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Um ano para a oposição mostrar seu valor

Marco Aurélio Nogueira - Dezembro 2018
 

Depois da derrocada política, ideológica e eleitoral da esquerda democrática, do centro e da esquerda petista, os perdedores terminam 2018 amargando os efeitos de sua desarticulação. Procuram juntar os cacos. O vendaval bolsonarista abalou cálculos e personagens da democracia brasileira. Abriu uma espécie de caminho de volta.

Passadas as festas de fim de ano, terá de haver muita reflexão e ação.

PSB, PDT e PCdoB movimentam-se para organizar um arranjo político que funcione como bloco no Congresso e sirva de plataforma para deslocar o centro gravitacional das esquerdas, afastando-as tanto quanto possível do PT. Os petistas, por sua vez, terão de deixar de girar em círculos, abandonando a narrativa do golpe e da perseguição.

Ao mesmo tempo, o PPS e a Rede abriram conversas para examinar a possibilidade de uma articula√ß√£o que abrigue os desejos de renova√ß√£o de ambas as correntes pol√≠ticas, juntamente com movimentos c√≠vicos surgidos nos √ļltimos anos.

Por entre esses dois mundos flutuam pol√≠ticos e ativistas origin√°rios do PSDB, do MDB, gente da esquerda pragm√°tica, petistas realistas, tucanos incomodados com a guinada direitista do partido, pessoas sem v√≠nculos partid√°rios - todos preocupados em encontrar uma porta por onde passe uma agrega√ß√£o que cumpra fun√ß√Ķes de ordem pr√°tica e ideal.

Haverá quem trabalhe para que as três iniciativas acima mencionadas, ou ao menos duas delas, convirjam no médio prazo em direção a um ponto comum. E haverá quem pense que nenhuma delas tornará viável uma oposição propositiva, consistente e vigorosa ao próximo governo federal.

No fundo, estão todos convencidos de que os partidos existentes já não dão conta da situação e precisarão agir de outra maneira, quem sabe, extraindo de seu interior os germes da própria superação, rumo à formação de um novo movimento político.

Est√£o a√≠ as dificuldades. Alguns falam em fortalecer o que tem sido chamado de "centro radical", outros cogitam de um "centro" sem adjetiva√ß√Ķes adicionais, h√° quem pense em termos de "centro-esquerda" e outros, por fim, acreditam que n√£o se deveria trabalhar com a ideia de "centro", imprecisa demais, mas de social-democracia.

Os nomes importam. Se se quiser ter um novo posicionamento das for√ßas democr√°ticas brasileiras, a ideia de "centro" √© preciosa, mas precisa ser adequadamente processada, qualificada com rigor. Sem isso dificilmente exibir√° face rejuvenescida e n√£o conseguir√° desvencilhar-se do que j√° se tentou fazer no passado, sem grande sucesso. Sem isso ter√° reduzido poder de sedu√ß√£o, enfraquecendo-se perante a opini√£o p√ļblica e a esquerda democr√°tica, que tem peso pr√≥prio n√£o desprez√≠vel em termos de concep√ß√Ķes pol√≠ticas e valores.

Um "centro radical" é uma proposição engenhosa, no sentido atribuído à expressão pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas carece de formatação. Poderia ser mal interpretada como opção por um posicionamento "radicalmente de centro", isto é, algo que não é nem esquerda nem direita: um muro não muito largo onde só haveria lugar para políticos pouco atentos à questão social e aos direitos humanos, concentrados na reforma da economia e do Estado em sentido fiscalista e gerencial, mais dedicados a futuros embates eleitorais e parlamentares do que ao diálogo com a sociedade.

N√£o seria um "centr√£o", mas sua identidade ficaria ofuscada, inviabilizando-se para dialogar com as multid√Ķes e, acima de tudo, com as novas gera√ß√Ķes, que n√£o querem mais do mesmo. N√£o √© o que pensa FHC, mas o risco de a ideia se perder nas nuvens √© real.

Qualquer "centro" que queira cumprir uma fun√ß√£o positiva no Brasil atual ter√° de infletir para a esquerda. N√£o em termos ideol√≥gicos, mas em termos program√°ticos, valorativos. Ter√° de se distanciar da esquerda anacr√īnica, aprisionada ao s√©culo 20, e abra√ßar uma esquerda que saiba decifrar o s√©culo 21 e ativar os valores da democracia, da liberdade, da igualdade, da justi√ßa. Precisa ser mais progressista que reformista, voltar-se mais para o social que para o econ√īmico, atacar com determina√ß√£o a desigualdade, ser capaz de temperar seu moderantismo com boas doses de generosidade social e combatividade democr√°tica.

Cham√°-lo de "centro" n√£o ajuda muito. Antes de tudo, porque carrega um pecado de origem, o da imprecis√£o.

N√£o se trata de um problema nominalista. Em pol√≠tica estamos sempre √† procura de selos que identifiquem e, ao identificarem, auxiliem a produzir apoios e ades√Ķes. A pol√≠tica democr√°tica √© uma arte dedicada a unir, mas tamb√©m a distinguir e diferenciar: somente se unem partes que t√™m clareza do que s√£o e aceitam a dosagem de seus interesses particulares em nome de um interesse comum.

Para enfrentar o furacão direitista que sacudirá o País nos próximos anos e que, à primeira vista, fará isso conforme as regras do jogo, necessitamos de um polo democrático progressista o suficiente articulado para se abrir à direita liberal e à esquerda democrática, a reformistas moderados e a socialistas, a liberais, verdes e sustentabilistas. Um polo que entre firme no século 21, abandone dogmas e roteiros já experimentados, disponha-se a elaborar uma nova teoria da sociedade nacional e a enfrentar com determinação os graves problemas do País.

Requerem-se iniciativas que sejam claramente democr√°ticas, abertas, laicas, flex√≠veis, com capacidade de expans√£o e de negocia√ß√£o, que reverberem no Parlamento e nos ambientes da sociedade civil, compondo o que h√° de vida ativa no Brasil atual sem concess√Ķes desnecess√°rias √† direita, √† esquerda e ao centro. Nada disso √© obra de curto prazo.

Que 2019 represente, para os democratas, a abertura de uma fase nova, na qual se compreendam as carências acumuladas, os erros cometidos, e se prepare o terreno para o amadurecimento de uma oposição política que traga consigo o futuro.

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Marco Aur√©lio Nogueira √© professor titular de teoria pol√≠tica e coordenador do N√ļcleo de Estudos e An√°lises Internacionais da Unesp

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Fonte: O Estado de S. Paulo, 22 dez. 2018.

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