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Para entender a era Bolsonaro

L√ļcio Fl√°vio Pinto - Janeiro 2020
 


"Quer tentar entender Bolsonaro? Corra para a livraria, recomenda Traumann". √Č o provocativo artigo de Thomas Traumann, publicado no site Poder 360 [7 jan 2020]. O autor faz uma sele√ß√£o de livros que ajudariam a compreender Jair Bolsonaro. Embora o presidente seja "uma obra em andamento", os livros apontados ajudariam a entend√™-lo, segundo Traumann. A listagem √© extremamente √ļtil, especialmente diante da postura de abandonar a reflex√£o profunda e sistem√°tica pelas interjei√ß√Ķes e exclama√ß√Ķes via internet. Fiz algumas observa√ß√Ķes em it√°lico, entre colchetes.

O artigo de Thomas Traumann

De todas as vari√°veis sobre os riscos pol√≠ticos do governo Jair Bolsonaro, nenhuma √© maior do que o pr√≥prio presidente. √Č f√°cil tentar demarcar o 1¬ļ ano de Bolsonaro pelo voluntarismo e a imprevisibilidade, um misto dos ex-presidentes J√Ęnio Quadros com Jo√£o Figueiredo, mas o personagem √© muito mais complexo. Bolsonaro personifica um movimento conservador aut√™ntico na sociedade com ra√≠zes no movimento anticorrup√ß√£o dos tenentistas de 1922 e que abarca hoje uma ampla alian√ßa que vai dos eleitores evang√©licos √† elite financeira, do agrobusiness aos quart√©is do Ex√©rcitos e das PMs.

Bolsonaro é uma obra em andamento, mas, para entendê-lo um pouco mais, vale ler os seguintes livros:

Em Castello, a marcha para a ditadura (editora Companhia de Letras), o jornalista Lira Neto reconta a trajet√≥ria do general Humberto Castello Branco, do bullying escolar pelo f√≠sico atarracado (era chamado de Quas√≠modo) ao fracasso do in√≠cio da campanha brasileira na It√°lia na 2¬™ Guerra Mundial, revertido em sucesso com sua estrat√©gia para a tomada de Monte Castelo. Chefe do Estado Maior do Ex√©rcito do governo Jo√£o Goulart, foi um dos articuladores da deposi√ß√£o do presidente. Admirador do governador Carlos Lacerda, Castello era capaz de se reunir com o ex-presidente J√Ęnio Quadros (em janeiro de 1964) e pedir o voto do senador Juscelino Kubitschek para ser eleito presidente pela via indireta. Em 2 meses como presidente, Castello havia se afastado de Lacerda e cassado os direitos pol√≠ticos tanto de J√Ęnio quanto de JK. Docemente constrangido, o general aceitou que o seu mandato de 1 ano fosse prorrogado para 2 anos, ampliou o n√ļmero de ministros do Supremo Tribunal Federal [para ter o controle da corte, com integrantes que tinham princ√≠pios], extinguiu os partidos pol√≠ticos, multiplicou as possibilidades de cassa√ß√£o e acabou com as elei√ß√Ķes diretas para governadores e presidente.

O livro de Lira Neto é rico para entender como um governante sem base se torna refém de seu apoio mais radical. Quando a linha dura já preparava o bote, o então ministro da Justiça, Juracy Magalhães, tentava explicar a sua tentativa de fazer o Congresso aprovar por bem as medidas autoritárias: "Não se está dizendo ao Congresso, se você fizer isso eu te quebro a cara. O que se está dizendo é, se você não fizer, eles nos quebram a cara". Castello terminou seu mandato com um fantoche do ministro da Guerra e sucessor, Costa e Silva [acho imprópria a expressão, embora o desfecho desse conflito tenha aberto caminho para a ditadura desabrida].

Os engenheiros do caos (editora Vest√≠gio), do cientista pol√≠tico italiano Giulano Da Empoli, poderia ser lido como uma distopia. Relata como marqueteiros com uma aguda vis√£o da tecnologia se uniram a pol√≠ticos populistas para virar de cabe√ßa para baixo o conceito da democracia ocidental. Pois √©, n√£o √© distopia. Empoli fala do surgimento e auge do partido Cinco Estrelas, o blog de um humorista que se tornou a legenda mais votada na It√°lia, passa pelo indefect√≠vel Steve Bannon e o marketing de Donald Trump e chega ao novo est√°gio do presidente h√ļngaro, Viktor √ďrban, e seu partido "Deus, P√°tria e Fam√≠lia". Nenhuma semelhan√ßa nesse livro com a pol√≠tica bolsonarista √© coincid√™ncia.

Empoli mostra em seu livro como o discurso do antissistema - que Bolsonaro traduziu como Nova Política - é um método em si. "Aqueles que declaram que a chama populista durará pouco - pois uma vez no poder, as forças que a encarnam não conseguirão manter suas promessas - estão nadando em plena ilusão. A promessa central da renovação dos populistas é a humilhação dos poderosos (aqui entendidos como os políticos tradicionais, o politicamente correto, a mídia, as universidades). Essa promessa já está cumprida no momento em que eles ascenderam ao poder", escreve Empoli.

A inexperi√™ncia em gest√£o passa a ser uma virtude (pois comprova que o candidato n√£o faz parte do sistema apodrecido), os ataques grosseiros aos advers√°rios passam a ser visto como "autenticidade", as negocia√ß√Ķes com o Congresso s√£o substitu√≠das por intimida√ß√£o via trolls e matilhas digitais e o descr√©dito da m√≠dia √© uma a√ß√£o sistem√°tica para confundir a fronteira entre meias verdades e mentiras completas. √Č um jogo com novas regras, ou nas palavras do marqueteiro italiano Gianroberto Casaleggio, "a pol√≠tica n√£o me interessa. O que me interessa √© a opini√£o p√ļblica". [Sugiro, como complemento introdut√≥rio, Ideologia e utopia, de Karl Manheim, e A pol√≠tica como voca√ß√£o, de Max Weber.]

Medo (editora Todavia), do premiado jornalista americano Bob Woodward, √© um raio-x sobre os primeiros meses de Donald Trump como presidente. S√£o dezenas as hist√≥rias sobre como a elite burocr√°tica de Washington, o chamado deep state, passou a manipular a circula√ß√£o de informa√ß√Ķes at√© o presidente e sua equipe, temendo que eles tomassem atitudes que consideravam equivocadas. √Č fato que parte do deep state brasileiro torce o nariz para Bolsonaro e seu time, embora n√£o exista registro de que tenha seguido estrat√©gia semelhante. [O problema em Woodward √© a credibilidade das reconstitui√ß√Ķes minuciosas que ele faz de cenas, situa√ß√Ķes, atitudes e di√°logos. Sempre fica solto um fio de fantasia.]

Em Amanh√£ vai ser maior (editora Planeta), a cientista social Rosana Pinheiro-Machado traz a anatomia do distanciamento do discurso da esquerda com os mais pobres. Pesquisadora de fen√īmenos de massa com as Jornadas de 2013 e a greve dos caminhoneiros, Pinheiro-Machado conta como foi atacada ao observar em entrevistas o crescimento de Bolsonaro em antigos bols√Ķes lulistas. "O tom das mensagens era algo como: ¬ĎComo assim votar em Bolsonaro se nunca ningu√©m fez tanto pelos pobres como Lula? Isso s√≥ pode ser mentira¬í. A cegueira, a nega√ß√£o e o autoengano t√™m sido alguns dos nossos maiores entraves para a resist√™ncia ao projeto bolsonarista. Narciso n√£o gosta de nada que n√£o seja espelho. Na imobilidade, foi mais f√°cil acusar Junho de 2013 e a greve dos caminhoneiros de 2018 de serem express√Ķes coxinhas e fascistas do que tentar entender qual revolta estava sendo mobilizada", escreve.

O livro √© um roteiro para entender o dilema da esquerda, especialmente a petista, em aceitar a derrota de 2018. "A esquerda tem a op√ß√£o de simplesmente postar memes do tipo ¬Ďque se ralem, eu n√£o votei nele¬í, numa esp√©cie de vers√£o mais radical de ¬Ďeu n√£o bati panela¬í ou ¬Ďeu n√£o votei no A√©cio¬í. Essa √© uma op√ß√£o leg√≠tima, mas confort√°vel. Admitir que h√° muito a fazer e a repensar √© muito mais trabalhoso. As sa√≠das √† esquerda n√£o passam pela ado√ß√£o de uma v√£ narrativa indignada, mas por uma profunda reconex√£o com as periferias que leve √† indigna√ß√£o: com a falta de comida, a compra de votos, os assaltos sofridos na parada de √īnibus, o emprego prec√°rio", escreve.

O melhor livro sobre as origens da recess√£o brasileira do final de 2014 at√© o final de 2016 est√° no pequeno cl√°ssico Valsa brasileira (editora Todavia), da economista Laura Carvalho. A sucess√£o de erros que empurram o pa√≠s para o abismo √© um relato do poder da influ√™ncia sobre um presidente. No livro, Carvalho relata a influ√™ncia direta das reivindica√ß√Ķes empresariais na Nova Matriz Econ√īmica do governo Dilma (ironicamente batizada no livro de Agenda Fiesp) e os erros da equipe econ√īmica em acreditar que as medidas de incentivo que haviam dado certo ap√≥s a crise de 2008/09 iriam ter novo sucesso a partir de 2012. Escreve Carvalho:

Na falta de expectativas de crescimento da demanda e com dificuldade de cumprir seus compromissos financeiros, as empresas n√£o tinham qualquer raz√£o para expandir os investimentos, nem com juros menores. Por que investiriam para expandir a capacidade produtiva se n√£o havia qualquer perspectiva de aumentar as vendas e se j√° estava dif√≠cil cumprir com as obriga√ß√Ķes financeiras associadas ao endividamento do ciclo anterior (de 2008/09)?

Era do imprevisto, do cientista pol√≠tico S√©rgio Abranches, √© um sofisticado ensaio sobre a transi√ß√£o da legitimidade pol√≠tica no s√©culo 21. Otimista at√© onde se pode ser com o futuro, Abranches aborda o desencanto da democracia no mundo digital como um processo de transforma√ß√£o n√£o necessariamente negativo. "As revolu√ß√Ķes do s√©culo 21 se propagar√£o, talvez como uma pandemia digital, alcan√ßando quase instantaneamente todas as fronteiras globais, das franjas do velho mundo, j√° na borda desse mundo envolto pelas brumas da incerteza do qual muito pouco ainda se pode ver, s√≥ nos resta a d√ļvida".

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L√ļcio Fl√°vio Pinto √© o editor da Agenda amaz√īnica de um jornalismo de combate. Entre outros, √© autor de Na trincheira da verdade. Meio s√©culo de jornalismo na Amaz√īnia (2017) e A trag√©dia de Santar√©m (Prel√ļdio do AI-5 na Amaz√īnia).

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Os novos rumos de um irredut√≠vel amaz√īnida
Vergonha mundial
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O enigma chinês
BR-319: pouco antes do fim





Fonte: Agenda amaz√īnica de um jornalismo de combate & Gramsci e o Brasil.

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