] - se chocam com um documento que, no estado atual dos conhecimentos, invalida pela raiz seu teorema: o pedido √†s autoridades italianas, combinado por Gramsci com Sraffa em 18 de abril de 1937, apenas nove dias antes da morte, para ser expatriado para a Uni√£o Sovi√©tica [18]. Um passo inexplic√°vel para um homem que se sente tra√≠do, isolado, abandonado pelos seus companheiros.

Este o quadro - evocado necessariamente de modo sint√©tico - em que se inseriram os primeiros escritos togliattianos dedicados a Gramsci. No primeiro deles, que apareceu, como se disse, em 1927, Togliatti n√£o mencionava as diverg√™ncias do ano anterior, mas, pelo contr√°rio, reafirmava com vigor todos os m√©ritos de Gramsci em rela√ß√£o √† luta contra o "bordiguismo" (ent√£o equiparado - no movimento comunista internacional - ao trotskismo), √† supera√ß√£o da "primeira fase", sect√°ria e extremista, do PCI. Assim, neste artigo voltavam minuciosamente os principais motivos pol√™micos que, nos anos 1920, haviam contraposto Gramsci e Bordiga: Togliatti recha√ßava as acusa√ß√Ķes de "intelectualismo" (formuladas, ele especificava, "entre n√≥s e por parte dos advers√°rios"); defendia a legitimidade do caminho at√© o marxismo a partir de Hegel, a √ļnica "estrada mestra" que permitia alcan√ßar a compreens√£o daquele "sentido de historicidade de tudo o que √© real", pr√≥prio da dial√©tica hegeliana e marxista, que havia caracterizado o pensamento do jovem sardo transplantado em Turim (cujos estudos de glotologia, neste quadro, tamb√©m eram lembrados, um dado, ali√°s, por muito tempo posto √† parte pelos estudiosos de Gramsci); exaltava a intui√ß√£o sobre o papel dos conselhos de f√°brica, ligando-os ao tema da revolu√ß√£o e do Estado; negava que, em tal per√≠odo, Gramsci n√£o tivesse presente o problema do partido, n√£o um partido-seita, certamente, mas um partido "parte" da classe, isto √©, profundamente ligado √†s massas; n√£o hesitava em recordar como ele mesmo e tantos outros dirigentes do PCI s√≥ haviam abandonado as posi√ß√Ķes bordiguistas, √†s quais terminaram por aderir em 1921-1922, gra√ßas √† Gramsci: "sem Gramsci, n√£o ter√≠amos feito t√£o rapidamente o progresso que fizemos a partir de 1924. Foi ele quem superou as resist√™ncias que ainda havia em alguns de n√≥s, ele deu unidade e homogeneidade ao nosso centro dirigente e reuniu, em torno deste centro, todo o partido" [19].

Uma reconstrução de temas e momentos do percurso gramsciano feita no fogo da luta, que não podia ser sempre explícita, mas fornecia um quadro substancialmente exato do que tinha sido e do que era Gramsci e das características essenciais de seu pensamento. Uma nítida tomada de posição política, que, um ano depois da carta de crítica à maioria do partido bolchevique, também soava como defesa de Gramsci e reafirmação de sua liderança diante do partido russo, da Internacional e também - sob outros aspectos - diante do partido italiano, que em parte ainda devia superar o "extremismo" de sua fase bordiguista.

Com a "virada" de 1929, a implementa√ß√£o da pol√≠tica do "socialfascismo" e sua imposi√ß√£o a todos os partidos da Internacional, cresceu a dist√Ęncia entre Gramsci no c√°rcere e Togliatti, que, √† frente do PCI, havia ent√£o aceito plenamente - depois de uma tentativa extrema realizada na d√©cima plen√°ria da Internacional Comunista, em julho de 1929 [20] - o novo curso staliniano, que, de fato, invertia a formula√ß√£o pol√≠tica de 1926 e voltava a apostar numa crise incipiente e catastr√≥fica do capitalismo: uma nova onda revolucion√°ria batia √† porta. √Č conhecida a diverg√™ncia que, sobre este ponto, manifestou Gramsci na penitenci√°ria de Turi, diverg√™ncia ligada - hoje podemos bem ver - a toda a reflex√£o contida nos Cadernos do c√°rcere. Nas discuss√Ķes ocorridas em 1930 com os presos comunistas, Gramsci defendeu a tese da necessidade de uma fase "democr√°tica" para sair do fascismo, apresentando a palavra de ordem da Constituinte republicana. Todavia, a profunda diverg√™ncia de Gramsci em rela√ß√£o √† pol√≠tica do partido jamais implicou nenhuma provid√™ncia "disciplinar", de expuls√£o, como por muito tempo se fantasiou, sobretudo por parte da public√≠stica menos s√©ria. Nunca se interrompeu a rela√ß√£o com Togliatti, confiada ao habitual "c√≠rculo virtuoso" Tania-Sraffa [21].

Real, e significativa, no entanto, √© a escassa presen√ßa de Gramsci em Lo Stato operaio entre 1931 e 1932 [22]. A diverg√™ncia sobre a "virada", talvez mais do que a carta de 1926, ou ambas, aconselhavam - no novo clima ent√£o imperante na Uni√£o Sovi√©tica - um comportamento de m√°xima cautela. Mas Gramsci n√£o foi "condenado" como her√©tico, n√£o foi expulso como "os tr√™s", Leonetti, Tresso e Ravazzoli, que se opuseram ao caminho tomado pelo movimento comunista internacional. Talvez n√£o tivesse sido dif√≠cil - se, como alguns insinuaram, Togliatti quisesse se desembara√ßar politicamente de Gramsci - envolver este na gritaria feroz contra o trotskismo. Togliatti escolheu o sil√™ncio (em p√ļblico, porque pouco mudou nos bastidores). E, quando as escolhas pol√≠ticas da URSS e da Internacional o permitiram - com o VII Congresso e a pol√≠tica das "frentes populares", n√£o coincidentes mas pelo menos convergentes com a citada proposta da "Constituinte", isto √©, de "uma a√ß√£o comum com todos os grupos antifascistas para a derrubada da monarquia e do regime mussoliniano" [23] -, a presen√ßa de Gramsci voltou a ser destacada, seja nas p√°ginas das publica√ß√Ķes do PCI e da Internacional, seja nas manifesta√ß√Ķes e agita√ß√Ķes antifascistas dos comunistas, n√£o s√≥ italianos [24]. As escolhas de Togliatti eram ditadas, como de costume, pela m√°xima cautela: era o dirigente de um partido reduzido a pouca coisa, espremido entre c√°rcere, clandestinidade e ex√≠lio, que tinha no apoio da Uni√£o Sovi√©tica a condi√ß√£o imprescind√≠vel para continuar a luta: para continuar a existir. Ademais, depois da d√©cima plen√°ria, Togliatti interpretou com convic√ß√£o a nova pol√≠tica decidida pela Internacional. O dado saliente, no entanto, n√£o reside nas motiva√ß√Ķes interiores do personagem, mas na compreens√£o do fato de que toda uma situa√ß√£o hist√≥rica havia mudado radicalmente ao cabo de poucos anos. Por uma parte, a progressiva deteriora√ß√£o da situa√ß√£o pol√≠tica na Europa Ocidental, por outra o fechamento de todo espa√ßo de discuss√£o real e expl√≠cita no movimento comunista internacional. Foi nesta situa√ß√£o dific√≠lima que Togliatti conseguiu salvar n√£o s√≥ a si mesmo e a seu partido, mas tamb√©m a Gramsci. Assim que se determinaram as circunst√Ęncias de uma nova "viabilidade pol√≠tica", tamb√©m a "pol√≠tica de Gramsci" (obviamente, tal como Togliatti a interpretava e adaptava √†s condi√ß√Ķes da a√ß√£o efetiva) foi reproposta por Ercoli.

Nas contribui√ß√Ķes togliattianas escritas por ocasi√£o da morte de Gramsci, em 1937-1938 [25], n√£o poucas s√£o as incrusta√ß√Ķes que assinalam o novo clima existente na Internacional, a situa√ß√£o que - com express√£o sum√°ria, mas facilmente compreens√≠vel - se costuma designar como "stalinismo". Gramsci se tornava um "leninista e stalinista fiel" [26], que lan√ßava do c√°rcere "a palavra de ordem bastante significativa: Trotski √© a puta do fascismo" [27]; Bordiga, um "canalha trotskista", de quem se acusava o comprometimento com o fascismo [28]. Mas esta tamb√©m era uma tentativa de salvarguardar o nome de Gramsci, para lig√°-lo √† Internacional ent√£o dominada por Stalin, e de defender a especificidade de uma tradi√ß√£o pol√≠tica que, dali a poucos meses, Togliatti deveria salvar contra o pr√≥prio grupo dirigente do PCI. Com efeito, em 1938, em plena onda repressiva staliniana, durante a qual foi dissolvido pelo Komintern o comit√™ central do partido italiano, sob as cr√≠ticas da Internacional e na aus√™ncia de Togliatti, alguns dirigentes de primeiro plano exprimiram, numa reuni√£o da secretaria (em 12 de agosto de 1938), a opini√£o de rever criticamente as "oscila√ß√Ķes" que o partido - isto √©, primeiro Gramsci, depois Togliatti - teria demonstrado, em 1926 e em 1928-1929, quanto √† luta no grupo dirigente bolchevique, bem como a exig√™ncia de tomar publicamente uma posi√ß√£o contra a carta de Gramsci de 1926, h√° pouco divulgada pela primeira vez, na Fran√ßa, por Angelo Tasca. Togliatti se op√īs a esta orienta√ß√£o, impedindo logo no in√≠cio uma revis√£o das posi√ß√Ķes de Gramsci que teria implicado a "condena√ß√£o" do dirigente sardo no √Ęmbito do movimento comunista internacional [29]. Um epis√≥dio fundamental, que indica como a "gest√£o togliattiana" da heran√ßa de Gramsci n√£o fosse, nem em 1938, um dado definitivo.

Se formos al√©m de certas express√Ķes que encontramos nestes textos, ligadas aos tristes condicionamentos da √©poca, n√£o se pode deixar de relevar como Togliatti delineia, de um modo ou de outro, um quadro substancialmente exato do pensamento e da obra de Gramsci a partir dos anos da I Guerra Mundial. N√£o s√≥ um m√°rtir assassinado pelo fascismo (como Amendola, Gobetti, Matteotti), n√£o s√≥ um "grande italiano" combatente pela liberdade (como Dante e Galileu, Bruno e Campanella, Mazzini e Garibaldi), mas tamb√©m um marxista e um revolucion√°rio conseq√ľente: n√£o s√≥ um intelectual, mas um combatente pol√≠tico. Eram assim reconstru√≠dos - com o pensamento gramsciano - a recep√ß√£o do Outubro na It√°lia e o per√≠odo dos conselhos, a alternativa entre rea√ß√£o e revolu√ß√£o, a quest√£o meridional e a perspectiva da alian√ßa entre oper√°rios e camponeses (as "for√ßas motrizes da revolu√ß√£o italiana" [30]), a concep√ß√£o do partido como partido de massas e n√£o de elite. E n√£o se trata de um escrito puramente celebrativo: Gramsci tamb√©m tinha cometido erros (e, para Togliatti, era tamb√©m uma autocr√≠tica), quando, por exemplo, o grupo de L¬íOrdine Nuovo, no "bi√™nio vermelho" de 1919-1920, n√£o se havia organizado em base nacional, deixando assim a Bordiga a dire√ß√£o da ala comunista do PSI, ou quando, em 1922, n√£o havia come√ßado logo a batalha pol√≠tica contra a dire√ß√£o bordiguiana. Apesar de algumas distor√ß√Ķes, a reconstru√ß√£o dos acontecimentos hist√≥ricos colhia a subst√Ęncia dos processos vividos em comum pelos dois dirigentes comunistas. Restavam em sil√™ncio as diverg√™ncias de 1926 e de 1929-1930: um pre√ßo pago no altar da salvaguarda da mem√≥ria de Gramsci e de sua heran√ßa atrav√©s das vicissitudes do stalinismo. Um pre√ßo n√£o desprez√≠vel, o qual, no entanto, n√£o pode ser superestimado, a n√£o ser se equipararmos indevidamente nossa consci√™ncia e liberdade - n√≥s, leitores de hoje - com as dos atores de ent√£o.

Acima de tudo, o que deve ser sublinhado no escrito de 1937-1938 √© que o n√ļcleo do ensinamento gramsciano era colhido por Togliatti - e constitu√≠a uma indica√ß√£o que a leitura subseq√ľente dos Cadernos iria refor√ßar notavelmente e que hoje, erradamente, se tende a negar ou inverter de modo desenvolto, numa √Ęnsia equ√≠voca de "atualiza√ß√£o" - na indica√ß√£o "da classe oper√°ria como a primeira, a √ļnica, a verdadeira classe nacional, √† qual cabe resolver todos os problemas que n√£o foram resolvidos pela burguesia e pela revolu√ß√£o burguesa" [31]. A capacidade de compreender como o movimento comunista, mesmo continuando a ser internacionalista, n√£o podia deixar de se inserir profundamente na realidade nacional, para desempenhar um papel efetivo e n√£o se reduzir a puro testemunho ou agita√ß√£o minorit√°ria, ser√° o eixo do ensinamento gramsciano que Togliatti vai p√īr no centro da pr√≥pria a√ß√£o pol√≠tica e que vai assinalar um per√≠odo importante de lutas e de conquistas, sobretudo a partir do fim do fascismo [32]. Portanto, uma convic√ß√£o que n√£o s√≥ est√° presente desde os anos trinta, mas que desde ent√£o estava diretamente ligada ao pensamento de Gramsci, elabora√ß√£o que Togliatti podia valorizar plenamente no novo per√≠odo do movimento comunista internacional iniciado em 1934-1935. "Nos √ļltimos tempos - a afirma√ß√£o de Togliatti j√° est√° no discurso feito em Moscou um m√™s depois da morte do comunista sardo -, tendo tido sinal do VII Congresso da Internacional, todo o seu pensamento estava orientado para a busca das formas de realiza√ß√£o da frente popular antifascista na It√°lia [...]. A sua id√©ia fundamental era que, depois de quinze anos de ditadura fascista que desorganizou a classe oper√°ria, n√£o √© poss√≠vel que a luta de classes contra a burguesia reacion√°ria recomece a se desenvolver a partir das posi√ß√Ķes que o proletariado tinha alcan√ßado no imediato p√≥s-guerra. Indispens√°vel √© um per√≠odo de luta pelas liberdades democr√°ticas e a classe oper√°ria deve estar √† frente desta luta" [33]. O Gramsci togliattiano e a pol√≠tica togliattiana do p√≥s-guerra - uma pol√≠tica democr√°tica e nacional - j√° estavam claramente presentes desde 1937-1938.

3. De volta √† It√°lia em mar√ßo de 1944, Togliatti imprimiu aquela "virada de Salerno", que n√£o significou apenas uma mudan√ßa da pol√≠tica comunista quanto √† monarquia e √† quest√£o institucional, no √Ęmbito da luta contra o nazifascismo, mas tamb√©m o in√≠cio de um novo modo de ser do Partido Comunista Italiano, sob muitos aspectos distante da tradi√ß√£o e da matriz terceiro-internacionalista da qual provinha. As novidades da pol√≠tica togliattiana podem ser resumidas, antes de mais nada, na concep√ß√£o do "partido novo" e na √™nfase sobre o car√°ter democr√°tico e nacional da a√ß√£o do PCI. E, embora tal formula√ß√£o talvez encontrasse suas ra√≠zes sobretudo em alguns momentos do percurso togliattiano dos anos trinta (a √©poca das frentes populares, a experi√™ncia da guerra civil espanhola, a reflex√£o sobre as novas caracter√≠sticas do fascismo e da sociedade de massas), as refer√™ncias a Gramsci, em busca de apoio a esta nova pol√≠tica, eram muito freq√ľentes neste per√≠odo [34].

N√£o devem ser subestimadas as indiscut√≠veis distin√ß√Ķes existentes entre a elabora√ß√£o de Gramsci no c√°rcere e a elabora√ß√£o te√≥rico-pol√≠tica togliattiana: a "guerra de posi√ß√£o" gramsciana era uma estrat√©gia de alcance mais amplo em rela√ß√£o √† "pol√≠tica de unidade antifascista" do PCI no p√≥s-guerra, ela indicava modos novos de luta anticapitalista e de transi√ß√£o ao socialismo que Togliatti e seu partido s√≥ em parte souberam e puderam tentar. E n√£o deve ser esquecido que as caracter√≠sticas da pol√≠tica que Togliatti p√īde desenvolver a partir de Salerno, numa situa√ß√£o por muitos aspectos nova, tamb√©m se distanciam de Gramsci quanto √† aceita√ß√£o do pluralismo e da democracia pol√≠tica. Pode-se afirmar que Togliatti realizou amplamente uma pol√≠tica de inspira√ß√£o gramsciana, nos limites em que isso lhe era permitido por seu realismo no mundo p√≥s-Yalta.

Em 1944, Gramsci era, para a maioria, e at√© para os pr√≥prios militantes do PCI, um desconhecido. Foi Togliatti quem dele fez, ao cabo de poucos anos, o ponto de refer√™ncia da pol√≠tica e da cultura dos comunistas italianos. N√£o foi um caminho obrigat√≥rio mas uma escolha precisa, que se explica, antes de mais nada, com a forma√ß√£o pol√≠tica e cultural comum e com a reflex√£o distinta, mas n√£o divergente, dos anos trinta: uma rela√ß√£o complexa, com luzes e sombras, mas tamb√©m profunda. Ao lado disso, houve a necessidade de reiterar a peculiaridade do comunismo italiano, de reafirmar (ainda que sem romper com a URSS, inclusive √† custa de in√ļmeros sincretismos) uma linha pol√≠tica que Togliatti havia levado adiante sempre que as rela√ß√Ķes de for√ßa, internas ou externas ao movimento comunista internacional, lhe possibilitaram. A tentativa togliattiana era tamb√©m a de dar uma tradi√ß√£o hist√≥rica a seu partido e √†s massas que o seguiam, bem como a de ligar √†quele e a estas √ļltimas os intelectuais antifascistas, indicando o exemplo de um "grande intelectual" a ser seguido. Se √© verdade que, apresentando a pr√≥pria pol√≠tica como "a pol√≠tica de Gramsci", Togliatti cometia (s√≥ em parte) uma distor√ß√£o historiogr√°fica, tamb√©m √© verdade que ele assim fornecia uma ancoragem forte ao "partido novo", vencendo as resist√™ncias dos setores mais ligados √† URSS ou √†s ilus√Ķes insurrecionais.

Desde o momento em que p√īde falar de Gramsci na It√°lia libertada (ou parcialmente libertada) pelo nazifascismo, Togliatti recordou sua indica√ß√£o de uma pol√≠tica "nacional" [35], de uma pol√≠tica de alian√ßas entre oper√°rios, camponeses e intelectuais [36], baseada na "fun√ß√£o nacional da classe oper√°ria" [37]. Assim, a "pol√≠tica de Salerno" se identificava com a leitura de Gramsci, apontando um fio condutor que j√° come√ßava - segundo Togliatti - com L¬íOrdine Nuovo, cuja interpreta√ß√£o, j√° contida nos escritos dos anos trinta, era esbo√ßada e seria repetida v√°rias vezes. A mensagem que a refer√™ncia a Gramsci devia veicular ia al√©m do corpo dos militantes do PCI, buscava atingir a todos os italianos. A pol√≠tica de unidade antifascista, na qual Togliatti se basearia por todo o p√≥s-guerra, tinha em Gramsci um ponto de refer√™ncia fundamental. No discurso pronunciado no Teatro San Carlo, de N√°poles, em 29 de abril de 1945, referindo-se a 1924-1926, Togliatti afirmava que "a id√©ia central da a√ß√£o pol√≠tica de Gramsci foi a id√©ia da unidade: unidade dos partidos oper√°rios na luta pela defesa das institui√ß√Ķes democr√°ticas e pela derrubada do fascismo; unidade dos partidos oper√°rios com as for√ßas democr√°ticas [...]; unidade das massas trabalhadoras socialistas com as massas trabalhadoras cat√≥licas da cidade e do campo, unidade dos oper√°rios, unidade de oper√°rios e camponeses, unidade de trabalhadores manuais e intelectuais, para a cria√ß√£o de um grande bloco de for√ßas nacionais, com base no qual fosse poss√≠vel barrar o caminho de novos avan√ßos do fascismo e salvar - como ent√£o ainda teria sido poss√≠vel - o nosso pa√≠s" [38]. Na realidade, esta linha pol√≠tica da unidade - claramente projetada para a situa√ß√£o do p√≥s-guerra - tinha fundamento, sobretudo, nas reflex√Ķes carcer√°rias do Gramsci que indicava o objetivo da Constituinte. Seja como for, Togliatti permanecia dentro de um caminho, de uma tradi√ß√£o, de uma metodologia, de indica√ß√Ķes que eram as de Gramsci, ainda que pouco ou nada este pudesse dizer, na metade dos anos trinta, para n√£o falar da d√©cada anterior, sobre a situa√ß√£o inteiramente nova que se criaria com a derrota do nazifascismo. Togliatti permaneceu coerente com esta formula√ß√£o pol√≠tica, mesmo num quadro nacional e internacional que mudava rapidamente. Ainda em 1947, ele advertia: "Ai de n√≥s, comunistas, se acredit√°ssemos que o patrim√īnio de Antonio Gramsci √© somente nosso. N√£o, este patrim√īnio √© de todos, de todos os sardos, de todos os italianos, de todos os trabalhadores que combatem pela sua emancipa√ß√£o, seja qual for a sua f√© religiosa, seja qual for a sua cren√ßa pol√≠tica" [39]. Este "Gramsci de todos", contra o qual por muito tempo se iria polemizar "√† esquerda" nos anos sessenta e setenta, era momento importante de uma luta pela hegemonia, que, ent√£o, Togliatti considerava mais aberta do que fosse na realidade. Em poucos meses, com o fim da unidade das for√ßas antifascistas, se fecharia um per√≠odo hist√≥rico e mudaria, mas s√≥ em parte, a leitura togliattiana do comunista sardo. Apesar de limites e certos deslocamentos, a opera√ß√£o em torno de Gramsci resta uma opera√ß√£o pol√≠tico-cultural de amplo f√īlego, cujo alcance se mostraria ainda mais evidente nos anos sombrios da guerra fria.

Naqueles anos, al√©m disso, Gramsci serviu a Togliatti e ao PCI para instaurar uma rela√ß√£o com os intelectuais, ent√£o tornada complexa at√© mesmo pelas fortes diferencia√ß√Ķes que caracterizavam estes √ļltimos. A todos eles, mas sobretudo aos de cultura neo-idealista, o PCI tentou falar atrav√©s de Gramsci, sua figura, seus escritos, tentando dar a muitos um terreno de unidade-distin√ß√£o com a forma√ß√£o crociana anterior e, assim, tamb√©m permitindo um parcial "transformismo dos intelectuais" [40]. Acima de tudo, na formula√ß√£o togliattiana, cabia "aos intelectuais de vanguarda" ser "herdeiros de tudo aquilo que existe de positivo e de progressista no desenvolvimento da cultura do nosso pa√≠s" [41]. A atitude em rela√ß√£o ao pr√≥prio Croce n√£o estava isenta de oscila√ß√Ķes, com a altern√Ęncia de tons mais conciliadores e de tons mais duros. Entre os primeiros, pode-se encontrar o ju√≠zo segundo o qual Gramsci havia compreendido "que a nova cultura idealista italiana representava um passo adiante no desenvolvimento da nossa cultura nacional [...], que n√£o era poss√≠vel adotar uma atitude estritamente negativa em rela√ß√£o a esta nova corrente intelectual, mas ele afirmava que devemos realizar, diante desta corrente filos√≥fica, uma opera√ß√£o an√°loga √†quela que Marx e Engels realizaram em seu tempo, quando, em rela√ß√£o √†s f√≥rmulas hegelianas, fizeram o que definiram como invers√£o da dial√©tica hegeliana" [42]. Entre os segundos, para continuar no √Ęmbito dos escritos sobre Gramsci, a pr√≥pria rea√ß√£o √† resenha que Croce havia escrito sobre as Cartas do c√°rcere, tentando contrapor Gramsci ao PCI [43]. "Como homem de pensamento, ele foi um dos nossos", havia escrito o fil√≥sofo liberal, relacionando as caracter√≠sticas que aproximavam Gramsci do neo-idealismo ("O renovado conceito da filosofia na sua tradi√ß√£o especulativa e dial√©tica, e n√£o positivista e classificat√≥ria, a ampla vis√£o da hist√≥ria, a uni√£o da erudi√ß√£o e do filosofar, o sentimento viv√≠ssimo da poesia e da arte no seu car√°ter original, e, com isso, o caminho aberto para reconhecer, na sua originalidade e autonomia, todas as categorias ideais") e contrapondo-o "aos intelectuais comunistas de hoje", que "muito se afastam do exemplo de Gramsci". Talvez por causa desta √ļltima afirma√ß√£o instrumental, mas, mais provavelmente, por causa de um outro (pouco contest√°vel) ju√≠zo de Croce, que contrapusera Gramsci ao "catecismo filos√≥fico escrito por Stalin", Togliatti reagiu com um tom incomumente rude √† estocada de "Dom Benedetto" [44].

De todo modo, a semente do marxismo gramsciano tinha sido lan√ßada: um marxismo antidogm√°tico, antideterminista, antifatalista, portanto muito mais vital e destinado a durar do que tantos "catecismos filos√≥ficos". Como, de resto, o pr√≥prio Togliatti tinha sublinhado desde 1945, em pol√™mica com Ernesto Buonaiuti, historiador cat√≥lico-modernista. A este, que havia afirmado que o m√©todo da an√°lise gramsciana era "n√£o-marxista", porque mais atento aos fatos superestruturais do que aos estruturais, Togliatti respondia que "o marxista n√£o reduz e n√£o pode reduzir a an√°lise dos fatos hist√≥ricos e pol√≠ticos ao destaque de uma simples rela√ß√£o de causa e efeito entre uma situa√ß√£o econ√īmica e uma situa√ß√£o pol√≠tico-social", porque "a pr√≥pria rela√ß√£o de causalidade √© algo muito complicado e implica a√ß√£o e rea√ß√£o, interdepend√™ncia e contraste" [45]. E indicava o tra√ßo distintivo de Gramsci justamente na compreens√£o do sistema de media√ß√Ķes atrav√©s do qual se chega da "economia" √†s "correntes de pensamento e de cultura", permitindo "intervir ativamente, como vanguarda organizada, para modificar o desenvolvimento hist√≥rico". Uma precisa acentua√ß√£o da riqueza do m√©todo gramsciano e de seus tra√ßos salientes, ainda hoje fundamental para compreender a li√ß√£o dos Cadernos.

4. Depois de 1948 e do in√≠cio da "guerra fria", mudava em parte a pol√≠tica do PCI: a "pol√≠tica de Salerno" se enfraquecia com a dureza da luta, a pol√≠tica cultural, a batalha ideol√≥gica, a pr√≥pria rela√ß√£o com os intelectuais sofriam um enrijecimento. A originalidade dos comunistas italianos n√£o desaparecia, mas a contradi√ß√£o entre a "via italiana" e a apaixonada ades√£o √† linha comunista estabelecida em torno da URSS provocava, tamb√©m no PCI e em Togliatti, o surgimento e o ressurgimento de pesadas hipotecas stalinistas e zdanovianas. A estrat√©gia togliattiana baseava-se na hip√≥tese de um longo per√≠odo de colabora√ß√£o entre os partidos democr√°ticos, ditada n√£o s√≥ pelos acordos de Yalta mas por uma an√°lise do fascismo como fase epocal, que levava Togliatti a temer a possibilidade de um retorno a formas abertamente reacion√°rias de hegemonia burguesa. Pelo menos at√© 1953, a √™nfase sobre o risco de involu√ß√£o era t√£o forte que tornava os comunistas pouco sens√≠veis diante dos processos de moderniza√ß√£o que estavam em curso no pa√≠s [46]. Tal atitude tamb√©m nascia de uma equivocada convic√ß√£o b√°sica de toda a cultura terceiro-internacionalista, segundo a qual era imposs√≠vel um novo desenvolvimento do capitalismo. Este erro de avalia√ß√£o, que talvez tenha constitu√≠do o limite principal do "marxismo de Togliatti" durante uma longa fase, revela-se ainda mais grave porque precisamente em Gramsci, em Americanismo e fordismo, estava dispon√≠vel uma leitura bem diversa da capacidade expansiva do capitalismo. N√£o casualmente, este texto permaneceu por muito tempo letra morta, estranho como era √† vis√£o estagnacionista dos comunistas; ao contr√°rio, o pref√°cio escrito em 1949 por Felice Platone para uma edi√ß√£o de divulga√ß√£o do Caderno 22 [47], depois de lembrar L¬íOrdine Nuovo e antes de encerrar com uma refer√™ncia √† "quest√£o meridional", se preocupava em advertir o leitor contra a id√©ia de tamb√©m considerar ainda atuais as an√°lises de Gramsci no tocante aos Estados Unidos: "Hoje, depois de uma segunda guerra mundial, temos diante dos nossos olhos um pa√≠s do fordismo bastante diferente daquele que Gramsci conhecia [...]. A Am√©rica vive hoje sob o pesadelo de uma nova crise econ√īmica, olha com apreens√£o a massa crescente dos seus desempregados" [48]. Seria preciso esperar at√© o in√≠cio dos anos setenta para que se come√ßasse a reconhecer a import√Ęncia das notas de Americanismo e fordismo [49].

Nesta fase, entre 1948 e 1953, acentuou-se a convicção da necessidade de estabelecer uma relação com uma tradição nacional-democrática (sobretudo, ao longo do eixo De Sanctis-Labriola), da qual o marxismo italiano podia se tornar o herdeiro graças ao papel de conexão constituído por Gramsci. E, se em 1945 Togliatti - na polêmica com Buonaiuti - tinha problematizado muito a relação Labriola-Gramsci, a partir de 1948 insistirá sobre sua continuidade: Gramsci será definido como "o maior discípulo e continuador de Labriola" [50].

A publica√ß√£o dos Cadernos do c√°rcere entre 1948 e 1951, pela Ed. Einaudi, acontecida, portanto, num per√≠odo de grandes dificuldades, entre riscos de isolamento e perigos de involu√ß√£o stalinista, contribuiu para dar de modo definitivo uma identidade peculiar ao PCI [51]. E, precisamente por isso, n√£o deixou de suscitar surpresa e mesmo desorienta√ß√£o [52]. Os Cadernos, de fato, se apresentavam como alternativa radical ao marxismo mecanicista do Diamat, √† ortodoxia marxista-leninista de marca staliniana. Togliatti estava consciente das conseq√ľ√™ncias problem√°ticas que a publica√ß√£o podia comportar [53]. Assim, a divis√£o tem√°tica, o tipo de "montagem" e disposi√ß√£o dos textos por ele escolhidos tamb√©m eram o meio pelo qual se compatibilizava de algum modo (mas n√£o inteiramente, segundo os testemunhos citados) ortodoxia sovi√©tica e legado gramsciano, orientando a leitura deste √ļltimo na dire√ß√£o da "especificidade nacional" e n√£o na das grandes disputas do movimento oper√°rio internacional dos anos vinte e trinta.

Seja como for, a subdivis√£o dos Cadernos segundo bases tem√°ticas, ainda que filologicamente critic√°vel e n√£o isenta de algumas censuras, teve o m√©rito de favorecer enormemente sua difus√£o e impacto cultural, ainda que provocasse in√ļmeros fen√īmeno de sincretismo [54]. Em rela√ß√£o ao mundo da cultura, reiterava-se, sobretudo, uma divis√£o cl√°ssica do saber, ocultando em grande parte o nexo entre reflex√£o carcer√°ria e hist√≥ria do movimento comunista. O efeito de ruptura que os Cadernos tiveram no panorama intelectual italiano foi enorme, produzindo uma renova√ß√£o profunda em v√°rios campos, da hist√≥ria √† literatura, dos estudos sobre o folclore ao pensamento pol√≠tico, √† pedagogia, etc. Em geral, pode-se dizer que "o reconhecimento do terreno nacional", pretendido por Gramsci, foi sobretudo um reexame historiogr√°fico: do Risorgimento √† quest√£o meridional e √† hist√≥ria dos intelectuais. De resto, era o pr√≥prio Togliatti quem propugnava esta dire√ß√£o: ainda intervindo na reuni√£o da comiss√£o cultural nacional do PCI, em 3 de abril de 1952, ele sublinhava a necessidade de uma investiga√ß√£o marxista sobre a hist√≥ria da It√°lia e da valoriza√ß√£o dos fins progressistas da tradi√ß√£o cultural nacional, como busca de um terreno de encontro com a cultura de nosso pa√≠s [55]. O que tamb√©m era o modo e o meio para se distanciar do modelo staliniano-zdanovista, sem, ao mesmo tempo, determinar uma ruptura aberta, politicamente insustent√°vel.

Um epis√≥dio significativo, que demonstra como Gramsci e sua li√ß√£o no campo historiogr√°fico n√£o fossem algo dado, mas constitu√≠am objeto de disputa com aqueles que permaneciam fi√©is aos v√°rios "catecismos" marxistas-leninistas, √© o epis√≥dio da diverg√™ncia entre um grupo de historiadores comunistas e Arturo Colombi. Este (chamado pelo diretor Ambrogio Donini a apresentar uma reuni√£o de especialistas no Instituto Gramsci) acusou os historiadores de se afastarem demais do modelo fornecido pelo Breve curso de hist√≥ria do PC(b), de Stalin, preferindo usar as categorias e a terminologia dos Cadernos. Na carta que, depois deste epis√≥dio, Togliatti escreveu a Donini, em apoio √†s posi√ß√Ķes daqueles historiadores, l√™-se entre outras coisas: "Se hoje, na It√°lia, conseguimos estabelecer amplos contatos com o mundo da cultura e nele penetrar, isso se deve ao fato de que evitamos a posi√ß√£o de ju√≠zes que se colocam de fora e tentamos desenvolver a nossa compet√™ncia, favorecemos e realizamos investiga√ß√Ķes objetivas, n√£o recha√ßamos ou, pior ainda, ignoramos o que vem de outras √°reas, entramos e permanecemos no debate sem ostentar pretens√Ķes de infalibilidade. Aqui est√°, de resto, um dos motivos do grande sucesso da obra de Gramsci, que chegou at√© os ju√≠zos mais duros, mas sempre seguindo passo a passo o advers√°rio, com escr√ļpulo de fil√≥logo e de verdadeiro estudioso [...]. Gramsci inaugurou uma historiografia marxista do nosso pa√≠s e, portanto, tamb√©m do nosso movimento oper√°rio. Talvez fosse melhor partir de Gramsci e captar bem a novidade do seu pensamento historiogr√°fico. Quanto √† cr√≠tica ao uso de uma terminologia inexata por parte de Gramsci [...], este se expressa tal como os estudiosos do seu tempo e do seu pa√≠s, sem fazer nenhuma concess√£o na subst√Ęncia dos ju√≠zos. Da√≠ a sua efic√°cia e mesmo a vitalidade e a vivacidade das suas posi√ß√Ķes. Por isso, o marxismo, nele, se torna instrumento de uma luta destrutiva e construtiva que a cultura italiana n√£o p√īde ignorar. Em cada pa√≠s, o marxismo deve saber lutar no terreno da cultura nacional, das suas tradi√ß√Ķes, do seu modo de ser e desenvolver, se quiser se tornar elemento ativo e determinante deste desenvolvimento" [56].

Por um lado, Togliatti reiterava a especificidade da contribui√ß√£o cultural gramsciana, por outro, nas interven√ß√Ķes interpretativas dos anos 1948-1954, ele voltava sempre a repetir que a investiga√ß√£o de Gramsci partia da pol√≠tica, das necessidades da luta. Em 1949, na Universidade de Turim, num discurso que certamente trazia a marca do lugar e do p√ļblico diante do qual era pronunciado, Togliatti se deteve na forma√ß√£o cultural de Gramsci, relembrando o clima no qual ela tinha ocorrido; os limites de tal forma√ß√£o s√≥ podiam ser superados "fazendo com que os homens reencontrassem a unidade de ser e pensar, e fazendo com que reencontrassem esta unidade na hist√≥ria concreta, nas lutas concretas para conseguir transformar e renovar o pa√≠s, criando nele novas rela√ß√Ķes econ√īmicas e sociais" [57]. Mas, se L¬íOrdine Nuovo "tinha nascido na Universidade de Turim", isto fora poss√≠vel porque "havia uma outra realidade, que, ent√£o, atingiu Gramsci e outros entre n√≥s, profundamente": o movimento oper√°rio e, em seguida, o impacto decisivo da revolu√ß√£o bolchevique. Da separa√ß√£o entre intelectuais e povo no in√≠cio do s√©culo XX ao novo nexo tentado por L¬íOrdine Nuovo e √† hip√≥tese de uma reaproxima√ß√£o nos anos dif√≠ceis da "guerra fria", que Togliatti estimulava com a refer√™ncia ao pensamento e √† a√ß√£o de Gramsci: este √© o sentido da opera√ß√£o pol√≠tico-cultural posta em pr√°tica pelo l√≠der do PCI, marcada por limites indiscut√≠veis mas rica de resultados significativos.

A confer√™ncia de 1952 sobre "O antifascismo de Antonio Gramsci", em Bari, era ainda mais densa de motivos hist√≥ricos, pol√≠ticos e te√≥ricos. Tamb√©m aqui o sentido b√°sico dos Cadernos era indicado com clareza. Com efeito, Togliatti afirmava: "Uma pergunta n√£o formulada nos acompanha, se soubermos ler, caderno por caderno, p√°gina por p√°gina: como isso foi poss√≠vel; como isso poder√° desaparecer?" [58]. Um ano havia passado desde a publica√ß√£o completa da edi√ß√£o tem√°tica, a qual, no entanto - junto com as Cartas -, produzira alguns equ√≠vocos, levando muitos a ver em Gramsci sobretudo o intelectual que tinha escrito f√ľr ewig. Ao contr√°rio, Togliatti indicava claramente que toda a reflex√£o do c√°rcere tinha partido de uma quest√£o pol√≠tica - a necessidade de explicar a derrota epocal do movimento oper√°rio - e de um desafio para a pr√°xis: como reerguer-se, como voltar √† ofensiva? Tudo - a hist√≥ria da It√°lia, a investiga√ß√£o sobre os intelectuais - tinha aqui o pr√≥prio centro, a pr√≥pria mola propulsora. Daqui partia "uma nova ci√™ncia, da nossa hist√≥ria e da nossa pol√≠tica" [59]. J√° antes de 1956, pois, Togliatti indicava o terreno inteiramente pol√≠tico da investiga√ß√£o gramsciana. E em 1954, resenhando o primeiro volume dos escritos pr√©-carcer√°rios, relativo aos anos 1919-1920, rec√©m-publicado pela Ed. Einaudi, o motivo era reiterado com vigor: "Os escritos do c√°rcere, portanto, n√£o est√£o fora da luta pol√≠tica que os antecedeu; s√£o parte integrante, quase o coroamento dela" [60]. Com isso, abria-se o caminho (embora percorrido apenas depois da desestaliniza√ß√£o) para contextualizar a figura e a obra de Gramsci, retirando-a da luz quase legend√°ria na qual ainda estava envolvida, e para promover uma releitura dos Cadernos mais atenta √† realidade hist√≥rico-pol√≠tica √† qual se referiam.

5. Depois de 1956, come√ßa uma nova fase n√£o s√≥ na hist√≥ria das leituras togliattianas de Gramsci, mas de toda a elabora√ß√£o do dirigente comunista, fase que iria culminar no Memorial de Yalta. Tanto a necessidade de repensar a pol√≠tica do PCI - n√£o s√≥ relan√ßando o tra√ßo mais original e caracter√≠stico da "pol√≠tica de Salerno", mas buscando os caminhos de uma nova estrat√©gia, depois da crise e da fal√™ncia do caminho experimentado no "Oriente" - quanto a crise profunda das rela√ß√Ķes com os intelectuais levaram a fazer novas perguntas tamb√©m a Gramsci. A reflex√£o sobre as raz√Ķes da derrota da revolu√ß√£o no Ocidente fazia de Gramsci um ponto de refer√™ncia original, ainda que defendendo a tradi√ß√£o te√≥rica e pol√≠tica que vinha de Outubro: ele - afirmava Togliatti - "abre o caminho para o estudo das diferentes formas que a pr√≥pria ditadura da classe oper√°ria assume nas suas diferentes fases e pode assumir em pa√≠ses diferentes. √Č um novo cap√≠tulo do leninismo que se discute, aquele em cuja elabora√ß√£o completa est√° hoje trabalhando o movimento oper√°rio internacional" [61]. Gramsci havia indicado hip√≥teses novas de luta pelo socialismo, as quais, depois do dram√°tico impasse do caminho sovi√©tico, retomavam vigor com toda a evid√™ncia. Se a isso acrescentarmos a publica√ß√£o dos escritos pr√©-carcer√°rios, o interesse antidogm√°tico manifestado pelas novas tend√™ncias marxistas que cada vez mais se difundiam a partir de 1956, assim como o fim do longo per√≠odo no qual a historiografia do movimento comunista tinha sido de fato subtra√≠da aos historiadores comunistas e reservada aos dirigentes de partido, compreende-se bem como o conjunto destes fatores levasse a arquivar inteiramente a imagem do "grande intelectual" interessado no f√ľr ewig, para fazer surgir o Gramsci te√≥rico da pol√≠tica, e te√≥rico para a pr√°xis.

Portanto, n√£o √© casual que muitas interven√ß√Ķes diretamente pol√≠ticas de Togliatti (relat√≥rios em v√°rias reuni√Ķes de comit√™ central ou tamb√©m em importantes assembl√©ias congressuais), naquele ano de 1956, fizessem men√ß√£o ao autor dos Cadernos. Um Gramsci relido e interrogado em estreita rela√ß√£o com os problemas estrat√©gicos do movimento comunista, cujo dever ser "nacional" era colocado num preciso panorama internacional e internacionalista; um Gramsci ao qual se fazia remontar a origem da "via italiana para o socialismo"; um Gramsci, enfim, que tamb√©m se tornava objeto de disputa pol√≠tica, com aquelas tend√™ncias, internas e externas ao PCI, que eram de algum modo cr√≠ticas em rela√ß√£o √† gest√£o togliattiana da desestaliniza√ß√£o [62].

A interpreta√ß√£o de Gramsci formulada por Togliatti nos anos 1956-1958 estava constru√≠da sobre o nexo entre Gramsci e o leninismo [63]. Ser "leninista" significava reafirmar a rela√ß√£o com a tradi√ß√£o bolchevique e revolucion√°ria, reduzindo o papel de Stalin, voltando √†s raz√Ķes de ser originais do movimento comunista. Mas tamb√©m relan√ßar a "via italiana para o socialismo", isto √©, ser "nacional" de modo novo: retomando a leitura criativa do leninismo, que Gramsci havia levado adiante com base na distin√ß√£o entre "Oriente" e "Ocidente" (guerra de posi√ß√£o, hegemonia, bloco hist√≥rico), com um "reconhecimento do terreno nacional" semelhante ao que Lenin havia realizado na R√ļssia. Mais precisamente, Togliatti fazia remontar a Lenin a convic√ß√£o de que "s√£o poss√≠veis e necess√°rios diferentes caminhos de desenvolvimento do movimento revolucion√°rio da classe oper√°ria, em diferentes situa√ß√Ķes hist√≥ricas" [64]. Portanto, era preciso ser leninista sobretudo no sentido de ser capaz de traduzir - como Gramsci havia tentado - o leninismo na It√°lia: "Assim, no modo como Gramsci interpreta e renova a doutrina do marxismo revolucion√°rio - afirmava Togliatti - est√° impl√≠cita a afirma√ß√£o da necessidade do avan√ßo para o socialismo por um caminho nacional, determinado pelas condi√ß√Ķes hist√≥ricas do nosso pa√≠s. √Č esta via nacional que ele nos quis abrir" [65]. Daqui partia a perspectiva de uma elabora√ß√£o cada vez mais aut√īnoma dos comunistas italianos, que tinha fundamento em Gramsci, que fora parcialmente abandonada e, agora, era necess√°rio voltar a experimentar. Um nexo de continuidade e inova√ß√£o com a tradi√ß√£o, que, no entanto, apresentava dois limites. Antes de tudo, ficavam bem na sombra precisamente as peculiaridades que impediam colocar Gramsci no √Ęmbito de um horizonte puramente leninista, uma vez que ele n√£o √© uma "variante" do leninismo, mas o autor de uma teoria e de uma estrat√©gia sem d√ļvida ligadas historicamente √†s do l√≠der bolchevique, mas tamb√©m autonomamente significativas. Em segundo lugar, insistir em Gramsci como ponto de origem da "via italiana para o socialismo" significava renunciar, de fato, a indic√°-lo como novo ponto de refer√™ncia poss√≠vel de todo o movimento comunista, pelo menos ocidental. Havia, pois, em Togliatti, um historicismo prudente, que permitia na It√°lia inova√ß√Ķes te√≥rico-pol√≠ticas de grande relevo [66], mas que, como norma, tomava o cuidado de n√£o acirrar os elementos de atrito com Moscou, de n√£o romper com o modelo sovi√©tico. Esta escolha levava Togliatti at√© a enrijecer o nexo estrutura-superestrutura, com o fim de defender a suposta superioridade da "democracia" sovi√©tica: se a mudan√ßa no plano estrutural havia acontecido, n√£o podia deixar tamb√©m de ocorrer na URSS, cedo ou tarde, uma plena liberta√ß√£o no plano superestrutural, pol√≠tico [67]. No entanto, sobre o car√°ter dial√©tico da rela√ß√£o estrutura-superestrutura, sobre o car√°ter n√£o-unidirecional e n√£o-mec√Ęnico de seu nexo (claramente indicados por Gramsci), Togliatti havia v√°rias vezes insistido e mesmo aqui voltava a insistir, afirmando que j√° em L¬íOrdine Nuovo estavam "em germe as reflex√Ķes mais profundas dos Cadernos sobre a rela√ß√£o rec√≠proca entre estrutura e superestrutura, sobre a unidade de economia e de pol√≠tica no conjunto da realidade social" [68]. Uma observa√ß√£o ainda hoje de grande import√Ęncia, se pensarmos em como √© recorrente - por exemplo, diante do fen√īmeno da mundializa√ß√£o - a tenta√ß√£o de sublinhar a prioridade absoluta do "econ√īmico" e do "social" (tal como, em outros momentos, do "pol√≠tico"), sem considerar suficientemente o fato de que a distin√ß√£o entre eles - recordava Togliatti, na trilha de Gramsci - "√© somente metodol√≥gica, n√£o org√Ęnica" [69].

A interpreta√ß√£o que Togliatti propunha em 1956-1958 era, de todo modo, um not√°vel passo adiante no caminho de uma leitura de "Gramsci segundo Gramsci", rica de indica√ß√Ķes e sugest√Ķes ainda hoje v√°lidas. Come√ßava aqui a descoberta de um Gramsci diferente, "te√≥rico da pol√≠tica, mas sobretudo [...] pol√≠tico pr√°tico, isto √©, um combatente [...]. Na pol√≠tica - afirmava Togliatti - deve ser buscada a unidade da vida de Antonio Gramsci" [70]. Um fio condutor que partia "dos tempos da juventude" e se desenvolvia "at√© a deten√ß√£o e mesmo depois". Uma indica√ß√£o, esta √ļltima, que ilumina a leitura dos Cadernos: Togliatti antecipava a difusa concep√ß√£o que seria mais tarde alcan√ßada a este respeito. Ele dava in√≠cio a um novo per√≠odo de estudos, situando-o num plano novo, aquele constru√≠do a partir da trama da milit√Ęncia pol√≠tica. Apesar das simplifica√ß√Ķes presentes, um passo √† frente decisivo para superar o Gramsci da edi√ß√£o tem√°tica, o grande intelectual, ora fil√≥sofo, ora historiador, ora estudioso da literatura, etc., para delinear a figura de um grande pensador do movimento comunista inserido no debate internacional, que alcan√ßa a pr√≥pria maturidade te√≥rica no √Ęmbito de um preciso horizonte e de uma coloca√ß√£o historicamente determinada.

6. O √ļltimo cap√≠tulo das leituras togliattianas de Gramsci est√° dedicado, em geral, a uma importante obra de balan√ßo ao mesmo tempo historiogr√°fico e te√≥rico, que acompanha e estimula a publica√ß√£o das obras gramscianas ou sua reedi√ß√£o [71]. A nova fase historiogr√°fica, possibilitada pela desestaliniza√ß√£o, tem um momento fundamental no ensaio togliattiano "A forma√ß√£o do grupo dirigente do Partido Comunista Italiano em 1923-1924". Devido √† grande import√Ęncia que a tradi√ß√£o hist√≥rica tinha tido tanto na hist√≥ria do comunismo internacional quanto na do PCI, reexaminar, de modo cr√≠tico, epis√≥dios e figuras de tal hist√≥ria significava tentar redefinir a identidade do partido em sentido laico, dessacralizado. Libertando a reconstru√ß√£o hist√≥rica da influ√™ncia direta da pol√≠tica e de suas exig√™ncias (o m√≥dulo t√≠pico do stalinismo, ao qual at√© mesmo Togliatti se submetera parcialmente em fases anteriores), uma verdadeira "revolu√ß√£o historiogr√°fica" era encorajada e teorizado pelo pr√≥prio Togliatti, que escrevia: "Considero que √© um grave erro, ao expor a hist√≥ria do movimento oper√°rio e, particularmente, do partido no qual se milita e do qual se foi e √© dirigente, sustentar e fazer esfor√ßos para demonstrar que este partido e sua dire√ß√£o sempre se conduziram bem, no melhor modo poss√≠vel. Deste modo, termina-se por fazer a representa√ß√£o de uma ininterrupta prociss√£o triunfal. E √© uma representa√ß√£o falsa, longe da realidade e por esta refutada [...]. A linha justa provavelmente foi sempre buscada com o √Ęnimo e a boa-f√© do combatente. Mas a solu√ß√£o justa foi encontrada [...] atrav√©s de hesita√ß√Ķes e debates, e tamb√©m cometendo erros, seguindo √†s vezes orienta√ß√Ķes incorretas ou n√£o correspondentes, de modo concreto, √†s situa√ß√Ķes e √†s tarefas a estas adequadas" [72]. No ensaio que introduzia a correspond√™ncia entre Gramsci (de Moscou e Viena) e Togliatti, Scoccimarro, Terracini e Leonetti, bem como a publica√ß√£o de documentos e artigos da √©poca, material em grande parte in√©dito, proveniente do Arquivo Tasca e do Arquivo do PCI, Togliatti procedia menos a uma corre√ß√£o das linhas interpretativas de suas interven√ß√Ķes anteriores sobre Gramsci e os primeiros anos de vida do PCI do que a um preenchimento dos vazios de conhecimento, a uma ilumina√ß√£o de zonas de sombra, a uma explicita√ß√£o dos elementos e ju√≠zos anteriormente s√≥ mencionados ou subentendidos, a uma reitera√ß√£o dos ju√≠zos cr√≠ticos, mas de modo novo, de forma n√£o demonizadora, mais equilibrada nas an√°lises e avalia√ß√Ķes. Uma li√ß√£o de estilo, fortemente inovadora da pr√°tica at√© ent√£o seguida pelas c√ļpulas dos partidos comunistas, que ajudou a renova√ß√£o da historiografia comunista. √Ä parte as quest√Ķes de m√©rito, restava um m√©todo historiogr√°fico, que n√£o seria mais recha√ßado. A este respeito, n√£o sem valor √© o fato de que as p√°ginas de Rinascita √© que v√£o abrigar, por todo o decorrer dos anos sessenta, documentos, cartas, an√°lises relativas √†s vicissitudes hist√≥ricas do PCI: basta mencionar o caso, entre os mais significativos, da publica√ß√£o - ainda vivo Togliatti - da troca de cartas de 1926 sobre a luta interna do PCUS [73].

Entre as contribui√ß√Ķes "historiogr√°ficas", inclusive pelas implica√ß√Ķes relativas a Gramsci (cuja fundamental categoria de "revolu√ß√£o passiva" era pela primeira vez ressaltada), deve-se recordar a confer√™ncia "As classes populares do Risorgimento", proferida em Turim, em 13 de abril de 1962, na qual Togliatti afirmava, polemizando com Rosario Romeo: "Ao contr√°rio, o pensamento de Gramsci nos orienta no sentido de reconhecer qual foi a verdadeira natureza do bloco hist√≥rico risorgimentale, fundamento do novo Estado, resultante da combina√ß√£o de uma vontade (da direita) com uma incapacidade (da esquerda). Nesta combina√ß√£o, estava latente uma colabora√ß√£o, que se efetivou, no v√©rtice do novo Estado, com a pol√≠tica transformista. Com efeito, as duas alas tinham agido para fazer do Risorgimento uma ¬Ďrevolu√ß√£o passiva¬í, isto √©, uma revolu√ß√£o sem revolu√ß√£o, sem aquela contribui√ß√£o decisiva e cont√≠nua do movimento das massas, que n√£o permite parar e leva √†s transforma√ß√Ķes mais profundas" [74]. Comentando em seguida a citada antologia de L¬íOrdine Nuovo, Togliatti voltava √† rela√ß√£o conselhos-partido, recha√ßando mais uma vez a tese da subestima√ß√£o do partido por parte do jovem Gramsci. √Č verdade, o comunista sardo estava longe de considerar "que a instaura√ß√£o do poder prolet√°rio [pudesse] ser concebida como uma ditadura das se√ß√Ķes do partido" (o que tamb√©m era uma clara tomada de dist√Ęncia em face de um certo modelo que veio a prevalecer historicamente na Uni√£o Sovi√©tica). Mas - acrescentava Togliatti logo em seguida -, para Gramsci, o processo revolucion√°rio "requer uma dire√ß√£o consciente. O partido √© o ¬Ďagente m√°ximo¬í deste processo. A nova consci√™ncia hist√≥rica dos trabalhadores [...] tem na for√ßa pol√≠tica, na organiza√ß√£o do partido, aquele baluarte poderoso sem o qual n√£o poderia se afirmar e triunfar" [75].

O √ļltimo escrito de Togliatti dedicado a Gramsci √© um breve artigo, publicado no Paese Sera por ocasi√£o do lan√ßamento de 2.000 pagine di Gramsci, dois meses antes da morte do dirigente comunista em Yalta. Como se disse no in√≠cio desta introdu√ß√£o, era a oportunidade para um balan√ßo, at√© mesmo parcialmente autocr√≠tico, sobre a rela√ß√£o entre o pensador sardo e os dirigentes e os intelectuais de seu partido, em primeiro lugar Togliatti, que haviam interpretado sua obra em rela√ß√£o √†s preocupa√ß√Ķes e exig√™ncias derivadas da pr√°xis, da pol√≠tica [76]. Gramsci n√£o se esgota na fundamenta√ß√£o da "via italiana para o socialismo" - afirmava Togliatti -, tem uma densidade capaz de promover uma reflex√£o mais geral, tornada mais urgente pela crise profunda que vive o movimento comunista internacional.

Tamb√©m emergia a recorda√ß√£o comovida n√£o s√≥ de Gramsci como te√≥rico e militante pol√≠tico, mas como "homem", exemplo dram√°tico de tens√£o entre teoria e pr√°xis, entre limites da pessoa e luta por sua supera√ß√£o. Um exemplo para o qual Togliatti n√£o havia nunca deixado de olhar com admira√ß√£o e rever√™ncia. Muitos elementos interpretativos dos anos compreendidos entre 1927 e 1964 ressentem-se, como √© √≥bvio, do tempo de que s√£o o produto e, hoje, nos aparecem sobretudo em sua caducidade. Mas outros permanecem fundamentais para compreender Gramsci e seu legado. A indica√ß√£o da pol√≠tica como motor de toda a sua investiga√ß√£o; a vis√£o dial√©tica do nexo estrutura-superestrutura e sociedade-Estado como centro de seu marxismo; a convic√ß√£o de que o momento "nacional" dificilmente pode ser evitado na luta pela hegemonia: como n√£o ver a corre√ß√£o e a utilidade de tais chaves hermen√™uticas, diante de tantas interpreta√ß√Ķes modernas, culturalistas, neo-idealistas, "liberais", √†s vezes interessantes e at√© mesmo prova intr√≠nseca da grandeza de um autor capaz de atrair p√ļblicos diversos, mas tamb√©m, freq√ľentemente, excessivamente desenvoltas em esquecer os contornos reais da figura e da investiga√ß√£o do pensador sardo? Tamb√©m por isso os pontos centrais da leitura togliattiana de Gramsci ainda podem ser √ļteis e n√£o devem ser esquecidos.

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Guido Liguori, vice-presidente da International Gramsci Society, ensina História do Pensamento Político na Universidade da Calábria. Este texto foi publicado originalmente como introdução a Palmiro Togliatti. Scritti su Gramsci. Roma, Riuniti, 2001.

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Notas

[1] O pr√≥prio Togliatti organizou as duas primeiras colet√Ęneas de seus escritos, lan√ßadas, respectivamente, em 1949 e em 1955. Uma colet√Ęnea mais ampla foi organizada por Ernesto Ragionieri em 1967.

[2] Cf. Bibliografia gramsciana 1922-1988, organizada por John Cammett. Roma, Riuniti, 1991; Bibliografia gramsciana. Supplement updated to 1993, organizada por John Cammett e Maria Luisa Righi. Roma, Fondazione Istituto Gramsci, 1995. Uma atualização até o ano 2000, de próxima publicação, eleva o total de entradas da bibliografia das obras sobre Gramsci para cerca de 15 mil.

[3] Tentei uma reconstru√ß√£o da hist√≥ria das interpreta√ß√Ķes gramscianas em Gramsci conteso. Storia di un dibattito 1922-1996 (Roma, Riuniti, 1996), onde tamb√©m abordei o tema das leituras togliattianas. N√£o pude deixar de reapresentar aqui algumas das an√°lises e considera√ß√Ķes j√° formuladas naquele livro. No entanto, sobre outros pontos amadureci convic√ß√Ķes parcialmente diversas.

[4] "Hoje, depois de percorrer uma a uma as páginas desta antologia, atravessadas por tantos motivos diferentes, que se entrelaçam e às vezes se confundem, mas nunca se perdem - pareceu-me que a pessoa de Antonio Gramsci se deve colocar numa luz mais viva, que transcende as vicissitudes históricas do nosso partido" (Palmiro Togliatti. "Gramsci, un uomo" [1964]).

[5] Michele Pistillo. Gramsci-Togliatti. Polemiche e dissensi nel 1926. Manduria-Bari-Roma, Lacaita, 1996; Giuseppe Vacca. Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926. Chiara Daniele (Org.). Turim, Einaudi, 1999; Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci. Roma, Carocci, 1999, sobretudo p. 71 s.

[6] Cf. Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926, cit., p. 153 s.

[7] Ib., p. 404-12 (carta de Gramsci de 14 de outubro de 1926).

[8] Ib., p. 402-3 (bilhete anexado à carta de 14 de outubro).

[9] Ib., p. 413 (fonograma de Togliatti ao bir√ī pol√≠tico do PCI, 16 de outubro).

[10] Ib., p. 434 (fonograma do bir√ī pol√≠tico a Togliatti, 26 de outubro).

[11] Ib., p. 435-9 (carta de Gramsci de 26 de outubro).

[12] Cf. Michele Pistillo. Gramsci-Togliatti. Polemiche e dissensi nel 1926, cit., p. 120-40; Id. "Gramsci, Togliatti, Grieco e lo scontro politico del 1926". Critica marxista, 2000, n. 6.

[13] Cf. Antonio Gramsci. Quaderni del carcere. Valentino Gerratana (Ed.). Turim, Einaudi, 1975, p. 489 [Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001. v. 4, p. 265 s.]

[14] Biagio De Giovanni. La nottola di Minerva. Roma, Riuniti, 1989, p. 27.

[15] Cf., por exemplo, sobre o conhecido episódio da publicação do atestado do Dr. Arcangeli por parte de L’Humanité, Paolo Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma, Riuniti, 1977, p. 155 s.; Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 79 e 117; mais em geral, sobre a questão das campanhas em favor de Gramsci: Claudio Natoli. "Gramsci in carcere: le campagne per la liberazione, il partito, l’Internazionale (1932-1933)". Studi storici, 1995, n. 2; Id. "Le campagne per la liberazione di Gramsci, il Pcd’I e l’Internazionale (1934)". Studi storici, 1999, n. 1.

[16] Cf., por exemplo, Aldo Natoli. "Introduzione". In: Antonio Gramsci-Tatiana Schucht. Lettere 1926-1935. Aldo Natoli e Chiara Daniele (Eds.). Turim, Einaudi, 1997.

[17] Para a correta reconstrução do episódio, cf. Paolo Spriano. Gramsci in carcere, cit.; L’ultima ricerca di Paolo Spriano. Roma, L’Unità, 1988; Giuseppe Fiori. Gramsci, Togliatti, Stalin. Roma-Bari, Laterza, 1991; Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 78-106.

[18] Cf. o documento em Paolo Spriano. Gramsci in carcere... , cit., p. 155-6; cf. também Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 120.

[19] Palmiro Togliatti. "Antonio Gramsci un capo della classe operaia" [1927].

[20] Ainda em julho de 1929, na d√©cima plen√°ria da Internacional Comunista, Togliatti, Grieco e Di Vittorio tentaram defender a li√ß√£o de Gramsci, ou seja, a vis√£o n√£o sect√°ria e ligada √† especificidade nacional, "popular" e n√£o puramente "prolet√°ria", da "revolu√ß√£o italiana", diante das press√Ķes da Internacional, capitulando com uma declara√ß√£o de princ√≠pios, quase como um registro para o futuro. Disse Togliatti: "Ser√° correto ou n√£o colocar estes problemas nas discuss√Ķes com os companheiros no centro do partido? Se o Komintern diz que n√£o √© correto, n√≥s n√£o os colocaremos mais; cada um de n√≥s pensar√° estas coisas e n√£o ir√° mais falar delas; dir-se-√° somente que a revolu√ß√£o antifascista ser√° uma revolu√ß√£o prolet√°ria. Mas cada um de n√≥s vai pensar que n√£o √© de modo algum certo que teremos a sua dire√ß√£o desde o primeiro momento e vai pensar que poderemos conquist√°-la s√≥ no decorrer da luta." E mais ainda: "Sempre dissemos que era tarefa do nosso partido estudar a situa√ß√£o particular da It√°lia [...]. Se o Komintern nos pede que n√£o mais o fa√ßamos, n√£o vamos mais faz√™-lo [...], mas, como n√£o n√£o se pode impedir que pensemos, vamos guardar estas coisas para n√≥s e nos limitar a fazer afirma√ß√Ķes gerais. Mas eu afirmo que este estudo deve ser feito" (Cf. Ernesto Ragionieri. Palmiro Togliatti. Per una biografia politica e intellettuale. Roma, Riuniti, 1976, p. 717). Sobre o epis√≥dio, cf. as equilibradas avalia√ß√Ķes de Aldo Agosti. Palmiro Togliatti. Turim, Utet, 1996, p. 126-9.

[21] At√© um estudioso como Aldo Natoli, freq√ľentemente excessivamente "suspeitoso" em rela√ß√£o a Togliatti e ao PCI, admitiu, falando dos primeiros anos 1930, que "Gramsci, por sua parte, demonstrou nutrir confian√ßa em Sraffa e certamente sabia bem que este tinha uma rela√ß√£o direta com Togliatti" (Aldo Natoli. "Introduzione". In: A. Gramsci-Tatiana Schucht. Lettere 1926-1935, cit. p. XXXIV).

[22] Permito-me mencionar meu livro Gramsci conteso, cit. p. 10 s.

[23] Bruno Tosin. Con Gramsci. Ricordi di uno della "vecchia guardia". Roma, Riuniti, 1976, p. 98. Cf. também Athos Lisa. Memorie. Dall’ergastolo di Santo Stefano alla casa penale di Turi di Bari. Milão, Feltrinelli, 1973; e os testemunhos de Giovanni Lai, Sandro Pertini, Angelo Scucchia e Gustavo Trombetti. Gramsci vivo nelle testimonianze dei suoi contemporanei. Mimma Paulesu Quercioli (Ed.). Milão, Feltrinelli, 1977.

[24] Sobre esta quest√£o, cf. os mencionados artigos de Claudio Natoli, que tamb√©m destaca os atrasos, as lacunas e as contradi√ß√Ķes da a√ß√£o em favor de Gramsci por parte dos comunistas.

[25] Al√©m de "Antonio Gramsci capo della classe operaia italiana", escrito publicado entre 1937 e 1938, fazemos refer√™ncia aqui a "In memoria di Antonio Gramsci", texto de um discurso comemorativo pronunciado em Moscou, em 27 de maio de 1937, e pouco depois lan√ßado em russo. Este √ļltimo escrito foi pela primeira vez indicado e publicado na It√°lia por Michele Pistillo, em Critica marxista, 1991, n. 6. Remetemos √† introdu√ß√£o de Pistillo ("Un discorso sconosciuto di Togliatti su Gramsci del 1937", na mesma revista) para informa√ß√Ķes adicionais e hip√≥teses de data√ß√£o precisa de todos os escritos togliattianos de 1937-1938.

[26] Palmiro Togliatti. "In memoria di Antonio Gramsci", cit.

[27] Id. "Antonio Gramsci capo della classe operaia", cit.

[28] Ib.

[29] Cf. Paolo Spriano. Gramsci in carcere..., cit., p. 118-21, e Aldo Agosti. Palmiro Togliatti, cit., p. 214. Cf. tamb√©m as interessantes descobertas historiogr√°ficas e as oportunas considera√ß√Ķes contidas em Michele Pistillo. "Grieco ¬Ďcorresponsabile¬í della lettera di Gramsci al Pcr del 1926". Critica marxista, 2001, n. 1.

[30] Palmiro Togliatti. "Antonio Gramsci capo della classe operaia", cit.

[31] Ib.

[32] Gramsci extrai esta convic√ß√£o de Lenin: "O ponto que em minha opini√£o deve ser desenvolvido √© o seguinte: como, segundo a filosofia da pr√°xis (em sua manifesta√ß√£o pol√≠tica), seja na formula√ß√£o de seu fundador, mas especialmente nos esclarecimentos dados por seu mais recente grande te√≥rico, a situa√ß√£o internacional deve ser considerada em seu aspecto nacional. Realmente, a rela√ß√£o ¬Ďnacional¬í √© o resultado de uma combina√ß√£o ¬Ďoriginal¬í √ļnica (em certo sentido), que deve ser compreendida e concebida nesta originalidade e unicidade se se quer domin√°-la e dirigi-la. Por certo, o desenvolvimento √© no sentido do internacionalismo, mas o ponto de partida √© ¬Ďnacional¬í, e √© deste ponto de partida que se deve partir. Mas a perspectiva √© internacional e n√£o pode deixar de ser. √Č preciso, portanto, estudar exatamente a combina√ß√£o de for√ßas nacionais que a classe internacional dever√° dirigir e desenvolver segundo a perspectiva e as diretrizes internacionais. A classe dirigente s√≥ ser√° dirigente se interpretar exatamente esta combina√ß√£o" (Cadernos do c√°rcere, cit., v. 4, p. 314). Em seguida, h√° uma refer√™ncia direta √† luta entre Stalin e Trotski e ao conceito de hegemonia como "aquele em que se re√ļnem as exig√™ncias de car√°ter nacional" (Ib., p. 315).

[33] Palmiro Togliatti, "Antonio Gramsci capo della classe operaia", cit.

[34] Cf. Guido Liguori. Gramsci conteso, cit., p. 28 s.

[35] Cf. Palmiro Togliatti. "La politica di Gramsci" [1944] e "Discorso su Gramsci nei giorni della Liberazione" [1945].

[36] Id. "L’insegnamento di Antonio Gramsci" [1945].

[37] Id. "La politica di Gramsci", cit.

[38] Id. "Discorso su Gramsci nei giorni della Liberazione", cit.

[39] Id. "Gramsci, la Sardegna, l’Italia" [1947].

[40] Cf. Leonardo Paggi. Antonio Gramsci e il moderno principe. Roma, Riuniti, 1970, p. XIII.

[41] Palmiro Togliatti. "Discorso su Gramsci nei giorni della Liberazione", cit.

[42] Ib.

[43] Benedetto Croce. "Antonio Gramsci - Lettere dal carcere". Quaderni della ¬ĎCritica¬í, 1947, n. 8, p. 86-8.

[44] Cf. Palmiro Togliatti. "Antonio Gramsci e don Benedetto" [1947].

[45] Id. "Lezioni di marxismo" [1945].

[46] "N√£o quer dizer a an√°lise, n√£o querem dizer as conclus√Ķes de Gramsci que o fascismo, no per√≠odo atual da nossa vida nacional, √© algo sempre presente, como perigo e amea√ßa que pesa sobre n√≥s? Sim, esta dedu√ß√£o √© correta [...]. O prop√≥sito de voltar a uma hegemonia reacion√°ria de velho tipo, liquidando at√© as formas da democracia, est√° presente na camada dirigente capitalista numa medida mais ampla do que se acredita" (Palmiro Togliatti. "L¬íantifascismo di Antonio Gramsci" [1952]).

[47] Antonio Gramsci. Americanismo e fordismo. Prefácio e organização de Felice Platone. Milão, Universale economica, 1950.

[48] Felice Platone. "Prefazione". In: Id., ib., p. 15. Cf. também a referência togliattiana ao cotejo americanismo-fascismo em "L’antifascismo di Antonio Gramsci", cit.

[49] O mérito desta fundamental reavaliação é de Franco De Felice. "Una chiave di lettura in Americanismo e fordismo". Rinascita, 1972, n. 42. Cf. Id. "Introduzione". In: Antonio Gramsci. Quaderno 22. Americanismo e fordismo. Turim, Einaudi, 1978.

[50] Palmiro Togliatti. "Per una giusta comprensione del pensiero di Antonio Labriola" [1954]. Agora em Id. La politica culturale. Luciano Gruppi (Ed.). Roma, Riuniti, 1974, p. 324.

[51] Sobre os problemas e a repercussão relativos à primeira publicação tanto das Cartas quanto dos Cadernos, permito-me remeter a meu livro Gramsci conteso, cit. Veja-se também, em Luisa Mangoni (Pensare i libri. La casa editrice Einaudi dagli anni trenta agli anni sessanta. Turim, Bollati Boringhieri, 1999, p. 217 e 232 s.), a atenção dispensada por Togliatti até mesmo aos aspectos formais da publicação dos escritos gramscianos, com o objetivo de contribuir de todas as maneiras para assegurar o prestígio dos textos.

[52] Cf. os testemunhos de Alessandro Natta ("Conclusioni". In: VV.AA. Egemonia, Stato, partito in Gramsci. Roma, Riuniti, 1977, p. 274) e Cesare Luporini ("Introduzione". In: Id. Dialettica e materialismo. Roma, Riuniti, 1974, p. XXVIII).

[53] Como est√° documentado pela carta que Togliatti escreveu ao dirigente do Komintern, Dimitrov, j√° em 25 de abril de 1941, na qual advertia que "os cadernos de Gramsci [...] cont√™m materiais que s√≥ podem ser utilizados depois de uma cuidadosa elabora√ß√£o [...] algumas partes, se fossem utilizadas na forma em que se encontram atualmente, poderiam n√£o ser √ļteis ao partido" (cf. Giuseppe Vacca. Appuntamenti con Gramsci, cit., p. 130-1).

[54] Valentino Gerratana, artífice da edição crítica, sempre fez questão de reconhecer os méritos da edição temática dos Cadernos e nunca foi tolerante com sua "demonização". Veja-se, por exemplo, seu equilibrado juízo no prefácio a A. Gramsci. Quaderni del carcere, cit., p. XXXIII.

[55] Cf. Palmiro Togliatti. "Intervento alla Commissione culturale nazionale" [1952]. In: Id. La politica culturale, cit., p. 201 s.

[56] Cf. "Lettera di Palmiro Togliatti ad Ambrogio Donini, Istituto Gramsci (Roma, 11 dicembre 1954)". In: Albertina Vittoria. Togliatti e gli intellettuali. Storia dell’Istituto Gramsci negli anni Cinquanta e Sessanta. Roma, Riuniti, 1992, p. 275-6. Para a reconstrução de todo o episódio, cf. ib., p. 46 s.

[57] Palmiro Togliatti. "Pensatore e uomo d’azione" [1949].

[58] Id. "L’antifascismo di Antonio Gramsci", cit.

[59] Ib.

[60] Palmiro Togliatti. "Storia come pensiero ed azione" [1954].

[61] Id. "Il leninismo nel pensiero e nell’azione di A. Gramsci (Appunti)" [1958].

[62] Durante o VIII Congresso, por exemplo, a polêmica com Antonio Giolitti também envolveu Gramsci (cf. a intervenção de Giolitti e a réplica togliattiana em VIII Congresso del Partito comunista italiano. Atti e risoluzioni. Roma, Riuniti, 1957). No plano dos estudos gramscianos, entre aqueles de orientação polêmica em relação ao togliattismo, deve-se recordar pelo menos o volume La città futura. Saggi sulla figura e il pensiero di Antonio Gramsci. Alberto Caracciolo e Gianni Scalia (Eds). Milão, Feltrinelli, 1959 (textos, entre outros, de Agazzi, Caracciolo, Guiducci, Tamburrano, Tronti).

[63] Os três ensaios togliattianos aos quais me refiro - "Attualità del pensiero e dell’azione di Gramsci" [1957], "Il leninismo nel pensiero e nell’azione di A. Gramsci (Appunti)" e "Gramsci e il leninismo" [1958] -, escritos por ocasião das celebração dos vinte anos da morte do pensador sardo, podem ser considerados como um corpus unitário.

[64] Palmiro Togliatti. "Gramsci e il leninismo", cit.

[65] Id. "Attualità del pensiero e dell’azione...", cit.

[66] Vejam-se as considera√ß√Ķes sobre o parlamentarismo em "Gramsci e il leninismo", cit.

[67] Cf. "Attualità del pensiero e dell’azione...", cit.

[68] Ib.

[69] Palmiro Togliatti. "Il leninismo...", cit.

[70] Ib.

[71] Pela Einaudi, a publicação dos escritos gramscianos anteriores à prisão, iniciada com os volumes L’Ordine Nuovo (1919-1920) e Scritti giovanili (1914-1918), respectivamente em 1954 e 1958, prosseguiu em 1960 com Sotto la Mole (1916-1920). Em 1960 e 1961, foi publicada a correspondência sobre La formazione del gruppo dirigente del Partito comunista italiano nel 1923-1924, primeiramente pela Feltrinelli, depois de forma ampliada pela Riuniti. Em 1963 e 1964, foram lançadas as antologias organizadas por Paolo Spriano - L’Ordine Nuovo (1919-1920, pela Einaudi - e por Giansiro Ferrata e Niccolò Gallo - 2000 pagine di Gramsci, pela Saggiatore. Em 1965, sairia, sempre pela Einaudi, a nova edição das Cartas do cárcere, organizada por Sergio Caprioglio e Elsa Fubini, revista e complementada pelos trechos omitidos em 1947 e com o acréscimo de 119 cartas inéditas (decidida e estruturada obviamente antes da morte de Togliatti).

[72] Palmiro Togliatti. La formazione del gruppo dirigente... , cit.

[73] Cf. Rinascita, 1964, n. 22. Cf. tamb√©m o breve balan√ßo togliattiano relativo √† mesma quest√£o em ib., 1964, n. 24. Em Rinascita (1962, n. 9), tamb√©m tinha sido publicado o texto do √ļnico discurso parlamentar de Gramsci (pronunciado em 16 de maio de 1925) sobre o projeto de lei governamental "contra as sociedades secretas", com nota introdut√≥ria de Togliatti.

[74] Palmiro Togliatti. "Le classi popolari nel Risorgimento". Studi storici, 1964, n. 3, p. 447.

[75] Id. "Rileggendo L’Ordine Nuovo" [1964].

[76] Cf. nota 4.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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