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O que os dissidentes dizem sobre nós

Luiz Sérgio Henriques - Março 2013
 


O exemplo n√£o ser√° de todo adequado, pois gira em torno de personagens da alta cultura, a saber, o romancista russo Alexander Soljenitsin e o fil√≥sofo h√ļngaro Georg Luk√°cs. O primeiro, como se sabe, pr√™mio Nobel de Literatura em 1970, foi um famoso "dissidente" no pr√≥prio pa√≠s - a origin√°ria "p√°tria do socialismo" -, com dimens√£o simb√≥lica internacional semelhante √† do f√≠sico Andrei Sakharov. Cabe dizer que, como tantos outros oposicionistas do ent√£o bloco socialista do Leste europeu, figuras assim eram vistas como embara√ßo por boa parte da esquerda ocidental, ao se erguerem internamente contra as estruturas do socialismo realmente existente em nome da democracia e dos direitos humanos.

Georg Luk√°cs, fil√≥sofo comunista de cepa irretoc√°vel, nunca foi um grande pensador da pol√≠tica: seu leninismo, mesmo em √©poca bastante tardia, levou-o a imaginar um improv√°vel retorno da URSS, j√° definitivamente enrijecida, aos tempos fervilhantes da revolu√ß√£o e da democracia direta. O fil√≥sofo, no entanto, teve a coragem de romper uma barreira espiritual quase intranspon√≠vel, ao analisar e saudar, na d√©cada de 1960, o sopro de renova√ß√£o trazido pelas narrativas de Soljenitsin, especialmente Um dia na vida de Ivan Denisovitch, Primeiro c√≠rculo e Pavilh√£o dos cancerosos. Obras-primas da literatura e den√ļncias fundamentais do stalinismo.

Talvez sejam exemplos solenes demais para o caso de Yoani Sánchez, uma mulher deste nosso admirável mundo novo das redes sociais, que, tanto quanto se sabe, reporta com vivacidade, em blog, o cotidiano de Cuba, esta outra "pátria socialista", agora em dimensão mais propriamente latino-americana. Yoani, retratando o dia a dia dos cubanos, ou de uma parte deles, por certo não escreveu nada parecido com a saga do Ivan Denisovitch num gulag soviético, mas, tal como Soljenitsin, é uma dissidente. E tantos anos depois este tipo de personagem ainda é encarado como estorvo ou mesmo como presença a ser rejeitada, no Brasil redemocratizado da Constituição de 1988 e com a presidência legalmente posta nas mãos de um partido de esquerda - de resto, fato inédito e digno de comemoração cívica.

Se Yoani, com o respeito que se deve a quem vive em condi√ß√Ķes adversas por causa das suas ideias, n√£o √© o Soljenitisin daqueles romances mencionados, seus detratores brasileiros ostentam credenciais que merecem tamb√©m ser examinadas com o mesmo ou at√© maior rigor. Foram al√©m de vaiar ou se manifestarem dos mais variados meios leg√≠timos contra a presen√ßa da cubana, sem lhe amea√ßar a integridade f√≠sica. Fizeram algo muito diferente de, valendo-se dos recursos que a democracia a todos permite, reunirem-se em defesa da causa de Cuba - de uma determinada vis√£o de Cuba - ou de, para dar um exemplo quase autom√°tico, protestarem contra o anacr√īnico bloqueio americano. Foram muito al√©m disso tudo, e cabe examinar brevemente por que foram.

A vis√£o de que o mundo se reparte em mocinhos e bandidos conheceu - exatamente com a consolida√ß√£o do poder de Stalin, h√° quase 100 anos! - uma inusitada expans√£o para as rela√ß√Ķes interestatais. V√°rias gera√ß√Ķes de comunistas, que no Ocidente e fora do poder, em geral combatiam boas causas em defesa dos subalternos, passaram a entender o mundo como o conflito irreconcili√°vel entre um pa√≠s que "encarnava" o socialismo e seus oponentes capitalistas ou imperialistas. Na falta de uma articula√ß√£o democr√°tica interna da p√°tria socialista, quem dissentia era literal e metaforicamente demonizado: n√£o faltou quem chamasse Trotski, derrotado na luta interna, de "puta do fascismo" (o que, diga-se de passagem, n√£o quer dizer que Trotski fosse garantir sorte melhor aos seus advers√°rios, caso tivesse vencido). Bukharin, art√≠fice de uma rela√ß√£o menos tensa com o imenso mundo campon√™s √†s v√©speras coletiviza√ß√£o for√ßada, em 1928, apareceria alguns depois, humanamente arrasado, num dos infames processos de Moscou, na √©poca do Grande Terror. Como se sabe, seria eliminado como "inimigo do povo". E, sem terminar o rol da intoler√Ęncia, no auge do sectarismo comunista os social-democratas eram, pura e simplesmente, "social-fascistas" - piores at√© do que os fascistas e os nazistas.

O h√°bito de designar religiosamente - no mau sentido da palavra, um sentido que a aproxima do fanatismo e do esp√≠rito inquisitorial - um pa√≠s como a "p√°tria do socialismo" n√£o se limitou √† antiga URSS. O fasc√≠nio ideol√≥gico podia se deslocar para outros altares, como aconteceu com a China do mao√≠smo e da revolu√ß√£o cultural e, em momento sucessivo, at√© mesmo a Alb√Ęnia do camarada Enver Hodja, tida numa certa √©poca, inclusive por corrente pol√≠tica hoje participante da coaliza√ß√£o governista no Brasil, como o "verdadeiro farol do socialismo". Paci√™ncia, aqui j√° estamos naquilo que o saudoso Stanislaw Ponte Preta chamava de "o perigoso terreno da galhofa"...

Este tipo de representa√ß√£o do mundo, de matriz stalinista, n√£o √© inocente. Quem forma a pr√≥pria cabe√ßa e a alma neste catecismo elementar incapacita-se, necessariamente, para o exerc√≠cio da an√°lise cr√≠tica, diferenciada. No para√≠so que imagina, n√£o consegue supor a exist√™ncia de pessoas e grupos pol√≠ticos e sociais que divirjam, que pensem diferente, que tenham outras vis√Ķes das coisas e do pr√≥prio pa√≠s. No inferno que esquematiza - no caso, a matriz ianque do imperialismo -, n√£o consegue visualizar a rica cultura pol√≠tica fundadora, sua pr√≥pria origem revolucion√°ria, a din√Ęmica social e econ√īmica multissecular que atraiu pensadores como Gramsci, bem como a inova√ß√£o "epocal" representada pelo reformismo rooseveltiano ou pela batalha dos direitos civis de Luther King.

Ao contr√°rio de tudo isso, o mundo, tal como ensinado por Stalin, divide-se em Disneyl√Ęndias opostas, uma de tipo consumista, outra de tipo ideol√≥gica. E ambas falsas e ilus√≥rias, a fanatizar, estreitar e limitar os esp√≠ritos. E, tamb√©m, a limitar o horizonte pol√≠tico e cultural da pr√≥pria esquerda, que teria a obriga√ß√£o de defender as liberdades sempre e em toda parte, muito especialmente, como queriam o liberal Voltaire e a revolucion√°ria Rosa, a liberdade de quem pensa de modo diferente.

Yoani, depois de v√°rias tentativas, conseguiu exercer o direito elementar de sair de Cuba e enfim, entre n√≥s, prestar um testemunho subjetivo e, por certo, parcial, sobre as coisas, as pessoas e as institui√ß√Ķes que vivencia e com que se defronta e confronta todos os dias. A ilha, por seu turno, n√£o est√° imobilizada no tempo: tem conhecido ultimamente reformas econ√īmicas que, pelo menos na teoria, privilegiam a iniciativa dos indiv√≠duos e limitam a paralisia asfixiante que parece caracter√≠stica irremov√≠vel dos regimes extremamente centralizados e "estat√≥latras".

Tudo isso √© positivo, mas n√£o basta. Al√©m do dinamismo econ√īmico, a transi√ß√£o cubana, que s√≥ os voluntariamente cegos n√£o veem j√° estar em pleno curso, precisaria assentar numa sociedade civil viva, feita de uma multiplicidade de indiv√≠duos livres e capazes de pensar por si mesmos, como a pr√≥pria Yoani. E feita tamb√©m, evidentemente, de um tecido associativo que a resguarde de restaura√ß√Ķes mafiosas, tal como a que, ali√°s, aconteceu na antiga matriz sovi√©tica, e d√™ alento a uma nova esquerda capaz de se movimentar no ambiente liberado das travas (e das trevas) do partido-Estado - ambiente que, n√£o tenhamos d√ļvida, mais cedo ou mais tarde vir√°.

Ao falar deste tipo de questão, estamos falando também de nós, do tipo de esquerda que temos (pelo menos em parte) e das suas estruturas mentais forjadas, como o enferrujado aço stalinista, no tempo da guerra fria. A propósito, não custa nada tirar da prateleira ou xeretar nos sebos o Ivan Denisovitch e os ensaios lukacsianos que acolheram este Soljenitsin. Podiam ser um bom começo de conversa.

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Luiz Sérgio Henriques é o editor de Gramsci e o Brasil.

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Fonte: Pittacos & Gramsci e o Brasil.

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