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Desventuras de uma revolução

José Antonio Segatto - Janeiro 2019
 

H√° seis d√©cadas, em 1.¬ļ de janeiro de 1959, uma coluna rebelde tomou Havana, desencadeando um processo revolucion√°rio. Encetada dois anos antes por um grupamento guerrilheiro em Sierra Maestra, a insurrei√ß√£o levou √† deposi√ß√£o da ditadura corrupta e cruel de Fulgencio Batista (1952-59) e sua substitui√ß√£o por um governo nacional-democr√°tico , a seguir metamorfoseado em regime de cunho socialista, sob a lideran√ßa de Fidel Castro.

A subleva√ß√£o vitoriosa, de fato, s√≥ foi poss√≠vel dado o amplo apoio sociopol√≠tico nas cidades: Movimento 26 de Julho, organiza√ß√Ķes sindicais e estudantis, partidos liberais e comunista, etc. Entretanto, forjou-se, em seu curso, uma vers√£o m√≠tica da revolu√ß√£o, segundo a qual ela s√≥ teria sido exequ√≠vel pela fa√ßanha de um pequeno grupo de destemidos guerrilheiros comandados por Fidel Castro e Che Guevara - este, sobretudo ap√≥s seu assassinato na Bol√≠via, em 1967, ganhou aura rom√Ęntica e foi transformado numa esp√©cie de grife, √≠cone da juventude rebelde.

Desde o princ√≠pio, ressalte-se, a revolu√ß√£o cubana tornou-se inconveniente para os Estados Unidos, cuja rea√ß√£o - compress√£o, rompimento de rela√ß√Ķes diplom√°ticas, financiamento da contrarrevolu√ß√£o (invas√£o da Ba√≠a dos Porcos), bloqueio econ√īmico, etc. - empurrou o novo governo para a esfera de influ√™ncia sovi√©tica.

J√° em 1961 foi proclamado o car√°ter socialista da revolu√ß√£o, cujos desdobramentos a impeliram para a reprodu√ß√£o do regime sovi√©tico, adaptando-o aos tr√≥picos caribenhos: propriedade estatal dos meios de produ√ß√£o, partido √ļnico, aboli√ß√£o dos direitos civis e pol√≠ticos, coibi√ß√£o do dissenso, estabelecimento de pol√≠cia pol√≠tica de monitoramento e coa√ß√£o pol√≠tico-ideol√≥gica e da sociabilidade, supress√£o dos resqu√≠cios de democracia. Em conson√Ęncia a isso o Partido Comunista Cubano (PCC), refundado em 1965, tornou-se partido-Estado. Sua ado√ß√£o pela URSS, no entanto, com os crescentes pr√©stimos econ√īmicos e militares, pol√≠ticos e culturais, implicou a instaura√ß√£o de um tipo de socialismo dependente e subsidiado.

Congruente com esse projeto-guia, em 1967 o Estado cubano, secundado pelo Partido Comunista da Uni√£o Sovi√©tica (PCUS) - numa h√°bil opera√ß√£o pol√≠tica -, fundou a Organiza√ß√£o Latino-Americana de Solidariedade (Olas). Objetivando tirar o foco da press√£o norte-americana sobre a ilha, deveria ser um instrumento multiplicador de movimentos revolucion√°rios no continente, ou seja, esp√©cie de estado-maior da revolu√ß√£o - apoio pol√≠tico, log√≠stico, financeiro, b√©lico -, disseminaria focos guerrilheiros na regi√£o. Pequenos grupos de elite, vanguarda armada revolucion√°ria, teriam o dever de replicar o exemplo cubano nos diversos pa√≠ses. Da dissid√™ncia dos partidos comunistas e de outros grupamentos ou seitas esquerdistas despontaram movimentos guerrilheiros de variadas esp√©cies em pa√≠ses como Guatemala, Venezuela, Col√īmbia, Peru, Bol√≠via, Brasil, Uruguai, Argentina e outros.

√Ä exce√ß√£o da Nicar√°gua, onde a Frente Sandinista tomou o poder em 1979, nos demais lugares n√£o s√≥ malograram, mas em muitos casos resultaram em trag√©dias pol√≠ticas e at√© mesmo humanit√°rias. A rea√ß√£o brutal de setores dominantes por meio das For√ßas Armadas, com aux√≠lio americano, criou condi√ß√Ķes para golpes de Estado e para o estabelecimento de ditaduras atrozes. Caso emblem√°tico foi o do Chile, em que se abria, segundo Eric Hobsbawm, com a elei√ß√£o de Salvador Allende "a perspectiva emocionante de uma transi√ß√£o pac√≠fica sem precedentes para o socialismo".

No caso chileno, a a√ß√£o cubana desempenhou papel consider√°vel na desestabiliza√ß√£o do governo da Unidade Popular. Em 1972, Fidel Castro prorrogou sua visita ao pa√≠s por um m√™s, acompanhado por insignes personagens do seu servi√ßo de intelig√™ncia, que l√° se instalaram por tempo alongado, pressionando o governo e/ou ati√ßando a√ß√Ķes aventureiras de grupos e movimentos esquerdistas.

Al√©m disso, a revolu√ß√£o cubana constitui um marco divisor na hist√≥ria da esquerda na Am√©rica Latina. Os partidos comunistas que ent√£o iniciavam processos de renova√ß√£o de seus projetos e de suas pr√°xis - valoriza√ß√£o da democracia, ado√ß√£o da via pac√≠fica e processual para o socialismo, abandono de compreens√Ķes estagnacionistas - sofreram uma inflex√£o e se defrontaram com a oblitera√ß√£o de suas interven√ß√Ķes pol√≠tico-institucionais no √Ęmbito do Estado de Direito Democr√°tico.

No momento em que o projeto da Olas j√° havia dado provas do seu infort√ļnio e a democracia (re)emergia na Am√©rica Latina - em coincid√™ncia com o colapso do socialismo real e a dissolu√ß√£o da URSS -, o regime cubano, consorciado com o Partido dos Trabalhadores (PT), (re)fundou √≥rg√£o de articula√ß√£o no continente sob sua orienta√ß√£o. Em 1990 foi realizado o 1.¬ļ F√≥rum de S√£o Paulo, com a participa√ß√£o de dezenas de partidos e movimentos, grupos e seitas de proced√™ncias distintas da esquerda. Tratava-se de substituir a estrat√©gia insurrecional pela luta pol√≠tico-institucional.

A iniciativa teve relativo sucesso nas d√©cadas seguintes, com a ascens√£o ao poder do bolivarianismo na Venezuela e em pa√≠ses andinos, do petismo no Brasil, da Frente Ampla no Uruguai, do peronismo na Argentina, do sandinismo na Nicar√°gua, etc. Quase todos eles, por√©m, com raras exce√ß√Ķes, experimentaram a desventura do dom√≠nio e do mando em grande medida por n√£o terem compromisso com os valores e procedimentos democr√°ticos.

Se de início, nos anos 1960, a revolução cubana exerceu razoável fascínio, os rumos que tomou com o tempo, no entanto, levaram-na a perder, gradativamente, o encanto - regime de padrão autoritário-burocrático, de feitio castrense , dirigido por uma gerontocracia despótica e hostil à democracia, seu destino foi desventuroso, redundando num socialismo miserável.

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Professor titular de sociologia da Unesp

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Fonte: O Estado de S. Paulo, 30 dez. 2018.

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