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Infort√ļnios pol√≠ticos

José Antonio Segatto - Junho 2018
 

H√° momentos em que a Hist√≥ria parece repetir-se, reavivando vest√≠gios e elementos do passado. Muitas das a√ß√Ķes e proposi√ß√Ķes hist√≥rico-pol√≠ticas, inclu√≠das as extempor√Ęneas, insistem em sobreviver, em prosseguir influenciando e direcionando a interven√ß√£o de organiza√ß√Ķes, movimentos, protagonistas. Karl Marx, ao analisar o fardo de determinadas ideologias e pr√°xis pret√©ritas no presente, lembrou certa feita que, em muitos casos e ocasi√Ķes, "a tradi√ß√£o de [...] gera√ß√Ķes mortas oprime como um pesadelo o c√©rebro dos vivos"; e posteriormente completou, ao advertir que "somos atormentados pelos vivos e, tamb√©m, pelos mortos".

Uma amostra indicativa desse fen√īmeno pode ser situada na conduta do Partido dos Trabalhadores (PT) na atual conjuntura. Suas a√ß√Ķes e ret√≥rica apresentam aproxima√ß√£o e mesmo equival√™ncia √†s do Partido Comunista Brasileiro (PCB) nos anos 1948-54. Em 1945, no bojo do processo de democratiza√ß√£o, o PCB conquistou a legalidade e transformou-se num partido de massas e de car√°ter nacional-popular.

Chegou a ter 200 mil filiados, adquiriu um porcentual eleitoral significativo, criou uma imprensa com diversos jornais e revistas, conquistou o apoio de extensos setores do proletariado urbano, das camadas médias e da intelectualidade. Fez-se presente na luta pela democracia com uma política de "união nacional, dentro da lei e da ordem, para a consolidação democrática", assentada num "regime republicano progressista e popular", como a definiu seu então venerável líder, Luís Carlos Prestes.

O per√≠odo de legalidade foi, no entanto, curto - os reflexos da guerra fria, juntamente com as press√Ķes de for√ßas conservadoras, acarretaram a ilegaliza√ß√£o do PCB (1947). Clandestino e perseguido, isolou-se e adotou uma pol√≠tica sect√°ria, de confronta√ß√£o e desd√©m pela liberal-democracia. Enformado por um marxismo dogm√°tico e vulgar, retomou o projeto nacional-libertador com apelo insurrecional. Com uma ret√≥rica estridente e intolerante, passou a insultar os advers√°rios chamando-os de "agentes do imperialismo" e/ou "do latif√ļndio", "direita fascista", "traidores do povo", "vendilh√Ķes da p√°tria", "escribas da imprensa reacion√°ria", "lacaios da burguesia", al√©m de outros termos desabonadores. Essa pol√≠tica come√ßou a ser superada em meados dos anos 1950, quando iniciou um processo renovador - sob os influxos da desestaliniza√ß√£o da URSS (1956) - que o levaria a valorizar a democracia, a a√ß√£o pol√≠tica institucional e a via pac√≠fica para o socialismo.

Fundado na luta contra a ditadura, o PT, por sua vez, foi constitu√≠do por segmentos sociais diversos. Generosamente amparado pela m√≠dia, sua pol√≠tica se fundamentou, inicialmente, num radicalismo liberal (contra o Estado), no corporativismo de resultados e no exclusivismo partid√°rio (rejei√ß√£o de alian√ßas e autoafirma√ß√£o). Na passagem dos anos 80 para os 90, experimentou metamorfose significativa: incorporou concep√ß√Ķes nacional-desenvolvimentistas de base estatal, absorveu contingentes consider√°veis de membros da burocracia p√ļblica, acomodou-se √†s vantagens do sindicalismo corporativo, passou a flertar com setores insignes do empresariado, aproximou-se do castrismo e, posteriormente, do bolivarianismo e encetou um projeto de poder. A seguir, al√ßado ao poder central, governou com um cons√≥rcio de partidos fisiol√≥gicos e patrimonialistas, por meio da partilha do aparato estatal e de seus proveitos, da coopta√ß√£o de entidades e movimentos e de pol√≠ticas p√ļblicas clientelistas - sua identidade de esquerda e seu protagonismo impetuoso foram substitu√≠dos pelo pragmatismo e pelas conveni√™ncias pol√≠ticas moment√Ęneas.

No momento em que esse arranjo de poder entrou em crise e o PT foi dele exclu√≠do, seus dirigentes e militantes, adjuntos e sat√©lites passaram a vituperar os coligados de v√©spera. Consternados com a destitui√ß√£o do mando, com a autua√ß√£o de l√≠deres acusados de mercadejar e/ou se apropriar de fundos p√ļblicos, com a corros√£o de sua credibilidade e com a redu√ß√£o de sua capacidade mobilizat√≥ria, reanimaram seu peculiar instinto de animosidade contra os valores, normas e institui√ß√Ķes democr√°ticas. Seu vezo persecut√≥rio foi extremado com ataques √† Justi√ßa (facciosa, a servi√ßo do imperialismo), √† imprensa (burguesa, monopolista), ao Congresso (golpista), aos liberal-democratas (neoliberais, direitistas), etc. Com orat√≥ria ruidosa, desferiram improp√©rios de todo tipo contam os que ousaram e ousam n√£o pensar como eles. Para os petistas, esses atos se justificam, pois estamos vivenciando um verdadeiro estado de exce√ß√£o. A condena√ß√£o e a pris√£o de seu "grande l√≠der" - convertido em redentor - haveriam, disseram petistas, de provocar uma como√ß√£o in√©dita no Pa√≠s, com resultados imprevis√≠veis, que poderia at√© despertar √≠mpetos sediciosos em devotos e/ou correligion√°rios e em movimentos populares que, com seus "ex√©rcitos" de sem-terra e sem-teto, incendiariam o Brasil.

Essa conduta pol√≠tica rebelde e intolerante parece n√£o ter encontrado resson√Ęncia na sociedade - indicativo disso foi a consider√°vel perda de votos e de representa√ß√£o nas elei√ß√Ķes municipais de 2016. √Č tamb√©m n√≠tido o decr√©scimo de seu poder mobilizador e de sua faculdade de persuas√£o pol√≠tico-ideol√≥gica, al√©m de ter reduzidas sua inser√ß√£o e sua influ√™ncia na sociedade civil e pol√≠tica.

Guardadas as devidas diferen√ßas de √©poca hist√≥rica e as particularidades pol√≠tico-ideol√≥gicas, bem como de forma√ß√£o e composi√ß√£o de cada um dos partidos em foco, fato √© que o PT parece reencarnar muito dos fundamentos da pr√°xis comunista e de sua cultura pol√≠tica, absorvendo concep√ß√Ķes e pr√°ticas, palavras de ordem e gritos de guerra remotos. Mas, se essa pol√≠tica j√° havia evidenciado seu anacronismo h√° cerca de sete d√©cadas, sua exuma√ß√£o e concretiza√ß√£o no presente √© um mero simulacro de um passado infausto.

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José Antonio Segatto é professor titular de sociologia da Unesp.

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Fonte: O Estado de S. Paulo, 6 jun. 2018.

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