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O mais belo filme de Nelson Pereira dos Santos

Ivan Alves Filho - Maio 2018
 


Diferentemente da literatura, onde o tempo se constr√≥i com palavras, o tempo cinematogr√°fico se apoia nas imagens. O cinema nada mais √© do que uma sucess√£o de imagens. Contudo, essas imagens contam quase sempre uma hist√≥ria. Isso talvez explique as rela√ß√Ķes existentes entre a literatura e s√©tima arte, refor√ßada pelo surgimento do cinema sonoro, que tem na palavra um dos seus pontos de sustenta√ß√£o (sendo os outros a m√ļsica e os ru√≠dos).¬†

√Č prov√°vel que a adapta√ß√£o para o cinema de alguns romances populares visasse, sobretudo, a explorar uma trilha j√° conhecida do grande p√ļblico. N√£o h√° nada de negativo nisso, desde que a obra original tenha sua qualidade est√©tica preservada. Autores como Shakespeare, Victor Hugo, Alexandre Dumas e Dostoievski foram esplendidamente adaptados para as telas. A mesma tend√™ncia se verificou no Brasil e escritores consagrados como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Guimar√£es Rosa foram fartamente explorados por alguns dos nossos melhores cineastas.

De todos eles, aquele que melhor se saiu nesse trabalho foi sem d√ļvida Nelson Pereira dos Santos. A ponto de ser o primeiro cineasta a integrar a Academia Brasileira de Letras, justamente por seu talento em adaptar alguns dos nosso cl√°ssicos, como Vidas secas e Tenda dos milagres, obras-primas, respectivamente, do alagoano Graciliano Ramos e do baiano Jorge Amado.

Nascido em S√£o Paulo, em 1928, Nelson Pereira dos Santos se radicou desde jovem no Rio de Janeiro, ent√£o capital do pa√≠s, onde se destacaria como o fundador de um dos maiores movimentos culturais do nosso tempo, o Cinema Novo. Antenado com o que havia de mais avan√ßado na cinematografia mundial (em particular o Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa), Nelson colocou o Brasil para dialogar em p√© de igualdade com as grandes vanguardas internacionais. Pode-se dizer que a irrup√ß√£o das massas no s√©culo XX se deu n√£o apenas o plano da pol√≠tica mas tamb√©m no terreno das artes, em particular o cinema, din√Ęmico por natureza. Como a pr√≥pria vida urbana, ali√°s.

Criado na década de 50, o Cinema Novo ganharia impulso no início dos anos 60, quando desponta toda uma geração de jovens e talentosos cineastas - além do Nelson, poderíamos citar Glauber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros.

Convém destacar que Nelson Pereira dos Santos, membro do Partido Comunista Brasileiro, ao qual aderira ainda na juventude, filmou Rio, 40 graus com apenas 26 anos de idade, revelando já nessa obra datada de 1955 um compromisso inabalável com as lutas sociais do povo brasileiro, retratando a realidade de uma favela carioca. O interessante neste filme é que ele adotava um ponto de vista resolutamente urbano, quando sabemos que mais tarde o Cinema Novo enveredaria pelo caminho da roça, em busca do Brasil profundo.

Ao que tudo indica, para a maior parte dos nossos diretores, √© como se o mundo agr√°rio, por ser mais tradicional, fosse automaticamente mais aut√™ntico, em contraposi√ß√£o a um espa√ßo urbano mais cosmopolita e, portanto, perme√°vel √†s chamadas influ√™ncias externas. Nunca √© demais lembrar que aqueles eram os tempos das Ligas Camponesas e da guerrilha de Sierra Maestra, com destaque para a quest√£o agr√°ria na Am√©rica Latina em geral. Formado no PCB, Nelson tinha uma vis√£o mais moderna, se podemos dizer assim, da realidade da √©poca. Se f√īssemos transport√°-lo para a realidade russa do in√≠cio do s√©culo XX, nada tinha de um narodnik, por exemplo.

De qualquer modo, at√© o advento do Cinema Novo, a produ√ß√£o brasileira limitava-se, praticamente, a revelar despretensiosas chanchadas, um g√™nero c√īmico sem maiores compromissos com a realidade social e pol√≠tica do pa√≠s. Talvez - e colocamos isso aqui como uma hip√≥tese, naturalmente - Nelson, como artista extremamente sens√≠vel que era, j√° sentia soprar os novos ventos do desenvolvimentismo e da industrializa√ß√£o que Juscelino Kubitschek imprimiria a seu governo. Afinal, naquele mesmo ano de 1955 se daria a elei√ß√£o de JK, empossado no ano seguinte. Seu Plano de Metas - para o qual colaborariam Celso Furtado e Ign√°cio Rangel, respeitados economistas - colocaria o Brasil nos trilhos da democracia com arranque econ√īmico. Era um per√≠odo privilegiado para a na√ß√£o brasileira.

Inversamente, ao ser submetido √† rigorosa censura estabelecida pelos sucessivos governos militares p√≥s-64 e cada vez mais fraccionado por disputas internas, o Cinema Novo perde boa parte da sua influ√™ncia cultural. De toda forma, devemos ao Cinema Novo toda uma s√©rie de experimentos formais, os quais almejavam, ao mesmo tempo, uma linguagem nacional e uma abertura a pr√°ticas art√≠sticas criativas internacionais. √Č que a Arte, muitas vezes, se equilibra em um fio de navalha. √Č sempre dif√≠cil encontrar o tom exato para se provocar uma determinada emo√ß√£o est√©tica. Mas esse √©, justamente, o territ√≥rio das obras cl√°ssicas e dos grandes movimentos culturais. E o termo "cl√°ssico" talvez n√£o englobe tanto o que passou e, sim, tudo aquilo que √© de fato contempor√Ęneo, que interpela sempre o tempo presente.

Mas Nelson Pereira tampouco se esqueceria dos nossos sert√Ķes, ao adaptar para as telas do cinema, em 1963, o cl√°ssico Vidas secas, de Graciliano Ramos, tamb√©m ele militante do PCB. Da coloniza√ß√£o do Brasil - que retrataria em Como era gostoso o meu franc√™s, em 1971 - √† for√ßa da cultura afro-brasileira - examinada em O amuleto de Ogun, tr√™s anos depois -, Nelson fez do Brasil e de seu povo o protagonista de seu extraordin√°rio trabalho. Acontece que a vida nunca √© oito ou oitenta - da√≠ Mark Twain ter escrito certa vez que preferia "o Para√≠so pelo clima e o inferno pela companhia".

Aqui, um r√°pido depoimento pessoal. Eu conheci Nelson Pereira dos Santos em 1973, na casa do meu querido amigo Antonio Luiz Soares, diretor de fotografia e que trabalharia com o diretor de Mem√≥rias do c√°rcere pela vida afora. Homem af√°vel, extremamente acess√≠vel, Nelson n√£o parecia ter aquela import√Ęncia toda. A vida foi me ensinando que essa era uma caracter√≠stica de todas as pessoas que realmente contam. O mesmo talvez n√£o possa ser dito dos med√≠ocres. Desde ent√£o, fui mantendo contatos espor√°dicos com ele, por vezes em presen√ßa de Francisco In√°cio de Almeida - seu amigo desde a √©poca em que colaborou com as loca√ß√Ķes de Vidas secas no sert√£o nordestino - e Vladimir Carvalho - a quem Nelson tanto admirava, facultando-lhe, por exemplo, o cinema da ABL para a estreia do estupendo O engenho de Z√© Lins, estreia essa √† qual tive a honra de comparecer.¬†

De uma forma ou de outra, sempre permanecemos em contato. Até que fiz ao Nelson um pedido. Qual seja, se ele concordaria que eu realizasse um documentário sobre sua vida e seu trabalho. Isso implicaria relatar sua passagem pelo Partido Comunista Brasileiro, sua entrada para o cinema, sua atividade como jornalista, seus problemas com a polícia política, sua luta contra a censura e os absurdos perpetrados pela ditadura militar. A resposta foi positiva e começamos a filmar, na própria Academia Brasileira de Letras, Rodolpho Vilanova e eu. Intitulado Memórias do cinema, o documentário foi lançado pela Fundação Astrojildo Pereira em 2010, no quadro da série "Brasileiros e militantes" [cf., na Esquerda Democrática, a postagem de 23 de abril, 11h50]. Ao revê-lo, poucos dias depois do seu falecimento, não pude deixar de me emocionar.

Nelson foi diretor, roteirista, montador, ator e professor. Imposs√≠vel escrever a hist√≥ria do cinema sem ele. Esteve sempre entre aqueles que souberam cruzar a linha imagin√°ria que ilumina nossos caminhos de beleza. Um cl√°ssico eternamente atual. O artista √© a sua obra? √Č preciso ou n√£o estabelecer uma linha de demarca√ß√£o entre o homem e aquilo que ele cria? Onde come√ßa um e acaba o outro? At√© que ponto, enfim, a arte √© uma realidade √† parte? Provavelmente, essas perguntas jamais ser√£o respondidas. Ou ter√£o respostas plenamente satisfat√≥rias. Por√©m, uma coisa √© certa: vida e obra se confundem a tal ponto na trajet√≥ria de Nelson Pereira dos Santos que que eu n√£o hesitaria em dizer que transformou sua pr√≥pria exist√™ncia no mais belo filme que poderia realizar.

Artista fronteiriço, destes que combinam erudição e técnica popular, mestre absoluto da sua linguagem e do seu ofício, Nelson Pereira dos Santos foi, ao lado de Oscar Niemeyer, Heitor Villa-Lobos, Celso Furtado, Milton Santos, Tom Jobim e Ferreira Gullar, um dos ícones da cultura brasileira ao redor do mundo. O mergulho que operou na alma nacional marcou como poucos a nossa cultura e dele sentimos saudades desde já.

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Ivan Alves Filho é historiador e escritor com mais de uma dezena de obras publicadas.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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