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“As sanções não debilitaram Putin, que agora quer desgastar a Europa”

Silvio Pons - Setembro 2022
 


“O que Putin está realizando nesta segunda fase da guerra é a estratégia do caos.” Quem diz isso é um dos mais respeitados estudiosos do “planeta” russo: Silvio Pons, que ensina História Contemporânea na Escola Normal Superior de Pisa. É presidente da Fondazione Gramsci. Entrevista a Umberto De Giovannangeli, Il Riformista, 20 set. 2022.
Putin afirma: “Estamos comprometidos com o fim do conflito, mas a Ucrânia não negocia”. Professor Pons, como interpretar as palavras do presidente russo?

Como um sinal de grande dificuldade. Não só na frente militar, mas também, e por certos aspectos, sobretudo na internacional. É de muita relevância a oportunidade em que Putin fez tal afirmação. Em Samarcanda, no decorrer dos encontros com os líderes de dois países fundamentais para a Rússia: a China e a Índia. Fundamentais por razões geopolíticas e porque, coisa igualmente importante, se não for mais, diante das sanções adotadas pelos Estados Unidos e pela Europa contra Moscou, e da “guerra do gás” em curso, China e Índia são os países mais importantes para os quais a Rússia exporta seu gás. À parte as declarações formais, de circunstância, emitidas pela cúpula de Samarcanda, o que conta de fato é que Putin não teve o apoio que esperava nem de Xi Jinping nem de Modi. Está cada vez mais evidente que a China está fazendo seu jogo, que não prevê um alinhamento com as posições do “aliado” russo. Quanto à Índia, a afirmação do primeiro-ministro Narendra Modi – “Este não é o tempo da guerra” – certamente não foi tomada por Putin como sinal de encorajamento e apoio. Muitos usaram metáforas meteorológicas para sintetizar o resultado da cúpula de Samarcanda: “gelo”, “grande frieza”, etc. Metáforas à parte, pode-se dizer que de Samarcanda Vladimir Putin não saiu mais forte. Tanto é verdade que o próprio czar do Kremlin, pelo menos verbalmente, teve de tranquilizar seus interlocutores, declarando que a Rússia estaria a favor da paz, quem não a quer é a Ucrânia. Ainda que, depois da cúpula, tenha precisado suas palavras, dizendo que a Rússia “não tem pressa”.

O que está na base desta retificação, ainda que sinuosa, por parte de Putin?

O fracasso da estratégia da blitzkrieg. Putin apostara, se não tudo, quase tudo no bom resultado da “guerra relâmpago”, subestimando, até pelas informações erradas que lhe vinham das cúpulas militares e de inteligência, a vontade, ainda mais que a capacidade, de resistência dos ucranianos. As afirmações do início da guerra, os discursos com os quais Putin e seu entorno liquidavam depreciativamente a liderança ucraniana como um bando de alcólatras nazistas, não eram só parte de narrativa propagandística para uso interno, mas também convicção amadurecida no Kremlin. Nada mais equivocado. O prolongamento da guerra e as derrotas sofridas no terreno pela parte russa, tiveram efeitos importantes também na atitude de países cruciais para a Rússia, tais como, conforme dissemos, a China e a Índia. A estratégia da blitzkrieg não era só uma doutrina militar, mas o eixo em torno do qual Putin pretendia fazer girar, em favor da Rússia, a engrenagem do equilíbrio internacional de potência. A estratégia do tempo curto fracassou. E com o passar do tempo tornou-se cada vez mais claro, inclusive aos olhos chineses e indianos, que a guerra na Ucrânia estava progressivamente se transformando num fator de desestabilização internacional. Nesta ótica, as palavras de Modi soam como advertência para Putin. Tanto a Índia quanto a China não pretendem seguir a Rússia por este caminho.

Falamos das dinâmicas militares e da sua influência no plano das alianças. E as sanções?

Aqui o discurso se torna mais complexo e menos unívoco na leitura da estratégia das sanções seja sobre quem a sofre, seja sobre quem a promove. Não há dúvida de que as sanções atingiram a economia russa, mas não tanto quanto se pensava e esperava em Washington e Bruxelas. As estimativas do PIB russo são decrescentes, mas ainda distantes de indicar o colapso. As sanções podem influenciar a médio-longo prazo, mas a curto prazo não parecem ter aquele efeito explosivo capaz de pôr em crise o regime putiniano. E também se deve pensar na reação da Rússia às sanções, em particular na “guerra do gás”. Uma reação que atinge sobretudo a Europa e, na Europa, em particular as economias dos países, como a Alemanha, cuja produção industrial sempre foi muito dependente dos fornecimentos de energia da Rússia. De novo, torna-se crucial o fator tempo. Putin tem como meta desgastar a Europa, tirar-lhe todo o gás – e nunca uma metáfora foi mais precisa. Daí a estratégia da fase 2 adotada pelo Kremlin, uma vez fracassada a da blitzkrieg e divisão da Europa e da Otan. A estratégia do caos.

Como sintetizá-la?

Não quero invadir campos que não me pertencem, mas, pelo que que me consta, no plano militar esta estratégia comporta a manutenção do controle de territórios cruciais, por múltiplas razões, no leste da Ucrânia, o que implica a inversão da situação que se determinou nas últimas semanas. A estratégia do caos, para se efetivar, precisa cortar o avanço ucraniano e deflagrar uma contraofensiva da parte russa. Coisa que não está de modo algum dada. E nisso incide um fator que me parece ainda estar um pouco subestimado.

Vale dizer...

A incidência do fator humano. Ao analisar os eventos bélicos, muitas vezes a atenção se concentra nos armamentos. Ora, não há dúvida de que a melhora da capacidade militar do exército ucraniano se deva também ao fornecimento de armas que, em quantidade e em qualidade, influenciaram as relações de força entre as duas partes em conflito. Mas “também” não significa “só”, porque cada vez mais decisivo está se revelando, precisamente, o fator humano. No sentido de que os ucranianos se sentem, desde o primeiro dia da invasão, em guerra. Uma guerra que tem como troféu a independência nacional, a integridade territorial da Ucrânia, sua condição de Estado independente em tudo e por tudo. Neste sentido, no sentido da psicologia de uma nação, a guerra travada pelos ucranianos é uma guerra do povo e assim é vivida e compartilhada. Os horrores que a marcam, as valas comuns, os massacres de civis reforçaram esta percepção. Não se pode dizer o mesmo para a Rússia.

Por quê?

Na narrativa “putiniana”, a palavra “guerra” jamais é usada na propaganda interna. Sempre se falou de “operação especial”. Não é questão semântica, mas política. Não falar de “guerra”, para os estrategistas do Kremlin, significava tranquilizar a opinião pública russa, minimizando assim os impactos na vida cotidiana. Esta narrativa teve de se haver com a realidade e por esta realidade foi colocada em crise.

Uma crise que poder ter consequências sobre a manutenção do poder “putiniano”?

Como historiador tenho dificuldade para fazer as vezes de adivinho. Mas uma coisa é certa: o próprio fato de nos pormos esta pergunta diz muito sobre o andamento da guerra. Até algum tempo atrás, só formular a hipótese de uma brecha no regime de Moscou parecia um exercício literário, uma fantasia política. Hoje não é mais assim. Que fique claro: não estamos na véspera, mais ou menos próxima, de um terremoto político em Moscou. No decorrer dos anos, Putin soube construir em torno de si um poder oligárquico que se ramificou por todo e qualquer gânglio vital da sociedade, da economia, dos aparelhos estatais.

A que o senhor se refere?

Penso, por exemplo, na tomada de posição contra a guerra de alguns parlamentares, sobretudo em São Petersburgo. Parlamentares que, de todo modo, eram contrários desde o início, ou quase, à prova de força contra a Ucrânia. Mas é significativo que estas vozes tenham crescido em número e intensidade. Assim como é extremamente significativa a respeito das dificuldades do regime a decisão de cassar a licença de um importante jornal, como a Novaja Gazeta. No entanto, o dado mais novo e sob certos aspectos mais inquietante é o surgimento de uma segunda frente interna para Putin: a dos ultranacionalistas, que, à diferença do presidente, gostariam que se falasse explicitamente de guerra e, sobretudo, se agisse por via de consequência em termos de mobilização de homens e uso maciço do poder militar. O crescimento desta frente não é uma boa notícia para a Europa.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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