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O movimento negro e o ódio à mestiçagem

Adelson Vidal Alves - Março 2020
 

Abdias Nascimento, ex-integralista convertido em racialista de esquerda, tinha horror √† mesti√ßagem. O mesti√ßo, em sua vis√£o simplista da hist√≥ria, cumpriu pap√©is perversos na escravid√£o, prestando-se a capturar negros como capit√£o do mato. Abdias ignorava que lideran√ßas mulatas tiveram papel ativo em v√°rias rebeli√Ķes do Brasil col√īnia. E, ao denunciar um suposto genoc√≠dio do povo negro no Brasil, incluiu em sua reflex√£o a den√ļncia da mistura racial como estrat√©gia de elimina√ß√£o do preto brasileiro. Escreve ele: "O processo de mulatiza√ß√£o, apoiado na explora√ß√£o sexual da negra, retrata um fen√īmeno de puro e simples genoc√≠dio. Com o crescimento da popula√ß√£o mulata a ra√ßa negra est√° desaparecendo sob a coa√ß√£o do progressivo clareamento da popula√ß√£o no Pa√≠s".¬†

Duas coisas chamam a aten√ß√£o na fala de Abdias e merecem coment√°rio. O ventre da mulher negra, de fato, foi o espa√ßo do qual nasce parte da mistura racial brasileira, tal mistura que ainda comportou acordos pac√≠ficos entre colonos e nativas. N√£o se pode negar a viol√™ncia sexual dos senhores contra as mulheres escravizadas, mas √© um erro trabalhar a complexidade das rela√ß√Ķes sexuais na escravid√£o pelo olhar exclusivo do uso da for√ßa senhorial. A historiadora Ligia Bellini, em suas pesquisas, traz aspectos consensuais nas rela√ß√Ķes entre senhores e escravas, que inclu√≠am sedu√ß√£o, gratid√£o e at√© amor. Devo registrar que a regra, de fato, foi a for√ßa da domina√ß√£o.

O segundo aspecto na fala de Abdias √© sua vis√£o sobre a miscigena√ß√£o como processo de genoc√≠dio da popula√ß√£o negra. Ele reproduz em seu discurso a vis√£o do racismo cientifico no Brasil, que apostava no branqueamento da na√ß√£o pela √≥tica da mesti√ßagem. Se para muitos a miscigena√ß√£o era uma condena√ß√£o definitiva do nosso pa√≠s √† categoria de segunda divis√£o do mundo civilizado, para os racistas brasileiros a incorpora√ß√£o do branco nas rela√ß√Ķes inter-raciais poderia amenizar o "problema do negro no Brasil" (Nina Rodrigues). Hoje, basta olhar √† nossa volta para perceber que a "mistura das ra√ßas" n√£o criou um Brasil branco de olhos azuis; estranho que o movimento negro ainda siga na cren√ßa do genoc√≠dio via miscigena√ß√£o, a ponto de estender um cartaz na Avenida Paulista em manifesta√ß√£o no feriado de Zumbi, com o dizer: "Miscigena√ß√£o tamb√©m √© genoc√≠dio".

Abdias e outros intelectuais negristas, de ontem e de hoje, fornecem bases teóricas para o combate ideológico do movimento negro à mestiçagem, teoria majoritariamente importada dos Estados Unidos, onde a história racial passa longe de nossa realidade histórica.

Nosso vizinho do Norte consagrou uma classifica√ß√£o racial bin√°ria e fundada na descend√™ncia. A regra de "gota de sangue √ļnica", que tem entre seus formuladores o conservacionista Madison Grant, influ√™ncia no racismo de Hitler, determinava uma marca gen√©tica simples da √Āfrica como suficiente para classificar algu√©m como negro. A hist√≥ria americana, assim, √© de segrega√ß√£o oficial entre dois grupos raciais: negros e brancos. L√°, o Estado construiu a separa√ß√£o no aparelho legal das institui√ß√Ķes, dividindo negros e brancos em bebedouros e em assentos de transportes coletivos. At√© a d√©cada de 1960 v√°rios estados americanos ainda proibiam casamentos inter-raciais. Al√©m do mais, nos EUA est√° presente a mancha do racismo p√ļblico e aberto de uma Ku Klux Klan, e permanecem at√© hoje manifesta√ß√Ķes abertas de conflito racial. Chegou-se ao ponto de um Abraham Lincoln considerar a hip√≥tese de deportar negros para √Āfrica, em acordo com algumas lideran√ßas negras.

A hist√≥ria brasileira √© bem diferente. A escravid√£o por aqui foi cruel e violenta, como toda forma de escravid√£o, mas a marca racial n√£o foi o elemento fundador do cativeiro, e sim a l√≥gica econ√īmica mercantil-colonial. Na Am√©rica Portuguesa nenhuma lei impedia negros de terem escravos, e eles tiveram. O racismo organizado chegou aqui com a perspectiva da aboli√ß√£o, mas jamais introduzimos qualquer mecanismo de diferencia√ß√£o baseado em uma regra como a "gota de sangue". Oficialmente n√£o constru√≠mos bebedouros para "ra√ßas" distintas, e as manifesta√ß√Ķes de racismo nunca conheceram uma entidade organizada de alcance nacional como a KKK. √Č verdade que tudo isso n√£o foi capaz de eliminar o racismo brasileiro na pr√°tica. Mas o "racismo √† brasileira" tem particularidades. √Č velado, silencioso, e se faz dentro de um paradoxo pelo qual mais de 90% da popula√ß√£o rejeitam o preconceito racial, mas cometem racismo privadamente. A opini√£o p√ļblica brasileira foi constru√≠da sob a perspectiva antirracista, que o diga William Waack, punido rigorosamente por uma fala infeliz e deplor√°vel no seu cotidiano privado que veio a p√ļblico.

Nosso pa√≠s √© mesti√ßo, nossa cultura √© mesti√ßa, e temos orgulho disso. Basta olhar os n√ļmeros do IBGE e ver quanta gente se declara "parda" (termo estranho que etimologicamente tem o sentido de "branco sujo", mas que nas estat√≠sticas oficiais representa a ra√ßa intermedi√°ria). √Č o sentimento da mistura, da identidade formada entre v√°rios grupos √©tnico-raciais. Mas, para o movimento negro, tal sentimento √© fruto do racismo e da rejei√ß√£o individual de se assumir negro. O jeito militante encontrado para reverter o quadro foi copiar nossos vizinhos norte-americanos pelo vi√©s da cultura, doutrinar e recrutar "neonegros", convertidos na catequese racial a se identificarem com a cultura diasp√≥rica que vem da √Āfrica (como se a √Āfrica fosse homog√™nea).

Afrodescendente, então, passa a ser força identitária central para o negro que nasceu e se constituiu como ser social brasileiro, mas na cartilha militante é mais africano que brasileiro. Para obter seus objetivos, o movimento negro brasileiro insiste em montar por aqui um binarismo racial de tipo americano, ignorando nossas particularidades, atropelando nossa história. Com a consciência polarizada e racializada, o negro militante é convocado a enfrentar o branco, a construir muros raciais, quando o que deveríamos fazer é vencer o racismo pela ótica do universalismo humanista.

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Adelson Vidal Alves é historiador

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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