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O que é ser de esquerda, hoje

Marcus Vinícius de Oliveira - Fevereiro 2014
 

Almeida, Francisco Inácio de (org.). O que é ser de esquerda, hoje? Brasília: Fundação Astrojildo Pereira/ Rio de Janeiro: Contraponto, 2013. 298p.

√Č precisamente no final do s√©culo XVIII, no processo hist√≥rico da Revolu√ß√£o Francesa, que surgem as no√ß√Ķes pol√≠ticas contempor√Ęneas acerca do que √© direita e esquerda. Todavia, mesmo em fins de s√©culo XX e in√≠cio de XXI, o debate em torno da caracteriza√ß√£o desses dois polos, bem como das raz√Ķes de sua distin√ß√£o, parece n√£o esgotar-se facilmente. √Č, portanto, a partir do pressuposto da validade e da necessidade da discuss√£o em torno do que √© ser esquerda hoje que se sustenta a proposta desta colet√Ęnea.

O livro √© fruto da Confer√™ncia Nacional Caio Prado Jr., organizada em 2007 na cidade de Bras√≠lia pela Funda√ß√£o Astrojildo Pereira e pelo PPS - Partido Popular Socialista. A confer√™ncia reuniu diversos pol√≠ticos, intelectuais, jornalistas, professores, artistas, entre outros, para pensar a trajet√≥ria da "esquerda no mundo e no pa√≠s, com vistas a uma conceitua√ß√£o te√≥rica e program√°tica do que deve ser uma esquerda contempor√Ęnea" (p. 9). Nesse sentido, o livro apresenta 44 textos de autores diferentes que procuram apontar caminhos e perspectivas diversas no que tange ao problema posto na Confer√™ncia.

A grande quantidade de textos e reflex√Ķes dispostas no livro √© uma demonstra√ß√£o da preocupa√ß√£o dessa esquerda contempor√Ęnea com a pluralidade dos temas e dos sujeitos, que coexistem no interior de uma sociedade democr√°tica. Exemplos dessas preocupa√ß√Ķes s√£o os textos que abordam o di√°logo com os movimentos sociais, quest√Ķes de g√™nero e de meio ambiente. Portanto, temos em m√£os uma compila√ß√£o de escritos bastante ampla. Em raz√£o disso, √© imposs√≠vel passar em revista todos os textos publicados, de modo que o que se encontra aqui discutido √© uma sele√ß√£o daquilo que julgamos mais destacado entre tantas reflex√Ķes.

Assim, abordando mais especificamente o livro, a confer√™ncia solene de abertura proferida pelo professor Jos√© de Souza Martins traz alguns pontos importantes e essenciais que nos permitem nortear o debate e as a√ß√Ķes das esquerdas no Brasil contempor√Ęneo. Para Martins, mesmo ap√≥s as cr√≠ticas e a fal√™ncia do socialismo sovi√©tico, o pensamento de Marx ainda permanece v√°lido. No entanto, tal validade aparece condicionada a uma releitura de Marx operada no tempo presente, em um processo de depura√ß√£o que visaria a capturar aquelas an√°lises que ainda podem dar conta de nossa realidade. Nesse sentido, segundo Martins, o grande desafio da esquerda hoje √© a recupera√ß√£o da dial√©tica no intuito de compreens√£o da realidade brasileira e, no campo pr√°tico, agir em nome do historicamente poss√≠vel e n√£o do politicamente permitido.

Seguindo esse raciocínio, Martins promove uma análise interessante acerca do petismo. Para o sociólogo, ainda que o PT se utilize de uma retórica de esquerda, este não é um partido capaz de se pautar em uma práxis transformadora, em virtude de suas origens baseadas no "agrarismo social nutrido pelos valores mais significativos da tradição conservadora" (p. 52).

No que se relaciona ao petismo, ou mais especificamente ao lulismo, a interven√ß√£o de Rud√° Ricci tamb√©m contribui no sentido de explicitar o distanciamento do PT em rela√ß√£o √†s esquerdas. Partindo de uma caracteriza√ß√£o de esquerda ancorada na descentraliza√ß√£o do poder e na democracia participativa, Ricci argumenta que o lulismo √© composto por tr√™s elementos que o afastam do espectro de esquerda: o pragmatismo sindical, o liberalismo econ√īmico e o controle burocr√°tico.

O texto de Alberto Aggio lan√ßa luz √† compreens√£o e revis√£o de uma das ideias mais caras √†s esquerdas: a revolu√ß√£o. Aggio enfatiza que o conceito de esquerda √© essencialmente contextual e situacional, definindo-se a partir de determinado tempo hist√≥rico e em rela√ß√£o a determinado espectro pol√≠tico. Assim, em rela√ß√£o ao tempo presente, o historiador sugere a necessidade da exist√™ncia de uma esquerda contempor√Ęnea, reformista e transformadora.

Para tanto, em di√°logo com Giuseppe Vacca, Aggio aponta o anacronismo da oposi√ß√£o entre reforma e revolu√ß√£o desde os anos 1930. Isso ocorre porque, segundo Vacca, "o capitalismo √© um modo de produ√ß√£o, o socialismo √© um crit√©rio de regula√ß√£o do desenvolvimento econ√īmico, que, portanto, n√£o se contrap√Ķe ao primeiro, mas prop√Ķe-se a orient√°-lo" (p. 103). Diante disso, a revolu√ß√£o deixa de ser o fiat do desenvolvimento hist√≥rico, abrindo espa√ßo, portanto, para uma a√ß√£o reformista e transformadora que pode ser protagonizada pela esquerda.

Tamb√©m caminhando a partir do referencial te√≥rico gramsciano, Raimundo Santos procura valorizar a pol√≠tica enquanto possibilidade de interven√ß√£o coletiva na realidade, pensando na import√Ęncia da tradi√ß√£o pecebista no cen√°rio pol√≠tico atual. A primeira contribui√ß√£o dessa tradi√ß√£o pode ser extra√≠da do conceito de revolu√ß√£o passiva de Gramsci, encarada aqui como crit√©rio de interpreta√ß√£o e de a√ß√£o na realidade. Nesse sentido, tomando consci√™ncia das poderosas for√ßas hegem√īnicas que controlam as transforma√ß√Ķes, de modo conservador e pelo alto, √© necess√°rio articular amplas for√ßas "com vistas a configurar um governo que n√£o s√≥ minor[e] os efeitos negativos da globaliza√ß√£o como alar[gue] a incorpora√ß√£o social com base em um novo ciclo de crescimento" (p. 221).

O segundo ponto elencado por Santos parte das reflex√Ķes estabelecidas por Caio Prado Jr. Para Santos, Caio Prado Jr concebeu a revolu√ß√£o brasileira como um processo programado que visava √† reestrutura√ß√£o do capitalismo, marcado pela generaliza√ß√£o insuficiente dos benef√≠cios da modernidade econ√īmica e social. Deste modo, uma pol√≠tica de esquerda contempor√Ęnea deve levar em conta a amplia√ß√£o desses benef√≠cios do moderno para o Brasil.

Portanto, notamos at√© aqui que a obra oferece uma pluralidade de temas, reflex√Ķes e respostas para o problema central posto na Confer√™ncia Caio Prado Jr. No entanto, √© preciso tamb√©m perceber o que h√° de comum entre essa ampla variedade de an√°lises e perspectivas, no intuito de perceb√™-las em sua historicidade. Por mais que se distanciem, parece haver um centro comum de onde se irradia grande parte das an√°lises existentes: o reformismo e a defesa da democracia. Esse centro comum aparece com nitidez na apresenta√ß√£o escrita por Francisco In√°cio de Almeida:
Da nossa parte, o pluralismo cultural e a opção pelo diálogo entre vertentes reformadoras é o que se pretende buscar para a construção de um movimento político que tenha sólidas bases programáticas e cujo eixo fundamental seja a Constituição de 1988 e uma adesão sem ambiguidades ao moderno Estado democrático de Direito (ALMEIDA, 2013, p. 11).

√Č necess√°rio pensar historicamente o surgimento dessa esquerda democr√°tica e reformista. Deu-se nos anos 1970 o in√≠cio de um processo hist√≥rico de ruptura na cultura pol√≠tica das esquerdas no Brasil, de modo que a revolu√ß√£o deixa de ser o foco principal, cedendo lugar √† democracia. Tal ades√£o √† democracia se explica, sobretudo, em raz√£o tanto da rejei√ß√£o ao autoritarismo do Estado brasileiro quanto¬†da difus√£o de novos referenciais te√≥ricos, especialmente aqueles vindos do pensador italiano Antonio Gramsci.

Nessa perspectiva, as esquerdas dos anos 1970, que percorrem o longo processo de transi√ß√£o rumo √† democracia, tamb√©m guardam determinadas continuidades em rela√ß√£o aos debates desenvolvidos nos anos 1960. A discuss√£o ent√£o travada em torno do car√°ter complementar ou antag√īnico de democracia social e democracia pol√≠tica nos permite observar o que depois seria a diversidade entre as estrat√©gias de combate √† ditadura militar: sumariamente, a estrat√©gia da derrubada e a da derrota pol√≠tica daquele regime, como j√° apontou com precis√£o Luiz Werneck Vianna.

Assim, partindo dessa discuss√£o, podemos apontar que a esquerda representada nas diversas an√°lises contidas na obra herda ou mesmo continua e aprofunda a cultura pol√≠tica democr√°tica iniciada no √Ęmbito das esquerdas brasileiras que lutaram contra o regime militar por meio da estrat√©gia de derrota do regime militar. Nesse sentido, a caracteriza√ß√£o acerca do que √© ser de esquerda hoje, no Brasil, parte dessa posi√ß√£o pol√≠tica constru√≠da historicamente ao longo das √ļltimas d√©cadas.

Portanto, o presente livro, al√©m de apontar caminhos e reflex√Ķes importantes em rela√ß√£o aos desafios contempor√Ęneos das esquerdas no Brasil, demonstra que o processo de constru√ß√£o de uma esquerda democr√°tica ainda se encontra aberto, visto que h√° ainda amplos setores das esquerdas que n√£o aderiram √† democracia como um valor em si, compreendendo-a ainda como um instrumento. O livro deve ser encarado, assim, como uma diversificada e importante contribui√ß√£o no sentido de agu√ßarmos nossa percep√ß√£o a respeito da constru√ß√£o hist√≥rica de uma determinada cultura pol√≠tica democr√°tica e reformista - um alicerce indiscutivelmente necess√°rio √† constru√ß√£o de novos projetos coletivos para o Brasil.

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Marcus Vinícius de Oliveira é mestrando em História na Unesp/Franca.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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