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O bode expiatório

Marco Aurélio Nogueira - Fevereiro 2019
 

Não é só o governo Bolsonaro, com seus ministros que disparam petardos ideológicos em cada fala.

H√° no Pa√≠s uma onda mal-ajambrada interessada em criar um bode expiat√≥rio no campo da pol√≠tica, da a√ß√£o governamental e da cultura. Em nome do ataque ao "marxismo cultural", ela se alimenta de uma enorme ignor√Ęncia e de um deliberado esfor√ßo de provoca√ß√£o.

A obsess√£o √© uma s√≥. Surge l√≠mpida no discurso de posse do presidente, convencido de que a partir dele "o povo come√ßou a se libertar do socialismo, da invers√£o de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto", falando como se esses problemas tivessem rela√ß√£o de causalidade. Promessas vagas de "combater o marxismo nas escolas" e perseguir os comunistas s√£o feitas a todo momento, sem que deem muitas explica√ß√Ķes a respeito.

A mix√≥rdia tem√°tica n√£o √© compartilhada pelo n√ļcleo principal do novo governo, integrado pelos generais, por Paulo Guedes e Sergio Moro, ministros mais concentrados na gest√£o e na obten√ß√£o de resultados. Surge imponente nas platitudes reacion√°rias de Damares Alves contra a identidade de g√™nero e em V√©lez Rodrigues, que parece acreditar que h√° uma "tresloucada onda globalista tomando carona no pensamento gramsciano e num irrespons√°vel pragmatismo sof√≠stico" com o claro prop√≥sito de "destruir um a um os valores culturais em que se sedimentam as nossas institui√ß√Ķes mais caras: fam√≠lia, igreja, escola, Estado e p√°tria". N√£o √© diferente nas Rela√ß√Ķes Exteriores, cujo respons√°vel est√° na linha de frente dessa cruzada.

Ora o discurso √© gen√©rico e fala em marxismo sem mais, ora vem embrulhado com a men√ß√£o a pensadores como Antonio Gramsci, ora ainda surge abra√ßado a ataques contra a esquerda, o petismo, o socialismo e o globalismo, sempre indeterminados. √Č um conjunto que se sustenta na superficialidade e na estigmatiza√ß√£o, sem preocupa√ß√£o de fomentar algum debate.

N√£o h√° qualquer inten√ß√£o de mapear a s√©rio o campo cultural brasileiro ou de avaliar erros, acertos e possibilidades da esquerda, que √© posta sumariamente fora da lei, em suas distintas vers√Ķes. O prop√≥sito √© ativar uma maquina√ß√£o ideol√≥gica para desqualificar eventuais opositores do novo governo e repor, na pol√≠tica nacional, temas e convic√ß√Ķes extempor√Ęneas, centradas no apelo confuso a Deus, religi√£o e b√≠blia.

Diversionismo

O ataque ao marxismo tem muito de manobra diversionista: busca produzir um ru√≠do que distraia o p√ļblico e desvie a aten√ß√£o do fundamental. Espancar o PT e o socialismo que por aqui jamais existiu √© parte do roteiro, assim como o compromisso de "desconstruir" Gramsci.

Nessa opera√ß√£o, o n√≠vel precisa cair ao r√©s do ch√£o, j√° que se trata de atingir o grosso da opini√£o p√ļblica, n√£o a intelectualidade. O tom precisa ser de palanque, para ter chance de mobilizar. Faz-se abuso da caricatura, do exagero, da ofensa e da grosseria, dispensando-se qualquer tipo de refinamento. Fala-se de Marx e de Gramsci como se se tratasse de dois perdidos que, numa noite de farras, tivessem ca√≠do no Brasil para corromper a juventude e a sociedade com ideias malignas e perversas. O objetivo √© promover a circula√ß√£o de um espectro que assuste, acue e impressione, semelhante ao que Marx anteviu nas primeiras linhas do famoso Manifesto Comunista de 1848: um espectro contra o qual deveriam unir-se numa Santa Alian√ßa todas as pot√™ncias da velha ordem.

A den√ļncia do "marxismo cultural" √© ao mesmo tempo reativa e ofensiva. Ela intui que o marxismo soube se adaptar ao longo da hist√≥ria, saindo do determinismo r√≠gido dos primeiros tempos para a flexibilidade dial√©tica de Gramsci, por exemplo, autor que √© a verdadeira pedra no sapato dos antimarxistas. Gramsci incomoda porque atualizou a teoria que veio de Marx, dando a ela melhores condi√ß√Ķes de dialogar com as √©pocas mais complexas do capitalismo do s√©culo XX. A opera√ß√£o intelectual gramsciana permitiu ao marxismo a recupera√ß√£o plena dos temas do Estado, da pol√≠tica, da cultura, dos intelectuais. Tornou-o mais "competitivo" para decifrar as armadilhas ideol√≥gicas do capitalismo e da domina√ß√£o pol√≠tica, abrindo os olhos de muitos marxistas ainda aprisionados aos ritmos duros da luta de classes de primeira gera√ß√£o, na qual n√£o existiam tantas media√ß√Ķes e sinuosidades. Recusou as limita√ß√Ķes cognitivas do "determinismo econ√īmico" e analisou a sociedade como realidade complexa, conforme o pr√≥prio n√ļcleo origin√°rio da filosofia de Marx. Estudou a s√©rio o Estado e chamou a aten√ß√£o para a sociedade civil, destacando sua fun√ß√£o como inst√Ęncia de hegemonia.

Quanto mais o capitalismo ganhou complexidade, mais as ideias gramscianas mostraram força.

Depois de Gramsci, o marxismo nunca mais foi o mesmo, ainda que muitos de seus seguidores n√£o tenham se soltado das incrusta√ß√Ķes mec√Ęnicas e do doutrinarismo. Encorpou, tornou-se uma teoria "cl√°ssica", ganhou respeitabilidade plena no mundo intelectual, ingressou nas universidades e se converteu na "filosofia do nosso tempo" antevista pelo fil√≥sofo franc√™s Jean-Paul Sartre.

Tudo isso n√£o se deveu exclusivamente a Gramsci, at√© mesmo porque sua obra, escrita quase toda nos c√°rceres fascistas, s√≥ chegou ao conhecimento p√ļblico ap√≥s a Segunda Guerra e s√≥ lentamente se converteu na pot√™ncia que √© hoje.

Tanto quanto o pensador italiano, contribu√≠ram para a revitaliza√ß√£o e a dissemina√ß√£o do marxismo te√≥ricos como Gyorgy Luk√°cs, Karl Korsh, Adam Schaff, Henri Lefebvre e Lucien Goldman, dentre muitos outros, cada um dos quais por caminhos particulares, fazendo inflex√Ķes "heterodoxas" e questionamentos √† doutrina original que, com o tempo, convergiram para um mesmo estu√°rio. O marxismo se tornou muitos, diversificou-se, ganhou musculatura e novas linguagens, compondo aquilo que a dial√©tica chama de unidade na diversidade.

O fato √© que n√£o houve pensador importante que, nos √ļltimos cem anos, n√£o tenha dialogado com as ideias de Marx e as variadas vers√Ķes do marxismo. N√£o existiria o J√ľrgen Habermas da a√ß√£o comunicativa, o Zigmunt Bauman da modernidade l√≠quida ou o Ulrich Beck da sociedade de risco sem leituras marxistas. Norberto Bobbio sempre o teve como um dos grandes, dedicando um livro inteiro a ele (Nem com Marx, nem contra Marx, Editora Unesp). Antes deles, n√£o foram poucos os que reconheceram, como Max Weber, a relev√Ęncia das ideias de Marx.

Em seus escritos, muito mais que em sua milit√Ęncia pol√≠tica, Marx foi um portento, que n√£o s√≥ descortinou a estrutura do capitalismo como compreendeu o vigor da economia na modelagem da vida social moderna, na qual o dinheiro e o consumo jogam papel preponderante, como objetivos em si. Dedicou-se, assim como os que souberam se aproveitar de suas ideias, sendo ou n√£o marxistas, a buscar formas de superar ou ao menos regular o irracionalismo dos mercados sem controle e sem limites. Legou ao futuro uma perspectiva racional, generosa, uma homenagem ao progresso.

O debate s√©rio sempre criticou a vulgariza√ß√£o das ideias de Marx, sua convers√£o em catecismo, sua simplifica√ß√£o em f√≥rmulas desconectadas da realidade, sua dificuldade de elaborar uma teoria do Estado e da pol√≠tica. Parte disso se deveu aos partidos comunistas que, na luta pol√≠tica, viram-se for√ßados a "massificar" a teoria que os inspirava. Responsabilidade ainda maior coube √† for√ßa centralizadora do socialismo sovi√©tico, que imp√īs uma leitura oficialista do marxismo que aprisionou os comunistas durante d√©cadas.

O recurso ao Estado

Paradoxalmente, a cruzada antimarxista de hoje emprega os mesmos expedientes das vertentes mais pesadas do stalinismo. Mente, deforma, difama, acusa sem crit√©rio, procura punir e estigmatizar, valendo-se da simplifica√ß√£o grosseira e da press√£o dos aparatos estatais. O stalinismo fazia isso em nome de uma revolu√ß√£o igualitarista, o que atenuava de certo modo o sacrif√≠cio que pedia. O antimarxismo atual, ao contr√°rio, apregoa uma guinada conservadora que d√™ um passo atr√°s. Mas, tamb√©m ele, s√≥ se viabiliza se fizer dos canais oferecidos pelo Estado uma plataforma para difundir uma c√≥pia invertida daquilo que acusa em seus advers√°rios. √Č in√≥cuo nos territ√≥rios livres da sociedade civil, onde o debate pode fluir de forma democr√°tica.

√Č o que faz o antimarxismo atacar sem tr√©gua as diferentes inst√Ęncias da sociedade civil, da imprensa √†s ONGs, das escolas √† ind√ļstria cultural, dos partidos pol√≠ticos aos sindicatos. Ele precisa deslegitimar aquilo que foge ao seu controle, refor√ßando ao contr√°rio os "centros dirigentes", a palavra dos chefes, os manuais repletos de novas verdades. Cria seus mitos e seus arautos, seus fil√≥sofos, suas narrativas, suas ideias-for√ßa, que espalha pelas redes que manipula. Constr√≥i assim um repert√≥rio simb√≥lico e expressivo, com o qual combate a luta cultural. Denuncia toda e qualquer opera√ß√£o ideol√≥gica, mas √© ele pr√≥prio uma ideologia.

O ataque ao "marxismo cultural" dirige-se √† mobiliza√ß√£o do eleitorado de Bolsonaro, mas tamb√©m almeja espetar na agenda p√ļblica algumas estacas que delimitem um campo ideol√≥gico. Deseja demarcar um terreno de luta, separar os bons dos maus, transferir culpas e responsabilidades. Nunca antes, no Brasil, a direita conservadora chegou t√£o longe.

N√£o se trata de um ataque in√≥cuo. Ele tem implica√ß√Ķes s√©rias. Uma delas √© o risco de "macartismo", de discrimina√ß√£o e ca√ßa aos "vermelhos". N√£o h√° uma diretriz clara, mas Onix Lorenzoni j√° falou em "despetizar" o Estado. Sem freios moderadores, a cruzada poder√° incentivar muita gente a denunciar comunistas em cada curva do caminho, como se fossem "inimigos da p√°tria".

Afinal, o combate ao "marxismo cultural" vale-se de pessoas que pensam estar na esquerda a razão maior de suas agruras. Sem conseguir ver o conjunto da vida, estão predispostas a serem contagiadas pelo maniqueísmo simplista do "nós contra eles".

O desdobramento disso será o empobrecimento da democracia e o prolongamento da crise do sistema político. Capturado pela insanidade por ele mesmo criada, o governo poderá cair na tentação de moldar suas políticas por critérios sempre mais ideológicos e sempre menos técnicos.

Na hipótese dessa parábola se completar, perderemos todos.

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Marco Aur√©lio Nogueira √© professor titular de teoria pol√≠tica e coordenador do N√ļcleo de Estudos e An√°lises Internacionais da Unesp

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Fonte: √Čpoca, 14 jan. 2019 & Gramsci e o Brasil.

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