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Além do futuro

Marco Aurélio Nogueira - Setembro 2018
 

Não deve haver brasileiros que ao menos uma vez na vida não se perguntaram se o Brasil tem jeito, é viável.

Elei√ß√Ķes s√£o momentos de esperan√ßa e reflex√£o, desenhados para energizar a cidadania e impulsion√°-la para um patamar de maior compreens√£o das dificuldades e possibilidades de uma dada comunidade. Por elas trafegam o futuro, o passado e o presente, imbricados numa dial√©tica de reitera√ß√Ķes e supera√ß√Ķes.

Em 2018, no Brasil, os debates eleitorais têm sido rasos: diagnosticam rapidamente algumas dificuldades, carregam nas tintas ao falar do presente e se dedicam a apresentar um futuro que está ao alcance das mãos. Nenhum candidato faz a pergunta crucial: não estaria o Brasil perdendo tempo, deixando-se envolver em choques e atritos perfunctórios, que dizem pouco sobre o futuro? Estamos conseguindo vislumbrar o futuro ou corremos o risco de vê-lo se dissolver, como se estivéssemos além dele, numa zona de trevas e gases tóxicos, que impedem a visão e inebriam?

Largas faixas da população vivem com a impressão de que, no curto prazo da história, até onde pode chegar a visão, não haverá dias melhores.

Os desafios são enormes, a desigualdade é brutal, há excessos e desperdícios de todo tipo, ao lado de carências em praticamente todos os setores da vida nacional, os privilégios (sociais, de renda, políticos, educacionais, tributários) se reproduzem sem cessar, protegendo os mais ricos e onerando as camadas médias e os grupos mais pobres. Falta saneamento básico para metade da população, o sistema escolar ensina pouco, a cultura está abandonada, há uma sensação geral de que nada funciona bem, nem sequer nas bolhas mais ricas da sociedade.

O incêndio trágico que destruiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro parece o emblema de um país em ruínas.

A crise política - que é moral, técnica, institucional - ricocheteia em tudo, bloqueando a vigência da racionalidade democrática e o surgimento de elites generosas, dispostas ao sacrifício, conscientes de uma transição epocal que, hoje, se processa às cegas.

As c√ļpulas da sociedade, onde est√£o os pol√≠ticos, os ju√≠zes, os governantes, os intelectuais, os l√≠deres corporativos, os professores, os m√©dicos, os advogados, os engenheiros, os cientistas, os artistas, rebaixaram-se √†s conveni√™ncias do momento, aos fr√™mitos da indigna√ß√£o posti√ßa, √†s artimanhas para n√£o perder o protagonismo, seja l√° o que se entenda por isso. E o que se v√™ √© uma sucess√£o intermin√°vel de manobras de efeito, acertos de bastidores, narrativas insensatas e discursos empolados, que pouco t√™m a ver com o pa√≠s real e que n√£o se comunicam com a popula√ß√£o. Mesmo as prega√ß√Ķes mais inflamadas e "radicais" terminam por ceder aos poderosos, sob a desculpa de que √© preciso fazer justi√ßa com as pr√≥prias m√£os ou conclamar o povo a se mobilizar por seus "her√≥is". Entre as elites propriamente estatais, vigora a pr√°tica de p√īr panos quentes em tudo o que gere ru√≠do, mesmo quando isso confronte o que est√° institu√≠do para proteger a democracia.

Candidatos presidenciais que prometem "ordem e autoridade" e falam em resolver tudo à bala fazem par com um político preso que diz ser alvo de um golpe e promete fazer o povo ser feliz de novo, enquanto os demais postulantes ao cargo magno da nação tartamudeiam, sem se darem conta do perigo que estão todos a correr, da urgência da hora presente, da gravidade do momento.

Os primeiros não têm estrutura de campanha, carecem de serenidade, cordialidade e pudor, são toscos e agressivos, mas interagem com uma legião de brasileiros reacionários, indignados, sem esperança, hostis à política e à democracia, que não conseguem mais acreditar em nada e acham que o circo merece pegar fogo.

O pol√≠tico preso, por sua vez, posa de v√≠tima mas √© tratado com luvas de pelica pelo sistema prisional e pelos poderes do Estado, cercado de privil√©gios que refor√ßam sua deifica√ß√£o. Est√° preso, mas circula como nunca, gra√ßas √†s facilidades de que goza e √† complac√™ncia dos poderes do Estado. Tem um partido que o obedece em tudo, que rasteja diante da cela de Curitiba √† espera das ordens e da palavra final do ungido - um partido que j√° foi grande mas que um belo dia regurgitou por excesso de poder, se deixou anquilosar e n√£o consegue empreender qualquer atitude de renova√ß√£o. Consegue-se, assim, manter encantados os fi√©is, convertidos numa seita autorit√°ria e fechada √† diverg√™ncia. O povo, impressionado, mant√©m-se √† dist√Ęncia, meio triste, meio indiferente, confiando que a torrente de promessas demi√ļrgicas finalmente desabar√° sobre a terra.

Cegos pela irrazão, pelo desejo de vingança e pela sede de poder, os lulistas humilham seu candidato verdadeiro, um intelectual, que aceita a humilhação sem reservas e com o orgulho do dever cumprido, agindo como se fosse o vice-condottiere da marcha invencível do povo pobre. Joga-se fora o espírito cívico, a autonomia, a grandeza pessoal e o cálculo democrático, como se não houvesse amanhã e o futuro pouco importasse.

Enquanto se assiste a essa pantomina de "esquerda" e de "direita", o país, ofegante e desorientado, paga o preço por seu atraso secular, por sua ingenuidade já senil, por sua incapacidade de enxergar através da névoa e da fumaça.

Passam-se os dias e o futuro vai passando sem que nunca tenhamos ingressado nele.

Tornou-se mais dif√≠cil entender que a humanidade √© uma combina√ß√£o diab√≥lica de raz√£o e paix√£o, o pr√≥prio homo √© sapiens e demens, h√° um tanto de generosidade e um tanto de mesquinharia em cada um de n√≥s, a Hist√≥ria n√£o se faz em linha reta, o progresso e as melhorias (que s√£o flagrantes se olharmos para o √ļltimo s√©culo) s√£o sempre articulados com retrocessos e piora.

A opção tornou-se uma só: os brasileiros precisam tirar do fundo da alma uma dose extra de sensatez e determinação para dar alguma chance ao futuro. Não será certamente possível começar de novo, mas se houver esforço e um mínimo de união será possível limpar a sujeira acumulada, fazer um novo pacto e lutar para que o carro volte a pegar.

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Marco Aur√©lio Nogueira √© professor titular de teoria pol√≠tica e coordenador do N√ļcleo de Estudos e An√°lises Internacionais da Unesp

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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