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Falência do velho e luta pelo novo

Ricardo José de Azevedo Marinho - Julho 2021
 

Para minha filha Gabriela Góes Magalhães Marinho Walker

Vivemos em uma √©poca de "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news. Elas parecem estar por toda parte. Mal ocorre algum evento importante, ent√£o os "te√≥ricos" da conspira√ß√£o come√ßam a trabalhar. O recente mal s√ļbito que acometeu o jogador de futebol da sele√ß√£o dinamarquesa Christian Eriksen foi envolvido numa #fake news segundo a qual ele teria tomado vacina da Pfizer semanas antes do jogo do dia 12 de junho de 2021 do Campeonato Europeu de Futebol (Eurocopa), contra a Finl√Ęndia.

"Teorias" de conspira√ß√£o como esta s√£o muito difundidas e mais difundidas do que nunca. E uma coisa elas promovem, que √© aprofundar a suspeita contra as vacinas e a vacina√ß√£o. Para os "te√≥ricos" da conspira√ß√£o, as vacinas e as vacina√ß√Ķes dadas aos nossos filhos para a prote√ß√£o contra doen√ßas perigosas causam autismo, esteriliza√ß√£o, altera√ß√£o de g√™nero (uma vers√£o pr√≥pria de uma ideologia que supostamente combateriam) e sexualidade (vista numa √≥tica de uma pris√£o biol√≥gica), um fato que eles alegam estar sendo encoberto e arquitetado entre os governos, as m√≠dias e os cientistas.

O advento do sistema global das redes de computadores¬†interligados (Internet), √© amplamente argumentado, √© a principal for√ßa por tr√°s da dissemina√ß√£o de tais "teorias", e elas est√£o minando a confian√ßa nos sistemas pol√≠ticos, at√© mesmo fazendo com que as pessoas questionem cada vez mais os fundamentos da democracia. No Brasil, por exemplo, a confian√ßa no presidente eleito, Jair Bolsonaro, √© minada pelo pr√≥prio ao disseminar a ideia de que o sistema eleitoral eletr√īnico,¬†ofertado pelo Tribunal Superior Eleitoral¬†(TSE), conspira para encobrir o fato de que as urnas n√£o disp√Ķem da redund√Ęncia da impress√£o do voto e, portanto, n√£o s√£o confi√°veis.

Consequentemente o sistema eletr√īnico de vota√ß√£o √© um disfarce para a cria√ß√£o de uma Nova Ordem Mundial, na qual a democracia estaria sendo substitu√≠da por uma modalidade de ditadura supostamente diferente daquela adorada e idolatrada pelo pr√≥prio Jair Bolsonaro, a de 1964. O Presidente do TSE faz parte da trama, conectado √†s for√ßas sinistras por tr√°s dele. O STF e todos os opositores, assim como as elites governantes do mundo s√£o, na verdade, jacar√©s verdes carn√≠voros conspirando para dominar o planeta, ocultando sua verdadeira identidade e disfar√ßando-se de seres humanos.

Estas são apenas algumas das "teorias" da conspiração que estão circulando, propagadas através de artigos, redes sociais e #fake news, e incessantemente discutidos em vários lugares de todo o mundo.

Agora vamos tentar entender essa triste toada a partir de cinco cren√ßas amplamente difundidas sobre as "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news: 1¬ļ) que s√£o fen√īmenos novos; 2¬ļ) que s√£o produtos da Internet e das redes sociais digitais, ou do relativismo p√≥s-moderno, ou da incerteza sobre a verdade em face da sobrecarga de conhecimento a que todos somos sucessivamente apresentados, ou uma tentativa de reduzir as explica√ß√Ķes complexas a algumas f√≥rmulas simples; 3¬ļ) que pertencem ao reino da fantasia e s√£o sempre produto de uma imagina√ß√£o paranoica; 4¬ļ) que s√£o particularmente prevalentes nas democracias; e 5¬ļ) que todas elas seguem fundamentalmente os mesmos padr√Ķes e estruturas de pensamento.

Est√° claro que as "teorias" da conspira√ß√£o n√£o s√£o um fen√īmeno novo, espalhado pela Internet. O assassinato do presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy (1917-1963), em novembro de 1963, tornou-se imediatamente objeto de enorme n√ļmero de "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news, por exemplo, muito antes de a Internet entrar em nossas vidas. J√° poucos meses depois do assassinato, quase metade de todos os americanos entrevistados pensavam que Lee Harvey Oswald (1939-1963) n√£o agira sozinho; em 1983, vinte anos ap√≥s o assassinato, essa propor√ß√£o subiu acentuadamente. O advento da Internet realmente reduziu a preval√™ncia das "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news sobre a morte do presidente, que no final de 2013, cinquenta anos depois, havia diminu√≠do entre os norte-americanos.

Mas "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news t√™m uma hist√≥ria muito mais longa do que esta. A grande Revolu√ß√£o Francesa de 1789-1794, por exemplo, foi permeada por eles, a partir das acusa√ß√Ķes de Robespierre (1758-1794) de que seus inimigos, como Danton (1759-1794), tinham conspirado com os brit√Ęnicos para derrubar a Revolu√ß√£o, ou o chamado Grande Medo, quando os camponeses foram instados a se levantar e atacar os propriet√°rios de terras e seus castelos na cren√ßa de que eles estavam envolvidos em uma trama aristocr√°tica macabra para assassin√°-los. Mesmo antes, a vida pol√≠tica sob o Antigo Regime era repleta de rumores sobre tramas pol√≠ticas e maquina√ß√Ķes nos bastidores. Mesmo sistemas pol√≠ticos aparentemente est√°veis s√£o propensos a tais cren√ßas.

Conclui-se que "teorias" da conspiração e #fake news não parecem ter se tornado mais prevalentes com a invenção e disseminação da Internet; desde a chegada da imprensa na era de Gutenberg (1400-1468), as "teorias" da conspiração foram espalhadas em livros e panfletos, mas podiam igualmente ser espalhadas boca a boca; durante a devastadora Peste Negra em 1349, rumores de que fora causada por uma conspiração judaica para envenenar o abastecimento de água dos cristãos levaram a pogroms em toda a Europa Central, que se espalharam de cidade em cidade, especialmente ao longo do Rio Reno; e no Grande Medo de 1789 a ideia de que a aristocracia estava conspirando para se livrar do campesinato na França foi espalhada de aldeia em aldeia, de boca em boca, como o grande historiador francês Georges Lefebvre (1874-1959) mostrou em seu estudo clássico.

Sempre houve conspira√ß√Ķes. Desde que a sociedade humana surgiu, alguns de seus membros reuniram-se em segredo por algum prop√≥sito il√≠cito que desejavam ocultar da sociedade como um todo. Sigilo √© um elemento essencial: n√£o s√≥ ningu√©m deve saber o prop√≥sito da conspira√ß√£o ou a identidade de seus membros, como tamb√©m nem saber que existem.

Desta forma, "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news n√£o s√£o tout court produto da incerteza p√≥s-moderna e/ou do relativismo sobre a verdade. Na verdade, os "te√≥ricos" da conspira√ß√£o insistem firmemente em que n√£o h√° nada incerto e/ou relativista sobre a verdade, e voc√™ nunca os encontra citando os fil√≥sofos Michel Foucault (1926-1984) e/ou Jacques Derrida (1930-2004). O fundamental, para todo g√™nero de "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news, s√£o as distin√ß√Ķes n√≠tidas (ou n√£o) e intransigentes entre verdade e falsidade. Supostamente toda linha oficial √© descartada e tida como falsa, enquanto as cren√ßas dos "te√≥ricos" da conspira√ß√£o s√£o apresentadas com todas as apar√™ncias de sinceridade e como verdades nuas e cruas. Muitas vezes, enormes edif√≠cios de detalhes emp√≠ricos s√£o constru√≠dos para apoiar determinada afirma√ß√£o; se voc√™ acha que as "teorias" da conspira√ß√£o s√£o uma forma de reduzir a complexidade do mundo moderno e a sobrecarga de informa√ß√Ķes numa f√≥rmula simples, voc√™ s√≥ precisa olhar para as compila√ß√Ķes meticulosas de evid√™ncias reunidas pelos defensores de quase todas as "teorias" da conspira√ß√£o para perceber que est√° errado.

Mas as "teorias" da conspira√ß√£o nem sempre ou necessariamente est√£o erradas. Muitas delas s√£o meras fantasias, mas tinham, e √†s vezes ainda t√™m, uma base na verdade. Em nossa pr√≥pria √©poca, algumas conspira√ß√Ķes sobre eventos relevantes realmente se revelaram verdadeiras: a destrui√ß√£o das torres g√™meas de Nova York em 2001 foi o resultado de uma conspira√ß√£o arquitetada dentro da Al-Qaeda. Alguns eventos importantes s√£o de fato produto de pequenos grupos de pessoas que se encontram em segredo para planej√°-los. Maquiavel (1469-1527) estava t√£o convencido da realidade das conspira√ß√Ķes como instrumento padr√£o da pol√≠tica dos principados na Renascen√ßa na pen√≠nsula it√°lica, que dedicou uma se√ß√£o inteira de seus Discursos sobre a Primeira D√©cada de Tito L√≠vio para discuti-las. Ent√£o, as "teorias" da conspira√ß√£o n√£o necessariamente pertencem ao reino da fantasia; se as investigarmos cuidadosamente, algumas acabam por ser fatos plaus√≠veis, n√£o aleat√≥rios e bem fundamentados. Por isso, contam com forte apoio na opini√£o p√ļblica.

"Teorias" da conspira√ß√£o e #fake news, ent√£o, s√£o produtos inevit√°veis das democracias, nas quais todos s√£o livres para apresentar suas pr√≥prias explana√ß√Ķes dos principais eventos. Na verdade, sabemos que "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news tamb√©m t√™m sido generalizadas em ditaduras e regimes autorit√°rios. Governos sentem-se inseguros e, embora alguns de seus medos sejam genu√≠nos, tamb√©m as usam como t√©cnica de repress√£o.

Uma ditadura como a de Hitler (1889-1945) baniu todas as organiza√ß√Ķes pol√≠ticas, exceto o Partido Nazista, e for√ßou todas as institui√ß√Ķes, incluindo a imprensa e os meios de comunica√ß√£o, a fecharem ou serem transformadas em organiza√ß√Ķes nazistas. Cr√≠ticos e oponentes foram obrigados a se esconder e trabalhar de forma conspirat√≥ria, mesmo que fosse apenas para produzir folhetos e panfletos para distribui√ß√£o secreta durante a noite ou, simplesmente, para manter a chama da liberdade queimando at√© que tempos melhores chegassem. Onde a discord√Ęncia aberta e a cr√≠tica s√£o imposs√≠veis, a √ļnica maneira de se opor ao governo √© formando uma sociedade secreta ou uma conspira√ß√£o.

Conspira√ß√Ķes, bem como suas "teorias" e #fake news podem ser produtos tanto de ditaduras quanto de democracias. A hist√≥ria est√° repleta de tramas secretas para derrubar os sistemas pol√≠ticos democr√°ticos, principalmente nas d√©cadas de 1960 e 1970, como os golpes de Estado que estabeleceram regimes militares em muitos pa√≠ses sul-americanos, notadamente no Brasil e Chile, bem como na Gr√©cia. Mas a exist√™ncia de uma ditadura ou de um regime autorit√°rio atua como incentivo para que seus inimigos se unam por tr√°s da cena para derrub√°-los.

Esses eventos frequentemente parecem inspirar "teorias" da conspira√ß√£o. Verdadeiras ou n√£o, "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news costumam seguir mais ou menos o mesmo padr√£o. Assim, por exemplo, muitas vezes se agrupam em torno de grandes eventos pol√≠ticos ou crimes, que frequentemente s√£o interpretados como o resultado de uma conspira√ß√£o, inten√ß√£o ou objetivo perseguido em segredo por um pequeno n√ļmero de conspiradores. Apesar disso, quando olhamos para os numerosos exemplos hist√≥ricos de assassinatos de importantes figuras pol√≠ticas e chefes de Estado, descobrimos que a maioria deles envolveu indiv√≠duos sozinhos, ao inv√©s de grupos de conspiradores, mesmo que tenham agido em nome de alguma ideologia mais ampla. Muitas vezes parece imposs√≠vel para muitas pessoas acreditar neste fato; da√≠ as "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news.

Para caracterizar "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news, muitas vezes come√ßamos por identificar os difusores de um evento e/ou fen√īmeno, bem como as pessoas que se beneficiam dessa divulga√ß√£o. Mas √© dif√≠cil aceitar que grandes consequ√™ncias podem advir de a√ß√Ķes individuais ou que a cria√ß√£o de uma ditadura foi baseada na explora√ß√£o de um evento n√£o intencional e imprevisto.

O que isso aponta √© que "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news podem assumir uma variedade de formas e estruturas. A fim de manter objetivos, prop√≥sitos, m√©todos de uma conspira√ß√£o, seus membros precisam mant√™-la em segredo e √© importante que um m√≠nimo poss√≠vel de pessoas esteja envolvido; frequentemente, de fato, conspira√ß√Ķes restringiram o fluxo de informa√ß√Ķes aos seus pr√≥prios membros, ocultando a identidade de alguns deles de outras pessoas.

No in√≠cio da Europa moderna, e bem no s√©culo XIX, as conspira√ß√Ķes cimentaram a lealdade de seus membros por meio de juramentos sagrados e cerim√īnias de inicia√ß√£o; na verdade, a express√£o "conspira√ß√£o" tem a ver com um juramento coletivo, tal como a conjura√ß√£o francesa e/ou a mineira. As conspira√ß√Ķes modernas se desenvolveram a partir deste modus operandi.

Ainda h√° muito a ser feito na pesquisa da hist√≥ria, estrutura e din√Ęmica das "teorias" da conspira√ß√£o e das #fake news, suas rela√ß√Ķes com as conspira√ß√Ķes reais e as mudan√ßas pelas quais passaram ao longo do tempo. √Č f√°cil ser alarmista e sugerir que s√£o uma amea√ßa √† democracia e √† confian√ßa nos sistemas pol√≠ticos democr√°ticos, mas houve relativamente poucas vezes em pa√≠ses democr√°ticos em que foram realmente concretas. Numa delas, o senador norte-americano Joseph McCarthy (1908-1957) explorou o anticomunismo em um per√≠odo na hist√≥ria da Am√©rica do p√≥s-guerra, o que provavelmente reduziu a possibilidade de dissid√™ncia democr√°tica e restringiu o alcance de opini√Ķes pol√≠ticas que eram leg√≠timas. Mas a mera prolifera√ß√£o de tais "teorias" e #fake news certamente n√£o √© uma amea√ßa em si. Algumas pessoas n√£o acreditam que pousamos na Lua, mas isso, s√≥ por si, n√£o vai prejudicar o sistema pol√≠tico.

Muitos, especialmente no Oriente M√©dio, pensam que o 11 de setembro de 2001 foi uma conspira√ß√£o norte-americana ou israelense, mas, novamente, isso n√£o causa o √≥dio em si pela Am√©rica, antes o expressa. Mais uma vez, essas ideias n√£o s√£o produto de d√ļvidas p√≥s-modernas e da incerteza, mas de preconceitos pol√≠ticos e ideol√≥gicos t√£o profundamente arraigados e apaixonadamente defendidos que √© dif√≠cil refut√°-los.

Obviamente, mais trabalho de pesquisa hist√≥rica precisa ser feito. Podemos intuir que "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news causam ansiedade e depress√£o entre as pessoas comuns e minam a confian√ßa em nossas institui√ß√Ķes pol√≠ticas e nos que as dirigem, mas existem muitas outras raz√Ķes para esta falta de confian√ßa al√©m de "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news. Tamb√©m podemos intuir que, afinal, poucos acreditam que somos governados por lagartos verdes alien√≠genas disfar√ßados. "Teorias" da conspira√ß√£o e #fake news aqui jogam apenas um papel secund√°rio; a maior parte das energias dos negadores, de um lado, e da comunidade cient√≠fica, de outro, √© direcionada a reunir evid√™ncias para apoiar seu lado da hist√≥ria. O debate segue seu curso, mas n√£o s√£o "teorias" da conspira√ß√£o e #fake news que amea√ßam a democracia e a rep√ļblica. Por si mesmas, tais "teorias" e #fake news podem refor√ßar a suspeita pol√≠tica e o preconceito, mas n√£o s√£o as suas origens. A luta em prol da rep√ļblica e da democracia se encontra nas profundezas da educa√ß√£o da nossa cultura¬†c√≠vica.

Niterói, 6 de julho de 2021

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Professor da Unyleya Educacional e do Instituto Devecchi

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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