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O ano de Marx

Marco Aurélio Nogueira - Janeiro 2019
 

N√£o seria necess√°rio que diversos integrantes do futuro governo Bolsonaro insistissem na ideia de "libertar o Estado brasileiro do marxismo cultural" para que se percebesse que um espectro voltou a circular no Brasil em 2018.

Esse espectro atende pelo nome de Karl Marx, fil√≥sofo e ativista pol√≠tico alem√£o (1818-1883), um dos fundadores do comunismo moderno e patrono da mais influente teoria pol√≠tica contempor√Ęnea.

O mundo comemorou, ao longo de 2018, os 200 anos de nascimento de Marx. Registros feitos por in√ļmeros semin√°rios, congressos cient√≠ficos, livros, artigos, filmes e entrevistas dedicaram-se a homenagear o pensador alem√£o e a verificar em que medida suas teses continuam a dialogar com a realidade do mundo atual. O balan√ßo foi positivo, mostrando que Marx, em que pese o incontorn√°vel desgaste sofrido com a passagem da hist√≥ria, permanece vivo como int√©rprete do nosso tempo e, em particular, das transforma√ß√Ķes do capitalismo.

O Brasil n√£o ficou fora das comemora√ß√Ķes, mas terminou o ano com o reposicionamento pol√≠tico dos inimigos de Marx, concentrados agora no combate ao "marxismo cultural", entendido como a disposi√ß√£o de ocupar totalitariamente os espa√ßos p√ļblicos via controle da cultura e de suas institui√ß√Ķes, da escola √† imprensa e √†s artes, tudo devidamente concentrado em cercear a liberdade de pensar e falar, modelar mentes e impor agendas inadequadas √† sociedade (g√™nero, aborto e clima, por exemplo). Na vers√£o simpl√≥ria corrente, essa preponder√Ęncia do "marxismo cultural" estaria a impedir a "regenera√ß√£o nacional" e a contaminar os diferentes √Ęmbitos da vida familiar e do Estado, indo da escola √† pol√≠tica externa.

O antimarxismo dos nossos dias n√£o conhece Marx, n√£o leu seus livros nem as an√°lises de seus int√©rpretes. √Č pura ideologia, que opera por sobre a espuma levantada pela circula√ß√£o das ideias marxistas e pelas disputas ideol√≥gicas em torno delas. O que lhe falta de rigor filos√≥fico e conhecimento hist√≥rico √© compensado por uma combatividade histri√īnica que pouco se importa com o que Marx realmente disse ou com o significado de suas proposi√ß√Ķes. Despreza tudo o que o marxismo trouxe de contribui√ß√£o cr√≠tica - por exemplo, sua teoria sobre o funcionamento do capitalismo - para v√™-lo exclusivamente pela lente do militante revolucion√°rio, devidamente desfocada. √Č um antimarxismo inquisitorial, que pressup√Ķe que as ideias de Marx seriam t√≥xicas a ponto de impregnar aqueles que delas se aproximam, como um v√≠rus.

Os antimarxistas teriam muito a aprender, por exemplo, com o livro do cientista pol√≠tico alem√£o Michael Heinrich, Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna, uma alentada pesquisa em 3 volumes que come√ßou a ser publicada no Brasil pela Editora Boitempo. A obra n√£o √© um paneg√≠rico e trata Marx de maneira fria e realista, situando-o na sua √©poca e vendo-o sem qualquer mitifica√ß√£o. O pressuposto √© simples: cada gera√ß√£o desenvolver√° uma nova perspectiva em rela√ß√£o √† vida, √† obra e ao significado de Marx, conforme as transforma√ß√Ķes das condi√ß√Ķes hist√≥ricas.

O nosso tempo trouxe consigo um Marx j√° bastante processado criticamente, saturado, manipulado de muitas maneiras. J√° foi responsabilizado pelos crimes do stalinismo, por ditaduras, assim como j√° foi santificado e posto num pedestal como profeta da emancipa√ß√£o definitiva da humanidade. O Marx com que lidamos hoje √© bem diferente daquele das d√©cadas finais do s√©culo XX. As novas gera√ß√Ķes o veem como um "cl√°ssico", n√£o como o mestre infal√≠vel da revolu√ß√£o, at√© porque a pr√≥pria ideia de revolu√ß√£o se alterou bastante. A reprodu√ß√£o das condi√ß√Ķes gerais do capitalismo, por√©m, d√£o a ele uma atualidade que muitos outros cl√°ssicos n√£o t√™m.

O primeiro volume do livro de Heinrich - assim como outras biografias mais recentes - nos ajuda a inserir Marx na hist√≥ria e a v√™-lo em sua pujan√ßa filos√≥fica, em seu desejo de liberdade, em sua ades√£o progressiva ao humanismo materialista, em sua rela√ß√£o com a dial√©tica de Hegel. √Č um Marx que assiste ao amadurecimento do mundo moderno e come√ßa a interpret√°-lo.

Mais tarde, j√° depois de ter escrito com Engels o famoso Manifesto Comunista, Marx sai da Alemanha, passa por Paris e Bruxelas at√© se instalar em Londres. √Č o Marx mais conhecido, autor de O capital. Cr√≠tica da economia pol√≠tica e de ensaios pol√≠ticos, ativista do nascente movimento socialista. O Marx que passar√° para o s√©culo XX ser√° sobretudo esse, devidamente incorporado primeiro pela cultura da social-democracia alem√£ e, depois, do comunismo sovi√©tico, do qual se espalhar√° pelo mundo.

Diferentemente do que pensam os antimarxistas atuais, o marxismo continua a nos ajudar a compreender o mundo do capitalismo globalizado, mesmo que esse capitalismo seja mais potente e diversificado, disposto na vida como um sistema global irresistível, muito distante do capitalismo do século XIX, que Marx visualizava como fadado a ingressar numa crise terminal.

Mas n√£o √© preciso admitir o fim do capitalismo para concluir que esse sistema todo-poderoso n√£o conseguiu at√© agora apaziguar suas contradi√ß√Ķes ou evitar crises recorrentes de natureza sist√™mica. Desse ponto de vista, Marx errou e acertou. Suas descobertas n√£o s√≥ foram incorporadas ao modo moderno de pensar a vida, como s√£o fundamentais para que consigamos decifrar o estado em que se encontra a Humanidade ao final da segunda d√©cada do s√©culo XXI.

Estar em crise n√£o significa estar √† beira da morte. O capital tem conseguido avan√ßar mediante o processamento de seus limites e contradi√ß√Ķes, usando isso para alavancar novos ciclos de expans√£o. Tem sido beneficiado, paradoxalmente, por tr√™s coisas: pela desorganiza√ß√£o da sociedade de classes, pela democratiza√ß√£o derivada das lutas sociais e da amplia√ß√£o progressiva das margens de liberdade, o que paradoxalmente esfriou o desejo de revolu√ß√£o, e pela incapacidade pr√°tica da utopia marxista (a organiza√ß√£o consciente da produ√ß√£o social) de se traduzir efetivamente no terreno da vida cotidiana. H√° planejamento, racionaliza√ß√£o e regula√ß√£o, mas a economia continua fora de controle, fazendo com que o sistema econ√īmico despeje seus custos sobre as costas dos mais fr√°geis e desprotegidos, os desempregados, os trabalhadores prec√°rios, os migrantes e refugiados, os exclu√≠dos de todo tipo.

As ideias de Marx, nesse sentido, mantiveram-se como uma advert√™ncia para o sistema. Revelaram suas entranhas, sua face perversa e desumana. Permaneceram como uma esp√©cie de "dem√īnio antissistema" a desafiar o coro dos contentes.

O marxismo profetizou uma revolução do proletariado, que não teve como se realizar. Onde ela foi tentada os resultados deixaram a desejar. Depois da queda do Muro e do fim dos "socialismos reais", a partir de 1990, ficou a impressão de que o marxismo desfalecera irremediavelmente. Tornou-se usual falar que "Marx estava morto". No primeiro momento, Marx foi deslocado para a margem. Lá, porém, permaneceu a latejar. Continuou a ser consagrado e tratado de modo "religioso" por um séquito de milhares de cabeças, mas no terreno do pensamento tornou-se muito mais profano e laico, passando a receber tratamento mais distante e bem comportado, não como profeta de uma revolução política que não ocorreria, não como inspirador de movimentos e partidos, mas como impulsionador de uma visão abrangente do mundo. Marx perdeu algo de sua potência contestadora mas se manteve como passagem obrigatória para qualquer atitude interessada em se debruçar criticamente sobre a sociedade.

A perman√™ncia de Marx deixou de ser alimentada por certos recursos de reprodu√ß√£o simb√≥lica e de narrativa revolucion√°ria. Os partidos oper√°rios de primeira e segunda gera√ß√Ķes - o movimento oper√°rio hist√≥rico - foram so√ßobrando e assumindo outras caracter√≠sticas, nas quais Marx e Engels n√£o podiam seguir como "patronos". Os Estados comunistas desapareceram. A linhagem constru√≠da pela tradi√ß√£o tradicional foi posta em xeque, e Marx deixou de ser o primeiro de uma sequ√™ncia que passaria "obrigatoriamente" por Engels, Lenin, Trotski, Stalin, Mao e Fidel, al√©m, evidentemente, dos secret√°rios-gerais dos partidos comunistas. O "marxismo-leninismo" simplesmente evaporou. Heterodoxos de todo tipo ganharam a luz do dia e se projetaram. Foi assim com Luk√°cs, Rosa Luxemburg, Kautsky, Korsch e, sobretudo, Gramsci - todos eles comunistas e marxistas, mas invariavelmente atacados pela ortodoxia como "revisionistas".

A dissolução dessa cultura reverencial fez bem ao marxismo. Tornou-o mais livre para ser examinado criticamente, atualizado e revisto com critérios científicos. O marxismo perdeu a aura sagrada que tinha antes, mas suas ideias-força incorporaram-se ao pensamento prevalecente. Não só passamos a aceitar o poder de determinação da economia, por exemplo, como nos tornamos mais "totalizadores" e dialéticos, enxergando a sociedade como um complexo composto de complexos, no qual tudo interage com tudo o tempo todo. A concepção ético-política do marxismo não teve a mesma disseminação, mas no conjunto o pensamento de Marx mostrou-se vitorioso.

Nada disso pode ser eliminado como se fosse um dejeto do passado. O marxismo, sua hist√≥ria e seu significado precisam ser, ao contr√°rio, devidamente assimilados, parte da cultura moderna que s√£o. A inquisi√ß√£o antimarxista atual, por√©m, n√£o disp√Ķe de envergadura te√≥rica, sabedoria e intelig√™ncia democr√°tica para se p√īr criticamente diante de Marx e de seu legado. Opta, por isso, pela estigmatiza√ß√£o pura e simples, com o que chega a uma caricatura do marxismo que s√≥ faz rebaixar o n√≠vel de um debate que precisa ser mantido e proliferar.

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Marco Aur√©lio Nogueira √© professor titular de teoria pol√≠tica e coordenador do N√ļcleo de Estudos e An√°lises Internacionais da Unesp

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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