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Observador político 2018

Luiz Werneck Vianna - Janeiro 2018
 



Abaixo, todos os artigos sobre conjuntura publicados por este autor em 2018 em O Estado de S. Paulo, salvo indicação em contrário. O leitor deve procurar também os artigos das séries de 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2019, 2020, 2021 e 2022.

Várias destas análises foram reunidas, com outros textos, em A modernização sem o moderno. Análises de conjuntura na era Lula (Brasília/Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira/Ed. Contraponto, 2011), bem como em Diálogos gramscianos sobre o Brasil (Brasília/Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira/Ed. Verbena, 2018).

Bye bye, Brasil? (2 dez.)

Bye bye, Brasil, querem nos embarcar para uma terra nova - por ora, est√° dif√≠cil de evitar - sem reina√ß√Ķes de Narizinho, sem Jubiab√°, sem um catolicismo gordo e compassivo, sem o culto da cordialidade, sem o jagun√ßo do Euclides da Cunha e os retirantes de Graciliano, o abolicionismo do Nabuco, sem Gilberto Freyre, sem a Coluna Prestes, at√© sem a Petrobr√°s e o Banco do Brasil, sair assim, com as m√£os abanando e as cabe√ßas vazias. O embarque deve ser imediato, para que n√≥s, que mal conhecemos o liberalismo, num pa√≠s onde jamais o capitalismo foi uma ideia popular, passemos direto ao neoliberalismo e ao culto da teologia da prosperidade, gl√≥ria a Deus.

Cirurgia de tal envergadura não é obra solitária, ela foi concebida durante décadas com argumentos vindos de vários setores da vida social, inclusive do PT, que desde suas origens investiu contra a tradição republicana brasileira e o centro político que a encarnava, tal como no episódio famoso, ocorrido em pleno regime militar, em que sua principal liderança declarou que o principal inimigo das classes trabalhadoras era a CLT, e não o AI-5, vindo a sustentar um sindicalismo de resultados em oposição às antigas lideranças sindicais, em boa parte tradicionalmente associadas ao centro político. Em outro momento, com Lula candidato em segundo turno à sucessão presidencial vencida por Collor, seu partido recusou a participação em seu palanque de Ulysses Guimarães, um dos grandes próceres do nosso liberalismo político, como antes declinara assinar a Carta de 88, obra, no fundamental, do centro político, sob a inspiração desse mesmo Ulysses, que a apresentou ao mundo com palavras memoráveis.

A desconstru√ß√£o do centro pol√≠tico contou com a a√ß√£o de outros personagens, como setores das elites origin√°rias da dimens√£o do mercado, desde sempre, tal como no caso da sua acirrada oposi√ß√£o, nos anos 1930, √† legisla√ß√£o social, refrat√°ria √† regula√ß√£o pelo direito da vida social e ao embri√£o de social-democracia admitido pela Carta de 88. E mais recentemente, pela a√ß√£o do Minist√©rio P√ļblico, que interpretou em chave salvacionista a luta justa e necess√°ria contra a corrup√ß√£o sem atentar para as suas consequ√™ncias e sem discriminar alhos de bugalhos, comportando-se como um macaco solto numa loja de lou√ßas, com o que levou √† lona a sua representa√ß√£o pol√≠tica.

Estamos em pleno mar, navegando com mapas incertos e pilotagem inexperiente, ela pr√≥pria sem saber para onde nos quer levar. Os quadros econ√īmicos selecionados pelo governante eleito, os principais formados na ortodoxia da Escola de Chicago, com seus compromissos conceituais e pr√°ticos com os processos de globaliza√ß√£o, inarred√°veis na medida em que correspondem a movimentos seculares das coisas pertinentes √† economia mundo, ao menos desde as grandes navega√ß√Ķes empreendidas pelo Ocidente - nossa Ib√©ria √† frente -, em suas cabines de comando j√° se encontram contestados pelo trumpismo do futuro chanceler Ernesto Ara√ļjo. A b√ļssola deve estar apontada para qual destino: o da globaliza√ß√£o ou o da den√ļncia do globalismo?

Ruma-se para qual dire√ß√£o, a da autarquia e a do nacionalismo (isso com a turma do Paulo Guedes?), que, na linguagem de Trump, significa America first, atrelando nossa pobre carro√ßa aos objetivos imperiais do presidente americano, que se deixou embair pela anacr√īnica guerra de civiliza√ß√Ķes ideada por Samuel Huntington?

Logo n√≥s, que n√£o viemos da matriz anglo-sax√īnica, mas da ib√©rica, e somos da fam√≠lia dos bandeirantes, e n√£o da dos pioneiros, para lembrar as antigas li√ß√Ķes de Viana Moog; n√≥s, que seguimos a estrada universal em direito do sistema da civil law, esta, sim, entranhada na Hist√≥ria do Ocidente, ao contr√°rio do sistema da common law, que Hegel, por exemplo, n√£o reconhecia como filho da raz√£o, e sim do casu√≠smo de uma cultura singular, sem protagonismo, portanto, na marcha do esp√≠rito com que a criatura buscava seu encontro com seu Criador. O Ocidente √© uma cria√ß√£o europeia e √© a√≠ que n√≥s, os americanos, como reconheceram os fundadores da grande Rep√ļblica do Norte, cultores dos autores do Iluminismo nos Federalist Papers, estamos instalados, n√£o se podendo omitir, no caso brasileiro, a cria√ß√£o do seu Estado pelo herdeiro de uma dinastia europeia.

A metaf√≠sica r√ļstica dos ide√≥logos do trumpismo, como o c√©lebre personagem de Voltaire, ignora a sociologia do risco, t√£o bem estudada pelo soci√≥logo Ulrich Beck, na cren√ßa ing√™nua de que tudo no mundo se encaminha no sentido da sua melhor solu√ß√£o. Nosso planeta n√£o conheceria uma crise ambiental, em que pesem os alarmes emitidos pela comunidade dos cientistas, inclusive da Nasa, uma ag√™ncia americana de indiscutida legitimidade cient√≠fica, acerca dos dados que se acumulam sobre os perigos do aquecimento global. A crer no que enuncia uma parte dos nossos futuros governantes, o desmatamento da Amaz√īnia em nome de uma pol√≠tica expansiva das fronteiras do nosso capitalismo para o agroneg√≥cio e a minera√ß√£o n√£o importaria em riscos e sua den√ļncia n√£o passaria de fabula√ß√Ķes de intelectuais desavisados.

Não se deve chorar o leite derramado. O lado vencedor na sucessão presidencial foi esse que aí está. A oposição a ele não tem por que se precipitar. O mundo gira e a Lusitana roda. Por quanto tempo ainda haverá Donald Trump? E os militares, mais uma vez no proscênio, terão perdido a memória de suas grandes personalidades do passado, dos que lutaram em torno da bandeira do petróleo é nosso, do marechal Rondon, dos pracinhas que em campos de guerra na Itália enfrentaram com bravura o fascismo, das virtudes sem mácula do marechal Lott? E os seres subalternos, até quando suportarão o capitalismo sans phrase, em bruto e sem amortecedores, que ameaça vir por aí?

Os brasileiros não vão se despedir de si, apenas dizem um até breve.

A hora dos intelectuais (4 nov.) 

O martelo est√° batido. Come√ßamos uma nova hist√≥ria sem uma ideia na cabe√ßa, condenados em meio √†s trevas a tatear em busca de um caminho para uma sociedade que se perdeu de si mesma, do seu passado e de suas melhores tradi√ß√Ķes, tanto nas elites como nos setores subalternos. √Č hora de recolher os cacos, identificar as ra√≠zes dos nossos erros, da autocr√≠tica impiedosa quanto aos rumos equ√≠vocos em que nos deixamos enredar e amea√ßam p√īr sob risco nossas conquistas democr√°ticas. Trata-se de uma derrota pol√≠tica levada a efeito no campo do processo eleitoral, terreno que sempre identificamos como prop√≠cio ao avan√ßo dos temas sociais e das lutas pela igualdade, e cuja express√£o quantitativa ainda mais denuncia a sua gravidade e o alcance de suas repercuss√Ķes.

Mas com o erro tamb√©m se aprende e n√£o s√£o poucas as li√ß√Ķes que essa miser√°vel sucess√£o presidencial deixa como legado para os que recusam que o veneno do que h√° de mais anacr√īnico no passado volte a assumir as r√©deas do nosso futuro, como nesse retorno pat√©tico ao anticomunismo do presidente eleito, que, na verdade, visa a atingir a nossa Constitui√ß√£o. Com efeito, fora os artif√≠cios de m√£o usados na campanha vitoriosa de Bolsonaro, como o desse cedi√ßo anticomunismo, analisados os resultados eleitorais, principalmente em alguns dos Estados da Federa√ß√£o, o que h√° de comum neles √© o argumento utilitarista, fundamento filos√≥fico do neoliberalismo. No cerne do texto constitucional, entretanto, vige o princ√≠pio da solidariedade, ant√≠poda desde E. Durkheim, das concep√ß√Ķes utilitaristas, alvo oculto das campanhas bolsonaristas em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, acompanhando a orienta√ß√£o da candidatura presidencial e do seu principal consultor econ√īmico de expl√≠cita ades√£o ao ide√°rio do neoliberalismo.

O princ√≠pio da solidariedade e o centro pol√≠tico guardam rela√ß√Ķes antigas no processo de moderniza√ß√£o conservadora do Pa√≠s, pois se iniciam com Vargas na legisla√ß√£o social sob a inspira√ß√£o do corporativista Oliveira Vianna, embora sob o registro restritivo do autoritarismo e da tutela dos trabalhadores. Depurada dessa chave a Constitui√ß√£o, que √© obra do centro pol√≠tico, a solidariedade foi elevada a princ√≠pio fundador da Rep√ļblica, com o mesmo estatuto dos princ√≠pios da liberdade e da igualdade, conferindo car√°ter p√ļblico √† previd√™ncia social, que ora muitos dos atuais eleitos querem deslocar para a dimens√£o do mercado.

Dessa perspectiva, n√£o se pode ignorar talento pol√≠tico aos estrategistas do campo vitorioso, que mantiveram sob estrita clandestinidade seu programa in pectore de reformas, inclusive as constitucionais, confiando ao PT e a seus aliados e aos intelectuais que gravitavam em torno dele, em nome da luta contra a corrup√ß√£o, a tarefa de implos√£o do centro pol√≠tico, trave-mestra da arquitetura constitucional e de suas principais institui√ß√Ķes, como o Poder Judici√°rio, como em escandaloso fato recente vindo √† luz por inconfid√™ncias palacianas em que se amea√ßava o Supremo Tribunal Federal.

Caem os véus e já se divisa a situação de risco a que seremos submetidos. Querem nos reduzir ao Homo economicus, aqui, no país do carnaval, do Círio de Nazaré, do culto de massas a Nossa Senhora Aparecida e do candomblé, onde o capitalismo jamais foi uma ideia popular, vindo de cima por imposição do Estado. Aqui, onde as favelas são denominadas comunidades e o individualismo metodológico só existe na bibliografia importada, vinculados que estamos às nossas raízes ibéricas, na forma do belo estudo de Rubem Barbosa Filho em Tradição e artifício (UFMG, 1998), em trilha aberta pelo saudoso brasilianista Richard Morse.

O sistema de defesa contra a barb√°rie est√° √† m√£o e come√ßa a operar na defesa da Carta de 88, reduto das nossas melhores tradi√ß√Ķes e programa para uma futura social-democracia, que ela j√° cont√©m em embri√£o. Seus defensores est√£o alinhados, √† frente de todos o decano do STF, o ministro Celso de Mello. Os primeiros esbo√ßos do que dever√° ser a oposi√ß√£o come√ßam a ser debatidos, e digno de aten√ß√£o √© o pequeno texto do ensa√≠sta Antonio Ris√©rio Por um outro caminho, em que se sustenta a tese da necessidade "de constru√ß√£o de um novo e contempor√Ęneo partido de centro-esquerda verdadeiramente centrado no campo da social-democracia. [...] A fus√£o de PPS, Rede e PV (linha Eduardo Jorge) pode vir a ser um passo primeiro e fundamental. Mas √© preciso trazer para este campo magn√©tico os focos genu√≠nos da social-democracia que ainda resistem (minorit√°rios) no PSB e no PSDB. Tentar trazer tamb√©m para este processo construtivo os raros verdadeiros democratas que insistem em tentar sobreviver no MDB. E em outros movimentos e inst√Ęncias da sociedade".

Esse sistema geral de orienta√ß√£o n√£o sair√° do papel sem os intelectuais, a quem coube assumir posi√ß√Ķes de vanguarda na forma√ß√£o da opini√£o p√ļblica em momentos cruciais da hist√≥ria do nosso pa√≠s, tal como no movimento abolicionista pela obra e a√ß√£o de Nabuco, Ant√īnio Rebou√ßas e Jos√© do Patroc√≠nio, e mais recentemente nas lutas sociais e pol√≠ticas em favor de um Estado Democr√°tico de Direito, pelo envolvimento ativo de personalidades que, entre tantas, podem ser lembradas: Florestan Fernandes, Raimundo Faoro e Fernando Henrique Cardoso. O momento da hora presente confronta nossos intelectuais com desafios e exig√™ncias do mesmo calibre.

Na cena política aberta à nossa frente não há como negar que o longo ciclo da modernização conservadora chegou ao fim nesta triste sucessão presidencial. O passado não mais ilumina, como diria um grande autor, e não se pode ser mais fiel a ele. Reflexividade não é um conceito da moda entre cientistas sociais, mas uma exigência do tempo presente que requer de cada um de nós a escolha do caminho a seguir quando nos devemos soltar do que nos aparecia como destino de um país do Terceiro Mundo e dele prisioneiros. Sem os intelectuais não faremos isso.

Ao vencedor, as batatas (7 out.)

Um canal de TV de larga audi√™ncia transmite a sess√£o de abertura da Assembleia Geral da ONU. Como √© da tradi√ß√£o, cabe ao chefe de Estado do Brasil, o sr. Michel Temer, abrir os debates. O presidente Temer realiza seu pronunciamento com palavras ponderadas, desenvolvendo o tema da import√Ęncia daquela organiza√ß√£o para a paz e a coopera√ß√£o solid√°ria entre os povos, tal como tem sido a posi√ß√£o brasileira nas rela√ß√Ķes internacionais, que ele ali, mais uma vez, reafirmava, honrando os valores e princ√≠pios da nossa Carta constitucional e das nossas melhores tradi√ß√Ķes. O terceiro orador, o sr. Donald Trump, presidente da Rep√ļblica dos Estados Unidos, um dos pa√≠ses fundadores da ONU, h√° d√©cadas um dos principais protagonistas da cena mundial, em nome de um princ√≠pio de sua lavra, America first, confronta com um nacionalismo primitivo o esp√≠rito que animava aquela assembleia e que nos vem de duas grandes revolu√ß√Ķes do s√©culo 18, a americana e a francesa, com que se abre a modernidade e aprendemos com Kant a manter viva a utopia realista da paz perp√©tua.

Volte-se ao canal televisivo e a palavra passa a seu comentarista político, jornalista de meia idade, com os cabelos encanecidos, que desqualifica sem mais o oportuno e feliz pronunciamento do presidente Temer, passando ao largo do patético discurso de Trump, merecedor do justo sarcasmo com que foi recebido por sua audiência. Cenas como essas falam mais que mil palavras, estava ali a revelação da estupidez política que nos trouxe ao miserável cenário da sucessão presidencial, que ora somos obrigados a purgar.

Lamenta-se, agora, a sorte nessas horas aziagas do nosso encontro com que as urnas nos esperam. Impreca-se contra o destino que nos teria roubado o futuro, posto em m√£os desastradas de estrangeiros que n√£o conhecem nem respeitam nossa Hist√≥ria e seus feitos. O destino √© inocente, fomos n√≥s que criamos passo a passo a armadilha, salvo milagres - creio, embora seja absurdo -, que n√£o temos mais como evitar. Fomos n√≥s os autores da lenda urbana de que a corrup√ß√£o estaria na raiz dos nossos males, criminalizando a pol√≠tica e os pol√≠ticos com a arrog√Ęncia de messi√Ęnicos refrat√°rios √† avalia√ß√£o das consequ√™ncias dos seus atos, a proclamarem fiat iustitia, pereat mundus.

O centro pol√≠tico, lugar estrat√©gico em que se operou a bem-sucedida moderniza√ß√£o burguesa do Pa√≠s, tornou-se um espa√ßo vazio, recusando-se ao governo Temer, com sua hist√≥ria de dirigente do MDB, um cl√°ssico partido do centro, com sua natural inscri√ß√£o nesse lugar reconhecida, em duas consecutivas elei√ß√Ķes presidenciais, pelo PT - partido identificado como de esquerda pela cr√īnica pol√≠tica, carimbo, ali√°s, recusado por seu principal dirigente -, que com ele se coligou, confiando-lhe a Vice-Presid√™ncia da Rep√ļblica. Pranteia-se agora, com l√°grimas de crocodilo, a m√° e imerecida sorte do finado centro pol√≠tico, que ora comparece √†s urnas, tudo indica, sem uma candidatura competitiva.

Contudo, o que √© √©. O artif√≠cio de negar a identidade ao centro pol√≠tico, de exist√™ncia comprovada empiricamente em nossa sociedade h√° d√©cadas, n√£o tem como resistir ao imp√©rio dos fatos. A imin√™ncia de um segundo turno eleitoral nos devolve, em clima de p√Ęnico, com o tempo fugindo das m√£os, a busca pelo centro perdido. Sem ele como vencer as elei√ß√Ķes, pior, como governar? Com Haddad teremos o indulto de Lula e a convoca√ß√£o de uma Assembleia Constituinte? Faltaria combinar com os russos, que, ali√°s, s√£o muitos. Que economia nos espera com Bolsonaro, a do Pinochet, neoliberalismo com fuzis?

Como o gênio militar de Napoleão advertia, quando avaliava mapas de campanha, se o natural fosse arbitrariamente desconsiderado num plano, ele voltaria em galope. Nem sempre, pode-se acrescentar, em manobras afortunadas, dificílimas para os candidatos que devem disputar o segundo turno desprovidos como estão, contando apenas com seus preconceitos, de projetos de governo bem definidos. Tem-se pela frente um quadro de turbulência até que o novo governo consiga encontrar uma linha de ação compatível com o novo Congresso e com os novos governadores que nascerão das urnas. Na prática, essa incomum situação significa a abertura de um terceiro turno eleitoral, de tramitação exclusiva nos bastidores, quando só então serão conhecidos os rumos do novo governo.

O centro pol√≠tico, banido do sal√£o, volta com for√ßa por todas as janelas. Tanto barulho por nada, retornamos ao ponto de partida, salvo se os estrategistas de plant√£o dos dois lados do tabuleiro j√° tenham decidido, no caso de vit√≥ria, levar a cabo o que ruminaram ao longo dessa paup√©rrima campanha eleitoral. O desenlace infeliz dessa imprud√™ncia, se vier, n√£o deve tardar, e mente quem nega a for√ßa das nossas institui√ß√Ķes, provada em tantos outros momentos cr√≠ticos da nossa hist√≥ria recente. Os 30 anos da Carta de 88, a mais longeva da Rep√ļblica, n√£o foram em v√£o, a sociedade saber√° preserv√°-la das sanhas dos cavaleiros da fortuna, ela j√° conhece o que perder√° sem ela.

Mente igualmente quem se recusa a admitir a possibilidade de a nossa democracia estar sob risco, pois está, aqui e alhures. Sem triunfalismo, joga-se, nesta sucessão presidencial brasileira bem mais do que nossos negócios internos. Nossa presença no mundo importa para a paz, em particular para nuestra América. Nós, os perdedores nessa disputa eleitoral, não poderemos abdicar de uma feroz autocrítica, uma vez que não havia nada de inevitável nessa derrota que reconhecemos. Somos mais necessários que nunca, e fizemos nascer uma nova esquerda capaz de se articular com o liberalismo político, cuja missão desde agora é nos devolver aos eixos que nos são naturais.

Pelo andar da carruagem, pode-se prever que isso não deve demorar muito. Por fim, glória a Deus, há os milagres.

Depois do "teatro de sombras", Brasil precisar√° se reinventar e sair do caminho da prancheta (out. 2018)

"A tarefa que se imp√Ķe para n√≥s √© de recome√ßo", prop√Ķe o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna na entrevista a seguir, ao avaliar o resultado do primeiro turno das elei√ß√Ķes presidenciais. O que "importa" neste momento da conjuntura pol√≠tica do pa√≠s, enfatiza, "√© que a reflexividade seja um instrumento crucial". Al√©m disso, constata, "est√° faltando estimular a confian√ßa, e o que estimula a confian√ßa √© a esperan√ßa. A esperan√ßa √© um tema de fundo que sempre bate na nossa hist√≥ria de maneira forte". Embora existam "motivos para preocupa√ß√£o" acerca de como ser√° o futuro do pa√≠s, ao mesmo tempo "h√° motivos que nos conduzam a atitudes, pensamentos e a√ß√Ķes que sejam capazes de impedir impasses, equ√≠vocos, decis√Ķes desastradas. H√° sa√ļde na nossa sociedade tamb√©m", pondera.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone √† IHU On-Line, o soci√≥logo critica o "abandono do Centro" nas elei√ß√Ķes deste ano e afirma que esse foi um dos fatores que "tornou vi√°vel essa onda, esse tsunami que invadiu o pa√≠s". Mas, no segundo turno, menciona, o Centro "est√° vivo e os pr√≥prios candidatos reconhecem isso ao fazerem esse movimento desabalado em dire√ß√£o ao Centro. Eles est√£o tentando capturar o Centro sem entend√™-lo, sem valoriz√°-lo, sem compreender qual foi o papel dele na hist√≥ria do pa√≠s. Eu diria que √© uma fantasia: o Centro n√£o vai ceder a esses acenos de boa vontade que os extremos est√£o lhe fazendo agora".

Werneck Vianna tamb√©m lamenta a condu√ß√£o do debate eleitoral e a n√£o discuss√£o de temas fundamentais para "tirar o pa√≠s do caminho da prancheta". "O tema da desigualdade √© que deveria ter sido dominante nessa sucess√£o presidencial; essa √© a nossa quest√£o de fundo. [...] Nesta elei√ß√£o praticamente n√£o se discutiu economia. Discutiram-se valores. Agora, qual √© a economia? [...] N√£o se discutiu a forma de inscri√ß√£o do Brasil no capitalismo mundial. N√£o se discutiu o processo da globaliza√ß√£o; ali√°s, recusa-se esta que √© a maior evid√™ncia do nosso tempo, a mundializa√ß√£o da economia, a globaliza√ß√£o. [...] √Č um teatro de sombras, porque as coisas verdadeiras n√£o aparecem."

Apesar do espet√°culo eleitoral, avalia, o Brasil n√£o est√° perdido, mas "vai ter que se repensar e os intelectuais v√£o ter que se posicionar de uma forma aut√īnoma no debate p√ļblico, como deixaram de fazer h√° tempo, seduzidos por posi√ß√Ķes do Estado, por cren√ßas m√°gicas e mitol√≥gicas de que um homem dotado de poderes sobrenaturais seria capaz de mudar o pa√≠s. N√£o foi; est√° na cadeia". Ali√°s, acrescenta, "n√£o foi uma coisa de menos import√Ęncia o que aconteceu e o que est√° acontecendo". Diante da crise que se estende pelo pa√≠s nos √ļltimos anos, declara, "sou obrigado - e acho que todos s√£o, quando se defrontam com um fato pol√≠tico - a reconhecer o valor de face do que √© dito". E adverte: "N√£o posso me deixar embair por especula√ß√Ķes que afirmam que estamos vivendo o fim da nossa democracia". O pr√≥ximo presidente, conclui, ter√° a tarefa de "tirar o pa√≠s do caminho da prancheta, de ficar projetando um futuro de prancheta no papel e se defrontar com as coisas reais".

Luiz Werneck Vianna √© professor-pesquisador na Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de S√£o Paulo - USP, √© autor de, entre outras obras, A revolu√ß√£o passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicializa√ß√£o da pol√≠tica e das rela√ß√Ķes sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os tr√™s poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Di√°logos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012). Destacamos tamb√©m seu novo livro intitulado Di√°logos gramscianos sobre o Brasil atual (Funda√ß√£o Astrojildo Pereira e Verbena Editora, 2018), que √© composto de uma colet√Ęnea de entrevistas concedidas que analisam a conjuntura brasileira nos √ļltimos anos, entre elas, algumas concedidas √† IHU On-Line.

Confira a entrevista.

Qual √© a sua avalia√ß√£o geral do resultado das elei√ß√Ķes? Que reflex√Ķes o senhor tem feito a partir do resultado das elei√ß√Ķes?

Eu n√£o seria verdadeiro se dissesse que n√£o senti surpresa com determinados resultados. O resultado de Minas Gerais me surpreendeu. No Rio de Janeiro, igualmente. Em S√£o Paulo as coisas se comportaram de forma previs√≠vel, assim como no Nordeste. Agora, a onda Bolsonaro que tomou conta do pa√≠s surpreendeu a mim e penso que surpreendeu a todos. Foi um processo que foi se maturando embaixo da rejei√ß√£o ao PT, que n√£o soube compreender a sua situa√ß√£o e radicalizou seu posicionamento num momento em que tinha de procurar for√ßas que pudessem estabilizar a sua vota√ß√£o. Foi perdendo o Centro, o que n√£o fez nas elei√ß√Ķes anteriores, inclusive na de Dilma, quando a escolha do vice-presidente foi um candidato classicamente do Centro, Michel Temer. Aos poucos, a pr√≥pria administra√ß√£o do segundo governo Dilma foi se distanciando, dramaticamente eu diria, do Centro pol√≠tico. Ora, este pa√≠s vem comprovando h√° d√©cadas que o Centro pol√≠tico √© o capital para a estabilidade e a governabilidade no pa√≠s. O abandono do Centro e mais o avan√ßo que procuradores e ju√≠zes exerceram sobre o sistema pol√≠tico feriram preferencialmente as for√ßas que tradicionalmente ocupavam o Centro pol√≠tico. Isso tudo tornou vi√°vel essa onda, esse tsunami que invadiu o pa√≠s.

No Rio de Janeiro, o candidato que está na frente nas pesquisas e que chegou ao segundo turno em posição favorecida não tem registro político na história do país. O que se sabe é que ele foi um fuzileiro naval que abandonou a carreira, depois um juiz concursado, que também abandonou a corporação e que ingressou, por uma inspiração do destino, numa trajetória para a qual não parecia minimamente preparado, mas está aí, liderando as pesquisas e parece que tem possibilidade de vencer. A política tradicional do Rio de Janeiro foi arrasada; está na cadeia. Aliás, o grande nome do PT está na cadeia.

A confluência entre as campanhas

Um elemento de erro, de equ√≠voco e de falta de interpreta√ß√£o l√ļcida do pa√≠s propiciou isso. Agora todos choram o leite derramado. Corre-se atr√°s da recupera√ß√£o do Centro pol√≠tico, mas o Centro pol√≠tico n√£o √© ioi√ī. O Centro foi o grande respons√°vel pela moderniza√ß√£o burguesa do pa√≠s. Como se explica o governo Juscelino sem o Centro pol√≠tico, a constru√ß√£o de Bras√≠lia, o programa de metas, sem o Centro pol√≠tico? Para ir um pouco mais longe, o desentendimento a respeito da nossa trajet√≥ria, da nossa hist√≥ria, dos nossos valores, chegou a um ponto ag√īnico. Ningu√©m mais pode reconhecer na nossa hist√≥ria √™xitos e sucessos. Quando se falava em Rep√ļblica, era para denegri-la; quando se falava do processo da aboli√ß√£o, que foi uma luta democr√°tica muito vigorosa, era para denegri-la; quando se falava da composi√ß√£o √©tnica do pa√≠s, e que √© um verdadeiro milagre a conviv√™ncia entre diferentes, como tem ocorrido e tem se aprofundado entre n√≥s, isso n√£o encontrava defensores. Gilberto Freyre foi enterrado para n√£o ser mais ouvido; suas li√ß√Ķes foram jogadas no por√£o da hist√≥ria.

No entanto, com tudo isso, ainda podemos ter o registro de sermos um dos pa√≠ses mais tolerantes do mundo em termos de conviv√™ncia entre religi√Ķes, entre etnias diferentes. Mas tudo que era da nossa tradi√ß√£o foi depredado, foi jogado no lixo da hist√≥ria. O resultado n√£o se fez esperar. A candidatura de Bolsonaro cont√©m todos esses elementos de rea√ß√£o ao que fomos, ao que temos sido, mas pode-se dizer tamb√©m que o PT se comportou do mesmo modo, desqualificando o tempo todo a nossa hist√≥ria e os nossos feitos, que n√£o foram poucos. Basta ver que somos um pa√≠s emergente do terceiro mundo que cumpriu uma das agendas mais vitoriosas de moderniza√ß√£o: est√£o a√≠ a nossa ind√ļstria, a nossa agricultura.

N√£o temos uma hist√≥ria desprez√≠vel para come√ßar tudo de novo, como na verdade, ao fundo, tanto a campanha de Lula quanto a de Bolsonaro fizeram. Nesse sentido h√° um elemento de conflu√™ncia entre a campanha de Bolsonaro e a de Haddad, que n√£o pode ser obscurecido. Alguns tra√ßos s√£o muito significativos disso: a fala do candidato a vice-presidente da Rep√ļblica sobre a nossa composi√ß√£o √©tnica e as hipotecas negativas que comprometem a nossa hist√≥ria, √© um registro. O tema do racialismo que setores da esquerda petista t√™m trazido para a cena pol√≠tica, com a apar√™ncia de irem no sentido contr√°rio, refor√ßam essa quest√£o de n√£o reparar, de n√£o valorizar o processo extraordin√°rio que criamos aqui de conviv√™ncia entre tradi√ß√Ķes, culturas e etnias diferentes.

Qual ser√° a economia de 2019?

Nesta elei√ß√£o praticamente n√£o se discutiu economia. Discutiram-se valores, rumos pol√≠ticos. Agora, qual √© a economia? A economia do candidato do PT no primeiro turno foi a pol√≠tica levada a cabo pela ex-presidente Dilma Rousseff, cujo resultado √© conhecido: fracasso absoluto. Bolsonaro, em rela√ß√£o a isso, n√£o precisou fazer mais nada para deixar o tema correr solto e se deixou navegar nessa onda que lhe foi extremamente favor√°vel, porque ele n√£o teve que se defrontar com um projeto de renova√ß√£o da sociedade, da pol√≠tica da sociedade e de suas institui√ß√Ķes que estivessem em linha de continuidade com a nossa hist√≥ria. H√° uma surpresa nisso a√≠, olhando bem ao fundo. √Č uma surpresa imediata: poxa, que vota√ß√£o espantosa, inesperada. Fora isso, fora essas interjei√ß√Ķes, quais s√£o as explica√ß√Ķes? Esse segundo turno pode - e eu temo isso - transcorrer num ambiente mais in√≥spito do que o primeiro, porque esses candidatos - salvo o arremedo de procura do Centro pol√≠tico que est√£o fazendo - continuam sem apresentar os seus programas de governo: para onde se quer ir? Haddad se desvencilhou de verdade do programa da Dilma? Como? Que quadros ele vai levar para isso? √Č um teatro de sombras, porque as coisas verdadeiras n√£o aparecem. O que teria de ser pensado para aprofundar agora? Falta √† sociedade perceber quais s√£o os rumos alternativos, para onde ela deve conduzir a sua op√ß√£o. Para a pol√≠tica da Dilma? Para o Chile de Pinochet, com neoliberalismo com fuzis? O Centro n√£o √© um lugar sem valores, um lugar que deva ser pensado, como esses pol√≠ticos que est√£o a√≠ fazem, como um lugar fisiol√≥gico, um lugar sem projeto. Expulsaram o MDB do Centro pol√≠tico.

Qual é a consequência disso?

O Centro ficou vazio e as extremidades ocuparam esse espaço.

Qual será o papel do Centro na política daqui para frente?

Tem que dar tempo para esse segundo turno. Ele foi ferido letalmente, inclusive por procuradores e juízes que trabalharam sob a legenda "faça-se justiça e o resto que se dane". Muito bem, "fez-se justiça". A que custo?

Vargas era um homem de Centro, como Juscelino, Jango. Tiramos o Centro da política, e agora tem o PT com a cara da Dilma e o Bolsonaro. Então, pronto, vamos dormir com um barulho desses.

Por que o debate político se concentra numa discussão sobre valores e não sobre os rumos da economia? Quais são as consequências disso para o país?

N√£o se discutiu, por exemplo, se a pol√≠tica econ√īmica da Dilma estava certa ou errada. N√£o se discutiu a forma de inscri√ß√£o do Brasil no capitalismo mundial. N√£o se discutiu o processo da globaliza√ß√£o; ali√°s, recusa-se esta que √© a maior evid√™ncia do nosso tempo, a mundializa√ß√£o da economia, a globaliza√ß√£o. Tamb√©m n√£o se discutiu o papel das organiza√ß√Ķes internacionais, principalmente da ONU, que passa a exercer cada vez mais um protagonismo nas coisas do mundo em termos de ambiente, em termos da economia mundial, da sua regula√ß√£o, na quest√£o feminina igualmente, na quest√£o da paz. N√£o se levantou uma voz para fazer esse diagn√≥stico sobre as circunst√Ęncias em que o mundo opera, est√° operando e as tend√™ncias que nos pr√≥ximos anos devem se afirmar.

Quest√£o comportamental

Focou-se na quest√£o comportamental, porque a sociedade brasileira √©, no fundamental, conservadora. Ali√°s, n√£o s√≥ ela. A quest√£o dos valores √© muito sens√≠vel. Esse mundo das mudan√ßas comportamentais se mexe de forma muito vagarosa e n√£o da forma afobada com que certos movimentos sociais tentavam conduzir a sua agenda. Isso afronta e afrontou sentimentos da popula√ß√£o por conta da religi√£o. N√£o apenas os pentecostais, mas os cat√≥licos, por exemplo, t√™m uma posi√ß√£o muito severa em rela√ß√£o ao aborto. Voc√™ n√£o pode colocar sistemas comportamentais na frente das grandes op√ß√Ķes pol√≠ticas com que a sociedade se defronta; devagar com o andor. O risco de ter se perdido muito ao longo desse caminho, e que ser√° muito dif√≠cil de recuperar mais tarde, √© este de querer imprimir valores √† sociedade que n√£o encontram receptividade na sociedade. Basta ver que boa parte das mudan√ßas ocorridas no campo comportamental t√™m sido promovidas pelo Judici√°rio, onde a for√ßa conservadora da sociedade √© mais presente. Chegou-se a pensar em aborto por decis√£o judicial, passando ao largo do Legislativo; isso √© um disparate e n√£o h√° sociedade que segure isso. O genial compositor brasileiro consagrou a frase de que o Brasil n√£o √© para principiantes. Tudo aqui √© dif√≠cil. O pa√≠s √© imenso, heterog√™neo e desigual.

Desigualdades

O tema da desigualdade √© que deveria ter sido dominante nessa sucess√£o presidencial; essa √© a nossa quest√£o de fundo, porque n√≥s fomos nos modernizando durante d√©cadas sem interferir na quest√£o da desigualdade. Ali√°s, aprofundando cada vez mais essa anomalia, essa patologia brasileira de ser moderna, almejar os valores da moderniza√ß√£o e ao mesmo tempo ser uma das sociedades mais desiguais do planeta. Como se enfrenta a desigualdade? Com Bolsa Fam√≠lia? Isso √© uma gota d¬í√°gua, uma bobagem - isso n√£o quer dizer que o programa n√£o deva ser preservado em situa√ß√Ķes-limite como a que vivemos. Somos um pa√≠s que foi capaz de se modernizar sem interferir, sem mexer na quest√£o agr√°ria, de Vargas at√© hoje; a quest√£o agr√°ria foi preservada e consolidada com o agroneg√≥cio.

Negação do Centro

Negou-se, isto é, houve uma resistência ao Centro político. Criou-se uma narrativa de negação do Centro político. Isso foi uma fabulação, foram palavras. Outra coisa é o mundo das coisas reais. O Centro já está se manifestando nesse segundo turno com força. Ele está aí, está vivo e os próprios candidatos reconhecem isso ao fazerem esse movimento desabalado em direção ao Centro. Eles estão tentando capturar o Centro sem entendê-lo, sem valorizá-lo, sem compreender qual foi o papel dele na história do país. Eu diria que é uma fantasia: o Centro não vai ceder a esses acenos de boa vontade que os extremos estão lhe fazendo agora. O Centro como categoria política não vai se deixar embair agora de forma plena por essas duas alternativas que estão postas. Ele sabe, por experiência vivida, o quanto esses extremos lhe foram contrários e são contrários e não estão dispostos a fazer um processo autocrítico que seja convincente e persuasivo e que não seja algo de oportunismo eleitoral.

O Brasil est√° perdido? N√£o est√°. Vai ter que se repensar e os intelectuais v√£o ter que se posicionar de uma forma aut√īnoma no debate p√ļblico, como deixaram de fazer h√° tempo, seduzidos por posi√ß√Ķes do Estado, por cren√ßas m√°gicas e mitol√≥gicas de que um homem dotado de poderes sobrenaturais seria capaz de mudar o pa√≠s. N√£o foi; est√° na cadeia. Os principais seguidores ou est√£o na cadeia ou t√™m grandes possibilidades de irem para l√°, e alguns, de voltarem para l√°.

√Č um recome√ßo. A tarefa que se imp√Ķe para n√≥s √© de recome√ßo. O que importa √© que a reflexividade seja um instrumento crucial nessa hora. Pensar, deliberar junto. N√£o foi uma coisa de menos import√Ęncia o que aconteceu e o que est√° acontecendo. Eu sou obrigado - e acho que todos s√£o, quando se defrontam com um fato pol√≠tico - a reconhecer o valor de face do que √© dito. Ent√£o, sou obrigado a acreditar que o general Villas B√īas expressa duas convic√ß√Ķes verdadeiras quando afirma e vem afirmando h√° tempo a obedi√™ncia aos comandos constitucionais. Isso n√£o √© de pouca monta.

Então o senhor não tem medo do retorno da ditadura diante de uma possível eleição de Bolsonaro, como muitos estão afirmando?

Eu diria que n√£o, a n√£o ser que eu desprezasse o valor de face de algumas afirma√ß√Ķes e n√£o reconhecesse no general Villas B√īas e na sua lideran√ßa, at√© ent√£o incontrast√°vel, nas For√ßas Armadas, o que ele tem dito e defendido. O que junta a corpora√ß√£o militar com a corpora√ß√£o do Direito, que tamb√©m est√° assentada na pol√≠tica de defesa da Constitui√ß√£o de 88. Ent√£o, isso posto, com esse alinhamento, n√£o posso me deixar embair por especula√ß√Ķes que afirmam que estamos vivendo o fim da nossa democracia. Poderemos at√© chegar a isso, mas estamos muito longe disso e temos instrumentos para fazer essa defesa.

Como avalia a eleição de mais de 20 candidatos militares? O que isso representa?

O ex√©rcito faz parte da vida brasileira; sempre fez. Desde a guerra do Paraguai ele est√° a√≠. Esteve na Rep√ļblica, na moderniza√ß√£o burguesa. A constru√ß√£o de Bras√≠lia sem as corpora√ß√Ķes militares n√£o teria sido uma possibilidade. Essa fabula√ß√£o negativa que o PT criou sobre a nossa hist√≥ria minou e degradou a pol√≠tica brasileira, mas √© sacudir a poeira.

Os dados demonstram que a elei√ß√£o deste ano possibilitou a maior renova√ß√£o da C√Ęmara desde a elei√ß√£o de 89. Isso significa uma mudan√ßa de fato ou a renova√ß√£o √© mais do mesmo? A elei√ß√£o do Congresso representa um recome√ßo?

√Č uma renova√ß√£o e vai ter que ser. O Congresso n√£o atua sozinho no mundo; s√£o parlamentares com inscri√ß√£o na vida social real, e a vida social real n√£o quer golpe, n√£o quer interrup√ß√£o da vida democr√°tica. A vida real aprendeu a valorizar a Carta de 88, o que n√£o quer dizer que ela seja intoc√°vel. Reformas constitucionais podem ser feitas e √© poss√≠vel aprimorar o texto constitucional, porque ele foi feito numa circunst√Ęncia muito particular, numa transi√ß√£o do autoritarismo para a democracia, que n√£o √© pouca coisa. Foi uma vit√≥ria extraordin√°ria das for√ßas democr√°ticas terem chegado ao texto final na Carta de 88. Ela deve ser defendida agora a ferro e fogo, como a sociedade j√° demonstrou que vai fazer e est√° fazendo.

Outra coisa é governar. Governar não é fácil. Sancho Pança aprendeu isso no reino da Barataria. Governar é difícil, especialmente em sociedades complexas, desiguais e heterogêneas como é a nossa.

Depois do segundo turno, muitos começaram a dizer que a democracia está em risco. Ela está?

Depende do que n√≥s vamos fazer. Pode cair em situa√ß√£o de risco, e pode sair dela. A minha expectativa - n√£o falemos de torcida - √©, acreditando no valor de face do que as principais lideran√ßas est√£o falando, do que as principais institui√ß√Ķes est√£o vocalizando, de que a democracia saber√° enfrentar qualquer risco. Agora, se tudo for uma mascarada, a√≠ pode ser. Nesse caso, um pa√≠s do tamanho do nosso, com a import√Ęncia estrat√©gica que tem no mundo, a les√£o disso n√£o ser√° somente interna, mas internacional, nessa hora de Trump, nessa hora em que a extrema direita avan√ßa na Europa. Os sinistros anos 30 no Brasil e no mundo podem voltar, mas h√° for√ßas e contrafor√ßas. A interpreta√ß√£o que fa√ßo √© que a democracia criou ra√≠zes aqui em setores em que ela tradicionalmente n√£o tinha lugar. Enfim, nada est√° escrito nas estrelas. Esse destino ter√° que ser feito por n√≥s. √Č claro que demos um passo atr√°s como sociedade, mas nada que seja t√£o grave que impe√ßa que retomemos nosso caminho. √Č sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Ser√° o fim dos governos de coaliz√£o, que o senhor sempre criticou?

A maneira como se praticou o presidencialismo de coaliz√£o aqui foi um despaut√©rio. N√£o ser√° o fim. Mas ele passou por um processo severo de ajustes. Alian√ßa pol√≠tica √© essencial entre n√≥s. Isso desde sempre. N√≥s n√£o fizemos a Guerra de Secess√£o como os EUA fizeram. A nossa trajet√≥ria tem sido, ao contr√°rio da americana, a de manter o antagonismo em equil√≠brio. Essa frase √© de Gilberto Freyre e representa bem o pensamento desse grande pensador. A Guerra de Secess√£o n√£o foi feita aqui, para o bem ou para o mal. √Č um registro da nossa hist√≥ria; faz parte da nossa hist√≥ria, do nosso DNA. DNA n√£o se muda, se leva para a hist√≥ria e gera√ß√Ķes o mant√™m.

Quais são as chances de o Estado se modernizar daqui para frente a partir de um próximo governo?

N√≥s fizemos a modernidade sem o moderno. N√≥s n√£o criamos fundamenta√ß√£o verdadeira para a autonomia dos seres sociais. Basta ver o que ocorreu com o sindicalismo, que foi mantido sob tutela ao longo de gera√ß√Ķes e d√©cadas e d√©cadas no processo da moderniza√ß√£o burguesa brasileira. Autonomia √© o que est√° se infiltrando agora, √© uma constru√ß√£o recente na sociedade brasileira. √Č um processo, eu diria, incontorn√°vel e de avan√ßo crescente. Tem que dar tempo ao tempo.

O que é possível esperar de um eventual governo Haddad ou Bolsonaro? Quais serão as chances de governabilidade num governo petista ou bolsonarista?

Os dois ser√£o e j√° est√£o sendo obrigados a olhar para o pa√≠s como ele √©. Ter√£o que tirar o pa√≠s do caminho da prancheta, de ficar projetando um futuro de prancheta no papel e se defrontar com as coisas reais. Negociar, conversar, fazer pol√≠tica, a n√£o ser que essa hip√≥tese nefasta da solu√ß√£o de for√ßa prospere. Mas por onde ela vai prosperar? Que for√ßas sociais v√£o bancar esse avan√ßo sobre as institui√ß√Ķes democr√°ticas? O resultado das elei√ß√Ķes de S√£o Paulo ainda n√£o saiu. O estado mais importante da federa√ß√£o ainda n√£o declarou seu voto, se Bolsonaro ou se Haddad ou se Lula. A possibilidade de que o Centro encontre seu lugar em S√£o Paulo √© muito alta. Tamb√©m n√£o afastaria a possibilidade de Minas Gerais encontrar lugar agora para o seu Centro pol√≠tico. Com Minas e S√£o Paulo o caminho est√° garantido, o caminho da perseveran√ßa das institui√ß√Ķes.

Doria declarou seu apoio a Bolsonaro, apesar de o PSDB optar pela neutralidade.

Sim, mas o Fran√ßa recebeu o apoio do Skaf e de toda a torcida do Flamengo, e imagino que do Alckmin tamb√©m. E o Anastasia em Minas Gerais? Minas e S√£o Paulo na hora das decis√Ķes estrat√©gicas s√£o decisivos. H√° motivos para preocupa√ß√£o. Ponto. No entanto, h√° motivos que nos conduzam a atitudes, pensamentos e a√ß√Ķes que sejam capazes de impedir impasses, equ√≠vocos, decis√Ķes desastradas. H√° sa√ļde na nossa sociedade tamb√©m. Este pa√≠s n√£o √© o que √© se n√£o tivesse uma sa√ļde de ferro, segurando por baixo de toda a confus√£o que n√≥s, os habitantes desta Terra, fazemos.

Nos resta aguardar, ent√£o?

Aguardar com calma e com esperança. Sem esperança você não é capaz de agir de forma a despertar confiança no outro, e confiança é essencial. Sem confiança você não atravessa uma rua. Sinais vão parar. Um deles talvez não contenha um motorista desastrado que invada o sinal e atropele as pessoas. Mas com isso, ninguém atravessaria a rua. Espero que não. Confiança é tudo. Sem confiança não vou ao médico, não posso tomar um remédio. Está faltando isto: estimular a confiança, e o que estimula a confiança é a esperança. A esperança é um tema de fundo, que sempre bate na nossa história de maneira forte. Nós não desistimos do Brasil, não desistimos de um grande destino para o nosso país. Mas temos que ir tentando. Tem que ter calma e ter esperança e agir na boa direção. Os candidatos estão aí e quem ganhar leva. Que Deus o tenha. E quem ganhar vai governar e todos estão interessados em cumprir o mandato. Que olhem o entorno.

Deseja acrescentar algo?

Como sempre, pe√ßo toler√Ęncia e bondade da minha interlocutora, porque uma entrevista sobre esse assunto √© sempre muito dif√≠cil de dar.

Transi√ß√Ķes (2 set.)

Marcas de forma√ß√£o nos indiv√≠duos e nas na√ß√Ķes, como nos ensinaram a psican√°lise de Freud e a teoria social de Tocqueville no genial A democracia na Am√©rica, nos acompanham desde o nascimento e, se podem ser modificadas pela a√ß√£o consciente dos homens ou por circunst√Ęncias imprevistas em suas trajet√≥rias, n√£o s√£o pass√≠veis de erradica√ß√£o e ficam conosco, para o bem ou para o mal, impressas como tatuagens irremov√≠veis.

Os estudos de Hist√≥ria comparada, presentes nos grandes cl√°ssicos do pensamento social, de Montesquieu a Barrington Moore, passando por Tocqueville, Marx, Weber - que dedicou sua monumental obra a eles -, elenco que inclui Gramsci em suas explora√ß√Ķes sobre quais tipos de sociedades ocidentais estariam mais propensas √†s revolu√ß√Ķes - a Inglaterra, por exemplo, n√£o estaria -, s√£o fartos em demonstrar o papel das origens na forma√ß√£o dos Estados e das sociedades. Assim, compreender a Alemanha importaria em analisar o papel das elites junkers, agr√°rias, conservadoras e de forma√ß√£o militarizada, em seu protagonismo na hora decisiva da unifica√ß√£o e cria√ß√£o do seu Estado, e, no caso americano, do fato de sua sociedade ter sido obra de emigrados de ades√£o religiosa ao protestantismo, cujos ideais de Rep√ļblica e de sociedade queriam implantar em terra nova.

A literatura sobre o tema √© pr√≥diga e avan√ßa sobre outros tantos casos, como os da It√°lia, do Jap√£o e da √ćndia, n√£o deixando de fora os casos da Ibero-Am√©rica. A relev√Ęncia do tema n√£o √© apenas acad√™mica, j√° que ela diz respeito √† identifica√ß√£o do terreno em que estamos pisando. A cr√īnica pol√≠tica destes tempos de sucess√£o presidencial insiste no tom do desencanto e das ilus√Ķes perdidas, especialmente dos setores que se autointitulam a esquerda do nosso espectro pol√≠tico, em raz√£o da sua frustra√ß√£o com o desenlace da crise pol√≠tica que abalou o Pa√≠s ap√≥s o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Com efeito, durante seu curso - tudo indica, encerrado - viveu-se aqui como que uma terra em transe, com manifesta√ß√Ķes de rua e passeatas de empalidecer as francesas, aparentando prometer, como essa esquerda desejava, a hora de ruptura catastr√≥fica com nossas institui√ß√Ķes.

Foi um tempo em que se coqueteava com o tema das revolu√ß√Ķes, cuja porta de entrada seria a derrubada do governo constitucional de Michel Temer, com a imediata convoca√ß√£o de elei√ß√Ķes gerais, provavelmente com poderes constituintes e demais assuntos de igual calibre. A sucess√£o presidencial, confirmando o papel taumat√ļrgico das elei√ß√Ķes nas crises pol√≠ticas brasileiras, no entanto, nos devolveu ao Brasil real, dissolvendo no ar as fabula√ß√Ķes revolucionaristas. Mais uma vez passamos a conviver com o eterno retorno dos processos de transi√ß√£o, com o qual veio √† luz nosso Estado-na√ß√£o - n√£o conhecemos, como se sabe, ao contr√°rio da Am√©rica hisp√Ęnica, revolu√ß√Ķes nacional-libertadoras. Mesmo registro pol√≠tico, ali√°s, com que interrompemos o regime do autoritarismo militar que nos dominou por duas d√©cadas.

√Č ele, agora, apesar da pantomima ensaiada em torno da candidatura Lula ao tentar amea√ßar nossa democracia com a cantilena contra o nosso sistema de Justi√ßa, que se imp√Ķe atr√°s desse teatro de sombras em que se ocultam alguns protagonistas. Pois aquilo que se encoberta √© o fato de j√° estarmos numa transi√ß√£o do longo ciclo da moderniza√ß√£o autorit√°ria de Vargas a Dilma para um novo tipo de rela√ß√Ķes entre o Estado e a sociedade, centrada na participa√ß√£o social e no aprofundamento da democracia, tanto por processos que revolvem os fundamentos materiais de nossas estruturas, em especial no mundo do trabalho e da produ√ß√£o, quanto pelas mudan√ßas ideais que se manifestam em nossa capacidade de reflex√£o sobre n√≥s mesmos.

Os debates presidenciais aclaram o ponto, mesmo que vindos de narrativas toscas e r√ļsticas, contrapondo candidatos que se situam no campo favor√°vel a essa transi√ß√£o aos contr√°rios a ela, na pretens√£o de darem continuidade ao processo de moderniza√ß√£o autorit√°ria, jogando para baixo do tapete o fato de que ela foi levada √† exaust√£o no governo Dilma. A for√ßa do tema se faz presente at√© mesmo em candidaturas avessas a ele, ora em Bolsonaro, que faz profiss√£o de f√© no liberalismo econ√īmico em oposi√ß√£o ao capitalismo de Estado, ora de modo latente em Ciro Gomes, embora se apresente como herdeiro da experi√™ncia do lulismo.

Narrativas s√£o apenas narrativas. Na vida real, fora os candidatos que parecem habitar em hosp√≠cios - pegando carona em divertida cr√īnica de Fernando Gabeira - ou viver nas primeiras d√©cadas do s√©culo 20 no seu culto a experimentos falidos, os demais, principalmente os de of√≠cio na pol√≠tica, n√£o ignoram que tanto o movimento das coisas quanto o dos homens e das mulheres apontam de modo inexor√°vel para o fim da era Vargas, esticada at√© o limite pelo seu pastiche do lulismo. O patriarcalismo - uma das pedras de sustenta√ß√£o do autoritarismo em nossa sociedade, exemplar no S√£o Bernardo de Graciliano Ramos - est√° com seus dias contados, e aqui e alhures o g√™nio de Keynes n√£o serve mais para guiar nossos passos na economia de hoje, como no √≠ntimo um acad√™mico como o candidato Fernando Haddad n√£o pode desconhecer.

Paix√Ķes e interesses √† parte, estaremos no tempo que se abre adiante no terreno √°spero e dif√≠cil das transi√ß√Ķes em que n√£o √© mais noite e o dia ainda n√£o chegou, cabendo √† pol√≠tica bem compreendida acelerar sua festiva apari√ß√£o. Contudo, n√£o poderemos fechar os olhos aos perigos que nos rondam, pondo em xeque a singular cultura que aqui criamos, n√≥s brancos, √≠ndios e negros, tudo erraticamente misturado, sem identidade definida, porque somos, como sustentava o g√™nio de Euclides da Cunha, uma constru√ß√£o voltada para futuro em busca da realiza√ß√£o de ideais civilizat√≥rios. O Brasil n√£o pode ser uma cabe√ßa de ponte na nuestra Am√©rica para o fascismo em qualquer dos disfarces com que se apresente.

Terra à vista (4 ago.)

Estamos chegando depois de tormentosa viagem em mares bravios. Sa√≠dos de um continente velho de ideias cedi√ßas que nos fazia prisioneiros de um passado exausto que n√£o mais nos permitia as ambi√ß√Ķes de conviver numa sociedade justa e igual, somos pioneiros em terra nova. Trazemos conosco os ideais anunciados no manifesto "Por uma sociedade democr√°tica e reformista" e a vontade de propag√°-lo por toda parte. N√£o vai ser nada f√°cil, como atesta a hist√≥ria de todos aqueles que assumiram este papel de desbravar terreno in√≥spito, a come√ßar pelas pr√≥ximas elei√ß√Ķes. A seu favor, contudo, conspiram os novos ventos que t√™m varrido nossa sociedade e que assinalam o fim de um longo ciclo de moderniza√ß√£o autorit√°ria, que se inicia com Vargas, passa por JK, pelo regime militar e por Lula, e des√°gua no desastre que foi o governo de Dilma, que p√īs a nu o anacronismo deste velho modelo que n√£o √© mais capaz de reiterar suas realiza√ß√Ķes no passado.

O melhor indicador desta mutação foi o massivo movimento da juventude nas jornadas de junho de 2013 - embora inconsciente dos efeitos de sua obra -, que se manifestou contra tudo o que está aí, o nosso Estado inclusive, em nome dos ideais de auto-organização e da participação social. Aquelas jornadas ficaram sem herdeiros que lhes dessem continuidade, mas deixaram no ar em disponibilidade seu significado de fundo para quem souber interpretá-las, tarefa que cabe, nesta hora difícil, às forças democráticas e progressistas.

O espírito do tempo mudou, como diagnostica Habermas com a precisão de sempre, tanto nos países que lideram a marcha da história pelos seus sucessos culturais e técnico-científicos quanto nas mais remotas periferias, como ilustra a saga dos garotos tailandeses que se perderam numa caverna cujos heróis são os jogadores de futebol dos grandes clubes europeus. Inexoravelmente, dia após dia, somos arrastados pelos fatos à globalização, que corroem os fundamentos do repertório keynesiano-westfaliano que suportaram o Estado-nação - na expressão da cientista política Nancy Fraser - que predominou no Ocidente até os anos 1970.

No nosso pequeno mundo ainda vicejam em círculos minoritários os ideais autárquicos, nostálgicos do nacional-desenvolvimentismo e de um capitalismo de Estado, que forças políticas, convictas ou não a eles, procuram animar em busca de votos, como se verifica no atual processo eleitoral. Tais círculos que se autodeclaram de esquerda se apresentam como herdeiros do nosso processo de modernização autoritária, que louvam esquecidos de que ele somente foi possível pela repressão exercida sobre os setores subalternos nos centros urbanos, cassando pela lei sua autonomia, e no mundo agrário com a coerção violenta dos movimentos do campesinato e dos seus trabalhadores assalariados. Sobretudo, esquecem que a modernização da economia, na forma por ele realizada, importou no fato de ser o Brasil um dos países mais desiguais do planeta.

O PT, por exemplo, desde a primeira elei√ß√£o de Lula, aderiu, primeiramente de modo fraco e a partir do seu segundo mandato abertamente, √† nossa tradi√ß√£o conservadora - a que o governo Dilma levou ao paroxismo -, embora jamais suas lideran√ßas tenham justificado a metamorfose de um partido que nasce, como o PT, comprometido com a ruptura das tradi√ß√Ķes conservadoras para se mover no sentido de se tornar um dos seus esteios. Intelectuais e artistas, alguns deles campe√Ķes, nos anos 1960, da cr√≠tica ao governo Jango por seu nacional-estatismo, principalmente nas universidades paulistas, agora referendam acriticamente tais posicionamentos, pelo culto esquisito que dedicam a Lula, mesmo que desconhe√ßam suas concep√ß√Ķes sobre o estado de coisas no mundo, salvo a de que ele n√£o √© esquerda, como sempre declara.

O culto a Lula entre os intelectuais e artistas é uma patologia a ser estudada, sintoma que manifesta o algo de podre nesta nossa Dinamarca, em que o governo do PT trouxe para o interior do Estado tudo o que era vivo na sociedade, sindicatos, movimentos sociais, inclusive os identitários, submetendo-os a seus fins políticos. Quanto aos intelectuais, a política de contemplá-los com generosos financiamentos, especialmente algumas personalidades relevantes - vide a política cultural da Petrobrás -, teve um dos seus mais amargos frutos no rebaixamento da sua capacidade crítica e na autodestituição das suas responsabilidades em relação a seu país e seu povo, fermento que nos anos 1950 nos fez conhecer os Círculos Populares de Cultura, o gênio de Vianinha e de Guarnieri, a Bossa Nova e o Cinema Novo, entre tantos criadores e iniciativas de ideias novas que vieram animar a obra civilizatória dos brasileiros. E, mais tarde, sob o regime militar, as obras fundamentais de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Raimundo Faoro e José Murilo de Carvalho, para citar alguns, que desvendaram as raízes ocultas do autoritarismo brasileiro.

A crise que a√≠ est√° √©, a um tempo, de natureza estrutural - a fraqueza da nossa economia -, √©tica, moral e intelectual. N√£o h√° como dar solu√ß√£o a qualquer delas em separado, mas a hora presente indica que se deve come√ßar pela dimens√£o ideal, pelas concep√ß√Ķes do mundo, pela hist√≥ria do Pa√≠s, por que delas √© que se principia, como sustenta reiteradamente Fernando Henrique Cardoso, a busca de novos rumos para o Pa√≠s.

Tal como em Habermas no primeiro ensaio de Diagn√≥sticos do tempo, que deve servir para n√≥s como um sistema de orienta√ß√£o, o Estado social ainda √© o horizonte poss√≠vel do centro e da periferia do mundo, e as tens√Ķes entre mercado e pol√≠tica pr√≥prias a ele podem ser equilibradas pela dimens√£o da solidariedade social, que, no nosso caso, imp√Ķe como come√ßo de conversa a luta sem quartel contra a nossa indecente desigualdade, um dos frutos da moderniza√ß√£o autorit√°ria com que agora devemos romper.

Os intelectuais e a aranha (1¬ļ. jul.)

A natureza bals√Ęmica do processo eleitoral √© um fato que se imp√Ķe √† observa√ß√£o de quem se dedica √† an√°lise da cena moderna brasileira, momento em que "os de cima" calculam as condi√ß√Ķes que levem √† preserva√ß√£o de suas posi√ß√Ķes de dom√≠nio e "os de baixo", as oportunidades para terem acesso a mais direitos sociais e pol√≠ticos. Dado que na nossa sociedade o voto se tornou universal e a democracia pol√≠tica encontrou √Ęncora segura na Carta de 88, elementar que o sucesso eleitoral, diante das profundas desigualdades sociais e das diferen√ßas regionais que nos caracterizam, dependa de uma feliz combina√ß√£o entre as partes que comp√Ķem o tecido social. Pelo voto nenhuma delas ganhar√° tudo.

Se assim √©, a negocia√ß√£o reveste-se de elemento-chave na disputa eleitoral em curso e sob esse registro tende a dissipar o clima de c√≥lera e de intoler√Ęncia com o outro at√© ent√£o dominante. Mais uma vez fica evidente que, entre n√≥s, a forma superior de luta se trava no processo eleitoral - j√° confirmada no regime militar -, e n√£o pelo recurso √† luta armada, conforme lenda urbana ainda circulante em pequenos c√≠rculos da esquerda, usando uma express√£o do repert√≥rio de sarcasmos do ministro Gilmar Mendes.

Dessa forma, embora persista a ação de renitentes que nos prometem uma catástrofe iminente, sem nenhum triunfalismo já se pode proclamar em alto e bom som que a crise que ameaçou a nossa democracia se encontra superada, em mais um momento de consagração da nossa Constituição. Com isso não se quer dizer que se tenha pela frente um horizonte aprazível - absolutamente não -, mas que os conflitos e as disputas que nos são próprios vêm encontrando, mesmo que apenas por ensaio e erro, as vias institucionais dos partidos, sindicatos e da vida associativa em geral, num processo com origem na sociedade civil, não no Estado, como resultou, por exemplo, na criação dos sindicatos na era Vargas e do PTB na agonia do regime autoritário de 1937.

Aos trancos e barrancos, a sociedade brasileira avança meio às cegas em direção ao moderno. Pode-se sustentar até que esse movimento que vem deixando para trás o peso da nossa tradição de décadas de modernização conservadora, nos termos da obra clássica de Barrington Moore, vem operando mais no terreno da societas rerum do que no da ação intencional dos homens.

Com efeito, as muta√ß√Ķes demogr√°ficas, econ√īmicas e sociais vindas dos impulsos modernizantes vindos do v√©rtice pol√≠tico - tanto os de origem em conjunturas democr√°ticas, como nos tempos do governo JK, quanto os conduzidos por regimes autorit√°rios, como no Estado Novo, de 1937, e no recente regime militar - t√™m importado numa segura convers√£o do caos social com que nossa sociedade iniciou sua hist√≥ria para se tornar uma sociedade de composi√ß√£o demogr√°fica racional ao capitalismo, categoria importante no arsenal te√≥rico de um grande autor.

Tal muta√ß√£o est√° na raiz da profunda crise pol√≠tica com que se abriram as jornadas de junho de 2013, movimento massivo da juventude "contra tudo o que est√° a√≠", sinal forte de risco que os acontecimentos futuros vieram a confirmar, com o impeachment e a chamada Opera√ß√£o Lava Jato, significando, ao fundo, o estado de exaust√£o das pr√°ticas e concep√ß√Ķes com que h√° d√©cadas v√≠nhamos sendo governados.

Fixada a observa√ß√£o no movimento das estruturas da societas rerum o cen√°rio √©, pois, o de mudan√ßa que se faz indicar no terreno dos fatos, como ilustra o conjunto de importantes reformas j√° introduzidas na vida econ√īmica, a maioria delas de car√°ter irrevers√≠vel. Contudo, se o olhar se desloca para o plano das ideias e das concep√ß√Ķes do mundo, o curso da mudan√ßa, embora tenha havido nas √ļltimas d√©cadas uma altamente significativa expans√£o do estrato dos intelectuais nas universidades e nas atividades art√≠sticas, definha e apresenta um cen√°rio desalentador de mesmice e de pouca criatividade.

Na economia, numa das sociedades mais desiguais do planeta, tivemos de esperar a not√°vel obra de Thomas Piketty, de edi√ß√£o recente, para que a produ√ß√£o dos especialistas se voltasse para esse tema estrat√©gico. Nas ci√™ncias sociais, desprendemo-nos da excelsa tradi√ß√£o que vinha de um Gilberto Freyre, de Florestan Fernandes, de Fernando Henrique Cardoso, de Raymundo Faoro, Roberto DaMatta, entre tantos nomes que se dedicaram a interpretar o Pa√≠s, para instalar em seu lugar os estudos identit√°rios, que, embora importantes, certamente n√£o t√™m a relev√Ęncia do que foi o mainstream da reflex√£o disciplinar, t√£o necess√°rio nesta hora em que se faz imperativa a busca de novos rumos.

O dilema perturbador de sempre no estudo das sociedades é o que importa mais para a observação, se a aranha ou a teia que ela tece, tal como na célebre metáfora com que Max Weber retrucou a um colega sobre suas diferenças com a teoria social de Karl Marx. A controvérsia sobre o tema provavelmente persistirá até o fim dos tempos, e esses mesmos gigantes do pensamento sempre oscilaram em suas respostas, ora favorecendo o papel do ator, ora dos fatos com que ele se enreda.

A grande transformação que a partir da Revolução de 1930 revolveu os fundamentos da sociedade brasileira, conduzindo-a do estágio agrário em que se encontrava para o urbano-industrial, foi antecedida por um intenso movimento de ideias nas elites intelectuais da época, de que são exemplares a obra de Euclides da Cunha, o tenentismo na juventude militar, a criação do Centro João Vital por intelectuais católicos, a Semana de Arte Moderna, em 1922, e a chegada, nesse mesmo ano, dos trabalhadores à cena política com a fundação do Partido Comunista.

O momento propício que experimentamos agora pode frustrar-se se os intelectuais - a aranha da metáfora de Weber - cederem ao ceticismo que ora grassa entre eles, abandonando de vez o exercício dos papéis de vanguarda com que marcaram a nossa trajetória como nação.

O terremoto de Junho de 2013 foi sufocado e não oxigenou a política brasileira (IHU On-Line, jun. 2018)

O "terremoto" de Junho de 2013 n√£o foi capaz de propiciar mudan√ßas substanciais na sociedade brasileira. "A sociedade ficou igual, o governo e o legislativo n√£o providenciaram mudan√ßas, e tudo isso terminou no impeachment, como uma deriva√ß√£o natural, uma falta de rea√ß√£o a um grande sinal de que algo precisava mudar", avalia o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna na entrevista a seguir, concedida por telefone √† IHU On-Line, ao fazer um balan√ßo das manifesta√ß√Ķes que ocorreram cinco anos atr√°s.

Apesar de as jornadas de 2013 terem expressado o desejo por uma mudan√ßa na pol√≠tica, com o slogan "Voc√™s a√≠ em cima n√£o nos representam. Queremos uma outra pol√≠tica", a mensagem n√£o foi compreendida √† direita e √† esquerda; ao contr√°rio, as manifesta√ß√Ķes assustaram os governantes, que sufocaram as possibilidades de oxigena√ß√£o da pol√≠tica. Essa rea√ß√£o, adverte, "levou a um distanciamento ainda maior entre partidos e a sociedade, e a uma indiferen√ßa, sobretudo da juventude, em rela√ß√£o √† pol√≠tica", porque "n√£o se aproveitou aquele movimento que vinha de baixo, com tanta intensidade, para renovar o sistema pol√≠tico, para oxigen√°-lo. Abafou-se a for√ßa daquele movimento e o resultado disso foi o enfraquecimento da pol√≠tica, dos partidos e do fen√īmeno pol√≠tico enquanto tal", resume.

A principal consequ√™ncia de Junho de 2013, na avalia√ß√£o do soci√≥logo, foi uma mudan√ßa de rota pol√≠tica, com o fim do governo Dilma e a introdu√ß√£o de uma nova l√≥gica na condu√ß√£o da pol√≠tica econ√īmica, "uma pol√≠tica econ√īmica para a qual n√£o est√°vamos preparados". "Isso significa uma ruptura, um afastamento e uma dist√Ęncia muito grande com a pol√≠tica centrada no Estado, com a qual vivemos desde 1930. N√≥s estamos vivendo agora uma nova configura√ß√£o do Estado-Sociedade sem que a sociedade tenha pensado nisso, esteja querendo isso. Ali√°s, h√° candidatos que preconizam a volta do
status quo anterior, quer dizer, a volta à experiência do governo de Dilma Rousseff, que foi uma experiência desastrosa para o país, com desemprego e inflação altíssimos", menciona.

Cinco anos ap√≥s as manifesta√ß√Ķes, Werneck pontua que o pa√≠s vive "um momento de possibilidade efetiva de os sindicatos lutarem por mais igualdade entre capital e trabalho e por mais igualdade na vida social. Essa √© a mudan√ßa mais importante que temos √† nossa frente para realizar. Ela depende de os setores subalternos come√ßarem a se auto-organizar e a lutar por seus direitos no sentido de diminuir o padr√£o de desigualdade da sociedade brasileira. Isso leva ao conflito, leva √† luta. √Č para essa luta que temos que nos preparar. O Estado n√£o vai trabalhar - e nem tem como - para que a igualdade social ou pol√≠ticas de igualdade social se estabele√ßam. Isso tem que ser feito pelos pr√≥prios interessados: os trabalhadores. √Č essa pequena reflex√£o que temos que fazer quando pensamos nas possibilidades que est√£o abertas para a democracia brasileira", conclui.

Que balanço faz de Junho de 2013, cinco anos depois?

As sociedades democráticas, quando conhecem pequenos abalos, têm mecanismos de sintonia com eles e mudam, procuram identificar a fonte desses abalos e mudam. Quando uma sociedade não é tão democrática assim, nem um terremoto como aquele foi capaz de propiciar mudanças: a sociedade ficou igual, o governo e o legislativo não providenciaram mudanças e tudo isso terminou no impeachment, como uma derivação natural, uma falta de reação a um grande sinal de que algo precisava mudar. E como esse sinal grande não foi registrado, metabolizado e assimilado, entramos numa descendente que terminou no impeachment, que é sempre um processo doloroso, que deixa marcas, as quais estamos experimentando agora.

Nada mudou desde Junho de 2013 para cá, ou houve mudanças em decorrência do impeachment?

As jornadas de Junho foram uma sinaliza√ß√£o forte, mas nada se fez para mudar o curso dos acontecimentos que estavam sendo desenhados nessas mesmas jornadas de 2013. As manifesta√ß√Ķes levaram a uma mudan√ßa, mas n√£o a uma mudan√ßa controlada, e sim a uma mudan√ßa que acabou sendo procedida pelas institui√ß√Ķes democr√°ticas para o impeachment, que faz parte da nossa Constitui√ß√£o.

O impeachment introduziu outra l√≥gica: n√≥s nos desprendemos da pol√≠tica anterior, que deu sinal de exaust√£o, e foi isso que 2013 quis dizer - "n√£o nos representam". Junho de 2013 deu as costas ao sistema e aos partidos pol√≠ticos, deu as costas √† pol√≠tica econ√īmica que o governo Dilma praticava, e abriu-se a possibilidade de outra pol√≠tica econ√īmica, uma pol√≠tica econ√īmica para a qual n√£o est√°vamos preparados. Isso significa uma ruptura, um afastamento e uma dist√Ęncia muito grande com a pol√≠tica centrada no Estado, com a qual vivemos desde 1930. N√≥s estamos vivendo agora uma nova configura√ß√£o do Estado-Sociedade sem que a sociedade tenha pensado nisso, esteja querendo isso. Ali√°s, h√° candidatos que preconizam a volta do status quo anterior, quer dizer, a volta √† experi√™ncia do governo de Dilma Rousseff, que foi uma experi√™ncia desastrosa para o pa√≠s, com desemprego e infla√ß√£o alt√≠ssimos.

Além dessas mudanças políticas que menciona, Junho gerou consequências sociais ao longo desses cinco anos?

√Č dif√≠cil de qualificar. Mas Junho de 2013 levou a um distanciamento ainda maior entre partidos e a sociedade, e a uma indiferen√ßa, sobretudo da juventude, em rela√ß√£o √† pol√≠tica. N√£o se aproveitou aquele movimento que vinha de baixo, com tanta intensidade, para renovar o sistema pol√≠tico, para oxigen√°-lo. Abafou-se a for√ßa daquele movimento e o resultado disso foi o enfraquecimento da pol√≠tica, dos partidos e do fen√īmeno pol√≠tico enquanto tal.

Como avalia a greve dos caminhoneiros que aconteceu no final do mês passado?

√Č um acontecimento que deve ser levado ao passivo desse desmonte dos partidos, dos sindicatos - os sindicatos n√£o estiveram presentes com tanta for√ßa nessa movimenta√ß√£o dos caminhoneiros. Por toda parte assistimos a um processo de desinstitucionaliza√ß√£o, e isso enfraquece a democracia e a vida pol√≠tica, torna a vida social imprevis√≠vel, sujeita a chuvas e trovoadas, flutuando de l√° para c√° sem nenhum sistema de orienta√ß√£o vis√≠vel. Qual √© o regimento dessa greve dos caminheiros para a democracia brasileira? Zero, negativo. Para os sindicatos? Zero, negativo.

Mas por que ela recebeu apoio de grande parte da população?

Porque tudo o que seja contra a política e contra esse governo está com apoio da população. A mídia tem tido um papel muito negativo em todos esses processos: perde a complexidade dele, trabalha de modo positivo-negativo, parte do suposto de que está tudo errado; tudo errado não está. Muitas das medidas que foram assumidas pelo governo que sucedeu ao de Dilma são ajuizadas e estão sendo bem-sucedidas.

Quais, por exemplo?

A pol√≠tica econ√īmica, por exemplo. Existem medidas de natureza democr√°tica, como a reforma da Previd√™ncia, ante as desigualdades brasileiras que se perpetuam. Qual √© a previd√™ncia de um magistrado e qual √© a previd√™ncia de um oper√°rio? √Č uma diferen√ßa abissal. O sistema previdenci√°rio mant√©m as desigualdades sociais. O nosso inimigo real agora, ali√°s, h√° muito tempo, s√£o as desigualdades sociais, elas √© que impedem um bom andamento da democracia brasileira. E os setores altos da popula√ß√£o, que dominam as r√©deas do Estado, t√™m sido capazes de defender, com suas fort√≠ssimas corpora√ß√Ķes, todos os seus interesses, enquanto o sindicalismo dos setores subalternos perdeu for√ßa. Inclusive porque, quando dos governos do PT, eles foram trazidos para dentro do Estado, controlados pelo Estado, e perderam autonomia.

Tenho a impress√£o de que agora estamos iniciando um caminho de volta, de autonomia da vida sindical, que √© fundamental para lutar contra as desigualdades sociais. Sindicatos livres, aut√īnomos, fortes e aguerridos que sejam capazes de for√ßar, como j√° ocorreu nas grandes democracias, um processo de iguala√ß√£o social mais efetivo. A social-democracia nasceu assim na Europa.

Os anos 30 nos trouxeram a legisla√ß√£o social e com ela direitos sociais do mundo do trabalho, mas n√£o para todos. O mundo do campo ficou fora. Isso foi feito com uma condi√ß√£o que veio a ter uma import√Ęncia fundamental: a de que os sindicatos que ganharam direitos fossem mantidos sob uma tutela estatal que n√£o concedeu autonomia aos sindicatos e, consequentemente, livre movimenta√ß√£o para lutar por melhores sal√°rios. A pol√≠tica salarial de l√° at√© recentemente, passando pelo regime militar, pelo governo Juscelino Kubitschek e por per√≠odos democr√°ticos, foi a de restri√ß√£o de movimenta√ß√£o dos trabalhadores, inclusive, em certos momentos, negando at√© o direito de greve. Isso fez com que os direitos fossem concedidos e mantidos a um m√≠nimo sem que a luta sindical pudesse ampli√°-los.

N√≥s vivemos um momento de possibilidade efetiva de os sindicatos lutarem por mais igualdade entre capital e trabalho e por mais igualdade na vida social. Essa √© a mudan√ßa mais importante que temos √† nossa frente para realizar. Ela depende, a meu ver, de os setores subalternos come√ßarem a se auto-organizar e a lutar por seus direitos no sentido de diminuir o padr√£o de desigualdade da sociedade brasileira. Isso leva ao conflito, leva √† luta. √Č para essa luta que temos que nos preparar. O Estado n√£o vai trabalhar - e nem tem como - para que a igualdade social ou pol√≠ticas de igualdade social se estabele√ßam. Isso tem que ser feito pelos pr√≥prios interessados: os trabalhadores. √Č essa pequena reflex√£o que temos que fazer quando pensamos nas possibilidades que est√£o abertas para a democracia brasileira.

Mas o enfrentamento das desigualdades depende dos sindicatos nos dias de hoje? Na atual configuração do mundo do trabalho, os trabalhadores ainda têm interesse em sindicatos?

O sindicalismo est√° fraco e ele se enfraqueceu por essa pol√≠tica que veio dos anos 30, mas essa pol√≠tica tem que ser interrompida. A meu ver, o que a esquerda tem que fazer √© dar todo o poder aos sindicatos, para ficar numa f√≥rmula f√°cil. √Č preciso refor√ßar a vida sindical e a vida associativa em geral, e isso foi anunciado de maneira meio torta pelo movimento de Junho de 2013, s√≥ que n√£o encontrou respostas e terminamos com a pol√≠tica da presidente Dilma, que acabou sendo interrompida porque levou a um desastre pol√≠tico, econ√īmico e social.

Por que neste ano de elei√ß√Ķes n√£o est√£o surgindo grandes manifesta√ß√Ķes como aquelas de Junho de 2013?

N√£o est√£o, o que n√£o quer dizer que n√£o haja possibilidade para que a nossa crise seja melhorada, para que encontremos alternativas para ela. Estamos procurando, meio em cima da hora, sa√≠das que n√£o sejam nem uma volta √† pol√≠tica anacr√īnica anterior nem a interrup√ß√£o da vida pol√≠tica e social brasileira pela direita. O sinal positivo que ainda n√£o deu seus frutos foi o manifesto¬†"Por um polo democr√°tico e reformista", lan√ßado pelo senador Cristovam Buarque e pelo deputado federal de Minas Gerais, Marcus Pestana. Ainda tem tempo de isso fertilizar o solo √°rido em que nos encontramos.

Como, na sua avaliação, partidos, movimentos e políticos à direita e à esquerda compreenderam e tentaram oferecer respostas à insatisfação política que emergiu em Junho de 2013?

A direita reagiu de forma absolutamente negativa, invocava repress√£o e tudo mais. A esquerda institucionalizada - o PT - viveu 2013, reagiu contra 2013, se sentiu amea√ßada por 2013. A esquerda n√£o entendeu que era necess√°rio instituir mudan√ßas que abrissem o sistema pol√≠tico para os de baixo. Eles estavam dizendo claramente: "Voc√™s a√≠ em cima n√£o nos representam; queremos uma outra pol√≠tica". Eles n√£o disseram: "N√£o queremos pol√≠tica". Os jovens de 2013 disseram: "Queremos outra pol√≠tica, uma pol√≠tica que nas√ßa de baixo, que admita mais participa√ß√£o na elabora√ß√£o das pol√≠ticas p√ļblicas". Para mim foi isso que 2013 quis dizer.

Eu era estudante, ainda secundarista, quando uma greve contra o aumento da passagem dos bondes afetou a capital federal, a sede do governo da Rep√ļblica. O que Juscelino [Kubitschek] fez? Chamou a lideran√ßa do movimento estudantil: o presidente da Uni√£o Nacional dos Estudantes (UNE) foi chamado ao Pal√°cio, foi negociado com ele e o movimento acabou.

Com a tempestade que ocorreu em 2013, n√£o se mexeu um dedo para se procurar uma alternativa; √© diferente. O PT se achava o senhor, o titular dos movimentos sociais, foi amea√ßado por esse movimento espont√Ęneo da juventude e n√£o soube responder. Procure a presen√ßa do PT em 2013. N√£o encontraremos. √Č isto: ele n√£o se aproveitou de um movimento de regenera√ß√£o e de democratiza√ß√£o da vida social, se fechou em copas e continuou a ser exatamente o que era. E era exatamente isso que a sociedade estava dizendo: mude, e ele n√£o mudou. Na esteira disso, o que tivemos? Um segundo governo Dilma, que foi ruim, e o impeachment.

Agora é hora de um novo começo, mas esse novo começo tem que começar pela reflexão. Nesse sentido, o tema da entrevista é muito relevante porque nos faz refletir, e não há saída para nós sem a reflexão.

O centro político, a democracia e as reformas (27 maio)

Como sistema de orienta√ß√£o, meus artigos v√™m observando a crise que nos assola a partir da nossa experi√™ncia na mat√©ria, que ensina a reparar inicialmente a fim de medir seu potencial disruptivo, as ruas e os quart√©is como os lugares mais sens√≠veis para o registro de sua gravidade. Salvo momentos epis√≥dicos de pico, as ruas est√£o vazias e os quart√©is, silenciosos, fazendo profiss√£o de f√© √† ordem constitucional. De forma in√©dita em nossa Hist√≥ria, √© da fam√≠lia do campo do Poder Judici√°rio em associa√ß√£o tamb√©m in√©dita com a imprensa - combina√ß√£o sempre explosiva aqui e alhures - que, faz tempo, prov√™m as tentativas de desestabilizar a ordem reinante, levando o presidente da Rep√ļblica √†s barras dos tribunais mesmo a poucos meses das elei√ß√Ķes gerais, como j√° √© o caso.

Duas das corpora√ß√Ķes mais influentes na conjuntura presente - a militar e a jur√≠dica -, como seria natural, falam de perspectivas distintas, a do poder a primeira, e a segunda, do princ√≠pio republicano da moralidade e dos seus valores diante da degrada√ß√£o p√ļblica que, nos √ļltimos anos, sofreram nossas institui√ß√Ķes pol√≠ticas, hoje justamente repudiadas pela cidadania. O momento eleitoral pode constituir, se levado a s√©rio, uma oportunidade de ouro para o saneamento, pelo voto, dos partidos e da pr√≥pria atividade pol√≠tica.

Ambas são animadas por lógicas distintas, mas que podem e devem exercer papéis complementares, tanto para garantir que a competição eleitoral obedeça às vias democráticas quanto para interditar o acesso a candidaturas que, na forma da lei, estejam proscritas.

Se este pa√≠s se tornou, a partir dos anos 1930, um caso cl√°ssico de moderniza√ß√£o por cima, conduzindo pela m√£o do Estado a industrializa√ß√£o, valendo-se de todos os meios para a realiza√ß√£o dos seus objetivos, borrando desde a√≠ os limites que devem separar as esferas p√ļblicas das privadas, tal modelo se esgotou sob o governo Dilma, que pretendia radicaliz√°-lo, contra todos os sinais que apontavam para sua exaust√£o.

Nesse sentido, o processo eleitoral que j√° vivemos pode ser considerado como um momento quase constituinte, na medida em que deve impor pelo voto uma radical mudan√ßa nas rela√ß√Ķes entre o Estado e a sociedade civil. O movimento de junho de 2013 da juventude anunciou com tintas fortes a profundidade da crise dessa rela√ß√£o, enquanto a devassa nos neg√≥cios entre agentes p√ļblicos e empresas privadas procedida pela chamada Opera√ß√£o Lava Jato fez o resto, jogando ao ch√£o o que ainda restava dela. Decerto que o momento de uma campanha eleitoral n√£o seria o mais oportuno, pelas paix√Ķes que ela suscita, mas, por ora, s√≥ contamos com ele.

A sele√ß√£o das candidaturas e suas alian√ßas devem, portanto, considerar a excepcionalidade deste processo eleitoral. No caso, n√£o se pode deixar de considerar, nesta hora de falta de rumos confi√°veis para o nosso futuro, em meio √†s ru√≠nas em que sobrevivemos, o manifesto Por um polo democr√°tico e reformista, lan√ßado a p√ļblico por iniciativa de dois parlamentares, o deputado Marcus Pestana e o senador Cristovam Buarque, j√° subscrito por Fernando Henrique Cardoso, uma extraordin√°ria personagem das que nos sobraram de tempos menos sombrios do que os que agora vivemos, que parece ter sa√≠do das p√°ginas dos textos pol√≠ticos de um Max Weber, pela coragem s√≥bria, sempre fiel √†s suas convic√ß√Ķes de fundo, defendidas com responsabilidade, que nos afian√ßa os caminhos preconizados nesse bem-vindo manifesto, a rigor, um programa de a√ß√£o de um novo governo.

Nesse manifesto-programa se conclamam "todas as for√ßas democr√°ticas e reformistas em torno de um projeto nacional que, a um s√≥ tempo, d√™ conta de inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento social e econ√īmico, a partir dos avan√ßos alcan√ßados nos √ļltimos anos, e afaste um horizonte nebuloso de confronta√ß√£o entre populismos radicais, autorit√°rios e anacr√īnicos". O texto continua para afirmar que para o sucesso dessa iniciativa se devem agregar, de forma plural, liberais, democratas, social-democratas, democratas crist√£os, socialistas democr√°ticos, numa frente que se empenhe, nesta hora decisiva para a constru√ß√£o do futuro, na realiza√ß√£o de um programa de desenvolvimento com mudan√ßa social que abra as portas para o moderno no Brasil, pondo fim aos processos de moderniza√ß√£o autorit√°ria que levaram o Pa√≠s a um lugar sem sa√≠da.

O tempo √© curto para que essa iniciativa possa encontrar seu ponto de matura√ß√£o. √Č preciso invocar a sabedoria dos nossos maiores, que no passado, do Imp√©rio √† Rep√ļblica, como no caso recente da transi√ß√£o do regime militar para o democr√°tico, sempre pela via da negocia√ß√£o souberam encontrar solu√ß√Ķes para os nossos impasses pol√≠ticos e institucionais. Seus advers√°rios s√£o conhecidos e ambos desejam vias de ruptura: √† direita, os que desejam uma sa√≠da neoliberal cl√°ssica - desejo mal escondido de poderosa rede de comunica√ß√£o; √† esquerda, os que visam a uma retomada das vias bolivarianas.

O papel do centro pol√≠tico como estrat√©gico na nossa forma√ß√£o n√£o pode ser ignorado, e para s√≥ falar do per√≠odo republicano, a exemplo de Vargas, que em 1945 fundou o PSD com lideran√ßas tradicionais a fim de respaldar sua obra social reformadora, reeditado em grande estilo por Ulysses Guimar√£es e Tancredo Neves para abrir caminho √† democratiza√ß√£o. O manifesto, que ora circula em busca de ades√Ķes, segue as pegadas de momentos criativos e fecundos da pol√≠tica brasileira, que nos seus estonteantes ziguezagues nunca perdeu de vista seus compromissos com a obra da civiliza√ß√£o singular que fazemos aqui.

Como palavras finais, deve-se mencionar que tal movimento, ao menos in pectore, admita que sua vitória trará consigo um momento de concórdia, reeditando a época do movimento da anistia, que envolva a sociedade, o Congresso e, principalmente, o sistema de Justiça, que pacifique de verdade esta praça de guerra que desgraçadamente nos tornamos.

O moderno e o novo esp√≠rito do tempo (1¬ļ. abr. 2018)

Ao mestre Paulo Niemeyer, a quem se deve este artigo

Mudan√ßas de √©poca podem ser vividas como processos dolorosos, quando a sociedade tarda a trazer ao plano da consci√™ncia as novas circunst√Ęncias que silenciosamente, com o imp√©rio da for√ßa dos fatos, passaram a reger o seu mundo da vida. Especialmente quando elas afetam experi√™ncias outrora bem-sucedidas, consagradas pela tradi√ß√£o, como no ciclo da moderniza√ß√£o que vai de Vargas a Lula, passando pelo governo de JK e pelo regime militar.

Interpreta√ß√Ķes equ√≠vocas dos processos em curso conduziram a que o governo Dilma Rousseff, em vez de procurar alternativas √† crise que se agravava no seu mandato presidencial - salvo no brev√≠ssimo recurso ao ministro Joaquim Levy, que seguia outra cartilha econ√īmica -, levasse √† radicaliza√ß√£o do seu modelo de origem, com o que o exauriu.

O impeachment levou com ele, n√£o importa sua motiva√ß√£o jur√≠dico-pol√≠tica, a tradi√ß√£o da moderniza√ß√£o por cima, pela m√£o do Estado. E tal processo de profundas repercuss√Ķes no imagin√°rio social brasileiro, levado a efeito sem a un√ß√£o da vontade popular, embora contasse com apoio congressual, estressou a pol√≠tica brasileira de modo tal que alguns mais afoitos chegaram a cogitar de que estar√≠amos na imin√™ncia de uma guerra civil com os "ex√©rcitos do MST e dos sem-teto" (MTST).

O abandono do paradigma terceiro-mundista, segunda pele da nossa cultura política, pelo novo governo, de inclinação claramente liberal, desequilibrou os antagonismos a que estávamos afeitos, como sustentava Gilberto Freyre, no sentido da sua radicalização.

Contudo, sem as ruas e os quart√©is, os amigos do fim do mundo ficaram devendo √†s suas rumina√ß√Ķes. A rigor, por fora do alcance de nossas percep√ß√Ķes, algo de muito profundo j√° havia mudado. A Carta de 88 tinha se tornado o mapa de navega√ß√£o da maioria da sociedade organizada, em especial do Judici√°rio e da corpora√ß√£o militar - que, aferrada a ela, se manteve serena como guardi√£ da ordem em meio √† balb√ļrdia -, garantindo a fixa√ß√£o do calend√°rio eleitoral. Com isso trouxe √† luz uma multid√£o de candidatos a presidente, aguando as perspectivas de conflitos generalizados, deixando para tr√°s os tempos de c√≥lera desatados pelo impeachment.

As festas carnavalescas, comemoradas como se não houvesse amanhã, principalmente entre os jovens, testemunharam a virada no espírito do tempo.

Sente-se que o esp√≠rito do tempo mudou, os sinais est√£o por toda parte, mas exigem reflex√£o, a fim de que um novo rumo seja perseguido. A moderniza√ß√£o sem o moderno, a acelera√ß√£o por cima, pelo Estado, como realizamos em curto espa√ßo de tempo, a mobiliza√ß√£o em escala chinesa da popula√ß√£o, uma urbaniza√ß√£o sem industrializa√ß√£o, que deixa em seu rastro um enorme contingente de uma popula√ß√£o marginalizada, e a expans√£o da riqueza com o aprofundamento abissal da desigualdade, esse foi o legado negativo que ela nos deixou. As marcas da desigualdade s√£o perpetuadas pelo monop√≥lio da propriedade da terra, que resistiu √†s tentativas de democratiza√ß√£o do mundo agr√°rio, inclusive das suas rela√ß√Ķes de trabalho, que n√£o incorporaram os trabalhadores do campo √† legisla√ß√£o social, garantida apenas aos urbanos, denegando-lhes o caminho da auto-organiza√ß√£o na luta por direitos, submetidos por d√©cadas ao discricionarismo da vontade dos propriet√°rios.

A escola de vida dos subalternos, à medida que a modernização avançava, recortava sua inscrição no mundo entre os pertencentes ao moderno ou ao atraso, embora convivessem nos mesmos cortiços, favelas e outras formas de habitação precárias, desenvolvendo diferentes estratégias de sobrevivência, e, com o tempo, formas culturais próprias, algumas de grande valor, exemplar na obra de um Cartola. O estatuto de apartheid que vigia na prática consolidou estilos de vida, alguns importando numa marginalidade de grande altivez. Quando o jogo do bicho irrompe nesse mundo, ele encontrará seus funcionários e soldadesca aptos ao controle e ao exercício de segmentos da vida popular, influente até na política.

Do jogo do bicho √†s drogas foi um pulo - os bar√Ķes do jogo recusaram-se a participar do tr√°fico e permaneceram nos seus neg√≥cios tradicionais, organizando-se em cart√©is. O tr√°fico encontrava dispon√≠vel um mercado de alto valor nas elites, que se tornaram sua clientela de consumidores. O crime tinha sido descoberto como neg√≥cio por setores sociais subalternos, uma alternativa rent√°vel para jovens que viviam em situa√ß√£o de exclus√£o social, uma oportunidade de vida √† margem do mercado, que s√≥ os credenciava para atividades, a seu ver, humilhantes.

Esse mundo particular, sujeito a um c√≥digo de viol√™ncia administrado pelos chef√Ķes do tr√°fico e das mil√≠cias, em velada associa√ß√£o com a banda podre da pol√≠cia, participava da vida citadina apenas nas suas margens. Para ele, a cidade era um bem escasso, na conhecida caracteriza√ß√£o da soci√≥loga Maria Alice Rezende de Carvalho, exposto √† domina√ß√£o violenta e √† precariedade no acesso a bens de cidadania.

O Brasil, de fato, n√£o √© para principiantes, pois √© desse mundo de car√™ncias que irrompem do sil√™ncio das ruas, com a velocidade de um raio, tal como em junho de 2013 - como tantos registraram -, manifesta√ß√Ķes massivas de car√°ter nacional em protesto contra o b√°rbaro assassinato de uma vereadora, Marielle Franco, lideran√ßa comunit√°ria da favela da Mar√©. As ruas, criticadas pela aus√™ncia, v√£o-se fazer ent√£o presentes por seus pr√≥prios motivos e sua rede de representantes, at√© ent√£o invis√≠veis.

O novo esp√≠rito do tempo deixava cravada a sua marca√ß√£o de luta por direitos, tendo como ponto de partida os de baixo e sua vida associativa, permitindo entrever em meio √†quelas poderosas manifesta√ß√Ķes os nov√≠ssimos eixos de solidariedade social, como os nascidos da comunica√ß√£o entre vida popular e universidade, que em boa hora t√™m sido estabelecidos entre n√≥s. Agora cabe a reflex√£o levar √† frente essas descobertas.

A vitória da Constituição (4 mar.)

Para quem queria a ocupa√ß√£o das ruas pelo povo, o cen√°rio deste carnaval que passou, com as multid√Ķes que mobilizou nos blocos e nas escolas de samba, principalmente na capital paulista, ainda sem tradi√ß√£o nesse tipo de manifesta√ß√£o carnavalesca, surpreendeu os mais c√©ticos, que n√£o esperavam a volta da alegria na vida popular. Embora sem perder a conota√ß√£o de cr√≠tica social, o momento cat√°rtico foi o dominante entre a nova gera√ß√£o, que ainda n√£o conhecia a experi√™ncia carnavalesca, em particular entre as jovens que acorreram em massa aos blocos, num movimento indisfar√ß√°vel de afirma√ß√£o de g√™nero.

Com esse registro, a que se deve acrescentar o do desfile das escolas de samba, a pol√≠tica conta com mais uma mat√©ria para a reflex√£o nesta hora de sele√ß√£o das candidaturas presidenciais, ainda sem defini√ß√£o. Relativizando o caso de alguns desfiles que optaram por uma cr√≠tica pol√≠tica contundente ao governo, uma vez n√£o se pode evitar o coment√°rio do jornalista Ancelmo Gois, ao lembrar que no Brasil "prostituta se apaixona, cafet√£o tem ci√ļme, traficante se vicia e uma escola comandada por um bicheiro, a querida Beija-Flor, vence o carnaval que fala de corrup√ß√£o" (O Globo, 15/2).

Essa hora de escolha que j√° tarda, n√£o s√≥ pelas dificuldades naturais ao momento que se vive, mas tamb√©m porque a cultura do golpismo, essa segunda pele da nossa pol√≠tica, j√° encontrou uma nova modalidade de conspirar contra o processo eleitoral, a partir de uma declara√ß√£o de um delegado de pol√≠cia sobre um inqu√©rito de presumidas a√ß√Ķes praticadas pelo presidente da Rep√ļblica. O mais triste desse epis√≥dio est√° no fato de envolver um alto membro do Poder Judici√°rio, de quem sempre se esperam atos e palavras de conc√≥rdia, e esteja ele puxando a corda em favor do prolongamento da nossa agonia.

A sa√≠da do labirinto em que nos perdemos j√° foi encontrada na obedi√™ncia ao calend√°rio eleitoral, e n√£o √† toa ele j√° virou alvo dos que desejam mover para tr√°s a roda da Hist√≥ria, em mais uma tentativa de destitui√ß√£o por um processo judicial do chefe do Executivo, como est√° em curso, uma vez que n√£o contam nem com as ruas nem com os quart√©is. Nos seus c√°lculos mal√©volos maquinam que com o governo ac√©falo caberia ao Poder Judici√°rio o exerc√≠cio de um governo de transi√ß√£o que dirigiria, amparado pela Pol√≠cia Federal, o processo eleitoral. Tal solu√ß√£o, ou algo pr√≥ximo a ela, talvez seja o que nos falta para nos converter num imenso manic√īmio em que todos os internos se apresentem como candidatos √† Presid√™ncia da Rep√ļblica.

Mas o mundo gira e a Lusitana roda, imprevistamente o cen√°rio e o enredo se transfiguram com um movimento de pe√ßas desse jogo de xadrez ainda distante de encontrar um vencedor. Nessa nova disposi√ß√£o, provocada pela interven√ß√£o federal no Estado do Rio de Janeiro, o centro de gravidade da crise se desloca do tema da corrup√ß√£o pol√≠tica para o da viol√™ncia e da criminalidade organizada, cujo poder j√° amea√ßava nacionalizar-se e se projetar no campo da pol√≠tica. Mudando o repert√≥rio, o peso dos atores envolvidos igualmente muda, com a deprecia√ß√£o do papel do Poder Judici√°rio, at√© ent√£o o principal protagonista da conjuntura, que cede lugar ao Poder Executivo, que trouxe a iniciativa para si e para a corpora√ß√£o militar, numa arriscada opera√ß√£o que se esfor√ßou por se manter, malgrado alguns sen√Ķes, nos trilhos constitucionais, a essa altura chancelada por esmagadora maioria nas duas Casas legislativas.

Um dos efeitos colaterais dessa intervenção foi o de revelar o tema da segurança como central para partidos e candidatos na formulação dos seus programas. Ao contrário da blague famosa, parece que aqui, pelos sucessos recentes, o tema da economia valerá na hora do voto menos do que se previa.

Confirma-se, mais uma vez, o desamor da política brasileira pela linha reta. Aos sobressaltos, dia após dia, avança-se para o momento eleitoral, quando o destino das urnas será selado pelo êxito ou fracasso da intervenção federal na política de segurança.

Os dados est√£o lan√ßados. E ainda sujeitos √† manipula√ß√£o humana, que pode ser decisiva para a boa sorte da iniciativa de alto risco do Executivo. Muitos n√£o a querem por c√°lculo eleitoral, ou pelo temor de que as For√ßas Armadas, pe√ßa central na interven√ß√£o sobre os aparatos de seguran√ßa, venha atropelar a ordem constitucional em nome de uma pol√≠tica de salva√ß√£o nacional, pondo-se no lugar dos ju√≠zes que tinham como alvo o mesmo prop√≥sito. Neste tempo em que reina a suspic√°cia, conta contra a hip√≥tese mal√©vola o fato forte de que a corpora√ß√£o militar se tem comportado sob estritos padr√Ķes constitucionais e das normas que regulam seus princ√≠pios hier√°rquicos.

A competi√ß√£o eleitoral, tenha o resultado que tiver, importa mais por provocar a agrega√ß√£o de vontades e de programas do que pela candidatura vitoriosa, que, seja qual for, estar√° pautada pela agenda das quest√Ķes discutidas exaustivamente ao longo destes tr√™s √ļltimos anos. Ser√° uma oportunidade, que n√£o pode ser perdida, para uma recomposi√ß√£o partid√°ria que nos emancipe do dom√≠nio das corpora√ß√Ķes que √†s nossas costas pretendem guiar nosso destino. Desde as magistrais li√ß√Ķes de Pierre Bourdieu sobre o Estado se sabe que o segredo da for√ßa das corpora√ß√Ķes est√° em revestir os interesses particulares dos seus membros em pleitos p√ļblicos de car√°ter geral. No nosso caso, liberar a pol√≠tica transita pela limita√ß√£o do poder das corpora√ß√Ķes, que com frequ√™ncia imp√Ķe a todos a sua agenda de interesses particulares, em detrimento dos da maioria.

Mas, apesar de tanta confus√£o, neste pa√≠s onde todos querem ser califa no lugar do califa, h√° algo a ser comemorado, qual seja, o fato de que todos os envolvidos nesse charivari nacional jurem estar agindo em nome da Constitui√ß√£o. E, de fato, se as apar√™ncias ainda contam, a sorte parece que vai sorrir para quem persuadir o maior n√ļmero de eleitores de ser aquele que melhor representa o esp√≠rito do texto constitucional, que favorece a igualdade.

O Brasil não é isso aí (4 fev.)

O que nos está faltando para adotarmos, ao som de fanfarras cívicas, a pena de morte como remédio heroico para o combate contra a corrupção e os demais males que nos afligem? Já contamos com a condução sob ferros dos nossos prisioneiros, assim expostos publicamente nesse arremedo do pelourinho dos tempos da escravidão, resta dar o passo seguinte, a que parece faltar apenas a iniciativa de um dos nossos justiceiros.

Por onde paira o esp√≠rito de um Sobral Pinto, que na defesa do l√≠der comunista Lu√≠s Carlos Prestes, encarcerado em condi√ß√Ķes cru√©is pelo regime fascista do Estado Novo, de 1937, invocou em defesa do seu cliente a lei protetora dos animais, embora discordasse de tudo o que ele ent√£o professava. Sobral Pinto n√£o pode ser reduzido a um retrato na parede, pois sua advocacia deixou o legado da intransig√™ncia na luta pelos direitos humanos, que n√£o pode ser abandonado. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), at√© ent√£o em sil√™ncio, fora personagens isolados, com o tratamento cruel dado a S√©rgio Cabral, n√£o se vai pronunciar institucionalmente a respeito da viola√ß√£o da dignidade humana de que ele foi v√≠tima?

Verdade que do Judici√°rio j√° se levantaram algumas vozes de protesto, como a do ex-ministro Ayres Britto, mas, como se diz, uma andorinha n√£o faz ver√£o, e √© a corpora√ß√£o que tem de falar. O Brasil n√£o √© isso que est√° a√≠. Nascemos sob o compromisso de fidelidade aos ideais da civiliza√ß√£o, nas palavras de Euclides da Cunha, e mal ou bem somos hoje parte relevante do Ocidente pol√≠tico. Passar a limpo a nossa Hist√≥ria, como pontificam os pretensos salvadores da p√°tria que est√£o a√≠, n√£o pode ter como ponto de partida a recusa acr√≠tica √† obra das gera√ß√Ķes que nos antecederam, mas a miss√£o de interpret√°-la a fim de imprimir continuidade a seus resultados felizes e expurgar o que de negativo ainda persiste, como a desigualdade social reinante entre grupos e classes sociais, obst√°culo maior ao adensamento entre n√≥s da coes√£o social.

Na cultura política que forjamos ao longo do tempo contamos com a herança inspiradora do humanismo de um José Bonifácio, sempre reverenciado como um dos fundadores do nosso Estado-nação, artefato político cuja unidade soube ser conservada em meio às turbulências naturais a uma sociedade ainda em construção, obra singular no cenário balcanizado sul-americano, processo bem estudado por José Murilo de Carvalho em obra clássica.

Se a nossa cultura material foi constru√≠da ao sabor das circunst√Ęncias, sempre em resposta do agente colonizador √†s oportunidades abertas pelo emergente capitalismo na economia-mundo, para usar categorias caras a Immanuel Wallerstein, no plano dos valores, ao contr√°rio, pode-se falar na exist√™ncia de uma linha de continuidade desde o processo da independ√™ncia at√© os dias de hoje, de vig√™ncia da Carta de 88. Florestan Fernandes, em p√°ginas vigorosas do seu A revolu√ß√£o burguesa, argumentou no sentido de que a independ√™ncia, animada pelo liberalismo, importou numa revolu√ß√£o encapuzada, que teria deixado ra√≠zes na nossa forma√ß√£o.

Decerto que a modalidade fraca de liberalismo que praticamos coexistiu desde o Imp√©rio com um Estado que se sobrepunha √† sociedade civil, considerada como refrat√°ria aos valores da civiliza√ß√£o e, como tal, devendo ser exposta a uma longa e pertinaz a√ß√£o pedag√≥gica da parte do Estado, na forma da argumenta√ß√£o do visconde de Uruguai em seus textos sobre Direito Administrativo, cuja influ√™ncia persistiu por gera√ß√Ķes, como no caso de Oliveira Vianna, ide√≥logo que desempenhou papel central no processo de moderniza√ß√£o desencadeado pela Revolu√ß√£o de 1930.

O tema-chave dessa pol√≠tica consistia no diagn√≥stico de que o Estado tinha bra√ßos curtos, que n√£o lhe permitiriam agir de modo eficaz sobre uma popula√ß√£o dispersa num territ√≥rio imenso e, em boa parte, ainda sujeita a costumes b√°rbaros. Se A democracia na Am√©rica, de Alexis de Tocqueville, era reverenciada por boa parte dos estadistas da √©poca, suas li√ß√Ķes seriam consideradas intempestivas aqui, por falta de uma sociedade ainda incapaz de assimil√°-las.

O rem√©dio institucional concebido para avizinhar o Estado do hinterland foi criar uma magistratura selecionada politicamente a fim de exercer sobre ele uma a√ß√£o civilizat√≥ria. Na Rep√ļblica, j√° no contexto de uma sociedade que se industrializava e conhecia conflitos no mundo do trabalho e sindicatos expressivos, adotou-se, por inspira√ß√£o de Oliveira Vianna, a f√≥rmula da ordena√ß√£o corporativa, ent√£o em voga no mundo do trabalho europeu, que instalava o Judici√°rio como forte personagem no mercado de trabalho a fim de exercer controle sobre seus conflitos. Essa modelagem persistiu ao longo do tempo, refor√ßada pela cria√ß√£o, em 1932, da Justi√ßa Eleitoral.

Seguiu-se √† montagem desses novos instrumentos institucionais a constru√ß√£o de uma rede corporativa que, com o tempo, vai firmar uma identidade em torno dos interesses desses profissionais, cuja a√ß√£o de in√≠cio obedecia aos comandos e diretivas dos seus v√©rtices institucionais. A Carta de 88, redigida por constituintes descrentes no poder reformador do Legislativo, confiou a novos institutos judiciais pap√©is quase legislativos, como no mandado de injun√ß√£o, entre outros, e ampliou o n√ļmero de agentes com papel ativo no controle de constitucionalidade das leis. Como a experi√™ncia vai demonstrar, essas inova√ß√Ķes ir√£o afetar o poder soberano, rebaixando sua capacidade discricion√°ria e de governar o Pa√≠s.

Sem querer, silenciosamente uma muta√ß√£o toma corpo na sociedade e na pol√≠tica no sentido de submet√™-la a um governo de ju√≠zes. As elei√ß√Ķes que se avizinham s√£o o momento oportuno para que a sociedade retome seu destino em suas m√£os e avive os partidos e a pol√≠tica, cortando pela raiz esse experimento nefasto a que estamos sendo submetidos.

"O Judiciário usurpou o papel que era da política" (IHU On-line, jan. 2018)

Apesar das expectativas com as elei√ß√Ķes presidenciais que ir√£o ocorrer em outubro deste ano, "at√© agora as candidaturas n√£o est√£o muito explicitas em rela√ß√£o aos rumos" que o pa√≠s ir√° tomar daqui para frente, afirma o soci√≥logo Luiz Werneck Vianna √† IHU On-Line. O Brasil "ir√° na dire√ß√£o do nacional-desenvolvimentismo, na volta dos tempos de Dilma, ou se inclinar√° por outras alternativas?", questiona. Segundo ele, "o tema do nacional-desenvolvimentismo encontra guarida numa candidatura do PT e espantosamente tamb√©m na candidatura do Bolsonaro", mas outra possibilidade seria "estimular candidaturas para o centro, que poderiam, em nome do fortalecimento da democracia pol√≠tica e de suas institui√ß√Ķes, avan√ßar numa coaliz√£o de centro-esquerda". Entretanto, adverte, "isso tudo ainda s√£o especula√ß√Ķes e cogita√ß√Ķes que ainda est√£o sob exame".

Na entrevista a seguir, concedida por telefone √† IHU On-Line, Werneck Vianna tamb√©m comenta o julgamento do ex-presidente Lula, que ir√° ocorrer na pr√≥xima quarta-feira, 24 no TRF-4 - Tribunal Regional Federal da 4¬™ Regi√£o. Na avalia√ß√£o dele, "este julgamento n√£o est√° tendo o papel que os comentaristas dos grandes jornais fazem a respeito do "Dia D". Tudo indica que vamos transitar por esse dia seja qual for a decis√£o". As possibilidades reais de concretiza√ß√£o do processo que envolve o ex-presidente, afirma, s√£o "a confirma√ß√£o da senten√ßa" e "o fato de ela se traduzir, em termos da Lei de Ficha Limpa, numa erradica√ß√£o da candidatura Lula nessa sucess√£o presidencial". Ele diz ainda que a aposta da esquerda na elei√ß√£o do ex-presidente "√© a aposta do aprofundamento do conflito; √© levar o conflito √†s √ļltimas consequ√™ncias, mas n√£o vejo clima para isso. O clima que estou vendo √© de normalidade e estou tentando expressar isso atrav√©s de alguns indicadores sociais, como o carnaval, a pol√≠tica do Estado em rela√ß√£o √† sa√ļde, que vem sendo valorizada pela popula√ß√£o. N√£o estou vendo clima para colapsos e fim de mundo. √Č a continua√ß√£o do mundo que est√° a√≠, dessa maneira complicada que est√° a√≠".

Werneck destaca ainda que o "fen√īmeno que importa entender" na atual conjuntura brasileira √© a judicializa√ß√£o da pol√≠tica.

"O Judici√°rio usurpou o papel que era da pol√≠tica: at√© para a nomea√ß√£o de um ministro, um juiz de primeira inst√Ęncia interv√©m com √™xito. N√£o h√° caso igual no mundo. E como isso vai se repor nos seus eixos √© um processo a ser discutido".

Luiz Werneck Vianna √© professor-pesquisador na Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de S√£o Paulo, √© autor de, entre outras obras, A revolu√ß√£o passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicializa√ß√£o da pol√≠tica e das rela√ß√Ķes sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os tr√™s poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Di√°logos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012).

Já está claro o que podemos esperar em termos políticos para este ano de eleição presidencial?

Uma coisa √© o que devemos esperar, outra √© o que podemos esperar. O que dever√≠amos esperar √© um processo de discuss√£o sobre a retomada de rumos da sociedade e da economia brasileira, ou seja, em que dire√ß√£o ir√°: ir√° na dire√ß√£o do nacional-desenvolvimentismo, na volta dos tempos de Dilma, ou se inclinar√° por outras alternativas? At√© agora as candidaturas n√£o est√£o muito explicitas em rela√ß√£o a esses rumos. Sabe-se que o tema do nacional-desenvolvimentismo encontra guarida numa candidatura do PT e espantosamente tamb√©m na candidatura do Bolsonaro, assim como tamb√©m se cogita estimular candidaturas para o centro, que poderiam, em nome do fortalecimento da democracia pol√≠tica e de suas institui√ß√Ķes, avan√ßar numa coaliz√£o de centro-esquerda. Mas isso tudo ainda s√£o especula√ß√Ķes e cogita√ß√Ķes que ainda est√£o sob exame.

Uma candidatura do Lula representaria certamente uma campanha voltada para a retomada, de certo modo, do nacional-desenvolvimentismo e est√° dependendo de uma decis√£o judicial, ali√°s, como tudo neste pa√≠s. Agora, penso que, ao contr√°rio do que muitos meios de comunica√ß√£o estejam procurando sublinhar, acentuar e enfatizar, estamos muito longe de cenas de fim do mundo. Apesar dos conflitos e das ideias contrapostas, as institui√ß√Ķes marcham e dia a dia elas se refor√ßam, por incr√≠vel que pare√ßa. O fato √© que todos se referem √† Carta de 88, pretendem ser os melhores interpretes dela, e ela se refor√ßa. N√£o h√° tentativas que procurem recusar a Carta de 88. Ent√£o, n√£o creio que estamos vivendo um clima de fim do mundo nem de colapso. Tenho algumas indica√ß√Ķes emp√≠ricas que sustentam essa minha percep√ß√£o.

Quais?

Vou tentar mostr√°-las. Fala-se muito na dist√Ęncia entre o Estado e a sociedade, mas n√£o √© isso que est√° ocorrendo agora, por exemplo, no principal estado da federa√ß√£o com a vacina√ß√£o para a febre amarela. O que est√° se vendo √© uma demonstra√ß√£o de confian√ßa da popula√ß√£o nas ag√™ncias do Estado, especialmente nas ag√™ncias de sa√ļde - que s√£o t√£o criticadas -, onde se v√™ que as pessoas ordenadamente e disciplinadamente acorrem aos postos para fazer a vacina. Isso demonstra confian√ßa na a√ß√£o estatal dessas ag√™ncias, e √© um indicador forte para mim de que a crise na popula√ß√£o n√£o tem a mesma propor√ß√£o da crise que se constata na leitura da m√≠dia. Outro processo tamb√©m muito vis√≠vel em S√£o Paulo √© a busca por forma√ß√£o de blocos de carnaval, que deve, neste ano, superar todas as marcas com a cria√ß√£o de blocos novos. Eu vejo nisso indica√ß√Ķes de que √† medida que o dia do julgamento de Porto Alegre se aproxima, n√£o caminhamos para um colapso, um conflito. Ele pode at√© ocorrer, mas o mais previs√≠vel √© que n√£o ocorra.

O senhor quer dizer que n√£o h√° uma mobiliza√ß√£o social, para al√©m da milit√Ęncia petista, ao julgamento do ex-presidente Lula? Por que na sua avalia√ß√£o a popula√ß√£o n√£o est√° comovida com o julgamento?

Porque este julgamento n√£o est√° tendo o papel que os comentaristas dos grandes jornais fazem a respeito do "Dia D". Tudo indica que vamos transitar por esse dia seja qual for a decis√£o. Agora, qual ser√° a decis√£o? √Č muito previs√≠vel - digo isso sem fazer ju√≠zo de valor - que o Tribunal de Porto Alegre confirme a senten√ßa e mantenha a condena√ß√£o. Agora, depois disso, no pr√≥prio √Ęmbito do judici√°rio, a quest√£o √© como a decis√£o ser√° interpretada: a condena√ß√£o com tr√Ęnsito em julgado - porque esgotadas todas as inst√Ęncias de apela√ß√£o - leva, logicamente e de maneira irrecorr√≠vel, √† possibilidade de tornar a candidatura do Lula invi√°vel, e a cassar a possibilidade dessa candidatura pela Lei da Ficha Limpa. Essa ser√° outra batalha, mas acho dif√≠cil contornar a tend√™ncia de que Lula seja erradicado do processo eleitoral como candidato. Como personalidade pol√≠tica talvez ter√° uma for√ßa, inclusive indicando um candidato.

Agora, as possibilidades reais de concretização desse processo são: 1) a confirmação da sentença; 2) o fato de ela se traduzir, em termos da Lei de Ficha Limpa, numa erradicação da candidatura Lula nessa sucessão presidencial; e 3) temos que esperar.

A descren√ßa das ruas em rela√ß√£o √†s solu√ß√Ķes dram√°ticas, a meu ver, est√° presente na organiza√ß√£o dos blocos de carnaval em termos massivos, ou seja, as ruas ser√£o ocupadas pelos carnavalescos.

Os indicadores que estou tomando s√£o, de um lado, a mobiliza√ß√£o para o carnaval e, de outro, a demonstra√ß√£o de confian√ßa que a popula√ß√£o vem dando para as pol√≠ticas em mat√©ria de sa√ļde, indo aos postos em massa. N√£o se v√™ conflito nesses postos de sa√ļde. Essa pol√≠tica est√° sendo legitimada e com isso o Estado tamb√©m est√°. E se reconhece na a√ß√£o do Estado um servi√ßo p√ļblico importante, qual seja, a luta contra a febre amarela.

Como o senhor avalia a aposta da esquerda no nome do ex-presidente Lula como principal candidato à presidência? Qual é o impacto político dessa aposta?

A aposta da esquerda no Lula √© a aposta do aprofundamento do conflito; √© levar o conflito √†s √ļltimas consequ√™ncias, mas n√£o vejo clima para isso. O clima que estou vendo √© de normalidade e estou tentando expressar isso atrav√©s de alguns indicadores sociais, como o carnaval, a pol√≠tica do Estado em rela√ß√£o √† sa√ļde, que vem sendo valorizada pela popula√ß√£o. N√£o estou vendo clima para colapsos e fim de mundo. √Č a continua√ß√£o do mundo que est√° a√≠, dessa maneira complicada que est√° a√≠.

Que cen√°rios vislumbra para a disputa presidencial deste ano?

A candidatura Alckmin √© praticamente certa. Do lado do PT, fora essas especula√ß√Ķes fantasistas do Lula ser candidato, teremos o Jaques Wagner, que √© um candidato bastante palat√°vel do PT. A candidatura de Meirelles vai depender da batalha pol√≠tica dele, se ele conseguir espa√ßo. O governo, especialmente se a economia continuar a dar as respostas positivas que vem dando, vai ter um papel a√≠ no sentido de indicar um candidato, que pode ser o Meirelles ou o Alckmin.

A hipótese da candidatura do Temer me parece muito fantasista. De outro lado, não vejo o Bolsonaro como alternativa, embora o tema dele esteja na ribalta, que é a segurança, a ordem, mas tenho a sensação de que a candidatura dele não decola. Existe a possibilidade de uma candidatura de um outsider. Ela existe, mas adivinhar quem seria não vale.

Um tema que voltou a ser discutido entre os partidos é a possibilidade de fazer alianças, e partidos como o PT e o PCdoB já declararam que poderão fazer alianças com o PMDB. Que alianças provavelmente serão feitas nesta eleição? O PMDB continuará mantendo uma influência nesse sentido?

O PMDB, com o tamanho da bancada parlamentar que tem e com a sua capilaridade, que se manifesta na sua presença nas principais cidades do país de forma significativa, vai continuar com o seu papel de centro, como foi no governo Lula. Foi a Dilma quem interrompeu essa experiência exitosa, porque ela tinha horror ao PMDB. Aliás, ela veio para a política do Rio Grande do Sul, onde se acumulava ressentimentos com o PMDB em nível local e nacional. Então, todos os candidatos têm a percepção clara de que sem passar pelo PMDB não há vitória possível nem governo possível. De qualquer forma, esse horizonte está muito turvo e não é responsável da perspectiva de agora falar nas alianças sem saber quais serão os candidatos.

Digamos que a minha análise esteja equivocada e que o Tribunal não confirme a sentença, então o Lula será candidato e aí muda tudo, mas essa hipótese, para mim, é fantasista, é um exercício sem possibilidade de se concretizar. A possibilidade de concretização é a do Tribunal confirmar a condenação e, em seguida, pela Lei da Ficha Limpa, afastar o Lula da candidatura presidencial. Haverá outras batalhas jurídicas, mas são batalhas condenadas a ter um resultado previsto, qual seja, o de não admitir a possibilidade de recursos defensáveis da candidatura Lula. E aí vamos para a eleição.

Na elei√ß√£o deste ano deve se repetir um cen√°rio polarizado, como o da √ļltima elei√ß√£o presidencial?

Eu acho que a elei√ß√£o ser√° polarizada, mas n√£o se sabe em que dire√ß√£o, porque tudo est√° na depend√™ncia de saber se Lula ser√° candidato ou n√£o. Estou trabalhando com a hip√≥tese de ele n√£o ser candidato, olhando para o comportamento do Tribunal, ou seja, como ele tem se comportado e como a condena√ß√£o do Lula fortaleceria essa interven√ß√£o que o Judici√°rio est√° fazendo na vida pol√≠tica do pa√≠s. Esse √© o fen√īmeno que importa entender. O Judici√°rio usurpou o papel que era da pol√≠tica: at√© para a nomea√ß√£o de um ministro, um juiz de primeira inst√Ęncia interv√©m com √™xito. N√£o h√° caso igual no mundo. E como isso vai se repor nos seus eixos √© um processo a ser discutido. Assim como antes, que caminhos tivemos que descobrir para que os militares voltassem aos quart√©is, agora teremos que descobrir o caminho para que os magistrados retomem seus lugares nos tribunais e fiquem por l√°. Isso n√£o vai ser f√°cil.

Quais s√£o suas maiores preocupa√ß√Ķes em rela√ß√£o √† atua√ß√£o do Poder Judici√°rio?

Temos que colocar cada macaco no seu galho. Se a Constituição está tão valorizada, ela define como questão estratégica a divisão entre os poderes, porque não existe só um poder ou um poder acima dos demais. Isso vai depender de luta política, intelectual, jurídico-política, ou seja, de uma reflexão muito grande da sociedade sobre essa patologia da judicialização da política que tomou conta da nossa vida.

Recentemente o senhor escreveu que estamos "deixando para tr√°s o tempo da moderniza√ß√£o que aqui vingou de Vargas a Dilma". Quais s√£o as evid√™ncias disso e quais devem ser os reflexos disso nas elei√ß√Ķes deste ano?

Essa é uma percepção que tenho da época que estamos vivendo, de que um paradigma, uma certa concepção do país, ficou para trás. A Revolução de 30 está ficando para trás, mas ainda não ficou inteiramente para trás, mas já nos afastamos muito dela e ela vem perdendo força e capacidade de persuasão. Está aí a Legislação Trabalhista que não "segurou o tranco". Por mais que os advogados trabalhistas estejam se mobilizando em defesa da Consolidação da Lei de Trabalho - CLT, a CLT ao fim e ao cabo jamais encontrou apoio forte dentro do próprio PT, dentro do governo Lula. Só a partir de um determinado momento ele foi flexibilizando no sentido de voltar aos anos 30, de reencontro com o nacionalismo do governo Geisel. A escora dessa política agora está mais na direita do que na esquerda: é Bolsonaro que defende o populismo, o nacional-desenvolvimentismo. Isso é uma mudança importante; não é a esquerda que está valorizando essa alternativa, ao contrário, é a direita. Aliás, é o que acontece no mundo: o nacional-desenvolvimentismo ganha espaço na Europa e nos EUA, com Trump. A esquerda está afastada disso e no Brasil vemos esse afastamento se aprofundar.

A bandeira da moderniza√ß√£o est√° cedendo lugar para a bandeira do moderno. Por bandeira do moderno eu quero significar o tema da autonomia, a autonomia das organiza√ß√Ķes, a valoriza√ß√£o da sociedade civil, novas formas de articula√ß√£o da sociedade civil com o Estado. √Č isso que entendo pela emerg√™ncia do moderno entre n√≥s. Ao meu ver, essa √© uma tend√™ncia muito poderosa. J√° vitoriosa? Ainda n√£o, mas √© muito forte e penso que nessas elei√ß√Ķes isso vai se fortalecer mais ainda.

Lembrar junho de 2013 (7 jan.)

Chegamos afinal, depois de muitas tropelias, ao ano das elei√ß√Ķes. As ruas est√£o em sil√™ncio, embora atentas, e os quart√©is, entregues √†s suas fainas habituais. O rebuli√ßo e as incertezas v√™m do lugar menos previs√≠vel, o Poder Judici√°rio, pelas a√ß√Ķes de alguns dos seus membros, embalados por concep√ß√Ķes salvacionistas alheias √†s eventuais consequ√™ncias dos seus atos. Seja como for, de ci√™ncia provada agora sabemos que nossas institui√ß√Ķes est√£o dotadas de surpreendente resili√™ncia, ainda de p√© em meio a tantos anos de severa turbul√™ncia. Sem ufanismo, √© for√ßoso reconhecer que a Carta de 88 tem provado ser uma √Ęncora segura para a nossa democracia.

Aos poucos, os eixos em torno dos quais gira a conjuntura começam a se deslocar dos tribunais para os lugares afetos aos temas e procedimentos da soberania popular. Já se vive, embora tardiamente, o momento crucial em que partidos selecionam seus candidatos e programas, vale dizer, os rumos futuros a serem trilhados pelo País. Em que pesem os argumentos retóricos em defesa de paradigmas antes influentes, a questão incontornável é que, mesmo de modo silencioso, como é do nosso estilo, estamos deixando para trás o tempo da modernização que aqui vingou de Vargas a Dilma.

O melhor marcador dessa mudan√ßa n√£o est√°, como sup√Ķem os que se satisfazem com explica√ß√Ķes f√°ceis, tanto no programa reformista do governo Temer, mas, sobretudo, nas jornadas de junho de 2013, na verdade, um movimento massivo da juventude em torno de direitos, inclusive os de participa√ß√£o pol√≠tica. Na agenda de junho de 2013 n√£o se faziam presentes os temas cl√°ssicos da moderniza√ß√£o, antes hegem√īnicos, mas os da agenda do moderno, centrados nas quest√Ķes das liberdades civis e p√ļblicas.

Indicar essa mutação, no entanto, não quer significar que o velho repertório que animou a época de fastígio dos programas nacional-desenvolvimentistas tenha sido varrido do mapa do nosso imaginário social. Eles estão aí e ainda devem estar presentes nesta próxima sucessão presidencial e nas futuras, mas sua capacidade de persuasão é claramente declinante, tal como se constata no fato decisivo de já ter iniciado uma migração em direção à direita política e às hostes conservadoras, lugares sociais hostis desde sempre ao programa nacional-popular.

Maro Lara Martins, em Interesse e virtude: o ensaio sociológico brasileiro dos anos 1930 (no prelo), chamou a atenção para o fato capital de que modernização e modernismo nasceram de dois movimentos sociais coincidentes no tempo - o tenentismo é de 1922, o mesmo ano da Semana de Arte Moderna -, embora desde suas origens estivessem destinados a seguir trajetórias diferentes. Com a Revolução de 1930, a tópica da modernização será conduzida pelo recém-criado Ministério do Trabalho, dito o Ministério da Revolução, e a do modernismo pelo Ministério da Educação e Cultura, confiado a Gustavo Capanema, personalidade de forte prestígio entre os intelectuais da época, entre os quais Mário de Andrade, então ungido no papel de papa laico da cultura brasileira.

Assim, embora as a√ß√Ķes dessas duas ag√™ncias estatais gravitassem em √≥rbitas distintas, nosso processo de moderniza√ß√£o, ao contr√°rio de outros casos nacionais, vem √† luz encoura√ßado por uma pol√≠tica cultural inclusiva e valorizadora da vida popular, conquanto o Estado viesse a exercer uma a√ß√£o tutelar sobre os sindicatos dos trabalhadores. A cultura pol√≠tica do nacional-popular nasce, portanto, sob o signo da incorpora√ß√£o, mantendo bem velado o que havia de autorit√°rio na sua modelagem.

Contudo essa feliz combina√ß√£o, mesmo que n√£o intencional, entre as agendas da moderniza√ß√£o e do moderno se sustentava em bases prec√°rias, dependente da exist√™ncia de um regime que garantisse as liberdades civis e p√ļblicas. O Estado Novo, que nos trouxe a Carta outorgada de 1937, feriu mortalmente essa alternativa, que, de resto, nunca tinha sido buscada como um fim consciente pelas elites pol√≠ticas da √©poca, somente ressurgindo, de modo encapuzado, d√©cadas depois, sob os governos de JK e de Jango Goulart, com os movimentos de intelectuais de "ida ao povo" disseminados nos centros populares de cultura e de alfabetiza√ß√£o popular.

O regime militar interrompeu essa benfazeja experi√™ncia, desencadeando feroz repress√£o sobre esses movimentos e seus intelectuais, prendendo e processando em massa, levando ao ex√≠lio centenas deles. Ao lado disso, recuperou as institui√ß√Ķes e pr√°ticas vigentes no Estado Novo para o mundo do trabalho. A moderniza√ß√£o dissocia-se radicalmente da pauta do moderno, perseguindo os fins de plena imposi√ß√£o do capitalismo entre n√≥s, a partir de uma coaliz√£o no poder, sob comando pol√≠tico da corpora√ß√£o militar, entre as elites empresariais da ind√ļstria e as elites agr√°rias tradicionais.

A democratiza√ß√£o do Pa√≠s, como se sabe, n√£o nos veio de uma ruptura com o regime anterior, e sim de uma transi√ß√£o, cujos termos implicavam, na pr√°tica, a preserva√ß√£o do estatuto da propriedade agr√°ria tradicional. Nas novas circunst√Ęncias do Brasil democratizado, contudo, o processo eleitoral traz de volta com o PSDB e, principalmente, com o PT a agenda do moderno, exemplar na sua cr√≠tica ao legado varguista em mat√©ria sindical. O tema da autonomia dos movimentos sociais diante do Estado parecia ter ganho com a vit√≥ria de Lula a sua oportunidade de enraizamento na nossa hist√≥ria pol√≠tica.

Por√©m, em surpreendente guinada, o PT no governo absolve a Era Vargas. E, pior, valoriza a moderniza√ß√£o autorit√°ria levada a efeito no governo Geisel, que o governo Dilma tentar√° pateticamente radicalizar em condi√ß√Ķes j√° inteiramente adversas, levando √† exaust√£o um modelo de pol√≠tica, hoje confinado ao que h√° de mais recessivo e anacr√īnico em nossa sociedade, que cumpre agora derrotar nas urnas.































Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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