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O sujeito cosmopolita de Gramsci, segundo Vacca

Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira - Março 2017
 

Giuseppe Vacca. Modernidades alternativas: O século XX de Antonio Gramsci. Brasília/ Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira/ Contraponto, 2016. 324p.

As leituras de Giuseppe Vacca em torno da figura de Antonio Gramsci n√£o s√£o recentes, de modo que o fil√≥sofo italiano, ex-presidente da Fondazione Gramsci, se coloca como um dos principais intelectuais, tanto na It√°lia quanto no exterior, que se dedicam √† herc√ļlea tarefa de se debru√ßar sob o pensamento gramsciano. As primeiras reflex√Ķes de Vacca acerca de Gramsci ocorrem no final dos anos 1980 e in√≠cio dos anos 1990. Consequentemente, a obra em quest√£o, publicada no final de 2016 no Brasil, √© fruto de um denso percurso investigativo constru√≠do por Vacca. Deste modo, Modernidades alternativas se configura, concomitantemente, como aprofundamento e conclus√£o de um ciclo de produ√ß√Ķes iniciado anteriormente.

Diante disso, a presente obra n√£o pode ser apreendida em si mesma, n√£o apenas porque fruto desse intenso processo de pesquisas, mas tamb√©m porque se prop√Ķe como complemento de uma produ√ß√£o anterior, publicada no Brasil em 2012 tamb√©m pela Funda√ß√£o Astrojildo Pereira [1]. Tal publica√ß√£o girava em torno de uma proposta de reconstru√ß√£o de Gramsci a partir de sua historiciza√ß√£o integral, centrada nos nexos necess√°rios entre os contextos hist√≥ricos e biogr√°ficos que atravessam o pensamento pol√≠tico gramsciano. Modernidades alternativas figura como complemento a essa discuss√£o mais marcadamente biogr√°fica, uma vez que pretende, em primeiro lugar, desenvolver um percurso interpretativo das notas carcer√°rias para, posteriormente, revelar as possibilidades de utiliza√ß√£o dessas notas no mundo contempor√Ęneo.

Em Modernidades alternativas n√£o abandona a proposta de uma historiciza√ß√£o integral do pensamento de Gramsci. Todavia, apropria-se mais intensamente do m√©todo filol√≥gico e diacr√īnico desenvolvido a partir dos anos 1980 por Gianni Francioni. Esse m√©todo consiste na percep√ß√£o de uma temporalidade interna inerente √† escrita dos Quaderni, que denota a exist√™ncia de um determinado ritmo de pensamento subjacente ao processo de trabalho de Gramsci, de modo que os conceitos desenvolvidos ao longo do c√°rcere s√≥ podem ser apreendidos a partir de sua mutabilidade temporal. Assim, ao se apropriar desse m√©todo filol√≥gico e diacr√īnico, Vacca procura perscrutar os principais conceitos desenvolvidos por Gramsci, observando suas transforma√ß√Ķes no tempo no intuito de auferir sua for√ßa heur√≠stica para a interpreta√ß√£o dos rumos da pol√≠tica contempor√Ęnea.

O primeiro conceito no qual Vacca se det√©m √© o de hegemonia, uma vez que considera a teoria da hegemonia como o centro sobre o qual gravitam as outras reflex√Ķes desenvolvidas nos Cadernos. Nestes, a teoria da hegemonia √© constitu√≠da a partir de experi√™ncias hist√≥ricas espec√≠ficas que envolvem as principais quest√Ķes pol√≠ticas das primeiras d√©cadas do s√©culo XX. Tais experi√™ncias, em virtude de sua intensidade, alteram as formas com as quais se pensava a pol√≠tica e a hist√≥ria, gerando a necessidade de cria√ß√£o de novos instrumentos te√≥ricos e metodol√≥gicos capazes de captar a pol√≠tica diante dessas novas configura√ß√Ķes hist√≥ricas. Em raz√£o disso, nos Cadernos, o conceito originalmente elaborado por Lenin ganha uma nova leitura, deixando de ser compreendido a partir de um corte classista referente √† dire√ß√£o do proletariado para se tornar uma ferramenta ao mesmo tempo anal√≠tica e estrat√©gica capaz de compreender quest√Ķes referentes √† conquista e ao exerc√≠cio do poder.

O cerne dessa redefini√ß√£o do conceito de hegemonia, para Vacca, reside em seu v√≠nculo necess√°rio com aquilo que o autor nomeia por teoria da interdepend√™ncia [2]. Essa teoria implica a considera√ß√£o das rela√ß√Ķes de for√ßas, fundamentais para a compreens√£o da hegemonia, a partir de nexo essencial entre as dimens√Ķes nacional e internacional, central na contemporaneidade em raz√£o do avan√ßo do processo de globaliza√ß√£o impulsionado pelo movimento da economia capitalista. O problema, nesses termos, √© que a pol√≠tica, ainda vinculada √† figura do Estado-na√ß√£o, se mostra incapaz de acompanhar o movimento da economia, de modo que h√° um certo atraso da primeira em rela√ß√£o √† √ļltima. Para Gramsci, esse contraste entre o cosmopolitismo da economia e o nacionalismo dos Estados se configura como o cerne das crises experimentadas nas primeiras d√©cadas do s√©culo XX.

Nesse contexto, a constru√ß√£o da hegemonia n√£o deve ser apreendida pelo vi√©s estatal ou nacional, mas a partir do equil√≠brio das correla√ß√Ķes de for√ßas operadas entre os diversos Estados. Por isso, Vacca procura apontar que a validade do conceito gramsciano de hegemonia est√° para al√©m das fronteiras dos Estados, uma vez que parte exatamente do diagn√≥stico da crise dessa forma pol√≠tica, estando inserido na complexidade das rela√ß√Ķes internacionais. Deste modo, n√£o se trata de perceber a hegemonia como um conceito un√≠voco e est√°vel, mas de captar sua mobilidade nos processos formativos daquilo que o autor nomeia como constela√ß√Ķes hegem√īnicas.

Em termos pol√≠ticos, isso significa uma transforma√ß√£o significativa nas formas de a√ß√£o. Na medida em que o movimento hist√≥rico caminha para a supera√ß√£o da centralidade do Estado, as lutas pol√≠ticas tamb√©m devem ocorrer em um n√≠vel cosmopolita. Vacca pretende demonstrar que a estrat√©gia delineada por Gramsci se orienta para a constru√ß√£o de uma regula√ß√£o econ√īmica e pol√≠tica operacionalizada mundialmente a partir de um equil√≠brio de compromisso entre as for√ßas antag√īnicas. Nesses termos, o autor distancia a proposta cosmopolita de Gramsci daquela pr√≥pria √† cultura pol√≠tica bolchevique. Enquanto a √ļltima se encontra marcada pela imin√™ncia da cat√°strofe b√©lica, a primeira se assenta em uma rede intricada de for√ßas pol√≠ticas que n√£o se anulam.

Todavia, a centralidade que a teoria da hegemonia assume nas reflex√Ķes de Vacca termina por reduzir o potencial interpretativo do conceito de revolu√ß√£o passiva, ainda que n√£o o elimine. Nos termos do autor, a revolu√ß√£o passiva tamb√©m obedece ao mesmo movimento hist√≥rico que perpassa a hegemonia, operando uma revis√£o na concep√ß√£o marxista da hist√≥ria ao relativizar seu corte classista. Nesse sentido, o conceito de revolu√ß√£o passiva passa a figurar como um corol√°rio historiogr√°fico do conceito de hegemonia, n√£o podendo ser manejado para a compreens√£o internacional.

Isso ocorre, na vis√£o de Vacca, em raz√£o do car√°ter assumido pelo processo hist√≥rico naquele momento. Nessa leitura, a vis√£o de Gramsci acerca das primeiras d√©cadas do s√©culo XX se encontra marcada pelo diagn√≥stico de uma crise de hegemonia, caracterizada pela incapacidade de constru√ß√£o de uma constela√ß√£o hegem√īnica em n√≠vel global. Consequentemente, a revolu√ß√£o passiva, encarada como conceito respons√°vel por apreender as modalidades pelas quais os equil√≠brios de compromisso se constroem, se mostra insuficiente para interpretar as rela√ß√Ķes internacionais desse momento.

Esse amplo processo de revis√£o do marxismo culmina, para Vacca, na constru√ß√£o da filosofia da pr√°xis. Essa constru√ß√£o, marcada pela transforma√ß√£o do materialismo hist√≥rico em filosofia da pr√°xis, se encontra condicionada por uma mudan√ßa fundamental na concep√ß√£o de sujeito, bem como por uma historiciza√ß√£o integral da pol√≠tica e da economia. Ao se afastar das hip√≥teses causais e deterministas do marxismo de sua √©poca, Gramsci logrou construir uma teoria da constitui√ß√£o dos sujeitos no mundo contempor√Ęneo, na qual a quest√£o da forma√ß√£o de uma vontade coletiva emerge como um dos aspectos centrais para a forma√ß√£o de um mundo unit√°rio, regulado globalmente a partir da hegemonia. Assim, na leitura de Vacca, a filosofia da pr√°xis aparece como uma teoria da "constitui√ß√£o dos sujeitos pol√≠ticos baseada gnosiologicamente no conceito de hegemonia e historiograficamente no de revolu√ß√£o passiva" (Vacca, 2016: 263).

Com isso, a filosofia da pr√°xis se baseia em um princ√≠pio imanente da hist√≥ria respons√°vel por superar o car√°ter geralmente mec√Ęnico e determinista que as rela√ß√Ķes entre estrutura e superestrutura assumiram no interior do marxismo. Ao historicizar a pr√≥pria no√ß√£o de mercado, Gramsci p√īde rever tamb√©m as perspectivas liberais que consideravam de modo org√Ęnico a separa√ß√£o entre Estado e sociedade civil, apontado como tais dimens√Ķes se solidificam a partir de um intrincado jogo de for√ßas que se chocam historicamente.

Nessa leitura, a no√ß√£o da hist√≥ria pr√≥pria da filosofia da pr√°xis se baseia em jogo antag√īnico de for√ßas imprevis√≠vel em raz√£o de sua regula√ß√£o pol√≠tica. Nos termos de Vacca, a dial√©tica gramsciana aparece como um movimento no qual a forma√ß√£o do par amigo-inimigo se torna imposs√≠vel, uma vez que o choque das for√ßas em quest√£o n√£o significa anula√ß√£o de uma das for√ßas, mas um processo de s√≠ntese que caminha para um equil√≠brio em movimento perp√©tuo. Como consequ√™ncia dessas no√ß√Ķes de hist√≥ria e pol√≠tica, a filosofia da pr√°xis se encontra intimamente vinculada √† pol√≠tica democr√°tica, visto que s√≥ a democracia pode garantir a instaura√ß√£o desses conflitos sem a anula√ß√£o das for√ßas em confronto. Portanto, a democracia para a qual Gramsci pretende apontar √© profundamente calcada no cosmopolitismo, com vistas √† produ√ß√£o de formas democr√°ticas supranacionais.

Assim, o Gramsci de Vacca se configura como um pensador essencialmente cosmopolita, habilitado para enfrentar as quest√Ķes contempor√Ęneas, sobretudo aquelas ligadas aos impactos pol√≠ticos e econ√īmicos da globaliza√ß√£o. Nesse cen√°rio cada vez mais mundial, Gramsci pretende abarcar o mundo como um todo, n√£o abandonando a perspectiva universalista, essencial √† tradi√ß√£o comunista. Todavia, esse universalismo se mostra distante daquele bolchevique ou mesmo liberal, uma vez que se fundamenta em uma democracia supranacional capaz de regular o mundo pela √≥tica da pol√≠tica, a partir da a√ß√£o fundamental de sujeitos tamb√©m constitu√≠dos no interior desse cosmopolitismo, aptos a regularem uma democracia global.

Com Gramsci, pois, Vacca pretende, em meio aos escombros da contemporaneidade, repropor a questão fundamental do sujeito dentro da política, colocando a possibilidade de pensar um sujeito universal e cosmopolita longe de uma versão de totalidade incapaz de perceber a divergência, mas a partir de um universalismo capaz de instituir o conflito e a divergência.

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Marcus Vin√≠cius Furtado da Silva Oliveira √© doutorando em hist√≥ria e cultura pol√≠tica pela Unesp/Franca. Escreveu Em um rabo de foguete: trauma e cultura pol√≠tica em Ferreira Gullar (Funda√ß√£o Astrojildo Pereira/ Contraponto, 2016); membro da incubadora cultural Cupim Liter√°rio (Uberaba ¬Ė MG).

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Notas

[1] Vacca, Giuseppe. Vida e pensamento de Antonio Gramsci. Brasília/ Rio de Janeiro, FAP/ Contraponto, 2012.

[2] Os apontamentos de Vacca em torno da teoria da interpend√™ncia em Gramsci se mostram como aprofundamento de reflex√Ķes anteriores que remontam o in√≠cio dos anos 1990. Para consultar tais reflex√Ķes ver: Vacca, Giuseppe. Pensar o mundo novo ¬Ė rumo √† democracia do s√©culo XXI, S√£o Paulo, √Ātica, 1996.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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