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Greve em debate: menos grito e mais trabalho

L√ļcio Fl√°vio Pinto - Maio 2017
 


A mais importante e mais grave not√≠cia do dia n√£o se originou nas manifesta√ß√Ķes de protesto realizadas hoje [sexta-feira, 28 de abril] em todo o pa√≠s contra as reformas trabalhista e da previd√™ncia social. Foi o crescimento do desemprego no Brasil, medido pelos √≥rg√£os oficiais.

A fila dos exclu√≠dos da economia chegou a 14,2 milh√Ķes de cidad√£os, taxa de 13,7%. A uma m√©dia simples de tr√™s dependentes per capita, seriam quase 50 milh√Ķes de pessoas (um quarto de toda a popula√ß√£o) atiradas √† rua da amargura. √Č o maior volume de desempregados da hist√≥ria nacional.

A combina√ß√£o dos dois fatores devia produzir um resultado explosivo: drenar para os protestos coletivos o combust√≠vel do desemprego, numa mistura de raiva, indigna√ß√£o e revolta. Mas as manifesta√ß√Ķes ficaram aqu√©m do que seus organizadores esperavam. Talvez n√£o tenham os resultados pretendidos: de sustar a tramita√ß√£o e a aprova√ß√£o das duas iniciativas do governo Michel Temer.

Quem sabe essa frustração se deva a que a reação é o componente de futuro da condição trabalhista: pensão, aposentadoria, regulação jurídica da relação entre o capital e o trabalho - e do que o brasileiro mais precise neste momento é ter onde trabalhar para conseguir seu sustento e o dos seus dependentes.

O efeito mais evidente das manifesta√ß√Ķes de hoje foi impedir que cidad√£os com emprego ativo chegassem aos seus locais de trabalho. O empenho demonstrado √© comovente. S√≥ os dogm√°ticos e fan√°ticos n√£o conseguir√£o perceber o esfor√ßo de milh√Ķes de homens e mulheres comuns de chegar de qualquer maneira ao ponto da realiza√ß√£o dos seus compromissos e tarefas cotidianos.

Impedidos de seguir, eles se exp√Ķem a ter o ponto cortado, a n√£o obter os ganhos extras que s√≥ o exerc√≠cio dos seus cargos permite ou deixar de realizar alguma tarefa que deveria ter sido cumprida ontem. A conjun√ß√£o dos dramas pessoais com os seus efeitos coletivos resulta em um dia de d√©ficit numa economia que precisa trabalhar cada vez mais para encontrar, pela via de cria√ß√£o de riquezas atrav√©s do trabalho, a solu√ß√£o mais positiva e saud√°vel para a crise brasileira.

Se a j√° complicada luta pela sobreviv√™ncia n√£o estivesse delimitada, sujeita ou condicionada por esse monstro chamado disputa pol√≠tica pelo poder, busca da hegemonia e explora√ß√£o do patrim√īnio p√ļblico, seria menos dif√≠cil encontrar uma maneira de conduzir o pa√≠s para longe do precip√≠cio do qual se avizinha. Mas at√© a racionalidade na busca por respostas est√° sendo bloqueada por pressupostos pol√≠ticos ou ideol√≥gicos.

Se as manifesta√ß√Ķes de hoje fossem concebidas e programadas considerando a situa√ß√£o real do pa√≠s, os manifestantes podiam se concentrar em pontos estrat√©gicos da cidade, preparar o ambiente adequado para um enorme com√≠cio, selecionando pessoas capazes de orientar os participantes do ato para tomar as decis√Ķes mais bem informados.

Produziriam melhor impacto pol√≠tico do que bloqueando ruas, estradas, pontos de embarque e equivalentes, cujo resultado √© parar as cidades, interromper a circula√ß√£o, impedir as pessoas de cumprir suas obriga√ß√Ķes. Aquele que deveria ser o destinat√°rio da iniciativa se torna o maior prejudicado por ela.

A principal restri√ß√£o √† reforma da previd√™ncia social tem um tamanho hom√©rico. Enquanto o governo se alarma por sangrias no er√°rio de dezenas de bilh√Ķes de reais para cobrir o d√©ficit previdenci√°rio crescente, que vai exaurir o caixa nos pr√≥ximos anos, os cr√≠ticos dizem que, se a receita destinada √† previd√™ncia n√£o fosse desviada para outros fins, o saldo atual seria de R$ 28 bilh√Ķes.

Logo, a reforma proposta para estancar a hemorragia e tirar o governo de um d√©ficit fiscal cr√īnico, voragem que tritura a riqueza nacional, √© balela, conversa para boi dormir, mistifica√ß√£o. H√° a quest√£o real do envelhecimento acelerado da popula√ß√£o brasileira, que conspira contra o equil√≠brio nas contas de dever e haver da previd√™ncia, mas o governo Temer √© ileg√≠timo - sustentam os que o negam.

Por que n√£o deixar momentaneamente de lado essa quest√£o jur√≠dico-pol√≠tica, sem esquec√™-la jamais, e partir para uma discuss√£o t√©cnica mais ampla? O legislativo poderia at√© contratar, atrav√©s de projeto de lei e concorr√™ncia p√ļblica, uma auditagem internacional independente para definir em n√ļmeros os impasses elementares dessa pol√™mica.

A definição sobre legitimidade viria em seguida. Os petistas podem ter razão de colocar acima de tudo o afastamento de Temer da presidência e a preservação de Lula para 2018. Mas eles não podem impedir que se propaguem os dados sobre os governos, os do PT, que mais desviaram recursos de fundos de pensão, do tesouro nacional e de outras fontes com outra serventia para criar bilionários e multinacionais brasileiras, resultando no maior esquema de corrupção já revelado em toda história, daqui e de qualquer outro lugar do planeta.

Como as mais recentes manifesta√ß√Ķes p√ļblicas, pr√≥ ou contra, a de hoje seguiu-lhes a tend√™ncia declinante, apesar de convocada por todas as centrais sindicais, um olho no cliente e outro na preserva√ß√£o desse nojento imposto sindical, de inspira√ß√£o fascista, travestida de democr√°tica, para atrelar ao Estado a dire√ß√£o sindical.

Se faltou gente nos atos de protesto de hoje para que a voz das ruas soasse soberana e impressionante, restou um murm√ļrio un√≠ssono nos pontos de √īnibus, nas esta√ß√Ķes de trem, nas ruas desertas. O povo brasileiro quer trabalhar. S√≥ pelo trabalho o pa√≠s ir√° se recuperar. E o que mais falta a cada dia √© ele: o trabalho.

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L√ļcio Fl√°vio Pinto √© o editor do Jornal Pessoal, de Bel√©m, e do blog Amaz√īnia hoje ¬Ė a nova col√īnia mundial. Entre outros, √© autor de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paix√£o amaz√īnica (2007), Mem√≥ria do cotidiano (2008) e A agress√£o (imprensa e viol√™ncia na Amaz√īnia) (2008).

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Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

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