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Observador político 2020

Luiz Werneck Vianna - Março 2020
 


Abaixo, todos os artigos sobre conjuntura publicados por este autor em 2020. O leitor deve procurar também os artigos das séries de 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2021 e 2022..

As nossas duas pragas (20 dez)

Um ano aziago, sem d√ļvida, esse que come√ßamos a deixar para tr√°s. Ent√£o, "que se foda 2020", como se estampa no r√≥tulo do vinho portugu√™s da Adega Azoeira, ali√°s bem caro, porque ele superou todas as medidas ao combinar duas pragas pestilenciais, a Covid-19 e o governo Bolsonaro. Deixa em seus rastros cerca de 190 mil mortos, at√© aqui, e uma obra de destrui√ß√£o de muitas institui√ß√Ķes frutos de conquistas de lutas democr√°ticas e populares em que se acalentavam aspira√ß√Ķes por uma sociedade menos injusta e mais igualit√°ria. Desse flagelo em que ainda se vive, acumulamos perdas, algumas irrepar√°veis, como a de vidas ceifadas, e outras que mais √† frente podemos com o tempo recuperar.

Contudo, esses têm sido também os tempos de avanços na valorização da ciência, como no empenho na busca de vacinas eficazes que interrompam a propagação incontrolada da atual pandemia, que ora se realiza por meio de uma comunidade científica que atua em caráter cosmopolita, ultrapassando os estreitos limites do Estado-nação. Igualmente viram renascer a agenda dos ideais da solidariedade e impuseram com vigor os temas ambientais, especialmente entre os jovens. Sobretudo, 2020 foi o ano da derrota eleitoral de Donald Trump e seu projeto malévolo de imprimir um movimento de marcha à ré nas coisas do mundo a fim de nos devolver por inteiro, em pleno século XXI, o Estado-nação de infausta memória.

A ascens√£o de Joe Biden ao governo dos EUA, na esteira dos movimentos sociais mobilizados em sua campanha vitoriosa, n√£o deve ser relativizada em sua import√Ęncia, como o fazem certas an√°lises tr√™fegas, pois trata-se, na verdade, de um acontecimento de repercuss√£o estrat√©gica que afeta para melhor a disposi√ß√£o de processos fundamentais, tais como os do meio ambiente, cujo alvo √© o capitalismo vitoriano predat√≥rio, e a revaloriza√ß√£o dos organismos internacionais, especialmente da ONU. Muito particularmente, e isso √© de evid√™ncia solar, a nefasta a√ß√£o da atual pol√≠tica externa brasileira e do seu minist√©rio do Meio Ambiente, a partir de 20 de janeiro, data da posse de Biden, perder√° seus pontos de sustenta√ß√£o, o que n√£o √© de pouca monta.

Os dois anos restantes do governo Bolsonaro ter√£o como horizonte pautas e agendas estranhas √†quelas de sua afei√ß√£o, uma sobreviv√™ncia ex√≥tica do trumpismo sem r√©gua e compasso para agir tanto no cen√°rio internacional como no interno. Dif√≠cil, nessas condi√ß√Ķes, conceber a sua reelei√ß√£o, o que o faro apurado das elites pol√≠ticas tradicionais n√£o deixar√° escapar. De qualquer modo, o novo ano n√£o ser√° como aquele que passou, cabendo a ele dar continuidade criativa ao legado que recebeu das lutas de resist√™ncia das institui√ß√Ķes republicanas, com papel destacado do STF e de suas c√Ęmaras de representa√ß√£o pol√≠tica.

As recentes elei√ß√Ķes municipais, embora de modo geral tenham confirmado a natureza conservadora da sociedade, viram nascer novas lideran√ßas - vale ressaltar o caso de Guilherme Boulos de √≥bvia voca√ß√£o nacional -, inclusive muitas delas origin√°rias do mundo popular e de movimentos sociais libert√°rios, como o feminista e dos que se empenham na agenda das den√ļncias contra as desigualdades raciais.

Numa aprecia√ß√£o mais abrangente, fica do ano do qual nos despedimos uma evidente revaloriza√ß√£o da pol√≠tica, revigorada pela decis√£o do STF que interditou, em leitura literal do texto constitucional, a reelei√ß√£o do comando das casas legislativas na mesma legislatura, animando partidos e parlamentares a a√ß√Ķes aut√īnomas quanto ao poder executivo, vindo a estimular, inesperadamente, pr√°ticas de negocia√ß√£o pol√≠tica e a√ß√Ķes concertadas em frentes multipartid√°rias em torno de valores comuns.

Vista da perspectiva de hoje, o que se descortina √© uma paisagem em muta√ß√£o quando confrontada com os idos da √ļltima sucess√£o presidencial. Sem triunfalismo, pode-se sustentar que o fascismo, mesmo que tabajara, apesar de sempre latente numa sociedade com a hist√≥ria de forma√ß√£o da nossa, foi um risco exorcizado ao menos imediatamente, e que ora se abre diante de n√≥s uma via franca para a pol√≠tica, sob a condi√ß√£o de que saibamos nos desatrelar dos erros que nos levaram ao desastre que a√≠ est√°. Sobretudo se soubermos aproveitar os bons ventos que nos v√™m de fora e dar sequ√™ncia √†s recentes e benfazejas pr√°ticas de alguns partidos e v√°rias personalidades pol√≠ticas em buscar solu√ß√Ķes negociadas em favor da democracia.

A tragédia da pandemia que nos assola e ao mundo, como tantos tão bem têm registrado, induz a mudança que leve a um combate sem tréguas a fim de reduzir, se possível erradicar, os seus efeitos macabros. Uma delas, visível a olho nu, está na destituição do paradigma neoliberal, influente por décadas, como narrativa capaz de explicar e reger a vida social. Na esteira disso, chega igualmente ao fim a primazia do Estado-nação na ordenação da cena internacional. Nenhum deles é uma ilha apartada dos demais, o regime dos ventos que vinha de Chernobil conduzia pelas nuvens sua carga tóxica aos distantes países nórdicos. O efeito bumerangue, magistralmente descrito por Ulrich Beck, em Sociologia do risco, mantém países ricos e pobres atados ao mesmo destino no que se refere aos perigos ambientais.

Entre n√≥s, a luta contra a pandemia transcende as dimens√Ķes t√©cnico-cient√≠ficas em raz√£o, como sabido, das convic√ß√Ķes temer√°rias do chefe do Executivo e do seu obtuso desconhecimento do que lhe diz respeito, incidindo diretamente na agenda pol√≠tica. Seu reino √© o do absurdo e sua contum√°cia inveterada em alardear desprop√≥sitos - a vacina vai fazer com que nos tornemos jacar√©s - parece estar orientada em conduzir seu rebanho n√£o para a imunidade, mas direto ao precip√≠cio. Tal como se dizia, d√©cadas atr√°s, em muitos dos filmes do nascente cinema novo, √© preciso fazer alguma coisa e colocar um ponto final nessa hist√≥ria de horrores.

Uma nova oportunidade e seus riscos (2 dez) 

Em movimentos lentos, mas cont√≠nuos, uma nova era afirma seu caminho em meio a uma resist√™ncia de desesperados, como a de Donald Trump, que pretendem barrar o passo aos processos que prefiguram passo a passo a apari√ß√£o de uma nova ordem nas coisas do mundo. Se esse tempo √© de esperan√ßa ele tamb√©m conhece riscos, como testemunha a atual onda de assassinatos de fins pol√≠ticos e do recrudescimento das possibilidades de uma guerra nuclear. O capitalismo vitoriano a que se concedeu novo alento desde os anos 1970, primeiro com Thatcher, depois com Reagan e, na sua forma mais encorpada com Trump, que o difundiu em boa parte do mundo escorado pelos recursos v√°rios de que dispunha, parece preferir o dil√ļvio a qualquer solu√ß√£o sem ele.

Aqui, na periferia, aguarda-se com f√īlego preso a transmiss√£o do governo de Trump a Biden, vitorioso nas elei√ß√Ķes com larga margem de votos, quando se deve iniciar de fato a retomada do pa√≠s da sua identidade e melhores tradi√ß√Ķes, a come√ßar por sua agenda ambiental, ora posta a servi√ßo dos propriet√°rios de terras e dos interesses da minera√ß√£o em solo amaz√īnico. A partir da√≠, ter-se-√° o ponto de Arquimedes para a regenera√ß√£o da inscri√ß√£o do pa√≠s no cen√°rio internacional aviltada pela figura anacr√īnica do chanceler que a√≠ est√°. Como num jogo de domin√≥, seguem-se o tema crucial das desigualdades sociais t√£o bem posto pela candidatura de Guilherme Boulos √† prefeitura de S√£o Paulo e, sobretudo, um largo debate entre as for√ßas democr√°ticas sobre o rumo que o pa√≠s deve perseguir na sucess√£o presidencial de 2022, se chegarmos at√© l√°.

N√£o ser√£o tempos f√°ceis os que temos pela frente, contudo certamente menos amargurados do que os que acabamos de deixar para tr√°s, com a sociedade impondo pela via eleitoral uma indiscut√≠vel derrota √†s for√ßas antipol√≠ticas e ao obscurantismo do governo Bolsonaro. Em particular, pela crise econ√īmica, patente no desemprego massivo que amea√ßa as condi√ß√Ķes de sobreviv√™ncia das classes subalternas, j√° sob os letais riscos da pandemia.

Mas, se as elei√ß√Ķes nos trouxeram boas not√≠cias, elas igualmente revelaram as dimens√Ķes do nosso primitivismo e atraso pol√≠ticos. Est√° a√≠ o Centr√£o, impando de satisfa√ß√£o, uma nova direita cevada pelo voto e uma esquerda sem for√ßas pr√≥prias e que ainda desconhece o terreno em que pisa, nost√°lgica do carisma de Lula e imune √† autocr√≠tica dos seus graves erros.

Visto do horizonte de hoje, para as for√ßas democr√°ticas que aspiram a reformas sociais o que se tem pela frente n√£o √© um cen√°rio estimulante, decerto distante do pesadelo em que viv√≠amos, percep√ß√£o contr√°ria da que medra no campo da direita e que descortina o futuro como um campo aberto para a conquista do poder pol√≠tico. Tudo permanecendo constante, como prov√°vel, acalenta-se uma solu√ß√£o de centro-direita que marginalize a esquerda. N√£o √© fora de prop√≥sito supor que, no caso, se estabele√ßa um sil√™ncio obsequioso quanto ao descalabro do que tem sido o atual governo, j√° indicado no telefonema realizado pelo prefeito rec√©m-eleito Eduardo Paes do DEM ao presidente Bolsonaro, cujas a√ß√Ķes na presid√™ncia seriam estimadas pela limpeza do terreno pol√≠tico da presen√ßa da esquerda.

Fora o al√≠vio imediato que as elei√ß√Ķes nos trouxeram, evitando a legitima√ß√£o do atual governo pelo voto, o quadro diante de n√≥s √© desalentador quando se pensa em cen√°rios futuros. As for√ßas do mando tradicional demonstraram capacidade de se reproduzir em cidades abastadas e nos ermos rinc√Ķes do pa√≠s, levando de rold√£o as prefeituras que se v√£o constituir na plataforma das pr√≥ximas sucess√Ķes, especialmente na presidencial. O travo otimista que nos fica vem principalmente da campanha de Boulos, em S√£o Paulo, de Marta Rocha, de Benedita da Silva e Renata Souza no Rio, com a boa recep√ß√£o que obtiveram nos redutos perif√©ricos de suas cidades ao denunciarem as alarmantes condi√ß√Ķes das desigualdades sociais, faltando-lhes compreender a necessidade de uma coaliz√£o entre suas candidaturas.

A sorte futura da esquerda, a fim de que seus temas se tornem influentes politicamente no que vem por a√≠, depende de mobiliza√ß√Ķes dessa natureza. For√ßa pr√≥pria √© a senha para que ela seja ouvida nesse caldeir√£o de ambi√ß√Ķes desatadas pelo poder num pa√≠s que tem a sina de que cada qual que detenha uma nesga de poder queira ser califa no lugar do califa. Por mais que seja verdadeiro o car√°ter de acidente na elei√ß√£o de Bolsonaro, ele n√£o pode ocultar o fato do nosso atraso pol√≠tico e da nossa incapacidade de reconhec√™-lo, suprindo essa falta com fantasias mesmo que bem intencionadas.

Nessa hora em que se acendem esperanças é preciso cautela com os que procuram nos vender gato por lebre, com candidaturas saídas de suas cartolas sem densidade e tirocínio comprovado. Não há caminhos de ocasião, o que se precisa é pavimentar com segurança a estrada para o futuro na longa caminhada que ora se inicia com espírito de luta que anime a vida popular para a ação e a imaginação aberta para o encontro com os democratas com que marcharemos juntos.

Sem Trump e com Bolsonaro perdido como cego em tiroteio nos dois anos que lhe restam, abre-se uma oportunidade para um esforço bem concertado no sentido de estimular alianças escoradas por baixo pelo apoio popular que traga de volta o que não soubemos conservar.

Salvo trope√ßos imprevistos, as coisas do mundo retornam ao leito das institui√ß√Ķes e da cultura pol√≠tica forjadas no segundo p√≥s-guerra, como a ONU e tantas outras, e n√£o nos faltam nem a tradi√ß√£o nem a voca√ß√£o para desempenharmos no que est√° por vir um bom papel nesse lugar que ocupamos.

¬†"√Č muito atraso. √Č preciso um novo despertar" (IHU On-Line, 18 nov.)

Apesar de ainda n√£o ser predominante em termos de n√ļmeros, a "mensagem espiritual" do "aleluia, aleluia e a luta continua com Crivella" √© a que tem atra√≠do pessoas com in√ļmeras frustra√ß√Ķes para os "cultos materialistas dos neopentecostais". Numa sociedade "hedonista e consumista", cuja parcela significativa das pessoas vive para garantir a "sobreviv√™ncia material do cotidiano", n√£o √© de surpreender que a pol√≠tica seja exatamente o que √©: atrasada, e que a religi√£o, aos poucos, deturpe n√£o s√≥ o cristianismo, como a realidade para manter tudo como est√°.

Diante desse cen√°rio, o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna, que da Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica do Rio de Janeiro ¬Ė PUC-Rio observa a realidade pol√≠tica brasileira, faz um alerta: "√Č preciso, sim, uma revis√£o profunda na orienta√ß√£o dos que cultuam valores mais permanentes, mais humanos, mais universais. √Č preciso encontrar algum espa√ßo". Nas elei√ß√Ķes municipais deste ano, destaca, n√£o vimos nada nesse sentido. Ao contr√°rio, "a elei√ß√£o foi a representa√ß√£o de um sentimento de inconformidade da popula√ß√£o com tudo o que a√≠ est√°".

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o sociólogo chama a atenção para o atraso da política brasileira, completamente alheia às urgências do país do ponto de vista social, ambiental e de saneamento. A superação do atraso político no país, adverte, virá somente se dermos um passo de cada vez e, nessa caminhada, sugere, "precisamos de uma jovem inteligência da qual se pode esperar alguma coisa nova, especialmente com origem nas universidades".

Confira a entrevista, feita por Patricia Fachin e Jo√£o Vitor Santos

O que o resultado das elei√ß√Ķes municipais deste ano revela sobre a pol√≠tica e a democracia de nossos tempos?

As elei√ß√Ķes foram um banho de sa√ļde na pol√≠tica brasileira. Revelam um pouco da verdade excessivamente existente no nosso mundo pol√≠tico, o que tamb√©m n√£o √© nada de espetacular. Num pa√≠s conservador, com voto conservador, o DEM aparece como um partido forte, com outras credenciais para a disputa presidencial mais √† frente, em 2022. A esquerda foi dividida, est√° sem programa. A elei√ß√£o foi a representa√ß√£o de um sentimento de inconformidade da popula√ß√£o com tudo o que a√≠ est√°. H√° uma esperan√ßa de que algo melhore com os candidatos de esquerda, mas eles n√£o t√™m programa, n√£o t√™m capacidade de articula√ß√£o, n√£o t√™m alian√ßas.

No Rio de Janeiro, se juntarmos os tr√™s candidatos de esquerda, cria-se um segundo turno, dada a divis√£o entre PT, PDT e PSOL. Essa divis√£o levou ao segundo turno, de modo que h√° alguns press√°gios no ar: nada de espetacular, mas terra √† vista. √Č poss√≠vel seguir nesta dire√ß√£o em que estamos e chegarmos a um porto, passo a passo. Essa elei√ß√£o foi mais um passo.

Ela tamb√©m precisa ser vista no contexto das elei√ß√Ķes americanas, que produz uma certa anima√ß√£o dos setores democr√°ticos a partir do que se passa na pot√™ncia hegem√īnica. A influ√™ncia do governo Trump no mundo embara√ßava as for√ßas democr√°ticas e impedia as possibilidades de avan√ßo. A remo√ß√£o [de Trump], que ocorrer√° em breve, abre uma bela janela de oportunidades.

O que tende a mudar nas rela√ß√Ķes do governo brasileiro com o novo governo americano de Joe Biden?

Abre uma janela de oportunidades imensa. Uma coisa interessante a ver nessa elei√ß√£o √© que, apesar de o tema ambiental ter tido um papel muito importante nas elei√ß√Ķes americanas e nas elei√ß√Ķes europeias recentes, essa quest√£o em particular n√£o ocupou papel relevante na agenda dos candidatos brasileiros. Nenhum partido levantou essa bandeira, em que pese a situa√ß√£o da Amaz√īnia e o que ocorre em mat√©ria de saneamento b√°sico.

Os partidos brasileiros ambientalistas se dissolveram, a pr√≥pria Marina est√° num lugar remoto nessa pol√≠tica. A aus√™ncia da agenda ambiental nessas elei√ß√Ķes √© um dado importante. A esquerda precisa descobrir temas, se comportar de forma inovadora. A esquerda est√° completamente defasada.

Vamos ver se receberemos algum alento a partir de agora para ver se avan√ßa e melhora. Mas n√£o h√° que se pensar numa esquerda exercendo um papel de protagonismo nas elei√ß√Ķes.

Qual a sua an√°lise quanto ao resultado das elei√ß√Ķes nas principais capitais do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul?

Nesse diapasão, no caso de Pernambuco e Pará - que também é relevante -, venceram os candidatos de centro e em geral de centro-direita, com grande apoio eleitoral, como é o caso de Salvador, na Bahia.

A pandemia de 2020 refor√ßou uma s√©rie de quest√Ķes que est√£o em pauta na √ļltima d√©cada: a emerg√™ncia clim√°tica, a concep√ß√£o de uma outra l√≥gica econ√īmica, a necessidade de uma renda b√°sica universal e um redimensionamento do poder e das a√ß√Ķes estatais. Com base no resultado das elei√ß√Ķes, como devem evoluir essas propostas?

Esses debates se fizeram presentes, mas sem muita pot√™ncia. Seria fundamental que o tema da renda b√°sica tivesse mais relev√Ęncia nessa disputa, mas n√£o teve. Esse tema n√£o encontrou uma sustenta√ß√£o forte e n√£o creio que tenha amadurecido alguma coisa nessa dire√ß√£o.

Quais são as saídas para as mazelas sociais que temos no Brasil, para além da política como a conhecemos?

A sa√≠da para a popula√ß√£o brasileira √© pol√≠tica, mas o problema √© que a nossa pol√≠tica √© muito atrasada, primitiva, r√ļstica.

Houve um avan√ßo em rela√ß√£o √† √ļltima elei√ß√£o, que foi dominada pelo atraso e pela grosseria, pela "arminha" e esses s√≠mbolos idiotas que prevaleceram naquela √©poca e que agora foram banidos. Mas as quest√Ķes fundamentais, como renda b√°sica, quest√£o ambiental, n√£o foram discutidas em profundidade. Os portadores desses temas, quando apareceram, foram fracos, com baixa densidade eleitoral. Quem venceu essa elei√ß√£o foi o DEM.

H√° candidaturas de esquerda que ainda podem ter um desenlace melhor, como a Manuela [d¬í√Āvila], no Rio Grande do Sul. Mas a ver, tem que esperar. N√£o sei o que vai se passar.

N√£o h√° motivo para satisfa√ß√£o, mas, ao mesmo tempo, a satisfa√ß√£o tem que ser vista com olhos cr√≠ticos: n√£o se pode achar que agora Roma est√° diante de n√≥s. Foi um passo importante, mas ainda pequeno. Falta muito. Faltam personalidades pol√≠ticas relevantes, faltam partidos relevantes, faltam programas confi√°veis, falta muita coisa. √Č muito atraso.

A solu√ß√£o americana adotou uma postura muito bem-feita no interior do partido democr√°tico, com uma coaliz√£o que, apesar das diferen√ßas entre as correntes, levou √† vit√≥ria, em condi√ß√Ķes muito dif√≠ceis. Foi uma vit√≥ria importante, uma das mais importantes dos √ļltimos tempos. Mas eles tiveram personalidades pol√≠ticas maduras, respons√°veis, que souberam construir a frente que levou [Joe] Biden √† vit√≥ria. Aqui, quem aparece com esse papel?

No Rio de Janeiro, tr√™s candidatos de esquerda disputaram a elei√ß√£o. √Č claro que se abriu uma oportunidade ao Crivella, apesar de toda a rejei√ß√£o da cidade a essa figura. O PSOL apareceu como um esbo√ßo de um partido de esquerda de novo tipo, mas qual √© o programa do PSOL? Qual √© a experi√™ncia do socialismo real, por exemplo? Tudo √© muito prec√°rio. Mas agora avan√ßou-se, deu-se um passo importante, porque mostra a necessidade de novos passos √† frente.

Como v√™ a proposta de te√≥ricos, como o franc√™s Ga√ęl Giraud, que sugerem uma convers√£o espiritual e pol√≠tica para realmente transformar as institui√ß√Ķes sociais que precisam ser modificadas?

Se essa mudança está ocorrendo, não estou vendo. Vejo uma sociedade que ainda é hedonista, consumista, com a maioria da população empenhada na sobrevivência material do cotidiano. Não tem portador para uma visão profética, por ora.

Seria importante uma mudança espiritual nesse sentido?

Ah, seria. Claro que seria, mas a√≠ veja: a Igreja Cat√≥lica no Rio de Janeiro se deixou ultrapassar inteiramente por um culto materialista como o neopentecostalista. Ela se retirou da pol√≠tica e da Teologia da Liberta√ß√£o - deu um fim nisso - e deixou o campo aberto nas periferias para a penetra√ß√£o desses cultos hedonistas de economia da prosperidade e teologia da prosperidade. De modo que √© preciso, sim, uma revis√£o profunda na orienta√ß√£o dos que cultuam valores mais permanentes, mais humanos, mais universais. √Č preciso encontrar algum espa√ßo. Mas nessas elei√ß√Ķes, qual candidato poderia ser identificado com uma mensagem desse tipo? Nenhum. √Č "aleluia, aleluia e a luta continua com Crivella". Essa √© a mensagem espiritual que h√° por aqui.

O que a Igreja poderia fazer nesse sentido para contribuir a fim de alterar esse percurso?

A Igreja tinha instrumentos na Teologia da Libertação, mas ela a desarmou, expeliu seus quadros e abriu essa clareira para que esses cultos de fundo materialista preponderassem.

Como as universidades católicas podem contribuir para solucionar esta crise e o que elas podem oferecer à sociedade neste momento?

Isso depende das lideran√ßas, das personalidades, dos intelectuais cat√≥licos. Eles t√™m que ocupar o espa√ßo p√ļblico e se aproximar outra vez da vida das periferias. As periferias foram abandonadas. Quando voc√™ vai a uma favela, v√™ Assembleia de Deus por toda parte. Voc√™ n√£o v√™ mais Igrejas l√° dentro. Havia? Sim, havia.

Há anos o senhor é um dos intelectuais que chamam a atenção para a crise de pensamento na sociedade. Como alterar esse curso?

Precisamos de uma jovem intelig√™ncia da qual se pode esperar alguma coisa nova, especialmente com origem nas universidades. O Instituto Humanitas Unisinos ¬Ė IHU √© um exemplo disso, entre tantos outros lugares universit√°rios que t√™m sido portadores de uma nova mensagem, mais humana. Este ainda √© um processo muito embrion√°rio, um novo despertar.

Essas elei√ß√Ķes demonstram o come√ßo de um novo estado de coisas. √Č a sa√≠da de um pesadelo que vai se dissipando aos poucos e ainda nos assombra. Precisamos de paci√™ncia e tamb√©m de trabalho di√°rio, cotidiano.

A sociologia brasileira pode contribuir de que forma nesse processo?

Ela tem produzido interven√ß√Ķes interessantes, especialmente a chamada jovem e nova sociologia brasileira. Ela est√° muito atenta ao tema da desigualdade, ao tema da vida nas comunidades perif√©ricas; √© um despertar interessante cujos frutos come√ßam a aparecer. Inclusive com intelectuais sa√≠dos da pr√≥pria periferia, como foi o caso da Marielle Franco. Ela era soci√≥loga e saiu da PUC-Rio. A candidata do PSOL [Renata Souza] tamb√©m √© uma intelectual interessante. Da rela√ß√£o entre universidade e periferia est√£o come√ßando a brotar frutos, com a forma√ß√£o de intelectuais sa√≠dos dos pr√≥prios setores marginalizados. Estes s√£o capazes de ser portadores de novidades no que se refere a uma pol√≠tica social de novo tipo, mais avan√ßada.

A minha universidade, a PUC-Rio, cumpre um papel muito interessante nessa dire√ß√£o, especialmente na aproxima√ß√£o com os jovens da periferia que ela acolhe por meio de bolsas de estudo para os seus cursos, formando jovens cientistas sa√≠dos das classes subalternas e que t√™m escalada na esfera p√ļblica. Marielle √© um caso de evid√™ncia solar, mas h√° tantos outros. Mas √© numa escala muito reduzida. A rela√ß√£o da universidade, por exemplo, com a favela da Mar√© √© interessante. O candidato a vice-prefeito da Martha Rocha, do PDT [Anderson Quack], √© uma lideran√ßa da Central √önica das Favelas ¬Ė Cufa. √Č por a√≠ que a banda tem que tocar. √Č preciso come√ßar a trocar o ar. Vamos ver.

Como as Humanidades podem dialogar com as demais ciências nas universidades?

Essa √© uma quest√£o dif√≠cil. Ainda h√° muitas pontes a serem constru√≠das nessa dire√ß√£o. Mas eu tenho a impress√£o de que isso tem melhorado. Olhando para a minha universidade, vejo que a rela√ß√£o tem melhorado. Mas ainda n√£o tenho condi√ß√Ķes de falar com maior clareza sobre isso.

O Rio de Janeiro n√£o pode ser Gotham City (set)

Entregues ao Deus dar√° vivem no nosso Estado do Rio de Janeiro quase 16 milh√Ķes de pessoas, boa parte delas, talvez a maioria, sem rumo e tateantes em busca de oportunidades de vida, lutando com unhas e dentes por um lugar ao sol, uma boquinha, um neg√≥cio da China, uma boa mamata, um falso brilhante, para alguns at√© uma c√īdea de p√£o. Mas o Estado do Rio de Janeiro nem sempre foi assim, pois aqui nasceu nosso estado nacional com suas elites dirigentes empenhadas em difundir ideais civilizat√≥rios, e sobretudo, nos anos 1930, tornou-se a sede do projeto de implanta√ß√£o dos alicerces da ind√ļstria pesada na cidade de Volta Redonda, que se tornou polo da siderurgia, elemento crucial para a industrializa√ß√£o do pa√≠s. Mais √† frente, outras iniciativas asseguravam essa primazia do estado na convers√£o do modelo agroexportador at√© ent√£o vigente nas atividades econ√īmicas para o industrial, tais como, entre outras, a F√°brica Nacional de Motores, a Companhia Nacional de √Ālcalis, a Petrobras e a Eletrobr√°s.

Foi sob o impulso do Estado autorit√°rio, institucionalizado pela Carta de 1937, que tomou forma o processo de moderniza√ß√£o autorit√°ria que iria remodelar o Estado e suas rela√ß√Ķes com a sociedade, conduzido por uma elite forjada ainda nos anos 1920, entre os quais se destacavam nomes como Alberto Torres, Oliveira Vianna, Manoel Bonfim, entre tantos, que, cr√≠ticos do liberalismo olig√°rquico e de sua rep√ļblica de fachada, preconizavam um estado forte que rompesse com o atraso do pa√≠s e abrisse caminho √† sua moderniza√ß√£o. Com a cria√ß√£o do DASP, em 1938, dotava-se o Estado da capacidade de selecionar e treinar uma elite burocr√°tica destinada a impor uma administra√ß√£o orientada para esses fins.

A democratiza√ß√£o de 1946 n√£o interrompeu essa trajet√≥ria que nos vinha da d√©cada anterior, apenas expurgou-a da sua ganga manifestamente autorit√°ria, conservando sua modelagem original de primazia do Estado sobre a sociedade, principalmente quanto aos fins da sua economia. Contudo, a natureza desse Estado manteve-se fiel √† sua constru√ß√£o nos anos 1930 e preservou seu car√°ter bifronte, uma vez que n√£o se reduzia aos elementos coercitivos, conhecendo tamb√©m institui√ß√Ķes e agendas voltadas para a produ√ß√£o de coes√£o social, muito especialmente abrigadas na f√≥rmula corporativa. Por meio das corpora√ß√Ķes o Estado se vinculava √† sociedade, em particular no mundo do trabalho, e, por meio desses nexos, seus fins e valores encontravam formas diretas de comunica√ß√£o com os sindicatos e seus filiados. A Justi√ßa do Trabalho cumpriria os fins estrat√©gicos de extrair os conflitos do trabalho, em uma sociedade que se industrializava de modo acelerado, da √≥rbita da sociedade para a do Estado, que os harmonizaria sob a media√ß√£o do Direito.

Ao estilo de Durkheim, soci√≥logo franc√™s ent√£o em voga, refer√™ncia importante na obra de Oliveira Vianna, autor chave na ideologia da moderniza√ß√£o autorit√°ria do per√≠odo, a pol√≠tica do Estado n√£o descuraria do tema da solidariedade social, recusando as concep√ß√Ķes atomistas do liberalismo reinante na 1¬™ Rep√ļblica. Nesse tipo de rela√ß√£o corporativa do Estado com os sindicatos, em que o primeiro, por meio da sua burocracia, incutia naqueles os valores e interesses nacionais ao tempo em que amparava seus direitos trabalhistas, tecia-se uma certa eticidade no mundo do trabalho, certamente a partir da √≥bvia assimetria nessa rela√ß√£o.

Nesse cen√°rio de empresas estatais e de organiza√ß√£o corporativa, ordenou-se a paisagem social do Estado do Rio de Janeiro, em particular da sua capital. De fora dele restava uma imensa popula√ß√£o vivendo de pequenos neg√≥cios e de of√≠cios urbanos praticados, em geral, individualmente. Esse mundo se encontra √† margem da pol√≠tica, ocupando posi√ß√Ķes intersticiais na vida urbano-industrial em expans√£o. A pol√≠tica, enquanto tal, se fazia no interior do Estado e dos seus aparelhos, os dos maiores partidos, o PSD e o PTB, vinculados a ele. De meados dos anos 1950 a 1964, sob o registro da quest√£o nacional, entendida em chave de desenvolvimento das for√ßas produtivas, tal cen√°rio, com algumas modula√ß√Ķes, se mant√©m.

A principal modulação se faria presente nas classes subalternas, emergindo do afrouxamento dos controles coercitivos a partir do governo JK de índole liberal, bastante reforçado no governo Jango, um antigo ministro do Trabalho no segundo governo de Vargas, quando a questão nacional encontra, pela via dos sindicatos, expressão popular. A cidade do Rio de Janeiro se torna o principal palco dessa mudança, e nela se constituem, na política e nas atividades culturais, novos atores sociais e políticos que vão exercer influência nacional, inclusive na vida popular, exemplar na crescente institucionalização das Escolas de Samba, cujos desfiles extravasam as fronteiras da sua capital para todo o país.

O golpe militar de 1964 atalha essa movimenta√ß√£o virtuosa, e as mudan√ßas que traz consigo v√£o repercutir dramaticamente nos destinos do Estado, em particular da sua capital. Expurga-se o que havia de Durkheim na f√≥rmula corporativa nas rela√ß√Ķes entre sindicatos e Estado, que se orientava no sentido de favorecer elementos de solidariedade social, e o que vai restar dela se perverte em instrumento de coer√ß√£o. De outra parte, o repert√≥rio que passa a ter vig√™ncia se desloca para os temas do mercado e do favorecimento da acumula√ß√£o capitalista com o abandono da quest√£o social, que antes, mesmo em plano secund√°rio, se fazia presente em agendas dos dirigentes pol√≠ticos.

A rea√ß√£o a esse estado de coisas ensejou nas duas d√©cadas seguintes intensa movimenta√ß√£o popular e das for√ßas do liberalismo pol√≠tico sobreviventes da razia operada em seus quadros pelo regime militar, que encontraram sua oportunidade na grave crise econ√īmica que amea√ßava o pa√≠s. Como √© sabido, a solu√ß√£o de compromisso encontrada para a sa√≠da do impasse que sitiava o regime militar foi o da sua autoextin√ß√£o com as salvaguardas que conseguiu impor. A Constitui√ß√£o de 1988 nasce com o mandato de renovar a vida democr√°tica do pa√≠s, embora n√£o venha a contar com sustenta√ß√£o expl√≠cita do PT, a esta altura o partido mais influente nas massas trabalhadoras, com √≥bvias repercuss√Ķes futuras.

Os dois partidos que dominarão a cena a partir daí, o PSDB e o PT, ambos com identidades enraizadas em São Paulo, vão encontrar dificuldades de implantação na política do Rio, onde a era Vargas, por meio de Leonel Brizola e do seu partido, o PDT, deixara fortes raízes. Nenhum desses partidos, entretanto, veio a demonstrar vocação de mobilização da vida popular, especialmente na imensa população das favelas que persistia à deriva da vida política, fora o esforço das Comunidades de Base da igreja católica em organizá-las, experiência virtuosa interrompida pelas elites eclesiásticas que a entenderam como de orientação simpática ao marxismo.

As classes subalternas da cidade, deixadas √† sua pr√≥pria sorte, se tornavam assim expostas, em particular os jovens, a atividades marginais, primeiramente do jogo do bicho e de sua corte de pistoleiros, que se convertiam em personagens tutelares das Escolas de Samba, e, depois, com a difus√£o milion√°ria do com√©rcio de drogas, do narcotr√°fico como seus "soldados". Na esteira disso, abriu-se passagem para a organiza√ß√£o das mil√≠cias, a pretexto de proteger a popula√ß√£o favelada da a√ß√£o dos narcotraficantes, como ocorreu com a favela de Rio das Pedras, na regi√£o oeste da cidade, arregimentando para sua opera√ß√£o a banda podre de policiais militares e civis, que se tornam senhores dos neg√≥cios de transportes, da venda de g√°s, at√© da constru√ß√£o civil, praticando extors√Ķes, em nome da prote√ß√£o, que alegavam fazer, da popula√ß√£o dos seus "territ√≥rios".

A partir desse lugar de for√ßa, controlando boa parte das favelas e regi√Ķes pr√≥ximas a elas, as mil√≠cias descortinaram o lugar da pol√≠tica, apresentando, em v√°rios casos com sucesso, seus quadros ou representantes como candidatos √†s elei√ß√Ķes municipais. O Rio corre o risco de se perverter em Gotham City, sem ordem, sem lei e religi√£o, salvo a de pastores que lhe recomendam a panaceia do empreendedorismo e que tamb√©m j√° descobriram o caminho do voto.

Trazer a cidade de volta √† vida e √†s suas melhores tradi√ß√Ķes n√£o √© tarefa f√°cil, cuja significa√ß√£o n√£o se limita ao local, porque afeta a pr√≥pria sorte da democracia no pa√≠s. Tem-se √† m√£o, nesta sucess√£o eleitoral que se avizinha, a oportunidade de come√ßar a virar esse jogo mal√©fico. Os partidos pol√≠ticos de compromissos democr√°ticos n√£o podem ignorar o caminho das alian√ßas que lhes abram a possibilidade de devolver a cidade aos seus cidad√£os depois de tantas experi√™ncias grotescas. Sobretudo devem estar atentos aos novos personagens que vieram √† tona nesta pandemia, principalmente os que souberam armar a trama da rede solid√°ria que protegeu os mais vulner√°veis, os profissionais da sa√ļde que com esp√≠rito c√≠vico se empenharam na defesa da vida, sem esquecer aqueles que permaneceram firmes em seus compromissos democr√°ticos.

A hora e vez da esquerda democr√°tica (ago)

Somos testemunhas ainda nessas primeiras d√©cadas do s√©culo de uma grande transforma√ß√£o apesar de n√£o a sentirmos, tal como no movimento da terra em suas rota√ß√Ķes, express√£o de Joaquim Nabuco, e j√° iniciamos, embora ainda tateantes e inconscientes, uma nova era. Contudo, dos anos 1980, de Margareth Thatcher e Ronald Reagan, retomados por Donald Trump no nosso s√©culo, foram feitas vigorosas tentativas no sentido de parar a roda da hist√≥ria e faz√™-la girar para tr√°s, tanto nos esfor√ßos de nos devolver aos nacionalismos outrora semeados pelos estados-na√ß√£o como em preservar a ideologia produtivista do neoliberalismo. Esse foi um tempo de desmonte de institui√ß√Ķes e de direitos, de esvaziamento de organiza√ß√Ķes internacionais, como a ONU, de tentativas de invalidar a Uni√£o Europeia (caso do Brexit ingl√™s), de deprecia√ß√£o da democracia e de suas formas de representa√ß√£o pol√≠tica, com a ressurg√™ncia anacr√īnica do populismo, inclusive em alguns casos na sua vers√£o fascista.

V√°rios marcadores denunciam que tais esfor√ßos n√£o t√™m logrado os resultados que deles se esperavam, quer porque se defrontam com obst√°culos derivados das suas pr√≥prias a√ß√Ķes na medida em que edificaram uma sociedade de risco, n√£o s√≥ com a prolifera√ß√£o dos artefatos de guerra nuclear como tamb√©m pela depreda√ß√£o do meio ambiente, expondo a sociedade humana a uma sucess√£o de epidemias letais, quer porque t√™m encontrado resist√™ncia pol√≠tica por parte de partidos, movimentos sociais, especialmente entre os jovens, governos e religi√Ķes, como no caso forte da igreja cat√≥lica.

De outra parte, as desigualdades sociais que se extremam no per√≠odo neoliberal, expostas na monumental pesquisa do economista Thomas Piketty, esgar√ßam ainda mais os la√ßos de solidariedade social, numa polariza√ß√£o aberta entre as classes dominantes e os seres subalternos, produzindo conflitos sociais agudos e cada vez mais intensos, particularmente agravados pela quest√£o racial, exemplar na cena atual pelas ruas das grandes cidades americanas e n√£o poucas europeias. E tamb√©m por a√≠, numa chave branda de interpreta√ß√£o ao estilo do velho e estimado Durkheim, se infiltram as convic√ß√Ķes de que o capitalismo nessa vers√£o vitoriana n√£o re√ļne mais condi√ß√Ķes de reprodu√ß√£o - sem base de sustenta√ß√£o em recursos que induzam a solidariedade social, as sociedades derruem.

A sociologia e as demais ci√™ncias sociais n√£o t√™m o cond√£o de mudar o curso das coisas no mundo, apenas explicam com diferentes capacidades de persuas√£o o que se passa nele. O meio id√īneo para transform√°-lo, como se sabe, pertence ao reino da pol√≠tica, que se encontra, no momento atual, diante da oportunidade de romper caminho para uma trajet√≥ria alternativa na sucess√£o presidencial dos EUA ao alcance das m√£os em apenas tr√™s meses, quando poder√° abalar ou mesmo p√īr abaixo este derradeiro pilar neoliberal com a derrota eleitoral de Donald Trump. Na pior hip√≥tese, caso ele triunfe, dadas as expressivas for√ßas que ora se op√Ķem a ele, que seja por meio de uma vit√≥ria de Pirro.

Sem a escora da pol√≠tica de Trump, garantia at√© aqui da reprodu√ß√£o da modelagem neoliberal, o teatro de opera√ß√Ķes na cena mundial ter√° diante de si uma bifurca√ß√£o, categoria a gosto de Piketty, abrindo-se a possibilidade para a imposi√ß√£o de rumos entrevistos no curso das lutas contra a atual pandemia, em particular na valoriza√ß√£o das pol√≠ticas p√ļblicas de sa√ļde, claramente percebidas no Reino Unido e no Brasil, dos mecanismos de coopera√ß√£o internacional e os diversificados movimentos de a√ß√£o solid√°ria sa√≠dos do ventre da sociedade civil, inclusive os origin√°rios dos seus setores subalternos, e, muito especialmente, no papel do Estado como lugar de articula√ß√£o dos esfor√ßos em defesa da vida, em que foram exemplares a Nova Zel√Ęndia e tantos outros casos nacionais. Tudo isso levado em conta, afirmam-se tend√™ncias que importam em viradas de p√°ginas e na percep√ß√£o de que um novo tempo faz parte do campo das possibilidades em presen√ßa.

Sem tal escora ou com seu enfraquecimento, pol√≠ticas que nela se arrimam, como notoriamente a brasileira, devem experimentar inflex√Ķes ben√©volas no seu curso, a serem exploradas pelas correntes pol√≠ticas democr√°ticas, a come√ßar pelas sucess√Ķes municipais que se investem de um papel estrat√©gico, inclusive em raz√£o do seu desenlace prefigurar o cen√°rio da pr√≥xima sucess√£o presidencial. Nesse sentido, a hora dos partidos √© esta, e o que cabe, na contracorrente de uma bibliografia irrespons√°vel que medra por a√≠, √© valoriz√°-los e procurar influir na composi√ß√£o de suas alian√ßas sem sectarismos e em torno de ideais democr√°ticos. Quanto √†s candidaturas, √© essencial conceder representa√ß√£o privilegiada √†queles que se destacaram nas lutas pela defesa da vida da popula√ß√£o, como os profissionais da sa√ļde e dos que organizaram os sistemas de coopera√ß√£o solid√°ria no mundo popular. Al√©m, √© claro, de selecionar pol√≠ticos com credenciais que os identifiquem com a democracia e com os temas relevantes para o mundo popular.

A cat√°strofe da pandemia que nos assola p√īs a nu o car√°ter patol√≥gico da modelagem de sociedades sob hegemonias da ideologia neoliberal, e n√£o por acaso EUA e Brasil lideram o ranking macabro de √≥bitos, ocupando os dois primeiros lugares. Obviamente que as candidaturas em suas campanhas eleitorais devem estar centradas nos temas que digam respeito √†s concep√ß√Ķes de sociedade e de justi√ßa, traduzidas no plano concreto por enunciados por pol√≠ticas distributivas e de promo√ß√£o social. Essa hora tem a cara da esquerda democr√°tica a ressurgir nas ruas e no voto.

A muralha e a sua porta (IHU On-Line, 22 jul) 

Aparentemente a atual conjuntura experimenta um tempo homog√™neo e vazio em que se reitera o j√° vivido, como se a sociedade estivesse condenada a movimentos de repeti√ß√£o de suas experi√™ncias passadas sem lhe conceder a faculdade de descobrir suas alternativas de futuro. A aceitar esses termos viver-se-ia agora, no Brasil, nas mesmas condi√ß√Ķes dos idos de 1964 a 85, restando a n√≥s reiterar as pr√°ticas bem-sucedidas naquele per√≠odo. Mas, de fato, nosso tempo nem √© homog√™neo nem vazio, pois for√ßas surgidas das entranhas da sociedade capitalista contempor√Ęnea brasileira trazem consigo a heterogeneidade e fazem emergir novos sentidos na vida social, alargando a porta estreita de que falava Walter Benjamin pela qual podem entrar as for√ßas da transforma√ß√£o.

Com efeito, se em boa parte novos processos benfazejos que transcorrem no mundo devem sua apari√ß√£o √† a√ß√£o do dom√≠nio dos fatos como protagonista, outra parte se deve ao plano da consci√™ncia do ator que se anima e se inova ao vislumbrar as novas possibilidades que percebe na porta entreaberta que tem diante si. De fato, a interven√ß√£o sem freios a que a expans√£o do capitalismo exp√īs o mundo, desencadeando exponencialmente suas for√ßas produtivas, vem precipitando processos disfuncionais que p√Ķem sob amea√ßa sua pr√≥pria reprodu√ß√£o, entre os quais os riscos ambientais, como a atual pandemia, que, se n√£o controlados, podem, no pior dos cen√°rios, varrer do planeta a nossa esp√©cie ou degradar a heran√ßa cultural que ela acumulou em sua jornada de s√©culos.

A onda neoliberal que tomou conta do mundo a partir dos anos 1970, em sua vers√£o de um capitalismo vitoriano, deixou em sua esteira, como o demonstra incansavelmente o economista Thomas Piketty, um lastro de desigualdades que corr√≥i por dentro a legitimidade do seu modo de produ√ß√£o. Ao lado disso, o legado do colonialismo com que o capitalismo iniciou sua trajet√≥ria de triunfos deu como um dos seus frutos amargos a quest√£o do racismo, primeiro pela importa√ß√£o massiva, sob o estatuto da escravid√£o, de africanos com que se supriram as plantations de m√£o de obra com que as Am√©ricas realizaram sua inser√ß√£o no mundo do capitalismo, e bem mais tarde, a√≠ j√° em cen√°rio europeu, com as migra√ß√Ķes origin√°rias das antigas col√īnias, tamb√©m em grande escala, em busca de oportunidades de vida em sociedades carentes de for√ßa de trabalho barata em servi√ßos subalternos.

A entrada em cena do racismo, em especial nos contextos europeus e americanos, como que veio a sobredeterminar as desigualdades sociais, instalando um sentimento generalizado de que a injusti√ßa se naturalizou na vida social, sentimento particularmente experimentado pelos jovens que se deparam com sociedades adversas √† sua participa√ß√£o. O movimento cat√°rtico dos jovens em grande n√ļmero de pa√≠ses, massivo no caso americano, em rea√ß√£o ao b√°rbaro assassinato de um negro por motivo banal pelas for√ßas policiais, trouxe √† luz a exist√™ncia de uma ainda embrion√°ria sociedade civil mundial e de novos personagens pol√≠ticos prontos a entrarem em a√ß√£o.

A atual pandemia que nos assola, por sua vez, acentua o quadro de fim de √©poca que se insinua neste tempo que parece nos ensinar a abandonar as concep√ß√Ķes de mundo do utilitarismo que o capitalismo nos imp√īs, para buscar novos caminhos, alguns deles j√° conhecidos pela longa hist√≥ria humana, como os que investiram nos ideais da igual-liberdade, para usar uma forte express√£o de E. Balibar.

A pol√≠tica √© o lugar pr√≥prio para essa descoberta, que j√° empreende passos promissores em v√°rios pa√≠ses europeus com a valoriza√ß√£o dos temas ambientais e das desigualdades sociais, e come√ßa a encontrar espa√ßo entre os democratas americanos que ora se contrap√Ķem, at√© aqui bem-sucedidos, √† reelei√ß√£o do anacr√īnico neoliberalismo de Donald Trump. Sobretudo ela √© necess√°ria aqui, neste canto do mundo que cedeu ao atraso e abdicou de suas melhores promessas com este governo Bolsonaro que acena com o fascismo e com uma administra√ß√£o tecnocr√°tica nos moldes preconizados por Paulo Guedes, ministro da Fazenda de confiss√£o neoliberal.

Se Bolsonaro √© prisioneiro dos idos do AI-5, a oposi√ß√£o democr√°tica a isso que a√≠ est√° n√£o deve ficar retida na sua hist√≥ria de sucessos nos anos 1980, embora deva estar atenta √†s suas li√ß√Ķes. A trama √© nova e novos s√£o os personagens, muito particularmente aqueles que surgiram com a auto-organiza√ß√£o da vida popular em suas lutas pela vida em meio √† cat√°strofe da pandemia, eles e os seus intelectuais que ganharam estofo nessas lutas, e junto a eles os movimentos de cientistas, de universit√°rios e de intelectuais que a eles se associaram. A pol√≠tica democr√°tica n√£o poder√° perd√™-los de vista, assim como abrir generosos espa√ßos a esses emergentes setores da esquerda, que, embora ainda imaturos em alguns casos, trazem consigo seiva nova a ser valorizada.

As elei√ß√Ķes municipais - elei√ß√Ķes, na nossa experi√™ncia, consistem em uma forma superior de luta - est√£o batendo em nossas portas, e a√≠ estar√° o momento, especialmente se a malfadada pandemia arrefecer, para recuperarmos os espa√ßos que fomos coagidos a abandonar. Nessa hora de retomada cumpre alargar, de forma tal que empalide√ßa todas as nossas experi√™ncias anteriores, uma frente democr√°tica que invista com energia contra as muralhas reacion√°rias que os desavindos com a nossa hist√≥ria e melhores tradi√ß√Ķes ergueram para a prote√ß√£o dos seus privil√©gios e de suas cren√ßas mal√©volas.

A sociedade adoeceu (IHU On-Line, 23 jun)

Para compreender o momento presente e as crises pol√≠ticas e sociais que o Brasil enfrenta, o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna costuma dar um passo atr√°s em busca das causas. O abismo pol√≠tico e social diante do qual o pa√≠s se encontra hoje, assegura, √© consequ√™ncia da pol√≠tica praticada nos √ļltimos anos. A elei√ß√£o do presidente Bolsonaro e os sucessivos atos antidemocr√°ticos que reivindicam o fechamento do Supremo Tribunal Federal - STF e do Congresso Nacional em defesa de um governo autorit√°rio, s√£o indicativos de que a sociedade brasileira adoeceu porque a pol√≠tica praticada nas √ļltimas d√©cadas n√£o favoreceu a organiza√ß√£o da cidadania. "N√£o quero arrumar culpados, mas fomos todos que perdemos uma heran√ßa important√≠ssima; deixamos que se dilapidasse diante dos nossos olhos a Carta de 88, que √© de inspira√ß√£o social-democrata - √© d√©bil, mas √© uma social-democracia e tinha possibilidade de desenvolvimento futuro. Para que isso ocorresse, precis√°vamos ter entendido que democracia pol√≠tica e democracia social deveriam andar juntas. No entanto, a partir de determinado momento, a esquerda hegem√īnica, no caso o PT, conduziu o tema do social sem pol√≠tica, sem amparar o social em institui√ß√Ķes democr√°ticas e sem fortalecer a democracia", afirma.

As consequ√™ncias de uma pol√≠tica "desamparada de sustenta√ß√£o cidad√£" podem ser vistas nas diferentes tentativas do governo atual de levar adiante a expans√£o irrestrita do capitalismo, removendo todas as barreiras sociais, e tentando remover as institui√ß√Ķes democr√°ticas, como o STF e o Congresso. Entretanto, adverte, remover as "trincheiras democr√°ticas", "nas circunst√Ęncias do mundo atual, n√£o √© f√°cil, ainda mais sem a reelei√ß√£o de Trump".

Enquanto a sociedade brasileira agoniza diante da crise pandêmica, do aumento do desemprego e da falta de perspectivas para o futuro, no meio político busca-se um "replantio", ou seja, restabelecer "caminhos já percorridos, como o da Frente Ampla, que fazem com que o diverso possa se encontrar, independentemente das suas diferenças". A questão, contudo, é ver se a iniciativa "frutifica".

Segundo ele, apesar de n√£o ter surgido uma lideran√ßa pol√≠tica que possa fazer frente ao fascismo tabajara do governo Bolsonaro, iniciativas populares de auto-organiza√ß√£o se fortaleceram durante a pandemia nas periferias carioca e paulista. "As coisas est√£o fermentando, aparecendo, mas √© claro que no mundo da pol√≠tica s√£o necess√°rias outras qualidades: √© preciso de algu√©m com perfil de estadista, que pense a partir da ci√™ncia, mas tenha a arte de realizar as suas concep√ß√Ķes, que seja ouvido, capaz de ter audi√™ncia. Isso est√° nos faltando, mas vai aparecer. Sempre aparecem esses personagens".

Na entrevista a seguir, concedida por telefone √† IHU On-Line, Werneck Vianna analisa os √ļltimos acontecimentos da conjuntura nacional, como a pris√£o de Fabr√≠cio Queiroz, ex-assessor do senador Fl√°vio Bolsonaro, preso na √ļltima quinta-feira. Queiroz, comenta, "faz parte do tipo de gente que veio com este governo: a ral√©, o mundo das mil√≠cias. Deixamos a sociedade t√£o vulner√°vel, que ela n√£o s√≥ foi apropriada por essa gente que est√° no governo, como criamos espa√ßo para a penetra√ß√£o das mil√≠cias no meio popular".

Apesar do contexto atual, o soci√≥logo acredita que a crise pand√™mica poder√° gerar mudan√ßas significativas no Brasil e no mundo. "A ideia de coopera√ß√£o, de uma sociedade mais solid√°ria, igual, est√° se impondo por for√ßa das pr√≥prias circunst√Ęncias que vivemos hoje. Os limites da sociedade conhecida j√° foram dados. Vivemos o fim de uma √©poca e estamos no limiar de outra, que j√° nasce com algumas percep√ß√Ķes fortes: coopera√ß√£o, igualdade, solidariedade, ci√™ncia", conclui.

Confira a entrevista. (Patrícia Fachin)

O seu diagnóstico é o de que a democracia está em risco não somente por causa do governo, mas porque a sociedade adoeceu, perdeu-se de si mesma. Desde quando estamos doentes política e socialmente?

Tudo que acontece hoje s√≥ foi poss√≠vel porque a sociedade adoeceu antes e permitiu a vit√≥ria dos que est√£o a√≠. Eles n√£o chegaram ao poder pelo golpe, mas pelo voto. Como os anos dos governos petistas n√£o favoreceram a organiza√ß√£o da vida popular, n√£o favoreceram a organiza√ß√£o da cidadania, a pol√≠tica ficou desamparada de sustenta√ß√£o cidad√£. Se acumulou, na sociedade, por for√ßa disso, um tipo de comportamento em setores sociais bem determinados - que chamo de ral√© de camadas m√©dias -, dirigido inteiramente ao consumo, ao culto idiota √†s personalidades midi√°ticas independentemente dos seus valores. Criou-se uma personalidade em torno da Sara Giromini, que usa o codinome Sara Winter, nome de uma espi√£ inglesa em favor do nazismo. N√£o importa, para eles, a hist√≥ria; importa a exibi√ß√£o, o espet√°culo e eles tiveram uma vota√ß√£o impressionante nas √ļltimas elei√ß√Ķes. Quantos deles est√£o nas casas parlamentares? Pessoas que vieram de lugares inexpressivos da vida social conquistaram posi√ß√Ķes e est√£o a√≠ hoje, emperrando a resist√™ncia democr√°tica no Congresso.

A criação de um abismo

Nada do que nos ocorreu foi fruto de um acaso; n√£o havia nenhuma fatalidade que nos empurrasse para essa situa√ß√£o. N√≥s criamos este abismo diante dos nossos p√©s com o tipo de pol√≠tica que praticamos nos √ļltimos tempos. N√£o quero arrumar culpados, mas fomos todos que perdemos uma heran√ßa important√≠ssima; deixamos que se dilapidasse diante dos nossos olhos a Carta de 88, que √© de inspira√ß√£o social-democrata - √© d√©bil, mas √© uma social-democracia e tinha possibilidade de desenvolvimento futuro. Para que isso ocorresse, precis√°vamos ter entendido que democracia pol√≠tica e democracia social deveriam andar juntas. No entanto, a partir de determinado momento, a esquerda hegem√īnica, no caso o PT, conduziu o tema do social sem pol√≠tica, sem amparar o social em institui√ß√Ķes democr√°ticas e sem fortalecer a democracia.

Um caso exemplar disso foi a n√£o subscri√ß√£o por parte do PT da Constitui√ß√£o de 88. A dist√Ęncia que o partido toma - o partido representava naquele momento a quest√£o social na sua forma mais vis√≠vel no Brasil - e o fato de n√£o ter assinado a Carta √© muito sintom√°tico deste posicionamento de que ele iria procurar avan√ßar na agenda social por fora das institui√ß√Ķes, e isso foi debilitando a democracia entre n√≥s. Inclusive, porque - eu tenho prurido em falar assim e no artigo eu falo em "blasf√™mia" - foi um partido de esquerda com representa√ß√£o no mundo sindical, que √© o cora√ß√£o pulsante da esquerda. O PT fez isso por falta de orienta√ß√£o e, quando acabou conquistando o governo, quis fazer dele um instrumento do seu programa da quest√£o social com independ√™ncia das institui√ß√Ķes, sem organizar, sem atentar para a dist√Ęncia que a cidadania tomava das institui√ß√Ķes, do Estado, porque tudo vinha de cima para baixo. Isso foi tornando a democracia debilitada.

Ralé de novo tipo

A derrota que tivemos é eleitoral e não um golpe como em 64. E mais: não foi só a eleição presidencial, foi um tsunami de votos de uma ralé de novo tipo que surgiu na política brasileira sem que nos déssemos conta disso.

N√≥s perdemos, mas n√£o perdemos tudo. Uma parte da nossa heran√ßa democr√°tica conquistada em 88 ficou e algumas institui√ß√Ķes tamb√©m. Essas institui√ß√Ķes ainda t√™m a mem√≥ria do que se conquistou naquele tempo. Como o governo que a√≠ est√° √© um governo que vem realizar um programa h√° muito tempo ansiado e esperado pela alta burguesia brasileira, de reformar a sociedade de uma forma tal que ela se tornasse mais compat√≠vel, propensa e favor√°vel √† penetra√ß√£o do capitalismo em todas as suas inst√Ęncias, as institui√ß√Ķes aparecem como um obst√°culo a ser removido. A marca neoliberal da pol√≠tica econ√īmica foi anunciada e atraiu setores muito poderosos da elite econ√īmica, especialmente do capitalismo agr√°rio, do agroneg√≥cio e do setor financeiro do capitalismo brasileiro, para que agora n√£o se tenha obst√°culos para avan√ßar: sem legisla√ß√£o trabalhista, sem legisla√ß√£o social, sem a social-democracia que trava e obriga a certas concess√Ķes.

√Č por isso que se quer entrar em terras ind√≠genas e fazer delas minera√ß√£o, trazer os cassinos para as grandes cidades, fazer com que o capital na sua forma pura venha a prevalecer em todas as inst√Ęncias da vida social. Este foi o projeto. Este projeto, contudo, n√£o quer nenhum obst√°culo pela frente, como as institui√ß√Ķes herdadas da democracia anterior. A luta, ent√£o, se estabeleceu: remova-se o Supremo Tribunal Federal - STF, remova-se o Congresso, para fazer da sociedade brasileira um territ√≥rio limpo e acess√≠vel para a extens√£o do capital onde for poss√≠vel. O capital quer tornar a sociedade totalmente domesticada e as institui√ß√Ķes t√™m recusado isso com energia, criatividade, coragem, mas elas n√£o t√™m instrumentos de defesa poderosos, salvo os da ordem moral. Ent√£o, elas foram sitiadas e pretende-se ou macul√°-las ou erradic√°-las, e estamos nesta disputa em que o governo avan√ßa contra as institui√ß√Ķes e as institui√ß√Ķes se defendem. Por ora, gra√ßas a Deus, a defesa tem sido efetiva. A sociedade est√° em crise, n√£o h√° um desenlace para isso e n√£o podemos acumular for√ßas nas ruas por causa da pandemia; n√≥s temos que defender nossas vidas. E com esta circunst√Ęncia, o apoio externo que poderia vir √†s institui√ß√Ķes fica fraco. At√© agora a linha de resist√™ncia tem sido efetiva. Mas at√© quando?

Quais institui√ß√Ķes reagem e lideram a resist√™ncia?

O Judici√°rio tem posto uma linha de resist√™ncia segura e tem sido uma trincheira importante das conquistas de 88. At√© quando, n√£o sabemos. Estamos numa guerra de posi√ß√Ķes, mas a essa altura este governo tenta transformar essa guerra de posi√ß√£o em guerra de movimento, isto √©, avan√ßar sobre o nosso sistema defensivo a fim de destru√≠-lo.

O que se diz, como ficou claro na reunião ministerial de 22 de abril, é que se quer aproveitar desta pandemia para avançar com garimpo, com distribuição de terras, com a expansão do agronegócio para colocar vaca no lugar da mata.

Está claro como as Forças Armadas estão se posicionando nesta crise ou por que não se posicionam?

N√£o tenho informa√ß√Ķes confi√°veis do que se passa na cabe√ßa da oficialidade que est√° nos quart√©is. A que est√° nos pal√°cios, sabemos, porque eles demonstram as iniciativas que o governo est√° tomando. Agora, ir√£o eles abandonar as institui√ß√Ķes e ir para uma ditadura aberta? Ser√° que topar√£o isso? √Č um mundo de risco para eles tamb√©m. Tendo a achar que n√£o. H√° um sentimento de autodefesa da corpora√ß√£o diante desses riscos, das circunst√Ęncias em que o mundo se encontra. O STF encontrou uma linha de resist√™ncia s√≥bria, firme e segura. No limite, que removam o STF e corram esse risco. O mundo n√£o est√° favor√°vel para isto e Trump n√£o deve ganhar as elei√ß√Ķes.

Por que a democracia não é um valor incondicional na sociedade brasileira?

Porque a nossa sociedade formou-se √† margem da vida democr√°tica. Como n√≥s nos criamos enquanto Estado, na√ß√£o e sociedade independente? Foi por uma revolu√ß√£o social libertadora? N√£o, foi por um movimento de c√ļpulas: o herdeiro da monarquia se torna imperador no Brasil. Como chegamos √† Rep√ļblica? Foi por um movimento popular visando √† participa√ß√£o? N√£o, foi por um golpe militar. Como chegamos √† aboli√ß√£o? Bom, com um certo movimento popular; o movimento abolicionista foi importante, mas foi por um ato imperial da princesa Isabel. N√£o houve um embate que fizesse com que setores mais reacion√°rios fossem deslocados. O que havia de mais reacion√°rio na sociedade imperial, com a aboli√ß√£o, n√£o foi muito afetado. Portanto, a nossa tradi√ß√£o de forma√ß√£o hist√≥rica √© uma tradi√ß√£o conservadora, quando n√£o reacion√°ria. Como fizemos a nossa revolu√ß√£o burguesa? Por cima, com Vargas, no Estado Novo. Como se deu todo o processo da moderniza√ß√£o? Se deu com alguns institutos liberais funcionando, mas com a Lei de Seguran√ßa Nacional do Estado Novo ainda vigendo, com a concep√ß√£o reacion√°ria de ordem social, de repress√£o √† vida popular nos anos 1950 e 1960.

Nos anos 60, o cen√°rio come√ßa a mudar - a√≠ deu p√Ęnico na direita brasileira - no terreno mais sens√≠vel, que √© o campo, a vida agr√°ria, de onde n√≥s sa√≠mos, de onde come√ßamos a nossa hist√≥ria, com as Ligas Camponesas. A organiza√ß√£o da vida popular no campo se tornou uma amea√ßa e foi preciso interromp√™-la para manter o padr√£o conservador, reacion√°rio, que √© a nossa tradi√ß√£o. O golpe de 64 vem nessa linha. Temos uma hist√≥ria pesada de autoritarismo, de dom√≠nio burgu√™s autorit√°rio. N√£o conhecemos uma revolu√ß√£o democr√°tica burguesa; a nossa revolu√ß√£o foi por cima, pelo Estado. Quer dizer, os her√≥is empres√°rios brasileiros tiveram um destino muito triste: Monteiro Lobato chegou a ser preso pelo Estado Novo por suas lutas em torno do petr√≥leo e do a√ßo; o projeto dele era se tornar um Henry Ford do Brasil. N√£o tivemos um Henry Ford vindo da sociedade, como nos EUA. As mudan√ßas ocorreram via Estado e isso deixou marcas de autoritarismo muito profundas; enfrent√°-las demandava uma intelig√™ncia que n√£o tivemos, n√£o soubemos ter. Cavamos um abismo aos nossos p√©s, como diz a m√ļsica do Cartola. E agora, como sair disso? Estamos tentando, restabelecendo caminhos j√° percorridos, como o da Frente Ampla, que fazem com que o diverso possa se encontrar, independentemente das suas diferen√ßas. Tudo isso √© um replantio. Vamos ver se frutifica.

Direita, centro e esquerda vão conseguir vencer as diferenças em prol de um pacto para deter a extrema direita, como alguns sugerem?

Diante da ameaça do fascismo - porque é disso que se trata - devemos procurar uma unidade de todos. Agora, isso é difícil, porque a nossa sociedade não é muito sábia, não tem história de sabedoria. Mas estamos tentando.

Isso vai depender da pol√≠tica, que depende da ci√™ncia e da arte tamb√©m. Vai depender do artista, de um pol√≠tico que seja senhor da arte de fazer esta composi√ß√£o dif√≠cil. No momento, este artista n√£o est√° dispon√≠vel, n√£o temos um Ulysses Guimar√£es, um Tancredo Neves, que eram artistas desta arte de fazer pol√≠tica, de tecer, a partir das ideias das pessoas, uma coisa comum. Pode ser que esteja aparecendo a√≠ e ainda n√£o vimos. Tem muita movimenta√ß√£o importante na nossa sociedade, inclusive nos setores subalternos, com novos intelectuais vivendo no mundo subalterno, como o Emicida, que √© m√ļsico, um intelectual fin√≠ssimo, um jovem. O conhe√ßo apenas da televis√£o, de entrevistas, e me impressiona muito. Como ele, h√° muitos e muitos outros que est√£o se apresentando agora.

Vida popular

Na vida popular h√° institui√ß√Ķes, como a da organiza√ß√£o popular de Parais√≥polis, em S√£o Paulo, que conseguiu estabelecer estrat√©gias de defesa contra a pandemia. Ela √© muito interessante como auto-organiza√ß√£o. Est√° havendo movimentos positivos na crise atual que estamos vivendo. Al√©m de Parais√≥polis, h√° uma s√©rie de outros casos. Na Rocinha, que √© uma favela importante no Rio de Janeiro, h√° um movimento de auto-organiza√ß√£o muito interessante. As coisas est√£o fermentando, aparecendo, mas √© claro que no mundo da pol√≠tica s√£o necess√°rias outras qualidades: √© preciso de algu√©m com perfil de estadista, que pense a partir da ci√™ncia, mas tenha a arte de realizar as suas concep√ß√Ķes, que seja ouvido, capaz de ter audi√™ncia. Isso est√° nos faltando, mas vai aparecer. Sempre aparecem esses personagens.

O senhor tem chamado o governo de "fascismo tabajara". Mesmo sendo tabajara, ele representa ameaças à democracia? Há algo comparável a este momento na história do Brasil?

Que √© fascista, n√£o tenho d√ļvidas. √Č tabajara porque as circunst√Ęncias s√£o as nossas, brasileiras, daqui deste peda√ßo escondido do mundo, que √© o Brasil. O fascismo aparece como um projeto bem mais sofisticado. N√£o d√° para esquecer que, no nazismo alem√£o, [Martin] Heidegger aderiu, Carl Schmitt aderiu; n√£o foi um fen√īmeno com a aus√™ncia do grande pensamento, de grandes intelectuais. Aqui temos quadros de pobres personagens e, por isso, tabajara. Mas √© fascismo.

O pr√≥prio integralismo no Brasil era um movimento de grandes intelectuais. Para mencionar alguns que me ocorrem agora: Santiago Dantas e Helder C√Ęmara. Eles s√£o homens que se aproximaram do liberalismo depois, mas que tiveram este momento de ades√£o ao fascismo. Miguel Reale, cujo filho est√° a√≠ e √© um liberal importante, tamb√©m se tornou um liberal no final da vida. Afora a penetra√ß√£o do integralismo nos c√≠rculos militares, especialmente na Marinha. Portanto, √© inteiramente distinto do que est√° ocorrendo aqui. √Č um movimento de pessoas muito rudes, toscas, despreparadas. Algumas, pouco alfabetizadas e dependentes do trumpismo. Essa arma√ß√£o de pol√≠tica externa desamparada, com Trump √† frente, est√° sob amea√ßa. Trump, a esta altura, dificilmente vencer√° as elei√ß√Ķes e, sem Trump, o que ser√° deles?

Eles precisam remover as trincheiras, mas remov√™-las nas circunst√Ęncias do mundo atual n√£o √© f√°cil. Como o Brasil vai reagir √† opini√£o p√ļblica internacional em rela√ß√£o a isso? Ainda mais que vivemos de vender mercadorias para fora. E se nossos compradores come√ßarem a enjoar de n√≥s e n√£o quiserem mais comprar as nossas mercadorias? E se a China resolve diversificar os seus vendedores, diminuindo ou rebaixando a presen√ßa brasileira no fluxo comercial? Como vai ficar se a Uni√£o Europeia fizer a mesma coisa? S√£o ideias muito anacr√īnicas, em um momento em que a sociedade humana enfrenta a pandemia.

A pandemia trouxe o tema da ci√™ncia como um dos mais relevantes da cena contempor√Ęnea, porque esta pandemia p√Ķe no horizonte outras que poder√£o vir. A sociedade humana precisa se defender e s√≥ pode se defender com a ci√™ncia, e ci√™ncia s√≥ se faz com liberdade.

A prisão de Fabrício Queiroz poderá reorganizar a cena política? Qual é o significado político dessa prisão para o governo, especialmente para o presidente Bolsonaro?

Faz parte do tipo de gente que veio com este governo: a ral√©, o mundo das mil√≠cias. Deixamos a sociedade t√£o vulner√°vel, que ela n√£o s√≥ foi apropriada por essa gente que est√° no governo, como criamos espa√ßo para a penetra√ß√£o das mil√≠cias no meio popular. Qual √© a presen√ßa real da Igreja Cat√≥lica na vida popular, nas favelas cariocas, que eu conhe√ßo relativamente bem? Muito pequena. Qual foi a presen√ßa do PT na vida perif√©rica e das favelas? Muito pequena. Deixamos espa√ßo para que esses aventureiros armados ocupassem essas posi√ß√Ķes e se tornassem presentes nos processos eleitorais, com candidatos, apoio, financiamento. Eles controlam setores das classes perif√©ricas. Isso tem que ser combatido e a sociedade come√ßou a acordar para isso.

A sociedade est√° muito doente. Est√° doente com a pandemia e socialmente doente; precisa se curar. Ela est√° em processo de cura, vamos ver se d√° tempo. O mundo est√° curando suas feridas numa dire√ß√£o muito boa: da paz, da ci√™ncia, da defesa do meio ambiente. Basta ver o que houve na juventude americana h√° duas semanas. Isso √© de uma import√Ęncia fundamental.

Queiroz é um homem das milícias. O que pode fazer o Queiroz? A partir da prisão dele, pode-se puxar um fio que irá expor as vísceras das milícias, se ele quiser falar.

Uma delação premiada seria um caminho?

Ele pode inventar isso e aí vai tudo embora... sei lá.

Qual é o significado da aproximação do governo com o Centrão?

√Č uma tentativa de sair das dificuldades em que ele se encontra pela pol√≠tica, evitando o caminho do golpe, que √© um caminho arriscad√≠ssimo para eles. O Centr√£o √© a tentativa de encontrar um caminho na pol√≠tica, o que qualquer estrategista diria que √© o mais aconselh√°vel para eles porque, inclusive, no horizonte est√° a derrota de Trump. Se h√° alguma lucidez entre eles, o caminho √© a pol√≠tica, √© encontrar um caminho para levar este governo at√© o seu t√©rmino. A sa√≠da de [Abraham] Weintraub, que √© um destrambelhado, fortalece essa possibilidade. Vamos ver se esse governo aprende a fazer pol√≠tica.

Na opini√£o p√ļblica, Bolsonaro j√° perdeu. N√£o d√° para saber ainda em que medida perdeu, porque a sociedade est√° assustada em suas casas, com medo da pandemia, com raz√£o.

As recentes manifesta√ß√Ķes que ocorreram contra o presidente indicam alguma novidade?

Aqui as manifesta√ß√Ķes foram pouquinhas; na Am√©rica [EUA] foi todo mundo. Elas foram positivas, apesar de darem apenas uma parte do que poderiam ser se n√£o tivesse a pandemia. As manifesta√ß√Ķes de S√£o Paulo foram expressivas, algumas no Rio de Janeiro tamb√©m. A sociedade adoeceu, mas n√£o toda ela; uma parte continua resistindo, continua com valores. Uma parte da Igreja Cat√≥lica adoeceu, aquela que foi fazer acordos com o governo para ter recursos para televis√£o. Mas h√° setores dentro da Igreja que n√£o est√£o doentes, lutam e resistem.

Foram anos de uma sociedade formada a partir da dominação autoritária, da escravidão. Queríamos ter o que como resultado? Essa milícia que está aí. Estão tentando fazer milagres de cauterizar as feridas, de encontrar um caminho.

Como ser√° o Brasil depois da pandemia?

Depois da pandemia, vai ser um mundo bom (risos). Não gosto de pensar nisso; é um futuro tão desejado que é melhor deixar ele se impor, se ele se impuser. Esperamos que isso termine para que possamos encontrar os amigos, os filhos, os netos. A sociedade que vai sair disso será melhor.

Mesmo com o aumento da pobreza, da crise econ√īmica?

A economia sempre se resolve.

Os intelectuais est√£o refletindo sobre o momento que estamos vivendo e fazendo proje√ß√Ķes de como ser√° o futuro p√≥s-pandemia. Como o senhor tem pensado sobre este momento, sobre os impactos deste per√≠odo para a sociedade? Que pensamentos a pandemia de covid-19 tem lhe suscitado?

O planeta est√° tamb√©m sob amea√ßa na quest√£o ambiental, das pandemias, ent√£o, a ideia de coopera√ß√£o, de uma sociedade mais solid√°ria, igual, est√° se impondo por for√ßa das pr√≥prias circunst√Ęncias que vivemos hoje. Os limites da sociedade conhecida j√° foram dados. Vivemos o fim de uma √©poca e estamos no limiar de outra, que j√° nasce com algumas percep√ß√Ķes fortes: coopera√ß√£o, igualdade, solidariedade, ci√™ncia. O nosso planeta √© muito pequeno e n√£o pode mais ser depredado pela a√ß√£o dos homens como foi e vem sendo feito.

H√° um sentimento de autodefesa da esp√©cie que vem se manifestando a partir de seus intelectuais, da sociedade, das grandes organiza√ß√Ķes, dos pa√≠ses democr√°ticos, da igreja, na a√ß√£o do papa Francisco, muito especialmente, que √© o horizonte com o qual vamos nos defrontar - aqueles que conseguirem sair desta pandemia vivos. Espero ser um deles; mas, enfim, eu sou do grupo de risco.

N√£o h√° mal que sempre dure (IHU On-Line, 18 jun)

N√£o d√° para esconder que a democracia brasileira esteja sob alto risco, e n√£o apenas porque se encontra amea√ßada por um governo que faz do seu desmonte o seu objetivo estrat√©gico, mas tamb√©m porque uma parte de sua sociedade abandonou sua afei√ß√£o por ela. Afinal, os governantes que a√≠ est√£o foram eleitos em pleitos eleitorais livres, secundados pelos parlamentares mais toscos, despreparados e vorazes conhecidos em nossa longa hist√≥ria parlamentar, presentes em todas as casas de representa√ß√£o pol√≠tica. Tamb√©m eles n√£o ca√≠ram do c√©u, foram eleitos, e muitos deles com estrondosa vota√ß√£o. O retrato l√ļgubre que estampam n√£o √© filho do acaso e da m√° vontade do destino, mas das nossas a√ß√Ķes e ina√ß√Ķes. Diante de nossos olhos a sociedade adoeceu, perdeu-se de si mesma, da sua hist√≥ria e melhores tradi√ß√Ķes.

Como isso p√īde acontecer aqui, justo no lugar que soube derrotar pela a√ß√£o pol√≠tica bem concertada um regime autorit√°rio que a afligiu por duas d√©cadas, essa a quest√£o que temos de sondar at√© as suas ra√≠zes a fim de encontrar rem√©dio para os males que nos atormentam. Que se ronde a blasf√™mia, inevit√°vel no caso, porque foi de um partido nascido da vida sindical, lugar sagrado da esquerda, que teve in√≠cio a difus√£o do v√≠rus maldito que apartou a democracia pol√≠tica da democracia social, cerne da concep√ß√£o da Carta de 88, destituindo a pol√≠tica do seu papel criador e pondo no seu lugar a esfera bruta dos interesses, deixando fora de foco o cidad√£o em nome dos apetites do consumidor - os autom√≥veis, as viagens de avi√£o, as comemora√ß√Ķes da For√ßa Sindical no 1¬ļ de maio com brindes e rifas aos participantes no lugar da evoca√ß√£o das lutas civis que tradicionalmente celebravam.

Principalmente o descaso com a organiza√ß√£o da vida popular e a descren√ßa no papel que uma cidadania ativa pode desempenhar nas democracias, uma vez que por cima de todos um poder tutelar agia em nome de todos, vindo a refor√ßar as tend√™ncias √† fragmenta√ß√£o social que d√©cadas de moderniza√ß√£o autorit√°ria tinham produzido. A quest√£o social sob a administra√ß√£o do Estado vem √† tona com pouca sustenta√ß√£o nos atores que deveriam ser os seus portadores naturais, orientada como estava para os fins pol√≠ticos da reprodu√ß√£o do poder tutelar que se empenhava, como recurso de legitima√ß√£o, na satisfa√ß√£o dos desejos de consumo das multid√Ķes.

Naquele contexto o que importava era a preserva√ß√£o das posi√ß√Ķes conquistadas no interior do Estado, pois era a partir dele que realizava o seu enlace com os movimentos sociais e setores da sociedade civil, a√≠ inclu√≠das atividades empresariais de todo g√™nero, movimento que mereceu ser designado como o Estado Novo do PT. Seus efeitos foram letais na medida em que exp√īs as estruturas do Estado √†s a√ß√Ķes de grupos de interesse que se valeram dessas rela√ß√Ķes prom√≠scuas para a expans√£o dos seus neg√≥cios e atividades econ√īmicas, terreno f√©rtil √† corrup√ß√£o. Com este flanco aberto, escancarou-se a possibilidade para o capitalismo brasileiro de se livrar dos in√ļmeros obst√°culos, sociais e institucionais, que obstavam sua plena realiza√ß√£o. A chamada opera√ß√£o Lava Jato foi o cavalo de Troia que permitiu a entrada em cena das hostes que h√° tempos ansiavam por essa oportunidade.

Com o terreno da pol√≠tica desertificado, lastro deixado pela Lava Jato, afetado em sua credibilidade o sistema da representa√ß√£o pol√≠tica, destru√≠das as escoras e refer√™ncias que orientavam o sistema de cren√ßas da sociedade, j√° enfraquecidas por anos de pr√°ticas refrat√°rias a uma cidadania ativa por parte do PT, a cena p√ļblica tornou-se presa f√°cil do mundo dos interesses e de todos os apetites. Uma ral√© de novo tipo, com extra√ß√£o nos setores das camadas m√©dias, em busca da fama e da riqueza f√°cil, inebriadas pelo mito p√≥s-moderno da personalidade, vislumbra na sociedade indefesa a sua hora e a sua vez e consegue postos importantes no sistema da representa√ß√£o pol√≠tica. Com a infiltra√ß√£o desses v√Ęndalos a obra da ainda inacabada civiliza√ß√£o brasileira passa a sofrer graves amea√ßas.

Contudo, dessa hist√≥ria de ruinas permaneceram de p√© as institui√ß√Ķes edificadas no j√° long√≠nquo 1988, ano que celebrou sua Carta democr√°tica, e por isso mesmo os b√°rbaros que a sitiam t√™m como lema a sua destrui√ß√£o. Seus defensores, com firmeza e sabedoria, t√™m sabido at√© aqui preservar esse √ļltimo reduto da democracia brasileira, mas seu esfor√ßo solit√°rio n√£o √© garantia de que poder√£o sem recursos externos sobreviver ao cerco a que est√£o expostas. A dificuldade para a efetiva√ß√£o desse movimento est√° na pandemia que nos assola e que nos mant√©m confinados em defesa da vida. H√° outros recursos, por√©m, que embara√ßam as a√ß√Ķes dos que tramam contra nossa democracia, um deles, nada irrelevante, prov√©m do mundo ao redor.

As for√ßas que nos rondam em nome da destrui√ß√£o da nossa obra coletiva tamb√©m sabem calcular, e t√™m tudo a temer, na economia e na pol√≠tica, no cen√°rio atual das coisas no mundo, caso prevale√ßam impulsos em suas a√ß√Ķes no sentido de apostar na barb√°rie que anima tantas lideran√ßas suas. O Brasil n√£o √© uma ilha e faz parte desde sua origem do sistema capitalista mundial, filho do Ocidente, sua forma√ß√£o nacional se forjou sob a influ√™ncia das correntes de ideias que nos vinham da Fran√ßa, no Imp√©rio, segundo a modelagem operada pelo Visconde do Uruguai, e, na Rep√ļblica, dos EUA, que inspirou em larga medida a sua primeira Constitui√ß√£o em 1891, obra em grande parte derivada da influ√™ncia de Ruy Barbosa na sua reda√ß√£o.

Orbitamos desde a√≠, de Rio Branco a Nabuco e Osvaldo Aranha, em torno desse √ļltimo eixo, que agora se move em rea√ß√£o contr√°ria √† pol√≠tica de Donald Trump, que desafia as concep√ß√Ķes dos seus pais fundadores em nome do seu projeto de poder em antagonismo com o universalismo e ideais civilizat√≥rios preponderantes ao longo da sua hist√≥ria republicana. Tal movimento, nos dias que correm, tendo como estopim a quest√£o racial, ganhou as ruas, em que pese a pandemia que a todos atinge, em multitudin√°rias manifesta√ß√Ķes de jovens apoiadas pela opini√£o p√ļblica e de grandes personalidades do mundo da cultura e dos esportes, n√£o lhe faltando sequer palavras de simpatia entre algumas de suas elites militares. Anuncia-se a possibilidade de mudan√ßa nas coisas do mundo.

A pol√≠tica dos governantes que a√≠ est√£o se encontra desalinhada das tend√™ncias benfazejas que ora se afirmam em todos os cantos do planeta. Sob a press√£o da pandemia em curso, a linguagem da coopera√ß√£o se universaliza, com forte intensidade na dimens√£o da ci√™ncia, onde se fazem presentes vigorosas den√ļncias do estado de coisas reinante no mundo, que adoece pelas desigualdades sociais, pela degrada√ß√£o da natureza e da vida em geral. Coube a n√≥s viver essa quadra inclemente sob a condu√ß√£o de ideologias de hosp√≠cio, hostilizados pelo besti√°rio de dirigentes que afrontam o mundo e o que h√° de melhor em nosso pa√≠s. Isso que a√≠ est√° n√£o pode durar, n√£o vai durar.

A resistência ao fascismo tabajara (maio/jun 2020)

Soam por toda parte os sinais de perigo e os toques de reunir. For√ßas mal√©volas que nos sitiavam, espreitando nossos movimentos e confiantes na pandemia que nos obriga, em defesa da vida, a evitar as manifesta√ß√Ķes nos espa√ßos p√ļblicos, um recurso importante do nosso repert√≥rio defensivo, calcularam ter chegado a hora do assalto √†s nossas posi√ß√Ķes. N√£o h√° por que tergiversar, o risco √© real e seu nome √© fascismo - tabajara, mas fascismo - que nos ronda desde os anos 1930, derrotado por duas vezes, em 1945 e 1985, mas nunca erradicado, entranhado como est√° em nossa hist√≥ria de moderniza√ß√£o capitalista autorit√°ria.

Fernando Gabeira, em iluminado artigo no Estado de S. Paulo na edi√ß√£o de 29 de maio, a rigor um manifesto, bendiz o dom de receber na derradeira fase da sua bela trajet√≥ria pessoal a miss√£o de lutar pela democracia. Tal miss√£o a todos, de todas as gera√ß√Ķes, √© confiada nesse momento dif√≠cil em que a sociedade se v√™ acuada pelo flagelo de uma epidemia letal. Hegel dizia que a escravid√£o somente era poss√≠vel quando o bem da vida se punha acima do bem da liberdade. Nosso caso n√£o √© t√£o dram√°tico, mesmo confinados contamos com espa√ßos de liberdade e recursos para uma livre comunica√ß√£o por meio da internet, conquista civilizat√≥ria ao alcance de todos.

Gabeira está consciente disso e dos limites que nos atam diante dos imensos recursos das forças que nos sitiam, mas os homens pensam e criam, e os desafios que nos confrontam exigem imaginação e inventividade. O caso da favela paulista Paraisópolis e de outras comunidades populares nos servem como paradigmas exemplares, a organização por conselhos, por sovietes, formas clássicas presentes em lutas populares, bem celebradas na obra de Hannah Arendt, ensinam caminhos a serem percorridos.

Em suas a√ß√Ķes de defesa da vida, amea√ßadas pela difus√£o da epidemia que a todos assola, as comunidades populares t√™m encontrado o apoio em c√≠rculos externos a elas, intelectuais solid√°rios, pessoas e institui√ß√Ķes de boa vontade, especialmente na Universidade e nos seus especialistas em sa√ļde p√ļblica e t√©cnicas de organiza√ß√£o social. Surge dessas inova√ß√Ķes uma trama promissora, ainda em embri√£o, a combinar a agenda da defesa da vida com a da liberdade, pauta dos intelectuais amea√ßados tanto pela pandemia como pela escalada autorit√°ria em curso, que tem como alvo o mundo da cultura e seus valores.

Tal descoberta para se impor na vida social depende da manifesta√ß√£o da vontade, muito particularmente da Universidade, que conta em seus quadros com especialistas capazes de levar a termo a sua difus√£o mesmo nas circunst√Ęncias adversas em que todos nos encontramos. A prop√≥sito, vale lembrar os protestos atuais contra a viol√™ncia policial na sociedade americana - um caso extremo em que cidad√£os se arriscam ao cont√°gio pelo v√≠rus diante da luta por liberdade -, exposta como a nossa √† pandemia. Aqui, estamos come√ßando a aprender a nos reunir e deliberar pela internet.

Decerto que a resist√™ncia nessa escala minimalista n√£o tem o cond√£o de opor uma linha forte de resist√™ncia ao avan√ßo crescente do autoritarismo, embora em si mesma ela represente um refor√ßo poss√≠vel da sociedade civil e de suas a√ß√Ķes. O reduto principal do sistema defensivo da nossa democracia est√° nas institui√ß√Ķes que herdamos da Carta de 88, principal foco do ass√©dio autorit√°rio em suas tentativas cada vez mais intensas no sentido de neutraliz√°-las e, no limite, erradic√°-las. O poder judici√°rio, um poder desarmado escorado apenas em sua autoridade moral, somente poder√° resistir ao ass√©dio de que √© objeto se encontrar sustenta√ß√£o na opini√£o p√ļblica, nas institui√ß√Ķes da sociedade civil e nos movimentos sociais que animam a vida popular. Sobretudo na disposi√ß√£o de reiterar aqui o esfor√ßo exemplar dos cidad√£os americanos nos dias que correm de defesa intransigente dos seus direitos constitucionais.

Para uma defesa eficaz contra os perigos que nos rondam, n√£o basta inventariar os recursos de for√ßa com que contamos, morais e organizativos, entre os quais os entes federativos refrat√°rios √† escalada autorit√°ria que se prepara para um golpe final em nossa democracia. A reuni√£o do nosso sistema de defesa requer imperativamente a capacidade de sobrepor o interesse comum, qual seja o de evitarmos o abismo que se abriria diante de n√≥s se permit√≠ssemos a ocupa√ß√£o do nosso pa√≠s por for√ßas estrangeiras √† sua hist√≥ria e √†s suas tradi√ß√Ķes de perseguir os fins de uma obra civilizat√≥ria. Torna-se necess√°rio tamb√©m compreender a que aspiram as for√ßas que nos antagonizam e a l√≥gica que organiza sua movimenta√ß√£o.

O triunfo da coaliz√£o de for√ßas heterog√™neas na sucess√£o presidencial contou como uma de suas palavras-chave a ideologia do neoliberalismo, por meio da qual atraiu o apoio decidido das elites econ√īmicas, especialmente das financeiras e agr√°rias, presen√ßa dominante no capitalismo brasileiro atual. Com essa marca de batismo, o novo governo nasce em antagonismo com a Constitui√ß√£o, de concep√ß√£o, em seus tra√ßos principais, social-democrata. Remover a Carta, considerada como entrave aos seus fins econ√īmicos, tornou-se assim um objetivo estrat√©gico do governo Bolsonaro em seu projeto de capitalismo de estilo vitoriano, endossado por seu minist√©rio, tendo √† frente a anacr√īnica presen√ßa do ministro Paulo Guedes.

Em raz√£o da arquitetura da Carta, que confiou a defesa dos direitos que criara a uma rede complexa de institui√ß√Ķes, ao estilo da Constitui√ß√£o americana e com elementos importados do sistema alem√£o, a ser sustentada, em √ļltima inst√Ęncia, pelo Poder Judici√°rio, em particular o Supremo Tribunal Federal, o regime Bolsonaro identificou de pronto o inimigo a ser confrontado. O teatro das opera√ß√Ķes ora em curso estava armado, e a palavra de ordem delenda Cartago, com que os romanos preparavam sua guerra de exterm√≠nio contra a sua cidade rival pelo dom√≠nio do mar Mediterr√Ęneo, encontra sua tradu√ß√£o nos des√≠gnios do atual governo de defenestrar o Poder Judici√°rio do sistema pol√≠tico, entregue apenas √† jurisdi√ß√£o dos conflitos privados.

A vontade do poder, encarnada no chefe da nação, não deve reconhecer obstáculos à sua manifestação, leitura privilegiada dos desígnios de Deus, da pátria e da família. Com pandemia e contra todos os riscos, o que há de melhor em nós, acima de todas as diferenças entre nós, não podemos aceitar isso.

"Programa político não há. A luta de Bolsonaro é pelo poder", diz Luiz Werneck Vianna (O Estado de S. Paulo, 14 mar 2020) 

O recuo do presidente Jair Bolsonaro do apoio √†s manifesta√ß√Ķes contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), marcadas para o domingo, 15, n√£o encerra a disposi√ß√£o do mandat√°rio de pressionar os outros poderes, avalia o cientista pol√≠tico Luiz Werneck Vianna. O pesquisador v√™ na mobiliza√ß√£o - temporariamente suspensa pelo presidente na quinta-feira - "uma tentativa de for√ßar os limites da institucionalidade, para romp√™-la".

O objetivo seria "totalizar a pol√≠tica brasileira por um projeto de poder", sem objetivo. Segundo ele, diferentemente do que ocorreu no governo de J√Ęnio Quadros (1961) e na ditadura (1964-1985), a iniciativa autorit√°ria que atribui a Bolsonaro n√£o tem programa. "√Č o poder pelo poder, para acumular poder", diz ao Estado o intelectual, professor da Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica do Rio.

Werneck Vianna afirma que, em sua ofensiva contra as institui√ß√Ķes, Bolsonaro apela a uma "ral√©", como descrita por Hannah Arendt (1906-1975), fra√ß√£o social formada por ressentidos de diferentes classes. Esse grupo social, ressalta, √© uma realidade nova e pode se tornar base do presidente. O pesquisador diz que o sistema pol√≠tico foi muito atingido pela Opera√ß√£o Lava Jato e lamenta que o Pa√≠s n√£o tenha l√≠deres como foram Ulysses Guimar√£es (1916-1992) e Tancredo Neves (1910-1985). Diz esperar que surjam novas lideran√ßas pol√≠ticas e explica sua esperan√ßa com varia√ß√£o da frase de Guimar√£es Rosa em Sagarana: "O sapo n√£o pula por boniteza, mas por√©m por precis√£o (necessidade)". (Entrevista feita por Wilson Tosta)

O recuo do presidente foi apenas "físico", por causa do coronavírus, ou foi também uma coisa política?

Foi político. Ele sentiu o esvaziamento. O coronavírus foi a sopa no mel.

O senhor acha que isso encerra o epis√≥dio ou o presidente tende a, mais adiante, retomar esse enfrentamento das institui√ß√Ķes?

Essa coisa vai ser retomada, sim, quando ele encontrar condi√ß√Ķes favor√°veis. Faz parte da natureza desse regime. √Č destruir as institui√ß√Ķes da democracia pol√≠tica. E com apoio de massas.

Como o senhor analisa a convocação da manifestação que foi suspensa?

Há uma tentativa de forçar os limites da institucionalidade para rompê-la. Há uma estratégia por trás de tudo isso, que é a conquista do poder político total.

Seria um gesto cesarista?

Há uma tentativa de totalizar a política brasileira por um projeto de poder. Porque programa político não há. A luta é pelo poder. Ele quer todo o poder possível, acumular poder, maximizar poder. O limite do poder é o poder. Então, esse é que é o leitmotiv dessa ação presidencial. Não tem programa nenhum.

N√£o tem finalidade?

√Č o poder pelo poder.

Isso tem precedente na história do Brasil?

Tem precedente sim, mas havia um programa envolvido. Agora n√£o tem programa nenhum...

Qual seria o precedente?

O J√Ęnio (presidente em 1961 por sete meses, at√© renunciar) tinha um programa. Terceiro-mundista l√°, aquela √©poca do Terceiro Mundo, naquele contexto. Do (presidente eg√≠pcio Gamal Abdel) Nasser (1918-1970), ele andava at√© com umas roupas¬Ö O saf√°ri¬Ö

√Č¬Ö O J√Ęnio tinha um programa muito definido. Agora, n√£o tem. Qual √© o programa? O pr√≥prio regime militar, que n√£o apelou √†s massas, mas quando tomou todo o poder para si tinha um programa, de moderniza√ß√£o por cima da sociedade. Agora n√£o tem.

O senhor acha que nesses atos o presidente poderia se dirigir diretamente às pessoas?

Acho que h√°, na verdade, um projeto de fascistiza√ß√£o do poder pol√≠tico no Brasil. A minha conclus√£o √© essa. N√£o tem programa econ√īmico, n√£o tem programa social, n√£o tem programa de sociedade, de pa√≠s, de nada. Quer o poder todo. Para fazer o qu√™? Conservar poder, mando.

E as pessoas comuns envolvidas nisso? O que as move?

√Äs elites econ√īmicas interessaria o caminho de elimina√ß√£o de obst√°culos sociais √† acumula√ß√£o. Agora, mas s√≥ isso? A esta altura, n√£o nos basta. A economia n√£o tem andado. N√£o tem obst√°culo nenhum, nenhum, nenhum diante dela. Ela n√£o anda porque n√£o anda, porque n√£o tem agentes econ√īmicos interessados, envolvidos, n√£o tem sociedade para isso. Este governo n√£o tem programa econ√īmico algum. Tem um programa pol√≠tico, de extrair o m√°ximo de poder poss√≠vel de todas as fontes existentes de poder. Para fazer o qu√™? Para exercer o poder total.

Mas tem muitas pessoas comuns, não são empresários, são pessoas comuns, que são entusiastas do presidente. Como é que se explica que isso se mantenha, após um ano de governo de resultados questionáveis?

Essas perguntas poderiam ser feitas tamb√©m √† expans√£o do fascismo na It√°lia, do nazismo na Alemanha¬Ö Bom, o nazismo na Alemanha teve as compensa√ß√Ķes do emprego, da ordem... Mas essa pergunta n√£o sei responder, entendeu? O que as pessoas est√£o querendo com isso, est√£o se deixando mobilizar por isso...

Chamar as manifesta√ß√Ķes seria uma forma de Bolsonaro manter a narrativa rebelde, de mito?

Eu não compartilho da ideia de que esse governo está tonto. Esse governo tem um projeto, o de conquistar todo o poder político para si. Quando ele conseguir isso, o que vai fazer? Vai conservar isso. Agora, para quê? Eles não sabem, não têm programa.

Com muita frequência, o presidente dá uma declaração controversa, polêmica. Aí tem uma reação, e ele se corrige, volta atrás…

Mas volta atr√°s sempre em um movimento de dissimula√ß√£o. Porque o norte permanece. Qual √© o norte? √Č a conquista de todo o poder pol√≠tico. O caso a√≠ dessa mo√ßa (Regina Duarte) que est√° na Secretaria de Cultura... Est√° a√≠ em uma circunst√Ęncia muito particular. Mais dia, menos dia, ela vai ser ejetada.

Mas quando ele faz isso, quando vai e volta, ele hesita ou isso √© um m√©todo para testar rea√ß√Ķes, do tipo "at√© onde eu vou", "at√© onde me deixam ir"?

√Č um m√©todo. √Č um m√©todo de teste de for√ßa. Sabe? Porque o objetivo √©, sempre, puramente pol√≠tico. N√£o em outra coisa qualquer. Agora, vem c√°. Tem uma realidade nova no Pa√≠s. Tem uma ral√©. Essa ral√© pode se tornar uma base social de apoio a ele. Entendeu?

O que seria essa ralé? O senhor poderia definir melhor?

Ah, s√£o os desapropriados de tudo, n√£o √©? De tudo¬Ö Mas n√£o √© s√≥ pobre, n√£o. √Č classe m√©dia tamb√©m. √Č ressentimento, ressentimento. E falta de valores, tamb√©m. A sociedade h√° muito tempo abdicou de valores. A sociedade se deixou perverter. H√° agentes de pervers√£o nisso.

Hannah Arendt (intelectual alemã) fala em ralé, que seriam pessoas de todas as classes, mas não deram muito certo…

Isso, isso. Olha, (falo) no sentido mesmo que Hannah Arendt fala.

Nos √ļltimos meses, o presidente tem atacado muito a imprensa profissional, inclusive com insultos no campo pessoal e com ataques a mulheres jornalistas. A que o senhor atribui isso?

A imprensa profissional expressa interesses organizados. Ele quer desorganizar tudo. Ele precisa de um v√°cuo, de um vazio.

Na sua avalia√ß√£o, as institui√ß√Ķes est√£o amea√ßadas?

Ah, est√£o. Tenta-se destituir as institui√ß√Ķes. As institui√ß√Ķes t√™m resistido. H√° uma possibilidade de conseguirem destituir as institui√ß√Ķes. H√° a possibilidade. O fato √© que a imprensa, a m√≠dia, tem se comportado de forma muito valorosa em rela√ß√£o a isso. Os articulistas¬Ö A situa√ß√£o est√° cada vez mais clara. Est√£o pondo a nu as circunst√Ęncias em que estamos envolvidos. Agora, depende de uma for√ßa pol√≠tica que interrompa essa maluquice, n√©?

Mas existe essa força?

N√£o, n√£o existe. Por ora, n√£o existe.

O que explica que o presidente tenha chegado l√°? Foi a implos√£o das institui√ß√Ķes pela Lava Jato, por tudo aquilo?

A Lava Jato ajudou muito, né? Ajudou muito.

Por quê?

Porque minou as institui√ß√Ķes, minou os partidos, desmoralizou a pol√≠tica.

Esse tipo de processo, imagino, n√£o √© s√≥ brasileiro. Outros pa√≠ses j√° passaram por processos assim, n√£o? Neles, as institui√ß√Ķes se fragilizam e surge um outsider, digamos assim.

√Č, vamos ver se vai ter (Benito) Mussolini (1883-1945, ditador fascista da It√°lia de 1922 a 1945) a√≠. N√£o tem Mussolini.

Ainda n√£o tem um Mussolini?

Não tem. Porque Mussolini, inclusive, era um homem preparado. E tinha programa. Aqui, é um fascismo nu.

O Brasil corre o risco de ter, se n√£o um regime autorit√°rio, uma democracia enfraquecida, com Congresso e Supremo Tribunal Federal sem relev√Ęncia?

Mas isso n√£o tem como ocorrer. Esse Congresso, apesar de ter uma das composi√ß√Ķes mais fracas da hist√≥ria republicana, resiste. Porque √© o Congresso, √© a pol√≠tica. A pol√≠tica √© a pol√≠tica.

Quer dizer, h√° obst√°culos a esse projeto autorit√°rio: a imprensa, o Congresso. O que mais o senhor veria?

O Judici√°rio, setores do Judici√°rio. O Supremo, por exemplo.

No curto prazo, o senhor acha que a pol√≠tica brasileira, o nosso sistema pol√≠tico, teria condi√ß√Ķes de se recompor, de sair disso e se fortalecer? Ou vamos ficar na situa√ß√£o atual por muito tempo?

Depende de lideran√ßas. Quer dizer, as nossas lideran√ßas est√£o muito velhas. O Fernando Henrique √© uma lideran√ßa muito d√©bil. As declara√ß√Ķes dele n√£o ajudam. Embora ele tenha declara√ß√Ķes di√°rias, elas n√£o ajudam. Estamos muito longe de um Ulysses Guimar√£es, estamos muito longe de um Tancredo.

Não há lideranças novas fortes, é isso?

N√£o tem, ainda n√£o tem. Vai aparecer, vai aparecer. O sapo pula por precis√£o, n√£o por boniteza.

"Estamos num momento de empate; n√£o de impasse" (IHU On-Line, jan 2020)

Transcorrido um ano desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, o caminho pelo qual o pa√≠s enveredou j√° n√£o √© mais "misterioso", como advertiu o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna em janeiro do ano passado na entrevista que concedeu √† IHU On-Line. Ao analisar o primeiro ano do governo Bolsonaro √† frente da Presid√™ncia da Rep√ļblica, o professor da Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica do Rio de Janeiro ¬Ė PUC-Rio √© categ√≥rico: "Ficou claro neste primeiro ano que o tabuleiro que est√° posto na nossa frente √© de uma guerra de posi√ß√Ķes. O governo est√° acantonado na sua trincheira, tentando implementar o seu projeto, que consiste em destruir o que havia antes e come√ßar algo que considera que seja novo". Do outro lado, diz, est√° a sociedade civil, que busca formas de resistir atrav√©s do fortalecimento dela pr√≥pria e das suas ag√™ncias. "O importante, a meu ver, √© que n√£o h√° mais nada enigm√°tico, est√° tudo claro: o que o governo quer e como a sociedade pode responder √†s pretens√Ķes autorit√°rias do governo", assegura, na entrevista concedida por telefone √† IHU On-Line.

Na avalia√ß√£o dele, a disputa de posi√ß√Ķes em curso no pa√≠s "favorece mais a sociedade, porque deixa √† vista de todos que o governo trabalha com certas limita√ß√Ķes pol√≠ticas e institucionais. Ele n√£o pode tudo, embora ele tente, a cada passo, um avan√ßo; tenta sair da sua trincheira e avan√ß√°-la um pouco a mais, mas √© obrigado a voltar, porque n√£o consegue consolidar suas posi√ß√Ķes mais √† frente".

Para ele, 2020, ano que ser√° marcado pelas elei√ß√Ķes municipais, sinaliza que estamos entrando em um cen√°rio novo, distanciando-se da era pr√©-Bolsonaro. "√Č novo porque neste ano tem a novidade das elei√ß√Ķes municipais, que v√£o mexer com este pa√≠s, v√£o facilitar os encontros, as alian√ßas, a formula√ß√£o de projetos alternativos. [...] As elei√ß√Ķes deste ano s√£o um bal√£o de ensaio para isso, especialmente em alguns estados relevantes da federa√ß√£o". A longo prazo, o soci√≥logo avalia que a sociedade caminha na dire√ß√£o de alternativas ao projeto do governo. "H√° um movimento das coisas atuando na sociedade que propicia a emerg√™ncia da novidade, da nova personalidade pol√≠tica e intelectual. N√£o estamos congelados no tempo", conclui.

Na entrevista que nos concedeu no ano passado, logo depois da posse do presidente Bolsonaro, o senhor disse que o país havia enveredado para um caminho muito "misterioso" e não se sabia para onde a balança iria pender. Depois de um ano de governo, já é possível saber para qual lado a balança pendeu? Como o senhor avalia o primeiro ano do governo Bolsonaro?

Este foi um ano de aprendizado para o governo e para a sociedade. Para o governo, porque ele testou os seus limites e as ideias que apresentou na campanha. Para a sociedade, porque ela aprendeu a encontrar formas de resist√™ncia ao projeto do governo. Ela deixou de ficar at√īnita, perplexa, e passou a encontrar formas de resposta. Pelo menos o esfor√ßo disso ocorreu.

Como o governo se saiu neste primeiro ano, ao testar seus limites?

Ficou claro neste primeiro ano que o tabuleiro que est√° posto na nossa frente √© de uma guerra de posi√ß√Ķes. O governo est√° acantonado na sua trincheira, tentando implementar o seu projeto, que consiste em destruir o que havia antes e come√ßar algo que considera que seja novo. Estamos na fase da demoli√ß√£o, mas haver√° outras. O importante, a meu ver, √© que n√£o h√° mais nada enigm√°tico, est√° tudo claro: o que o governo quer e como a sociedade pode responder √†s pretens√Ķes autorit√°rias do governo.

Agora estamos num cen√°rio novo. √Č novo porque neste ano tem a novidade das elei√ß√Ķes municipais, que v√£o mexer com este pa√≠s, v√£o facilitar os encontros, as alian√ßas, a formula√ß√£o de projetos alternativos. Elei√ß√£o no Brasil √© sempre algo que traz novidade e esta n√£o vai ser diferente. Estamos nos dissociando do per√≠odo anterior, pr√©-Bolsonaro, assumindo novas identidades, identificando novos problemas e novas solu√ß√Ķes. A inten√ß√£o do governo √© simplesmente erradicar todos os obst√°culos que est√£o postos diante de uma afirma√ß√£o capitalista selvagem no sentido de um projeto neoliberal, como se a experi√™ncia chilena encontrasse lugar aqui.

A sociedade brasileira √© muito adversa, refrat√°ria a isso, independentemente de forma√ß√Ķes partid√°rias, ideologias. A resist√™ncia a uma a√ß√£o econ√īmica descontrolada como a que se quer introduzir √© algo entranhado na nossa forma√ß√£o. Na quest√£o ambiental, por exemplo, se quer remover os obst√°culos que se manifestam nessa dimens√£o, como a quest√£o ind√≠gena, e promover a√≠ um capitalismo selvagem, com garimpos, avan√ßo do agroneg√≥cio; isto est√° visto e n√£o h√° mais enigma. O projeto do governo est√° vis√≠vel diante do olhar de todos.

Como o parlamento tem reagido a esse projeto e às tentativas do governo de colocar seu projeto em curso?

O parlamento tem afrontado tudo isso. Embora esse parlamento tenha uma representação mais fraca do que alguns anteriores, ele é expressivo da nossa cultura política e, para ele, há limites. Ele tem deixado isso claro. Essa não é uma novidade, porque isso apareceu no transcurso do ano que passou. Mas há novidades na emergência de novas lideranças intelectuais muito relevantes.

Quais, por exemplo?

Armínio Fraga, por exemplo, que vem do campo liberal e contesta o neoliberalismo primitivo com o qual o governo desempenha seu papel. Ele está atento à questão social, à necessidade de enfrentar as imensas desigualdades brasileiras e, não à toa, ele está sendo cortejado pela classe política como um novo intérprete - um intérprete interessante - do status quo que estamos vivendo.

O imperativo pol√≠tico, longe de estar banido da cena p√ļblica brasileira, se fortalece a cada passo. Inclusive, encontra muita express√£o na vida institucional, especialmente no parlamento e no poder Judici√°rio, sobretudo no Supremo Tribunal Federal, que tem servido como marcador da resist√™ncia da sociedade a esse projeto do governo que visa¬†√† sua desfigura√ß√£o.

√Č uma guerra de posi√ß√£o em que estamos empenhados: governo de um lado, sociedade do outro. No horizonte n√£o h√° nada que diga que uma das posi√ß√Ķes vai ceder para o avan√ßo da outra; ent√£o, √© uma guerra de posi√ß√£o continuada. Agora, a continuidade dela favorece mais a sociedade do que o governo, porque deixa √† vista de todos que o governo trabalha com certas limita√ß√Ķes pol√≠ticas e institucionais. Ele n√£o pode tudo, embora ele tente, a cada passo, um avan√ßo; tenta sair da sua trincheira e avan√ß√°-la um pouco a mais, mas √© obrigado a voltar, porque n√£o consegue consolidar suas posi√ß√Ķes mais √† frente. Por que o governo resiste tanto? Porque tem o apoio das elites econ√īmicas, especialmente das elites financeiras. Mas isso n√£o basta. Nem aqui nem em lugar algum isso bastou, especialmente numa sociedade complexa como a nossa, num pa√≠s continental, numa federa√ß√£o desigual. As dificuldades para isso s√£o muito grandes. Eu diria que √© uma impossibilidade, at√©.

Para onde estamos andando? Para que essa guerra de posi√ß√£o cada vez mais se sofistique, para que a sociedade recupere os seus movimentos. Coisas novas est√£o ocorrendo. Por exemplo: a revitaliza√ß√£o da Associa√ß√£o Brasileira de Imprensa ¬Ė ABI; toda a experi√™ncia acumulada na luta contra o regime de 64 est√° vindo √† superf√≠cie. A sociedade pode resistir pelo fortalecimento dela pr√≥pria, das suas ag√™ncias, da sociedade civil.

No início do governo Bolsonaro, alguns analistas disseram que o governo era composto por alas, como a ideológica, a neoliberal e a militar. Transcorrido um ano de governo, quais são as correntes que predominam na condução deste projeto? Há uma unidade em torno do objetivo fim do governo ou disputas internas entre as correntes?

Isso n√£o est√° bem compreendido. Ainda n√£o temos informa√ß√Ķes suficientes para o entendimento dessa quest√£o. Sabe-se, por exemplo, que na quest√£o da pol√≠tica externa os militares t√™m sido mais prudentes, mais inteligentes do que o governo. Um exemplo √© a quest√£o da Venezuela, onde havia a pretens√£o maluca de uma investida militar contra o pa√≠s, a qual n√£o encontrou passagem entre a elite militar. Nesta quest√£o sobre o Oriente M√©dio, intensificou-se na elite militar uma certa resist√™ncia a posi√ß√Ķes aventureiras do governo brasileiro quanto √† pol√≠tica com o Ir√£.

N√≥s fomos grandes vendedores para aquela regi√£o. Voltamos a uma fase pobre da economia. A ind√ļstria est√° fraca e cada vez mais enfraquecida, sem capacidade de rea√ß√£o. Tirando o mundo das exporta√ß√Ķes das mercadorias do agroneg√≥cio, n√£o temos nada na m√£o, mas uma parte importante do mercado est√° no Oriente M√©dio e temos que trabalhar com luva de pelica nessa regi√£o. Acho que os militares est√£o atentos a isso. Tenho minhas d√ļvidas, para falar de forma eufem√≠stica, de que o governo compreenda essa quest√£o. Ele age por necessidade, porque, por impulso, teria se envolvido mais na quest√£o da Venezuela e do Oriente M√©dio.

A sociedade acumulou muita experi√™ncia ao longo das √ļltimas d√©cadas e as classes sociais e as institui√ß√Ķes n√£o s√£o ing√™nuas em rela√ß√£o ao que est√° se passando aqui e no mundo.

As institui√ß√Ķes continuam funcionando neste governo?

Um dos alvos preferidos deste governo √© o Judici√°rio, especialmente o STF, que conta como cavalo de batalha do ex-juiz Moro, o qual, em nome de uma cruzada contra a corrup√ß√£o - uma cruzada idiota e que n√£o faz sentido algum -, ganhou uma parte da opini√£o p√ļblica e proje√ß√£o na m√≠dia, e provoca o Supremo a cada passo.

A vida institucional tem servido de obst√°culo para o aprofundamento das experi√™ncias autorit√°rias que o governo quer fazer. Aonde isso vai parar? Guerras de posi√ß√£o podem se converter em guerras de movimento. N√£o √© o caso de a sociedade se mobilizar agora para uma guerra de movimento, pois ela n√£o tem for√ßa para isso; mas o governo pode. Mas pode cometer aventuras nessa dire√ß√£o. Ele tem tentado descobrir um caminho para isso, mas est√° dif√≠cil, porque ele n√£o tem suporte interno. Por exemplo, os militares s√£o muito avessos a concep√ß√Ķes aventureiras.

A instituição militar tem séculos de experiência da vida republicana brasileira. A tentativa de fazer o governo passar de uma guerra de posição para uma guerra de movimento é uma aventura sem tamanho. Ele não tem força na sociedade, nem partido, nem movimentos sociais para isso. Tem arremedos como esse novo partido [Aliança pelo Brasil], que é uma ressurreição do Partido Integralista.

Estamos num momento de empate; n√£o de impasse. A sociedade vai tendo mais for√ßa a cada momento que passa e novas lideran√ßas surgem, como Arm√≠nio Fraga e outras que est√£o surgindo por a√≠. O novo √© imprevis√≠vel e a emerg√™ncia dele n√£o est√° sendo abafada por um autorit√°rio. Veja a m√≠dia: ela est√° desenvolta, voc√™ encontra articulistas e colunistas trabalhando facilmente nessa linha de procurar frentes de resist√™ncia ao que est√° a√≠. Agora, quando isso vai se constituir num movimento ofensivo por parte da oposi√ß√£o, n√£o d√° para saber. O fato √© que as elei√ß√Ķes deste ano s√£o um bal√£o de ensaio para isso, especialmente em alguns estados relevantes da federa√ß√£o.

Como as elei√ß√Ķes podem dar in√≠cio a mudan√ßas no cen√°rio pol√≠tico e movimentar a cena pol√≠tica?

O governo vai sem partido para estas elei√ß√Ķes. Tudo que √© institucional se volta contra o governo Bolsonaro, porque √© da natureza desses movimentos quererem autonomia, apoio da sociedade, e n√£o se pode ter apoio da sociedade recusando sa√≠das para ela. A trajet√≥ria de um [Jo√£o] Doria, por exemplo, √© absurdamente err√°tica, de um pol√≠tico que sente que o caminho do governo Bolsonaro n√£o √© favor√°vel a ele e fica procurando alternativas na sociedade. Como vai operar isso? Imagino que seja procurando alternativas mais ao centro e por a√≠ vai. Esse √© um caso extremo de um pol√≠tico muito oportunista, carreirista, mas que serve de exemplar por governar um grande estado como S√£o Paulo.

A solu√ß√£o pluralista √© muito grande. No caso do Rio de Janeiro, o [Marcelo] Crivella foi e √© um pesadelo que a sociedade carioca vive. Agora vem o carnaval, que por si s√≥ √© contradit√≥rio ao governo Crivella. Vai ser um carnaval daqueles, com 50 dias, e a sociedade vai cantar com os sambas-enredos, que t√™m uma narrativa democr√°tica, pluralista, de valoriza√ß√£o das coisas do povo, ao contr√°rio do que est√° a√≠. N√≥s n√£o somos uma sociedade totalit√°ria. Podemos at√© estar correndo o risco de nos tornarmos, se errarmos muito na condu√ß√£o da pol√≠tica, mas n√£o somos. O governo √© autorit√°rio, mas n√£o pode tudo, tem o parlamento, o Congresso, a opini√£o p√ļblica, que ainda √© incipiente. O fato da ressurrei√ß√£o da ABI, a meu ver, √© muito significativo, assim como o de outras institui√ß√Ķes, como a Ordem dos Advogados do Brasil ¬Ė OAB, a Confer√™ncia Nacional dos Bispos do Brasil ¬Ė CNBB, que s√£o experi√™ncias muito frutuosas que tivemos nos anos 1970 e que est√£o sendo resgatadas agora.

Está faltando a vida associativa, a política de vizinhança, especialmente no mundo popular. A política do PT nunca foi favorável a isso e essa é uma das heranças desgraçadas que o PT deixou: a falta de um entendimento do papel que a organização da vida popular pode ter. Faltam também os sindicatos, por ora muito enfraquecidos, mas o mundo do trabalho está aí, o desemprego está aí. O combustível da insatisfação do mundo do trabalho permanece e vai ficar silencioso agora, mas por quanto tempo? Não dá para subestimar a vida do trabalho e a vida associativa dos trabalhadores.

Por outro lado, estão aparecendo movimentos intelectuais da elite brasileira muito interessantes, com nova bibliografia, novas personalidades. Eles não estão emergindo com uma inclinação autoritária, antipopular, antidemocrática; ao contrário. Tudo isso que estamos vendo apenas em botão vai amadurecer muito lá na frente, especialmente no processo eleitoral.

Uma lideran√ßa pol√≠tica emergente como esse jovem apresentador de televis√£o, o [Luciano] Huck, aparece preenchendo teses autorit√°rias? N√£o. Seu discurso √© o da redistribui√ß√£o de renda, da democracia pol√≠tica, da for√ßa das institui√ß√Ķes. Sei l√° se ele vai vingar como pol√≠tico - espero que sim. Mas h√° outros que est√£o vindo na mesma dire√ß√£o, porque na verdade h√° um movimento das coisas atuando na sociedade que propicia a emerg√™ncia da novidade, da nova personalidade pol√≠tica e intelectual. N√£o estamos congelados no tempo.

O senhor est√° otimista com o futuro e com possibilidades de mudan√ßa a partir das elei√ß√Ķes municipais?

Neste sentido, sim, mas n√£o a curto prazo. O projeto do governo, para avan√ßar, precisava recorrer a um discurso de natureza totalit√°ria, mas vai fazer isso com quem? N√£o tem material humano para fazer isso. Os militares n√£o est√£o dispostos a exercer esse papel. Tem a√≠ um bando de intelectuais fora do tempo, anacr√īnicos, como o Ernesto Ara√ļjo, ministro das Rela√ß√Ķes Exteriores, e Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, mas essas s√£o pessoas condenadas a uma vida epis√≥dica, de borboleta. Eles n√£o estar√£o a√≠ nos anos que v√™m, n√£o t√™m solo para se instalar, para se reproduzir. Eu estou olhando no longo curso. N√£o estou dizendo que as coisas v√£o acontecer agora, mas dizendo o que n√£o pode acontecer, como, por exemplo, o governo investir mais no seu projeto autorit√°rio; tem limites para isso.

Qual é a expectativa em relação ao governo neste ano?

Pelo que entendemos da prática do governo até aqui, ele não vai mudar. Ele vai continuar neste caminho, insistindo na abertura de novas possibilidades para uma sociedade diferente da nossa: ele quer destruir a antiga para construir a nova, para edificar um projeto neoliberal e sujeitar a sociedade a um movimento livre do capitalismo selvagem. Essa é a pretensão do governo: um economicismo primário do ministro Guedes, que entende que a economia é capaz de, sozinha, mudar o mundo. Não é; nunca foi. Ela precisa da política, precisa da sociedade, e só o movimento do mercado não é capaz de trazer a novidade para nós. Mas essa é a marca do governo e ele não vai abandoná-la, porque faz parte do seu DNA.

Estamos, aos poucos, encontrando formas de resistir, e a resist√™ncia hoje √© diversa daquela que ocorreu nos anos 1960: at√© agora n√£o se falou - e espera-se que n√£o se fale - em resist√™ncia armada. A sociedade teve um aprendizado com isso. A senha para o avan√ßo da direita, para uma sociedade totalit√°ria, estaria numa esquerda que perdesse o rumo, perdesse o tino, mas como isso n√£o ocorreu, n√£o ocorre e provavelmente n√£o ocorrer√°, o governo se debate com ele mesmo diante de uma sociedade cada vez mais complexa e diferenciada. Em qualquer circunst√Ęncia, este √© um pa√≠s dif√≠cil de governar.

O Brasil, como disse o nosso grande poeta, não é para principiantes. Esta gente que está aí é principiante. O Guedes não entende nada da sociedade brasileira, se é que ele entende alguma coisa de economia. Ele não sabe qual foi a história do capitalismo brasileiro, a formação da burguesia brasileira, e se recusa a entender o papel que o Estado teve, que a política social teve na imposição do capitalismo entre nós, especialmente no mundo sindical. Através da fórmula corporativa, o sindicalismo foi atraído pela ordem burguesa na era Vargas, de forma harmoniosa; tutelada, mas harmoniosa. Agora, sem o mundo do trabalho, como a economia vai se montar, se edificar? Sem a inovação tecnológica da robótica, da inteligência artificial, como isso vai ficar? Com universidades sem recursos, com uma formação universitária capenga, com um sistema educacional desses? Não vai, não tem como.

Voc√™ esbo√ßou que eu estaria otimista. N√£o √© verdade, mas fico olhando e consultando as possibilidades que est√£o a√≠ e as possibilidades de se constitu√≠rem for√ßas alternativas ao que est√° a√≠. Isso est√° acontecendo. √Č lento? √Č muito lento. Precisa de calma? Precisa. Paci√™ncia, perseveran√ßa dia a dia; √© uma luta do cotidiano.

Gostaria de acrescentar algo?

Estou preparando um curso sobre a teoria pol√≠tica de Hannah Arendt e estou sendo obrigado a viver nos anos 1920, 30, com o avan√ßo do totalitarismo, do imperialismo, que s√£o os temas da autora. Vivo isso tamb√©m na minha realidade cotidiana e vivo imerso nessas cogita√ß√Ķes. E comparando o momento de hoje com o que foi o advento do totalitarismo, principalmente do nazifascismo dos anos 1930, a nossa situa√ß√£o √© completamente diferente. Inclusive, vivemos um tempo em que a hegemonia americana n√£o √© mais o que era. Qual √© a data disso? O desfecho da crise com o Ir√£ no Oriente M√©dio e o avan√ßo da China na economia - um avan√ßo dotado de movimentos de irreversibilidade.

A Rota da Seda passa pelo Ir√£. A influ√™ncia da pol√≠tica externa no Brasil no que se refere √† log√≠stica da produ√ß√£o brasileira √© apenas o come√ßo da investida da China no nosso mundo. A R√ļssia est√° assentada no arsenal at√īmico monumental, inabal√°vel. O que pode, nesta altura, o exerc√≠cio do imp√©rio americano? Ele est√° cheio de limita√ß√Ķes internas.

A quest√£o ambiental pega gregos e troianos, e n√£o h√° como fugir dela. Ela tem, por natureza, um elemento de corre√ß√£o do capitalismo na sua fisionomia atual. O capitalismo precisa de limites ambientais, sociais e pol√≠ticos. Acabou-se o tempo do exerc√≠cio do poder discricion√°rio da economia nas coisas do mundo. √Č isso que o Guedes n√£o entende. Flora√ß√Ķes como Guedes, Ara√ļjo, Salles, s√£o flora√ß√Ķes de uma primavera; n√£o resistem √† mudan√ßa de esta√ß√£o.

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Observador político 2019





























Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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