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Gullar: o homem ainda est√° na cidade

Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira - Dezembro 2016
 


Ferreira Gullar, no grandioso Poema sujo, pensando sobre as v√°rias velocidades e tempos pelos quais as exist√™ncias se desenrolam, afirmou que "variados s√£o os modos como uma coisa est√° em outra". Hoje, Gullar n√£o est√° mais na cidade, n√£o caminha mais pelas quitandas nem observa as bananas que apodrecem como a pr√≥pria vida. Todavia, Gullar permanece em n√≥s, uma voz firme como um rel√Ęmpago capaz de gerar os espantos necess√°rios √† cria√ß√£o.

No escuro desses tempos dif√≠ceis, a voz de Gullar continua ressoando como um alerta contra as simplifica√ß√Ķes e os dogmatismos. Sua √ļltima cr√īnica, publicada na Folha de S. Paulo, o demonstra, revelando o homem que aprendeu, a partir dos traumas e das derrotas, a fal√™ncia da revolu√ß√£o e do socialismo, mas que manteve, inabal√°vel, a perspectiva da constru√ß√£o de uma sociedade mais igualit√°ria e justa.

Sua trajet√≥ria, a qual acompanhei durante alguns anos como objeto de pesquisa, acompanha as grandes transforma√ß√Ķes e ang√ļstias do s√©culo XX e in√≠cio do XXI. Em todos os momentos, Gullar esteve disposto a se lan√ßar ao debate p√ļblico, com sua poesia ou suas interven√ß√Ķes pol√≠ticas.

Nos anos 1950, recém-chegado ao Rio, se engaja nas vanguardas artísticas, fazendo parte dos movimentos concretista e neoconcretista. Na breve e profunda mudança para Brasília no início dos anos 1960, percebe que as vanguardas o levaram ao silêncio; e no contato com os trabalhadores candangos preenche o silêncio com a política. Assume a presidência do CPC da UNE e, no dia do golpe de 1964, filia-se ao Partidão.

Sempre contr√°rio¬†√† via armada para a derrubada do regime militar, Gullar se contrap√īs aos militares no terreno em que eram mais fracos, a pol√≠tica. Apesar disso, terminou clandestino e exilado no in√≠cio dos anos 1970.

No ex√≠lio, experimenta o autoritarismo dos comunistas da URSS e dos militares chilenos e argentinos. Na busca pela sobreviv√™ncia, imerso em sua pr√≥pria trajet√≥ria, comp√Ķe em Buenos Aires sua maior obra, o Poema sujo. O poema emociona a todos e chega ao Brasil como uma aus√™ncia, em uma fita cassete com a voz do poeta, que retorna somente alguns anos mais tarde.

No contato com o autoritarismo e a derrota de Allende, Gullar percebe os problemas da esquerda revolucionária e afirma não estar mais disposto a conciliar com os radicalismos tolos. Nos anos 1980, em um poema em homenagem aos 60 anos do PCB, acerta as contas com a cultura política pecebista, mantendo em si aquilo de mais essencial, a vontade de justiça e a necessidade da política.

Mesmo fora da pol√≠tica partid√°ria, Gullar nunca abandona a pol√≠tica. Prossegue intervindo no debate pol√≠tico nacional, apontando desde o in√≠cio os problemas do petismo e mantendo-se firme na defesa da democracia e do esp√≠rito republicano, pensando a necessidade da transforma√ß√Ķes da sociedade brasileira a partir de uma chave reformista.

Assim, fica em nós de Gullar, além, é claro, da sensibilidade incrível de sua poesia, que certamente será ressaltada por muitos, a figura de um homem que sempre combateu pela igualdade, por aquela vida banal que descreveu milimetricamente em seus versos.

Em muitos poemas, Gullar abordou a morte e suas rela√ß√Ķes com o tempo dos vivos. Escrevendo sobre a morte de Clarice Lispector, Gullar observou as pedras e pensou que existiam independentes e exteriores √† morte da amiga. Todavia, feitos de carne, continuamos a existir, numa tarde de dezembro, carregando os maxilares de nossos mortos, como naquele poema de Drummond que Gullar sempre citava.

O corpo de José Ribamar Ferreira morreu, Ferreira Gullar certamente está presente.

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Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira é historiador, mestre em História na Unesp/Franca e doutorando do Programa de Pós-Graduação em História e Cultura.




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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