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O PCB-PPS e a cultura brasileira: apontamentos

Ivan Alves Filho - Outubro 2011
 

O PCB não se tornou o maior partido do Ocidente, nem mesmo do Brasil. Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele. Ou estará mentindo (Ferreira Gullar, durante os 60 anos do PCB).  

(Dedicamos este trabalho aos intelectuais, artistas e escritores que deram o melhor de seus esforços à construção de uma cultura identificada com aquilo que o povo brasileiro tem de melhor, ou seja, a sua criatividade e alegria.)

I

Em 1922, a sociedade brasileira vivia uma extraordin√°ria efervesc√™ncia cultural e pol√≠tica, materializada pela funda√ß√£o do Partido Comunista, ¬†pela inaugura√ß√£o da Semana de Arte Moderna, pelo Primeiro Congresso¬†Feminista e, tamb√©m, pela explos√£o da Revolta do Forte de Copacabana.¬†Um ano de cortar o f√īlego.¬†¬†

O Partido Comunista - cuja trajet√≥ria nos interessa mais de perto aqui - surge ent√£o com uma dupla caracter√≠stica. De um lado, trata-se de¬†uma agremia√ß√£o pol√≠tica que se quer profundamente brasileira, com a proposta de se entranhar nas lutas sociais e nacionais. De outro, apresenta um perfil internacionalista, profundamente solid√°rio dos povos em luta. Al√©m disso, √© um partido que ambiciona governar para os setores menos¬†favorecidos da popula√ß√£o, com a classe oper√°ria √† frente. E tudo isso √©¬†muito novo, para os padr√Ķes do pa√≠s e para a √©poca. Se o Partido obteve ou n√£o √™xito em sua fun√ß√£o, trata-se de outro problema.¬†¬†

De toda forma, com voca√ß√£o para lutar pela democracia, conforme se ¬†verificaria com o correr do tempo, o Partido Comunista Brasileiro daria uma contribui√ß√£o importante √† vida¬†nacional. Sen√£o vejamos. Foi o primeiro agrupamento a defender, j√° em 1923, a¬†implanta√ß√£o de uma reforma agr√°ria entre n√≥s (exig√™ncia essa que guarda¬†ainda uma certa atualidade, ao menos no plano social). E foi tamb√©m o primeiro a propor uma pol√≠tica¬†relativamente ampla de alian√ßas, conforme o atesta a forma√ß√£o do Bloco Oper√°rio¬†Campon√™s (BOC, 1928) e da pr√≥pria Alian√ßa Nacional Libertadora (ANL,¬†1935). Isso, para n√£o aludirmos √† cria√ß√£o, em 1967, da Frente Ampla, uma tentativa de combater a ditadura militar. Mais: a partir da chamada "Declara√ß√£o¬†de Mar√ßo de 1958", o PCB elege a democracia como o espa√ßo para a¬†supera√ß√£o da ordem vigente no Brasil. Foi com essa firme determina√ß√£o¬†que a maioria do Partido optou por derrotar politicamente - e n√£o¬†derrubar pela for√ßa das armas - a ditadura pol√≠tico-militar instalada no pa√≠s desde 1¬ļ.¬†de abril de 1964. N√£o deu outra, a Hist√≥ria daria raz√£o aos comunistas, apesar de o partido ter cometido alguns equ√≠vocos s√©rios no decorrer de sua hist√≥ria.

Um dos herdeiros da tradi√ß√£o pecebista, no que ela possu√≠a de positivo e tamb√©m de negativo, o Partido Popular Socialista (PPS) d√°¬†continuidade hist√≥rica a algumas das propostas do PCB. Mas, de certa forma, sua entrada na cena brasileira tamb√©m representa uma ruptura com¬†determinadas pr√°ticas e mesmo concep√ß√Ķes desse Partido. Pois¬†o PPS compreendeu que a¬†sociedade brasileira √© plural, complexa, e que no caminho pol√≠tico nacional n√£o h√° espa√ßo para um modelo autorit√°rio de partido √ļnico. E¬†tampouco para exclus√Ķes de qualquer natureza. Nesse sentido, o Partido¬†se quer continuidade, mas tamb√©m mudan√ßa. Talvez at√© mais mudan√ßa do que continuidade, no entender de alguns.

A cultura sempre aproximou o PCB-PPS da popula√ß√£o brasileira. Nos tempos mais agudos da clandestinidade, ela¬†chegou a ser, praticamente, a √ļnica forma de o Partido estabelecer um¬†v√≠nculo permanente com a sociedade organizada. Os comunistas n√£o est√£o muito¬† longe de ter uma concep√ß√£o de cultura como uma esp√©cie de estar no mundo, uma¬†rela√ß√£o social entre indiv√≠duos. Para os comunistas, a cultura √© uma¬†ferramenta de transforma√ß√£o do mundo real. E o homem, ator da sua¬†pr√≥pria hist√≥ria. Isso, em teoria. Mas a pr√°tica pecebista n√£o apresenta nenhum corte entre o mundo real e a vis√£o que se tem desse mesmo mundo. Pr√°tica e teoria como que se fundiram, nesse caso. A cultura une.

Como explicar o engajamento pol√≠tico dos¬†intelectuais e artistas brasileiros no Partido Comunista? Provavelmente n√£o existe¬†resposta √ļnica a essa pergunta. Certamente h√° por parte dos¬†intelectuais uma postura generosa diante das mazelas sociais que¬†afligem o pa√≠s e um desejo de super√°-las. N√£o h√° como negar tampouco que alguns deles enxergavam no socialismo uma possibilidade de realizar¬†suas expectativas de trabalho, seus anseios profissionais, pelo menos de forma mais efetiva (apesar de, como observou o cientista pol√≠tico Paulo C√©sar Nascimento, muitos desses intelectuais e artistas j√° serem homens consagrados quando se aproximaram do PCB). Outros intelectuais e artistas,¬†ainda, se sentiam atra√≠dos pela possibilidade de contribuir para a forma√ß√£o da identidade brasileira. Ou talvez tudo isso junto, quem sabe.¬†

E conv√©m salientar que os intelectuais - considerados por Antonio Gramsci como uma categoria cujo peso pol√≠tico ganhava autonomia em rela√ß√£o at√© mesmo √†s divis√Ķes de classes verificadas na sociedade burguesa - dificilmente se deixariam conduzir de forma subalterna pela dire√ß√£o partid√°ria. Eis o que contribuiu, historicamente, para arejar o Partido, uma organiza√ß√£o extremamente centralizada em alguns momentos de sua trajet√≥ria pol√≠tica. Nesse sentido, √© interessante observar que a pol√≠tica cultural do Partido extrapola o¬†pr√≥prio √Ęmbito do Partido, ou seja, nada tinha de estreita, voltada para dentro. Em alguns momentos, √© verdade, houve atritos s√©rios com a intelectualidade nacional, mas o Partido compreenderia que¬†era preciso respeitar a liberdade de cria√ß√£o dos artistas e intelectuais, sobretudo ap√≥s os ventos libert√°rios trazidos pela "Declara√ß√£o de Mar√ßo de 1958", na esteira do desmoronamento do sistema stalinista. Assim, sua proposta cultural interpela, quase sempre, amplos setores da sociedade. A pol√≠tica cultural era encarada, ao menos em certos per√≠odos da trajet√≥ria partid√°ria, como uma pol√≠tica voltada para a sociedade e n√£o para dentro do pr√≥prio Partido. E mais: era preparada ou estabelecida, sobretudo a partir de 1958, √© sempre bom lembrar, pelos pr√≥prios criadores de cultura. S√≥ assim o PCB (e, agora, o PPS, de certa maneira) p√īde come√ßar a se fazer necess√°rio na cena cultural brasileira. O Partido nunca se apoderou da m√°quina do Estado, ou esteve no Poder, √© bem verdade; mas talvez tenha constru√≠do algo melhor. Vale dizer, uma s√≥lida rela√ß√£o com a chamada sociedade civil, que ele buscava oxigenar com suas ideias e proposi√ß√Ķes.¬†¬†¬†

Não seria muito complicado para o PCB estabelecer pontes entre a cultura elaborada pelos intelectuais e a prática política popular. Por uma razão: o Partido soube compreender, talvez instintivamente, que a síntese era a principal característica da cultura brasileira. Soube mover-se nesse ambiente.  

N√£o h√° exagero em afirmar que o Partido contribuiu para estruturar a cultura brasileira contempor√Ęnea, por interm√©dio de instrumentos como jornais, revistas, livros e grupos de teatro e cinema. Uma parte da identidade cultural brasileira¬†(isto √©, aquilo¬†que a caracteriza e diferencia das demais pr√°ticas culturais) ao longo do s√©culo XX √© forjada a√≠, pelos setores mais criativos da milit√Ęncia partid√°ria.¬†Eis o que talvez explique a¬†presen√ßa de nomes t√£o ilustres da intelectualidade e da cria√ß√£o¬†art√≠stica brasileira no PCB-PPS. Essa liga√ß√£o com a intelectualidade¬†era t√£o pr√≥xima que a crise do PCB significou tamb√©m, em certa medida, a¬†crise da pr√≥pria cultura brasileira. Parafraseando o poeta, √©¬†imposs√≠vel escrever a hist√≥ria da nossa cultura sem falar no PCB - sob muitos aspectos, uma esp√©cie de¬†partido da intelig√™ncia brasileira.

II

Vamos ver rapidamente o que entendemos por cultura. O termo cultura possui uma longa hist√≥ria - t√£o longa quanto a hist√≥ria dos homens, nunca √© demais lembrar.¬†Ligado inicialmente √† ideia de cultivo - o que nos remete a algo naturalmente pr√°tico -, o termo cultura passou a designar, genericamente, as atividades relacionadas √†s coisas do esp√≠rito. Hoje¬†o termo¬†tende a sofrer uma nova muta√ß√£o, refletindo um certo estar no mundo. Essa no√ß√£o tem a vantagem de unificar¬†aquilo que √© pr√°tico¬†ao que √© tamb√©m reflexivo e, mesmo, l√ļdico. A rigor, esse sempre foi o papel da cultura. O diferencial que pode emergir hoje √© a autonomia crescente do fato cultural, impondo-se diretamente sem institui√ß√Ķes intermedi√°rias ou matrizes tradicionais, como as igrejas e o pr√≥prio Estado.

Enquanto conjunto de representa√ß√Ķes imagin√°rias e sensitivas da popula√ß√£o, a cultura √©, na verdade, uma forma de estar no mundo. Ou seja, um elemento gerador de identidades. Uma cria√ß√£o coletiva, a qual pressup√Ķe um objeto e um sujeito (sem que haja domina√ß√£o e, sim, intera√ß√£o entre eles). Por isso, ela n√£o pode ser reduzida √† simples dimens√£o de um produto. Algo para a venda. Pois ela vai muito al√©m disso - a cultura,¬†pode-se dizer,¬†estrutura nossas personalidades.¬†Ela √©¬†deposit√°ria das nossas mem√≥rias. Das nossas recorda√ß√Ķes de inf√Ęncia. Dos ritmos, cores e cheiros da nossa vida. Dos nossos¬†gostos, paladares, sonhos, tatos, devaneios, dan√ßas. Dos nossos olhares e dos nossos pesares.¬†A cultura √© tudo isso e muito mais. Ou seja, ela forja cidad√£os - os mais completos poss√≠veis. Cidad√£os que se valem da sua principal arma: os cinco sentidos¬†que humanizam o homem.

O Brasil se apresenta hoje como um dos pa√≠ses mais importantes do mundo, tanto em extens√£o territorial quanto em densidade populacional ou presen√ßa industrial. Mais: ao longo do s√©culo XX, o Brasil se configurou como um dos pa√≠ses mais criativos nos marcos da chamada cultura ocidental. Da arquitetura de Bras√≠lia ao Cinema Novo, da m√ļsica de Villa-Lobos √† Bossa Nova e √† MPB, da Semana de Arte Moderna de 1922 ao Teatro do Oprimido e deste √†s manifesta√ß√Ķes esportivas mais diversas, a cultura brasileira tomou parte ativa na constru√ß√£o do mundo moderno. Intelectuais, artistas, escritores e desportistas do porte de Oscar Niemeyer, Josu√© de Castro, Celso Furtado, Graciliano Ramos, Pel√©, Jorge Amado, Guerra Peixe, Humberto Mauro, Milton Santos, Ferreira Gullar, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e tantos outros s√£o admirados em v√°rios pontos do mundo.

Nesse sentido, a trajet√≥ria cultural brasileira nos parece t√£o vigorosa quanto aquela da Espanha republicana, a Espanha de Garcia Lorca, Rafael Alberti, Luis Bu√Īuel, Antonio Machado, Pablo Casals e Pablo Picasso. Ou aquela da R√ļssia, com Vladimir Maiakovski, Sierguei Eisenstein, Dziga Vertov, Marc Chagall, Malevitch, Maximo Gorki, Kandinsky e muitos outros. Ou ainda da pr√≥pria It√°lia, com Antonio Gramsci, Norberto Bobbio, Italo Calvino, Vittorio de Sica e a turma do neorrealismo, Umberto Eco. Isso, para n√£o aludirmos √† verdadeira explos√£o de criatividade manifestada pela cultura judaica na Europa Central, revelando ao mundo nomes como Franz Kafka, S. Freud, G. Luk√°cs, Walter Benjamin e W. Reich - todos homens de express√£o alem√£.

Sem medo de errar, dir√≠amos que Brasil, Espanha, It√°lia, R√ļssia e Europa Central foram os grandes centros irradiadores da modernidade neste s√©culo XX. E, n√£o por acaso, essas √°reas enfrentaram a f√ļria do autoritarismo, tiveram seus destinos marcados pela trucul√™ncia pol√≠tica. Mas n√£o se dobraram. A cultura, no fundo, √© o outro nome da liberdade.

A cultura tem um papel de destaque na luta mais geral pela reconstru√ß√£o do Brasil, sobretudo na era da sociedade do conhecimento e das chamadas ind√ļstrias criativas. A extens√£o dos nossos problemas √© realmente preocupante, tamanha a velocidade do desmoronamento da esfera p√ļblica no Brasil. H√° uma verdadeira esquizofrenia social entre n√≥s. Os n√ļmeros e indicativos econ√īmicos s√£o alvissareiros, alardeia uma certa imprensa - mas a tens√£o social s√≥ faz aumentar, a verdade √© essa. Cerca de 50 mil pessoas s√£o assassinadas por ano no pa√≠s. O fosso entre aqueles que muito possuem e aqueles que praticamente nada possuem s√≥ faz crescer e o mesmo acontece com a desesperan√ßa no cora√ß√£o das pessoas. Impressiona o n√ļmero de jovens desempregados e a falta de perspectivas de muitos deles: dados oficiais admitem que metade dos jovens entre 18 e¬† 24 anos n√£o encontra trabalho. O cinismo de determinados governantes, a decad√™ncia que toma conta das nossas ruas, tudo isso assusta o povo brasileiro. O Estado vai para um lado e a sociedade para outro, em uma valsa do desencontro. A cultura talvez possa estabelecer determinadas pontes.

N√≥s nos arriscar√≠amos at√© a dizer que houve um tempo em que se discutia a quest√£o agr√°ria, a quest√£o do voto eleitoral para este ou aquele setor da sociedade, debatia-se at√© mesmo a quest√£o das rela√ß√Ķes raciais - tudo sob a √≥tica da chamada quest√£o nacional. Classificar uma quest√£o como nacional era, a rigor, uma maneira de salientar sua import√Ęncia para o momento presente. Sua dimens√£o estrutural, digamos. Outro n√£o era o sentido das reformas de base no Governo Jango, √†s v√©speras do Golpe de 64. Hoje, com a amplia√ß√£o do desgaste das institui√ß√Ķes e das fun√ß√Ķes do Estado e o ac√ļmulo de problemas em todos os setores da vida do pa√≠s, n√≥s quase ousar√≠amos dizer que o Brasil √©, por si s√≥, uma quest√£o nacional... brasileira. No sentido de que o pa√≠s todo precisa urgentemente ser questionado por cada um de n√≥s, em suas m√ļltiplas pr√°ticas.

III

No Brasil, podemos afirmar que a cultura se antecipa √† pr√≥pria forma√ß√£o do Estado Nacional. Assim, h√° um sentimento de brasilidade que permeia a obra de artistas e criadores como Tom√°s Ant√īnio Gonzaga, Padre Jos√© Maur√≠cio, Aleijadinho¬†e Manoel Victor de Jesus, bem antes de a Independ√™ncia ser declarada, em 1822. A poesia, a m√ļsica, a pintura, a escultura s√£o tocadas pelo sentimento independentista, libert√°rio (at√© hoje a paisagem cultural de Minas Gerais nos fascina por isso).

Contrariamente ao que alguns afirmam, podemos observar que a cultura brasileira est√° assentada em bases antigas. Os mitos ind√≠genas, os orix√°s africanos, a l√≠ngua portuguesa possuem centenas, se n√£o milhares de anos de exist√™ncia. E todos n√≥s reconhecemos nesses s√≠mbolos algumas das refer√™ncias culturais mais marcantes do homem brasileiro. Iemanj√° nos √© t√£o familiar quanto a palavra saudade ou a dan√ßa do cateret√™. E o que √© ainda mais impressionante: em qualquer ponto do pa√≠s, qualquer brasileiro reconhece ou se identifica com essas manifesta√ß√Ķes.

Se as nossas raízes são antigas, a síntese cultural - isto é, os seus galhos - é que é propriamente nova, um fato de novo tipo. O Brasil, foi, provavelmente, o primeiro país a moderno operar uma síntese desse porte, unificando culturas dos mais diferentes horizontes.

E esse pioneirismo, como todo pioneirismo que se preza, desnorteia. O que somos nós, concretamente? - eis uma pergunta nem sempre muito simples de responder. Uma nova Roma, como queria o antropólogo Darcy Ribeiro? Uma extensão do Ocidente, como postulavam alguns autores do Século XIX? Talvez tudo isso reunido. Um país onde todos os continentes se encontram, como todas as nuvens se cruzam no céu. Daí, talvez, o fascínio que a cultura brasileira exerce no mundo.  Fomos - e somos - um verdadeiro laboratório da globalização. A história da nossa cultura é a história da nossa adequação a esse novo ambiente. E iremos continuar assim, ao que tudo indica.

Uma cultura das quatro sínteses, a nossa: entre a teoria e a prática; o erudito e o popular; o tradicional e o moderno e, finalmente, uma cultura que promove a fusão entre sensibilidades de diversos horizontes étnicos e geográficos.

Não seria tão difícil assim, compreendendo isso, que o PCB-PPS, em muitos momentos de sua trajetória, se fundisse com essa cultura.

IV

Esquematicamente, eis o que foi possível apurar em nossos apontamentos, que visam apenas mapear a atuação do PCB-PPS na área da realização cultural: 

* 1922-1927 - O PCB - nunca é demais lembrar - foi fundado no mesmo ano da Semana de Arte Moderna. Alguns modernistas se aproximariam ou mesmo adeririam ao partido, como a pintora Tarsila do Amaral e o pintor Di Cavalcanti - o idealizador da Semana -, e os escritores Oswald de Andrade e Pagu, um pouco mais adiante. Fora isso, o PCB tem na sua secretaria geral um intelectual autodidata que se destacaria mais adiante como especialista da obra do escritor Machado de Assis: o gráfico, linotipista e jornalista Astrojildo Pereira. Alguém que ousaria escrever, de Moscou, em 1925, que "a democracia, ainda que burguesa, é vista como um bem pelas massas...".

Fervoroso¬†defensor da Revolu√ß√£o Russa de 1917, o escritor Lima Barreto, prematuramente falecido em 1923, √© um dos intelectuais que simpatizam¬†ent√£o com as posi√ß√Ķes pol√≠ticas dos comunistas brasileiros. O jornalista Domingos Ribeiro Filho, amigo pessoal de Astrojildo Pereira, foi outro. E o mesmo dir√≠amos de Everardo Dias, que adere ao partido em 1923, tendo amargado in√ļmeras pris√Ķes.

Em seu¬†esfor√ßo para entender a realidade brasileira, o Partido Comunista lan√ßa algumas publica√ß√Ķes, como Movimento Comunista (1922) e A Classe¬†Oper√°ria (1925).

Em 1923, Otávio Brandão, intelectual comunista alagoano, também autodidata, publica a obra Agrarismo x Industrialismo, primeiro ensaio a reivindicar a necessidade de uma reforma agrária no Brasil, afirmando o caráter feudal da colonização do país. Enquanto expressão de um processo - lento, mas inexorável - de industrialização em marcha no país, o PCB  passa a ter nos setores mais politizados das camadas médias urbanas, potencialmente ao menos, um poderoso aliado. Já era uma clara demonstração da complexidade da estrutura de classes do país, já àquela época. 

* 1927-1930 - Per√≠odo marcado pela forma√ß√£o do¬†Bloco Oper√°rio, posteriormente Bloco Oper√°rio e Campon√™s (BOC), a¬†primeira frente √ļnica eleitoral do PCB. Entre outras reivindica√ß√Ķes de car√°ter pol√≠tico e social, o BOC luta pela cria√ß√£o de bibliotecas p√ļblicas no pa√≠s. Nessa fase, o¬†PCB se aproxima um pouco mais das camadas m√©dias, representadas de certa forma pelo capit√£o insurreto Luiz Carlos Prestes e outros membros militares da chamada Coluna Invicta. Tanto que, em 1929, √© criado o setor militar do Partido, com a ades√£o de Agliberto Vieira de Azevedo e outros membros das For√ßas Armadas, como Almir Neves. Esse setor, evidentemente, opera na mais estrita clandestinidade.

Carlos Marighella, ent√£o estudante de engenharia na Bahia, adere ao¬†Partido por essa √©poca (1929, exatamente). Le√īncio Basbaum √©¬†outro importante quadro intelectual formado pelo PCB nos anos que¬†antecedem a chamada Revolu√ß√£o de 30. Foi o fundador da Juventude Comunista, em 1925, e futuro autor de obras de peso, como Hist√≥ria sincera da Rep√ļblica.¬†Nessa fase ainda, cumpriu¬†importante papel o jornal A Na√ß√£o, dirigido pelo professor Le√īnidas¬†Resende. O jornal n√£o era o porta-voz oficial do Partido, mas o professor¬†Le√īnidas Resende o colocou √† disposi√ß√£o dos comunistas.

* 1930-1933 -¬†O triunfo das teses¬†obreiristas, isto √©, sect√°rias, pautadas apenas pela inser√ß√£o no mundo prolet√°rio, afasta do PCB os setores¬†¬†m√©dios da sociedade. Intelectuais e formuladores pol√≠ticos como¬†¬†Astrojildo Pereira (gr√°fico e jornalista, como j√° mencionado), Cristiano Cordeiro (funcion√°rio p√ļblico) e Heitor Ferreira Lima (alfaiate) s√£o¬†alijados do Partido. Eles se reintegrariam muitos anos depois somente. Outros - como¬†Alberto Passos Guimar√£es, que aderira √† organiza√ß√£o em 1931 - logram permanecer no PCB. Ainda nesse¬†per√≠odo, o Partido afasta de suas fileiras militantes intelectuais e artistas que posteriormente se identificariam plenamente com o movimento trotsquista, entre os quais poder√≠amos citar o cr√≠tico M√°rio Pedrosa, a escritora Rachel¬†de Queiroz e o gravurista L√≠vio Abramo. Esses afastamentos certamente dificultam¬†a plena compreens√£o, pelo PCB, da nova realidade formada a partir¬†dos epis√≥dios de outubro de 1930. Vale dizer, o Partido perde a capacidade de intervir na nova realidade formada pela chegada de Get√ļlio Vargas ao poder. E o fato concreto √© que o PCB se isolaria tremendamente nessa fase, apresentando, talvez pela primeira vez, um rosto pol√≠tico sect√°rio.

*¬†1933-1935¬†- A ascens√£o do nazifascismo faz com que o PCB adote uma pol√≠tica de alian√ßas mais¬†efetiva, materializada na Alian√ßa Nacional Libertadora (ANL).¬†Nessa¬†quadra da vida pol√≠tica nacional, figuras representativas do mundo da cultura como o historiador¬†Caio Prado J√ļnior, o jornalista Apar√≠cio Torelly (o Bar√£o de Itarar√©) e os conceituados¬†m√©dicos Val√©rio Konder e Manoel Ven√Ęncio Campos da Paz se aproximam do Partido. H√° ind√≠cios de que o compositor Noel Rosa simpatizaria com as teses do PCB, recebendo publica√ß√Ķes do Partido, como o jornal A Classe Oper√°ria, pelas m√£os de um dentista comunista do bairro carioca de Vila Isabel. Em Belo Horizonte, h√° not√≠cias da forma√ß√£o de um centro cultural, inspirado pelos comunistas, j√° em 1934. Em tempo: Caio Prado J√ļnior seria, por¬†sinal, o redator do programa da ANL, com menos de 30 anos de idade. Fora isso, a ANL apoia, com¬†firmeza, a organiza√ß√£o das mulheres. Jovens intelectuais, como a¬†psiquiatra Nise da Silveira e Maria Werneck, s√£o detidas ap√≥s o levante¬†de novembro de 1935. Elas ficariam presas na mesma cela de Olga Ben√°rio Prestes, posteriormente deportada por Get√ļlio Vargas para a Alemanha nazista. Incentivada pelo PCB, a ANL ter√° talvez se configurado como o primeiro partido pol√≠tico de massas da Hist√≥ria do Brasil, conforme lembrou em conversas com o Autor o veterano revolucion√°rio Severino Teodoro de Mello.¬†

* 1935-1942¬†- O envolvimento do PCB com o levante armado¬†da Alian√ßa Nacional Libertadora de novembro de 1935 contribui para isolar e muito o Partido das massas. Uma¬†grande repress√£o se abateria ent√£o sobre os comunistas. Intelectuais, escritores e artistas¬†como Graciliano Ramos, Em√≠lio Carrera Guerra, Ivan Pedro de Martins,¬†M√°rio Lago e Dion√©lio Machado s√£o presos. O estado da Bahia foi, por esse per√≠odo, um dos¬†√ļnicos a preservar intactos os contatos com a intelectualidade¬† progressista, por interm√©dio da revista Seiva, fundada em 1938 e dirigida por Jo√£o¬†Falc√£o, ent√£o um jovem comunista. Outro jovem revolucion√°rio √† √©poca, Arm√™nio Guedes, egresso da Faculdade de Direito de Salvador, tamb√©m participa ativamente da publica√ß√£o, assim como Jorge Amado, Edison Carneiro, Walter Silveira, Jacob Gorender e Dias da Costa (este √ļltimo, irm√£o de futuro dramaturgo Dias Gomes). E o mesmo podemos dizer de Eduardo Maffei, paulista, Paulo Cavalcante, pernambucano, Ledo Ivo, alagoano, Rubem Braga, capixaba, Joel Silveira, sergipano, Carlos Drummond de Andrade, mineiro - todos muito jovens √† √©poca. A relativa liberdade de express√£o existente na Bahia se explica pelo fato de¬†a rebeli√£o aliancista¬† n√£o ter atingido o estado, a repress√£o se concentrando no Rio de¬†Janeiro, Recife e Natal, praticamente. Isto √©, √°reas onde ocorreram embates armados.¬†

Com as mudanças ocorridas no cenário externo - o Brasil começa a se unir contra as forças do Eixo -, os comunistas voltam a se inserir nas lutas nacionais. Os estudantes, em particular, conseguem se manifestar pela retomada das liberdades democráticas, incluindo aí a liberdade de expressão cultural. Nascia, praticamente, a União Nacional dos Estudantes, onde comunistas como o futuro médico Irun Sant’Anna marcavam forte presença.

* 1942-1947¬†- O PCB vai ganhando prest√≠gio junto √†s for√ßas da cultura, no¬†bojo da luta antifascista e pela anistia pol√≠tica. Naturalmente, a resist√™ncia que a Uni√£o Sovi√©tica imp√Ķe √†s for√ßas nazistas tamb√©m influencia a intelectualidade. Oscar Niemeyer, por exemplo,¬†se aproxima do Partido j√° em 1942, assim como Marcos Jaimovitch, seu principal contato com o PCB. O poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros adere √† Juventude Comunista, ainda que dela se afastasse pouco tempo depois, desiludido com o que considerava apoio de Luiz Carlos Prestes a Get√ļlio Vargas. Por essa mesma¬†fase, Jorge Amado escreve o seu Cavaleiro da Esperan√ßa, na casa de Ernesto S√°bato, nos arredores de Buenos Aires, relato¬†romanceado da vida de Luiz Carlos Prestes, ent√£o na pris√£o. O livro √© lan√ßado em 1944.

Rompendo¬†cada vez mais com o seu isolamento, o Partido marca forte presen√ßa no¬†Congresso dos Escritores, presidido pelo comunista An√≠bal Machado. H√°¬†comunistas entre os redatores da resolu√ß√£o do Congresso, a come√ßar por¬†Alberto Passos Guimar√£es e Caio Prado J√ļnior. Os congressistas exigem¬†uma ampla campanha de alfabetiza√ß√£o no Brasil. Surgem ou ressurgem a Uni√£o Nacional de Estudantes (UNE) e a Associa√ß√£o Brasileira de Escritores, entidades¬†apoiadas pelos comunistas. Astrojildo Pereira √© uma das grandes refer√™ncias da intelectualidade nesse per√≠odo.¬†

Muitos representantes da √°rea cultural¬†filiam-se oficialmente ao PCB na redemocratiza√ß√£o de 1945, quando o prest√≠gio da Uni√£o Sovi√©tica se encontra no auge. C√Ęndido Portinari¬†lan√ßa-se, inclusive, candidato ao Senado pelo Partido, perdendo por √≠nfima margem de votos, em pleito muito questionado. Mas um nome da estatura de Jorge Amado √©¬†eleito deputado federal. M√°rio Sch√∂nberg (que aderira ao Partido j√° na d√©cada de 30), Graciliano Ramos, Arnaldo Estrela, Quirino Campofiorito, Oduvaldo Viana, Elias Chaves Neto, M√°rio Gruber, Vasco Prado, Guerra Peixe,¬†An√≠bal Machado, Bruno Giorgi, Antonieta Campos da Campos, Abelardo da Hora, Jos√© Pancetti, Eug√™nia e √Ālvaro Moreyra, Mois√©s¬†Vinhas, Rui Santos, Dalc√≠dio Jurandir, Or√≠genes Lessa, Darcy Ribeiro, Dion√©lio Machado, Pedro Mota Lima, Proc√≥pio Ferreira,¬†M√°rio Lago, Jo√£o Saldanha,¬†Aline Paim, Marco Ant√īnio Coelho e Nelson Pereira dos Santos (os dois √ļltimos jovens estudantes ainda) e outros nomes expressivos (ou que se tornariam expressivos) da cultura nacional¬†assumem oficialmente¬†sua condi√ß√£o de comunistas. Agora podem faz√™-lo plenamente.¬†

O poeta Carlos Drummond de Andrade chega a dirigir um jornal do Partido¬†no Rio de Janeiro, o mesmo ocorrendo com Jorge Amado, em S√£o Paulo. Drummond, inclusive, chegara a entrevistar Prestes na cadeia. Ali√°s, fiel ao preceito leninista de que o jornal ajudava a organizar as massas populares, o PCB monta uma verdadeira escola jornal√≠stica no pa√≠s, da Tribuna Popular do Rio de Janeiro ao Hoje, de S√£o Paulo; de O Momento, de Salvador, √† Tribuna Ga√ļcha, de Porto Alegre; da Folha do Povo, do Recife, ao Jornal do Povo, de Jo√£o Pessoa. Helo√≠sa Ramos, militante das mais atuantes, esposa de Graciliano Ramos, trabalhava no jornal Momento Feminino, dirigido pela jornalista Arcelina Mochel. No ano de 1946, circula a revista quinzenal Divulga√ß√£o Marxista. Em¬†algumas capitais, o PCB organiza os chamados Comit√™s Culturais, para¬†apoiar as atividades art√≠sticas progressistas. O Partido tem, ent√£o, ¬†uma concep√ß√£o dos fatos culturais mais calcada no realismo socialista, em uma vis√£o demasiadamente curta dos fatos culturais, vis√£o esta diretamente influenciada pela experi√™ncia stalinista,¬†diga-se de passagem. Mas esse quadro se confrontaria em breve com a realidade, sempre plural e din√Ęmica.

No Rio de Janeiro, reduto do samba, compositores populares como¬†Paulo da Portela, Ataulfo Alves e Silas de Oliveira mant√™m liga√ß√Ķes com¬†o PCB. A pr√≥pria Uni√£o Geral das Escolas de Samba (UGES) era muito pr√≥xima do PCB, a ponto de ser chamada tamb√©m de Uni√£o Geral das Escolas Sovi√©ticas, conforme constatou o cr√≠tico e jornalista S√©rgio Cabral... O hino da campanha de Luiz Carlos Prestes ao Senado foi composto¬†por ningu√©m menos do que Dorival Caymmi. Um nome respeitado como Monteiro Lobato fazia¬†campanha para Luiz Carlos Prestes, votando nos candidatos comunistas e publicando o¬†folheto Z√© do Brasil, que p√Ķe em cena um campon√™s e o pr√≥prio Prestes. A √°rea musical¬†contribuiria ainda com o cantor Jararaca, nascido em Alagoas, e a¬†jornalista e cr√≠tica Eneida, oriunda do Par√°.

Al√©m disso, a Editorial¬†Vit√≥ria cumpre importante fun√ß√£o ao divulgar os cl√°ssicos¬†do marxismo no Brasil. Astrojildo Pereira √© um dos respons√°veis pela linha da editora. E nunca √© demais recordar a import√Ęncia que os livros adquirem na conscientiza√ß√£o dos simpatizantes e militantes comunistas. E o PCB consegue montar ainda uma produtora de¬†cinema, a Liberdade Filmes, bem modesta, √© verdade. Mais, at√©: Alinor Azevedo, um dos criadores da Atl√Ęntida, era membro do PCB. Atra√≠dos pela resist√™ncia heroica da Uni√£o Sovi√©tica ao chamado Eixo nazifascista, muitos intelectuais e artistas de origem ou forma√ß√£o¬†judaica aderem ent√£o ao Partido Comunista. Entre eles poder√≠amos alinhar Carlos Scliar, que participara da Segunda Guerra Mundial na campanha da It√°lia. Mesmo atletas como Le√īnidas da Silva, o Diamante Negro, aderem ao PCB (da mesma forma que o craque Didi, mais tarde). O pugilista Waldemar Zumbano, tio do futuro campe√£o mundial √Čder Jofre, ingressaria igualmente no Partido, onde militaria por d√©cadas a fio. Dir-se-ia que esses foram os primeiros anos dourados do PCB.

* 1947-1954¬†- A ida do PCB para a¬†ilegalidade e as pr√≥prias posi√ß√Ķes extremadas adotadas ent√£o pelo¬†Partido (sobretudo ap√≥s o "Manifesto de Agosto", que prop√Ķe a luta armada) contribuem para afastar¬†os comunistas do movimento de massas em geral e dos setores culturais¬†em particular. Trata-se de um dos per√≠odos mais dif√≠ceis do ponto de¬†vista da rela√ß√£o do PCB com os criadores culturais. Curiosamente, √© por essa √©poca que um jovem intelectual carioca radicado em S√£o Paulo, Fernando Henrique Cardoso, ingressa no PCB. Mas √© nessa fase que¬†intelectuais da import√Ęncia de Paulo Mercadante, por exemplo, deixam o Partido. Para acentuar ainda mais as contradi√ß√Ķes do momento pol√≠tico, o PCB mant√©m boa parte de sua imprensa na legalidade, o¬†que contribui para divulgar suas ideias, inclusive aquelas mais voltadas para a atividade intelectual ou art√≠stica. Mais: os jornais do PCB t√™m ent√£o boa penetra√ß√£o¬†popular, sobretudo nos estados de S√£o Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Cear√°. S√£o relativamente bem aceitas as revistas te√≥ricas e culturais Fundamentos (dirigida por Elias Chaves Neto), Literatura (com Manuel Bandeira e¬†Arthur Ramos no conselho editorial) e Horizonte (editada na capital ga√ļcha). Escritores como Jos√© Lins do Rego¬†e √Ālvaro Moreyra trabalham em √≥rg√£os orientados pelo Partido. Pertence¬†ao PCB a compositora de concerto Eunice Catunda, que organiza¬†corais populares, sobretudo em S√£o Paulo, atraindo muitos jovens.

Outra atividade importante dos comunistas nesse momento é a criação de cineclubes em várias partes do Brasil, notadamente em Salvador, com Walter da Silveira à frente. Nas artes plásticas, fato notável foi a participação dos comunistas na organização, em 1951, da I Bienal de Artes Plásticas do Brasil, realizada em São Paulo, pelo comunista Luiz Saia, seu primeiro presidente. Clubes de gravura proliferaram, ainda, em vários pontos do país, como no Rio Grande do Sul, sobretudo.

E conv√©m destacar ainda, nessa fase, como fato extremamente significativo, a atua√ß√£o dos militantes intelectuais¬† negros do PCB na organiza√ß√£o do Congresso do Negro Brasileiro,¬† realizado em 1950. √Č o caso, por exemplo, do antrop√≥logo Edison¬†Carneiro e do poeta Solano Trindade. Aqui, interessa recordar que, em¬†¬†1930, o Partido lan√ßara como candidato √† presid√™ncia da¬†Rep√ļblica o oper√°rio marmorista Minervino de Oliveira, o primeiro vereador - naquela √©poca se¬†dizia intendente - negro da ent√£o capital da Rep√ļblica, o Rio de Janeiro. E que, em 1945, o Partido elegeria o primeiro negro da Constituinte, Claudino Jos√© da Silva, ferrovi√°rio que ingressara no PCB ainda em 1928.¬†

Mas esse per√≠odo, grosso modo, √© marcado pelas posi√ß√Ķes sect√°rias assumidas pelo Partido Comunista, que avalia o segundo Governo Vargas - equivocadamente, como se veria mais tarde, no bojo dos dram√°ticos acontecimentos que conduziriam ao suic√≠dio do presidente da Rep√ļblica - como pr√≥-imperialista e fascista. Essa postura radical acaba contaminando igualmente a pr√≥pria esfera cultural do Partido, que assume um vi√©s muitas vezes excludente, sobretudo em rela√ß√£o √†queles intelectuais e artistas que manifestavam alguma diverg√™ncia com o marxismo ou a vers√£o oficial que o PCB tinha dele.

E √© a √©poca, tamb√©m, em que o PCB cria uma esp√©cie de escola de quadros, o famoso Curso Stalin. Dirigidos por Marco Antonio Coelho, que integra o PCB desde o in√≠cio da d√©cada de 40, os cursos de forma√ß√£o contribuir√£o, apesar de suas limita√ß√Ķes, para formar centenas de militantes, familiarizando-os com a filosofia, a literatura e a pol√≠tica.

* 1954-1958¬†¬Ė Importantes greves oper√°rias verificadas no in√≠cio da¬†d√©cada de 50, e que pipocaram entre as oper√°rias t√™xteis do estado do Par√°, atuam no sentido de fazer com que o Partido comece um¬†processo de ruptura com as posi√ß√Ķes estreitas que vinha assumindo desde¬†1948, reaproximando-o assim da popula√ß√£o pelas m√£os do movimento sindical. Deve-se observar, tamb√©m, que a crise pol√≠tica interna¬†adquiriria novas e dram√°ticas propor√ß√Ķes com a den√ļncia do chamado culto √†¬†personalidade, que atinge a figura quase sagrada de Josef Stalin,¬†todo-poderoso secret√°rio-geral¬†do Partido Comunista da Uni√£o Sovi√©tica. Desiludidos, alguns¬†intelectuais de peso deixam o Partido, como Jorge Amado e Antonio Paim. Um n√ļmero consider√°vel de jornalistas (entre eles se alinharia Moacyr Werneck de Castro), lotados na imprensa partid√°ria, tamb√©m rompe com o PCB nessa¬†ocasi√£o. O Partido √© praticamente salvo do isolamento completo e de uma crise interna mais profunda ainda pelos novos ventos que sopram na vida do pa√≠s, como que materializados pelo Governo JK, democr√°tico e desenvolvimentista.

* 1958-1964 - Buscando superar a grave crise interna que o sacudia, o PCB elabora a chamada "Declaração de Março", que privilegia o caminho da democracia para a solução dos problemas nacionais e a superação do próprio capitalismo. Com isso, a intelectualidade volta a se aproximar do Partido, sentindo que este se arejava novamente.

Surgem daqui e dali in√ļmeras manifesta√ß√Ķes de ordem cultural. A revista Para Todos, fundada em 1956 pelos comunistas, influencia parcelas consider√°veis da intelectualidade. E o mesmo se¬†pode dizer do seman√°rio Novos Rumos, que chega a vender mais de 50 mil¬†exemplares, em um pa√≠s ent√£o com cerca de 50 milh√Ķes de habitantes. Os dois principais respons√°veis por Novos Rumos, os¬†jornalistas e dirigentes partid√°rios M√°rio Alves e Orlando Bonfim, seriam assassinados pela¬†ditadura poucos anos ap√≥s o empastelamento do jornal. Luiz M√°rio Gazzaneo, Josu√© Almeida, Almir Matos e Maria da Gra√ßa Dutra participam ativamente de Novos Rumos. Jornalistas e militantes como S√©rgio Cabral e Ivan Alves tamb√©m d√£o sua colabora√ß√£o ao jornal em diversos n√≠veis, indicando textos ou revisando algumas mat√©rias ou ainda organizando finan√ßas para a sua manuten√ß√£o. A revista te√≥rica¬†do Partido, Estudos Sociais, dirigida por Astrojildo Pereira e Arm√™nio¬†Guedes, exerce uma certa influ√™ncia sobre os estudiosos e parcelas da Academia. Nelson Werneck Sodr√©, Fausto Cupertino, Jacob Gorender e Jorge Miglioli integram a revista, que publica dezenas de artigos de peso at√© 1964, inclusive de intelectuais n√£o comunistas e de enorme prest√≠gio entre seus pares, como Josu√© de Castro e Herm√≠nio Linhares.

Dirigentes, militantes e intelectuais do PCB se debru√ßam ent√£o sobre a quest√£o agr√°ria, como Alberto Passos Guimar√£es, autor do cl√°ssico Quatro s√©culos de latif√ļndio, Caio Prado J√ļnior, Carlos Marighella e Fragmon Carlos Borges. Entre os¬†cientistas sociais come√ßam a despontar nas fileiras partid√°rias Joel Rufino dos Santos, Ruth Cardoso, Dirceu Lindoso, D√©cio Freitas, Antonio Carlos Peixoto,¬†Amaro Quincas, Cl√≥vis Moura e Rui Fac√≥.¬†¬†

Surge o Cinema Novo, com decisiva participação de realizadores ligados ao PCB, como Nelson Pereira dos Santos (que dera partida no movimento, com o clássico Rio 40 graus), Roberto Santos e Leon Hirzsman. Fora isso, o livro intitulado Introdução ao cinema brasileiro, publicado em 1959 pelo crítico e cineasta comunista Alex Viany, marca toda uma geração de criadores. Alex Viany seria o coautor, juntamente com Glauber Rocha, do célebre texto-manifesto "Estética da Fome", que opera um primeiro balanço do Cinema Novo, já em 1965.

Na literatura de fic√ß√£o, os nomes cobrem o pa√≠s todo, a rigor: do¬†goiano Bernardo √Čllis ao paraense Abguar Bastos e deste ao maranhense¬†Jos√© Louzeiro, que se iniciava ent√£o nas letras e j√° exercia o jornalismo. Ainda nos anos 60, escritores jovens como Ciro Martins e¬†S√©rgio Faraco aproximam-se do PCB. Jos√© Paulo Paes, tradutor e poeta, intelectual e autodidata, tamb√©m atua no Partido.

No teatro, a presen√ßa do PCB tamb√©m¬†se faz sentir e autores consagrados como Dias Gomes (O pagador de¬†promessas) e Gianfrancesco Guarnieri (Eles n√£o usam black-tie) pertencem √†s suas fileiras. A a√ß√£o de Fl√°vio Rangel, Zbigniew¬†Ziembinsky e Jo√£o¬†das Neves tamb√©m leva a marca de suas milit√Ęncias no PCB. Entre os cr√≠ticos, destaca-se¬†Fernando Peixoto. E, entre os atores e atrizes, poder√≠amos citar Paulo Jos√©, Glauce Rocha, Juca de Oliveira, Raul Cortez, √ćtala Nandi, Dina Sfat, Carlos Vereza, Joel Barcellos,¬†Francisco Milani, St√™nio Garcia, Lima Duarte e Jos√© Wilker. Br√°ulio Pedroso e Benedito Ruy Barbosa, que iriam se consagrar posteriormente nas novelas televisivas, integram ent√£o o Partido.

Há ainda criadores do PCB atuando com brilho na arquitetura e nas artes plásticas de maneira geral. Além dos já citados Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti, Portinari e Carlos Scliar, são comunistas Iberê Camargo, Renina Katz, Virgínia e Vilanova Artigas. Ficaria celebrizada a presença dos comunistas nas rádios Tupi, de São Paulo, e Nacional, no Rio de Janeiro.

O PCB se implanta também no mundo da ciência e os comunistas Luiz Hildebrando Pereira da Silva e Samuel Pessoa ajudam a elaborar uma política de pesquisa médica para o país, influindo de forma decisiva na criação da própria Fapesp, ainda hoje o principal organismo de apoio à pesquisa em todo o estado de São Paulo, o mais importante da Federação. A psicanalista Helena Besserman Vianna é membro do Partido. Ainda no campo da ciência aplicada, alinham-se entre os comunistas os jovens engenheiros Raymundo de Oliveira, Joel Teodósio, Ulrich Hoffmann e Sérgio Augusto de Moraes, figuras que teriam um papel importante nos embates democráticos entre nós. Fernando Santana, também engenheiro e um dos mais competentes deputados da história do parlamento brasileiro, por sinal, já havia aderido ao PCB em 1934.

Vale dizer, o Partido cresce visivelmente aos olhos dos intelectuais e artistas. Nei Lopes, futuro historiador e sambista de talento, integra, ainda na condição de estudante, as hostes juvenis do PCB, assim como Aspásia Camargo, que se destacaria depois como socióloga e militante da ecologia, Mariza Campos da Campos, bióloga e jornalista, a atriz e escritora Jalusa Barcellos, o futuro médico Jacob Klingerman, o futuro advogado e ministro da Justiça Aloysio Nunes Ferreira, o futuro engenheiro e escritor Ailton Benedito de Souza, o futuro animador do Movimento de Cultura Popular no Recife, Joacir de Castro, e Aléxis Stepanenko, futuro ministro do planejamento do Governo progressista de Itamar Franco.

√Č preciso reconhecer que os governos¬†democr√°ticos de Juscelino Kubistchek e Jo√£o Goulart, com suas propostas reformadoras, fomentam as condi√ß√Ķes pol√≠ticas m√≠nimas para o alastramento da¬†atividade cultural. Um comunista dos idos de 1935, o economista e te√≥rico Ignacio Rangel, ser√° um dos elaboradores, inclusive, do famoso Plano de Metas de JK. S√£o os tempos de Bras√≠lia, com o comunista Oscar¬†Niemeyer √† frente. Do CPC da UNE, os comit√™s de cultura popular¬†incentivados pelos estudantes e presidido pelo poeta Ferreira Gullar. Conv√©m destacar ainda que, no plano do CPC, tiveram grande atua√ß√£o na massa estudantil os comunistas Marcos Jaimovitch, Givaldo Siqueira e Zuleika¬†Alambert. E s√£o tamb√©m os tempos do Comando dos Trabalhadores Intelectuais,¬† que congrega nomes de primeira grandeza, a saber: o general e¬† historiador Nelson Werneck Sodr√© - ligado ao Partido desde o final do Estado Novo, pelo menos¬†-, o cr√≠tico progressista √Ālvaro Lins, o dramaturgo¬†Dias Gomes e outros. Isso, para n√£o aludirmos ao Iseb (Instituto¬†Superior de Estudos Brasileiros), incentivado pelo Minist√©rio da Educa√ß√£o e Cultura, com forte presen√ßa¬†comunista. Intelectuais da import√Ęncia de Roland Corbusier, Nelson¬†Werneck Sodr√© e √Ālvaro Vieira Pinto participam de in√ļmeros debates e¬† publica√ß√Ķes, contribuindo para a cria√ß√£o de marcos ideol√≥gicos que¬†iriam balizar¬†a pol√≠tica do¬†chamado desenvolvimentismo entre n√≥s. Al√©m disso, h√° um clima cada vez mais favor√°vel √†s lutas por reformas e, mesmo, aos embates de corte mais propriamente revolucion√°rio, como a resist√™ncia armada dos povos vietnamita e cubano e os pr√≥prios combates travados pelos movimentos de liberta√ß√£o na √Āfrica.

Nessa fase, a produ√ß√£o intelectual pecebista tende a se tornar hegem√īnica, no sentido de que ela conduz, cada vez mais, o processo art√≠stico-cultural.

* 1964-1968¬†- A ditadura militar instalada no pa√≠s em 1¬ļ de abril de 1964 golpeia com¬†todas as suas for√ßas o mundo da cultura, al√©m do mundo do trabalho material e as institui√ß√Ķes democr√°ticas do pa√≠s. Cria√ß√£o intelectual, evidentemente, n√£o √© compat√≠vel com obscurantismo e persegui√ß√Ķes¬†pol√≠ticas, como a falta de liberdades p√ļblicas. Nesse quadro, as rela√ß√Ķes do¬†PCB com o ambiente da cria√ß√£o ficam abaladas, uma vez mais. Mesmo assim, o¬†Partido se esfor√ßa para recompor as suas bases intelectuais e influir,¬†por interm√©dio da cultura, para isolar o regime militar. Dessa maneira,¬†jornalistas e intelectuais comunistas, entre os quais Luiz M√°rio¬†Gazzaneo, Maur√≠cio Az√™do, S√©rgio Cabral, Artur Jos√© Poerner, Anderson Campos e Leandro¬†Konder lan√ßam, no Rio de Janeiro, o jornal Folha da Semana, o primeiro peri√≥dico alternativo da era da ditadura.¬†

S√£o ainda express√Ķes da¬†resist√™ncia cultural dos comunistas o Teatro Opini√£o, comandado por¬†Ferreira Gullar, Tereza Arag√£o, Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa, no Rio de Janeiro; o¬†Teatro de Arena, de S√£o Paulo; a Revista Civiliza√ß√£o Brasileira, da¬† editora hom√īnima, conduzida pelos comunistas √änio Silveira e Moacyr¬†F√©lix, no Rio de Janeiro. E at√© alguns livros simbolizam toda uma resist√™ncia coletiva, como o c√©lebre Febeap√° (Festival de Besteira que Assola o Pa√≠s), do comunista S√©rgio Porto, o Stanislaw¬†Ponte Preta. Isso, sem esquecer a m√ļsica de protesto de Jo√£o do Vale, um ex-pedreiro comunista origin√°rio do Maranh√£o, assim como diversos manifestos lan√ßados contra a censura. No Par√°, um intelectual da qualidade de Rui Barata passa a dirigir o Partido desde a clandestinidade. No Amazonas, Jos√© Maria Monteiro, ent√£o estudante de medicina, e Guto Rodrigues, m√ļsico, dirigem o partido local. Estudantes ainda, Juca Ferreira e Ana de Holanda, futuros ministros da Cultura dos governos Lula e Dilma, se aproximam por essa √©poca do PCB, assim como os m√ļsicos Jards Macal√© e Buru. Os irm√£os R√©gis e Rog√©rio Duprat j√° haviam aderido desde antes ao Partido. Nas¬†reda√ß√Ķes dos grandes jornais e revistas - notadamente do eixo Rio-S√£o¬†Paulo -, os jornalistas comunistas travam uma luta renhida contra os¬†censores. Milton Coelho da Gra√ßa, Elio Gaspari, Ivan Alves, Anivaldo Miranda, Carlos Alberto Ca√≥ de Oliveira, Jairo R√©gis, Fabiano Villanova, Maur√≠cio Az√™do (posteriormente presidente da Associa√ß√£o Brasileira de Imprensa), S√©rgio Cabral, C√©lia Maria Ladeira (depois professora na UnB), Roberto M√ľller, Antonieta Santos, Alberto Raj√£o, Narceu de Almeida Filho, Heloneida Studart, Nilson Miranda, Ancelmo G√≥is¬†e Milton Temer s√£o alguns desses profissionais. Quase todos s√£o presos.¬†Em Minas Gerais, Roberto Drummond, tamb√©m jornalista, √© membro do Partido. N√£o se pode esquecer que a moderniza√ß√£o profissional das reda√ß√Ķes criadas na grande imprensa brasileira foi, tamb√©m, em boa parte, esfor√ßo dos comunistas.

* 1968-1978¬†- A fase mais dura do regime militar, que vive sob o imp√©rio¬†do Ato Institucional n. 5, carta de natureza facistoide, que suprime todas¬†as liberdades democr√°ticas. Um ter√ßo do Comit√™ Central do PCB √©¬†assassinado pelas for√ßas repressivas. Seus corpos at√© hoje n√£o¬†apareceram. Barbaramente torturados, dirigentes como Hil√°rio Pinha, Renato Guimar√£es, Moacyr Longo, Marco Antonio Coelho, Paulo Elisi√°rio Nunes e¬†Renato Oliveira da Motta conseguem sobreviver, cumprindo anos de¬†cadeia. Sequestros, pris√Ķes, torturas e assassinatos dos opositores¬†pol√≠ticos atingem igualmente a esfera da cultura. Muitos criadores¬†deixam o pa√≠s. O PCB, al√©m das persegui√ß√Ķes que sofre, enfrenta, tamb√©m,¬†a cr√≠tica dos grupos radicais de esquerda, que fascinam determinados¬†setores da intelectualidade e da massa estudantil. Um quadro intelectual da envergadura de Jacob Gorender, formado nas hostes¬†partid√°rias desde o in√≠cio dos anos 40, rompe com o PCB ap√≥s o golpe. O mesmo poder√≠amos dizer de homens como M√°rio Alves e Joaquim C√Ęmara Ferreira.

Apesar do contexto político desfavorável, o PCB busca incentivar algumas iniciativas democráticas no campo da cultura. Um dos fundadores do jornal Pasquim, em 1969, é o comunista Sérgio Cabral, que também cria o Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, ao lado de Moisés Fucks. O Casa Grande, como é conhecido, se revela uma fonte permanente de finanças para o Partido e, a partir de 1974-1975, abrigará toda uma série de debates sobre a realidade brasileira, reunindo a intelectualidade progressista de forma geral.

Mas o mar n√£o est√° para peixe, como se diz. Muitos m√ļsicos ganham o¬†caminho do ex√≠lio, a exemplo do comunista Carlos Lyra; por√©m, representantes da chamada MPB buscam manter ¬†acesa a chama no interior do pa√≠s. Entre eles, artistas tamb√©m ligados ao PCB - Rildo Hora, Sidney¬†Miller (criador do projeto Pixinguinha), Jos√© Carlos Capinam (posteriormente secret√°rio de estado de cultura da Bahia), Gonzaguinha, Paulinho da Viola, Tom Z√©, Jorge Goulart e Nora Ney. O PCB mant√©m, por essa √©poca, uma rela√ß√£o conflitante com os m√ļsicos do Tropicalismo, apesar de alguns deles pertencerem aos quadros do Partido e Caetano Veloso - filho de um comunista - e Gilberto Gil terem tido boa aproxima√ß√£o com os membros do CPC na Bahia. No¬†campo da m√ļsica de concerto, Camargo Guarnieri, Jos√© Siqueira e Cl√°udio¬†Santoro, todos ligados ao Partido Comunista, procuram igualmente dar sua contribui√ß√£o cultural e pol√≠tica. Mesmo um m√ļsico como Jo√£o Gilberto, normalmente pouco afeito √† participa√ß√£o pol√≠tica, recebe influ√™ncia das ideias marxistas.

Tamb√©m o teatro resiste: quando a ditadura pro√≠be a pe√ßa Abajur Lil√°s,¬†do ex-estivador e dramaturgo comunista Pl√≠nio Marcos, todos os teatros¬†da cidade de S√£o Paulo fecham suas portas, em sinal de protesto. Uma ousadia, sem d√ļvida. O¬†comunista Paulo Pontes escreveu, em parceria com Chico Buarque, a pe√ßa¬†Gota d¬í√Āgua, de grande sucesso. Atuando sobretudo na Bahia, o ator Bemvindo Sequeira tamb√©m cumpre um importante papel na resist√™ncia cultural ao regime ditatorial, chegando a disputar a verean√ßa pelo MDB com o apoio dos comunistas, ent√£o clandestinos. Bemvindo Sequeira teve, tamb√©m, uma atua√ß√£o importante nas batalhas da intersindical e na forma√ß√£o dos primeiros grupos que lutavam pela anistia. Os cineastas e diretores de fotografia tamb√©m resistem, √† sua maneira, como o ent√£o jovem fot√≥grafo Antonio Luiz Mendes Soares, que trabalha h√° tempos com Nelson Pereira dos Santos e, posteriormente, fotografaria com Sylvio Back. Espedito Rocha, um revolucion√°rio profissional do Partido, torna-se artista pl√°stico - e dos bons - ainda na cadeia. O comunista Roberto Pontual, respeitado cr√≠tico de arte, esfor√ßa-se para manter uma reflex√£o sobre¬†os rumos da cria√ß√£o pl√°stica.

Mas essa tamb√©m √© a fase marcada pelo¬†assassinato do jornalista Vladimir Herzog e pelas torturas infligidas¬†contra outros profissionais de imprensa, como Jo√£o Aveline, futuro¬†diretor de Voz da Unidade. E essa √© ainda uma √©poca em que jovens intelectuais, como Alo√≠sio Teixeira, Gildo Mar√ßal Brand√£o e Marco Aur√©lio Nogueira, d√£o o melhor dos seus esfor√ßos √† reorganiza√ß√£o do PCB em S√£o Paulo, o principal reduto oper√°rio do pa√≠s. Nicolau Sevcenko aproxima-se do PCB em meados dos anos 70, ainda na condi√ß√£o de estudante, em S√£o Paulo. Em 1977, os comunistas - apesar de a¬†organiza√ß√£o partid√°ria estar praticamente estra√ßalhada pela repress√£o pol√≠tica,¬†sobretudo ap√≥s a vit√≥ria eleitoral da oposi√ß√£o em 1974 - conseguem¬†lan√ßar uma revista te√≥rica, Temas de Ci√™ncias Humanas, que circularia¬† at√© 1981. Dela participariam Nelson Werneck Sodr√© e Renato Guimar√£es,¬†este √ļltimo o respons√°vel pelo setor de educa√ß√£o no Comit√™ Central do¬†PCB na d√©cada de 60 e parte da de 70 e um dos redatores da resolu√ß√£o do Congresso de 1967.

Ainda em 1977, gra√ßas em boa medida √† intensa movimenta√ß√£o dos¬†comunistas, quase tr√™s mil jornalistas de todo o pa√≠s assinam o¬†Manifesto da ABI contra a censura aos √≥rg√£os de comunica√ß√£o. Durante¬†parte da d√©cada de 70, trabalhando nos n√ļcleos de cria√ß√£o da TV Globo, alguns membros do Partido Comunista Brasileiro logram criticar o obscurantismo do regime, valendo-se de novelas e seriados de grande¬†audi√™ncia popular. Era um come√ßo promissor de di√°logo com a ind√ļstria cultural cada vez mais presente na vida nacional. A pol√≠tica do Partido se pauta pela ocupa√ß√£o das brechas, esquivando-se tanto de uma postura adesista quanto da ado√ß√£o de um posicionamento com base em hipot√©ticas pol√≠ticas conspirat√≥rias ou de infiltra√ß√£o. Vale dizer, o que conta para o PCB √© a negocia√ß√£o, por sua vez equidistante, no plano da pol√≠tica tout court, tanto da revolu√ß√£o cl√°ssica quanto da chamada concilia√ß√£o. E, nisso,¬†o Partido tamb√©m se vale de uma especificidade do processo de transforma√ß√£o social do Brasil, no qual a via negociada tem um papel central.

Na pr√≥pria dire√ß√£o nacional do PCB, h√° intelectuais¬†org√Ęnicos com capacidade de elabora√ß√£o pol√≠tica e vis√£o cultural mais ampla,¬†entre os quais poder-se-ia citar Arm√™nio Guedes, Salom√£o Malina, Mois√©s Vinhas, Givaldo Siqueira, Moacyr Longo, Marco Ant√īnio Coelho, Marly Vianna¬†e Anita Prestes, esta √ļltima hoje¬†conceituada professora universit√°ria e escritora. E n√£o s√≥: ainda da¬†clandestinidade, dirigentes e militantes como Geraldo Rodrigues dos Santos e Abigail¬†P√°scoa ajudam a organizar o movimento negro e o combate ao racismo. O arquiteto Zulu Ara√ļjo desponta j√° em meados da d√©cada de 70 como uma das lideran√ßas mais significativas do movimento negro na Bahia, participando da cria√ß√£o do grupo Olodum em 1979. Zulu Ara√ļjo presidiria mais tarde, por v√°rios anos, a Funda√ß√£o Palmares. Wellington Mangueira, respeitado militante e dirigente sergipano, tamb√©m revela sensibilidade para a quest√£o das rela√ß√Ķes raciais no pa√≠s. A prop√≥sito das chamadas lutas √©tnicas, conv√©m observar ainda que o Partido tampouco desconheceu, ao longo da sua exist√™ncia,¬†a enorme contribui√ß√£o dos √≠ndios para a forma√ß√£o do que √© o hoje o Brasil.¬†Foram membros do PCB, afora Darcy Ribeiro, os antrop√≥logos Eduardo¬†Galv√£o, Carlos Moreira, Berta Ribeiro, Sylvia Carvalho e tamb√©m o Dr. Noel Nutels e os¬†indigenistas Chico e¬†Apoena Meirelles, pai e filho.¬†

Apesar de tudo e a duras penas, o Partido buscava manter sua influência junto à sociedade, no quadro de um combate desigual travado com a ditadura militar. 

* 1978-1985¬†- Com o fim do AI-5, a decreta√ß√£o da Anistia¬†e o retorno dos comunistas do ex√≠lio, o PCB tenta se rearticular.¬†Reconhecendo a import√Ęncia do mundo da comunica√ß√£o, o Partido publica em¬†1980 um seman√°rio, Voz da Unidade, o qual abre algum espa√ßo para o debate¬†cultural. O jornal √© dirigido, em uma primeira fase, por Jo√£o Aveline¬†e, depois, por Luis Carlos Az√™do, oriundo do setor estudantil do¬†Partido e um dos seus melhores intelectuais org√Ęnicos at√© hoje, j√° no PPS. Um dos editores de cultura da Voz da Unidade √© o respeitado escritor e professor universit√°rio paulista Martin Cezar¬†Feij√≥. Nesse mesmo ano, nasce a revista Presen√ßa, coordenada pelo¬†veterano dirigente comunista Arm√™nio Guedes, que exprime a chamada vis√£o eurocomunista que se desenvolve dentro do PCB e conta com a participa√ß√£o, entre outros, de Luiz Werneck Vianna, Maria Alice Rezende de Carvalho, Manuel Pal√°cios, Gilvan Melo, Luiz S√©rgio Henriques, Rubem Barboza Filho e Alberto Aggio.¬†Dois anos antes,¬†ressurgia das cinzas a Revista Civiliza√ß√£o Brasileira, agora denominada¬†Encontros com a Civiliza√ß√£o Brasileira, tamb√©m dirigida pela dupla √änio¬†Silveira e Moacyr F√©lix, comunistas. Ex-l√≠deres egressos do movimento estudantil, como Carlos Alberto Muniz e Franklin Martins, assumem as propostas do Partido naquele momento.

Mas o PCB ainda n√£o obt√©m a sua legalidade. Pior, at√©: encontra-se muito dividido. De um¬†lado, existe o grupo que se articula em torno das posi√ß√Ķes defendidas por¬† Luiz Carlos Prestes, partid√°rio da forma√ß√£o de uma frente das¬†esquerdas. O conceituado advogado Aldo Lins e Silva, membro do Comit√™ Central do Partido, o acompanha nesse posicionamento, assim como os hist√≥ricos dirigentes comunistas Agliberto Vieira de Azevedo e Greg√≥rio Bezerra. De outro, h√° os chamados eurocomunistas, partid√°rios da aplica√ß√£o da rica experi√™ncia pol√≠tica de alguns partidos europeus √†¬†realidade brasileira, notadamente no que tange √† valoriza√ß√£o da quest√£o democr√°tica na ultrapassagemn do modo de produ√ß√£o capitalista, j√° percebida pelos comunistas nacionais em 1958. Acaba prevalecendo a linha pol√≠tica expressa por¬†Giocondo Dias, mas a influ√™ncia do PCB junto √† intelectualidade j√° n√£o¬†√© mais a mesma, decididamente.

Seguramente, a maneira como o PCB tratou da quest√£o eurocomunista contribuiu para esse afastamento da intelectualidade do seio do Partido. ¬†Intelectuais hist√≥ricos do PCB, com mais de vinte ou trinta anos de milit√Ęncia¬†- Leandro Konder √© um¬†deles; Carlos Nelson Coutinho, outro; o m√©dico David Capistrano Filho outro ainda -, pedem afastamento do Partido. Um jornalista da import√Ęncia de Mauro Malin tamb√©m se desliga nessa ocasi√£o do PCB (ele fora um dos redatores, juntamente com Giocondo Dias e Leandro Konder, da resposta √† "Carta aos Comunistas", de Luiz Carlos Prestes). Zuleika Alambert, que sempre trabalhara com a juventude e se tornara a principal express√£o feminina do partido, deixa igualmente a agremia√ß√£o. Mesmo assim conv√©m recordar que a a√ß√£o inovadora de Zuleika Alambert deixaria marcas, igualmente: Irina Abigail, Almira Rodrigues, Sonia Francine e Teresa Vitale, express√Ķes do feminismo no interior do PPS, sempre destacam o pioneirismo de sua atividade.¬†Seja como for, enfraquecido, o PCB se defronta ainda com a forte presen√ßa do¬†Partido dos Trabalhadores (PT) nos meios culturais, sobretudo na¬†Academia. Marco Aur√©lio Nogueira e Gildo Mar√ßal Brand√£o se afastam organicamente do Partido, mas mant√™m in√ļmeros v√≠nculos com a organiza√ß√£o. Um importante quadro intelectual e formulador pol√≠tico, Jos√© Paulo Neto, permanece, contudo, nas fileiras partid√°rias naquele momento, assim como o economista alagoano C√≠cero P√©ricles.

Ironias da História: não se pode deixar de lembrar que, no exato momento histórico que o PCB afirma a vitória de sua linha política de massas sobre a ditadura militar, esse mesmo partido começa igualmente a declinar.

* 1985-1992¬†- O PCB obt√©m a sua legalidade somente¬†em 1985, ap√≥s o fim do regime militar, quando outras agremia√ß√Ķes de e squerda j√° se encontravam legalizadas, como o PT e o PDT. O Partido tenta reconstruir as¬†pontes com o movimento cultural de maneira geral. O m√©dico comunista S√©rgio Arouca¬†assume a presid√™ncia da Fiocruz. O veterano jornalista comunista Ivan Alves¬†torna-se o Diretor de Jornalismo da TVE, a √ļnica televis√£o educativa¬†que ainda depende do governo federal (as demais s√£o estadualizadas).¬†Hor√°cio Macedo passa a ser o reitor da UFRJ, eleito por seus pares. S√£o espa√ßos que os¬†comunistas voltam a ocupar na sociedade. Um poeta libert√°rio como Paulo¬†Leminsky assume a sua plena condi√ß√£o de comunista. Um ensa√≠sta da qualidade de¬†Ivan Ribeiro Filho confirma a sua perman√™ncia no Partido. Advogados prestigiosos, defensores dos direitos humanos, como ¬†Marcelo Cerqueira, Humberto Jansen, Modesto da Silveira e Flora Strozenberg tamb√©m renovam ou mant√™m suas liga√ß√Ķes antigas com o Partido, que sempre manteve em seus quadros advogados brilhantes, como Calheiros Bonfim, Sinval Palmeira e Herman Baeta.

Em 1986, o PCB decide lan√ßar a revista¬†Novos Rumos, de car√°ter mais te√≥rico. Dirigida pelo veterano antifascista¬†No√© Gertel, a publica√ß√£o visa ampliar a¬†inser√ß√£o do PCB na¬†intelectualidade. Aos poucos, os contatos com o mundo do samba v√£o¬†sendo retomados. L√≠cia Canind√©, a Ru√ßa, vereadora comunista pelo Rio de¬†Janeiro, passa a presidir a escola de samba de Vila Isabel, ganhando o¬†carnaval de 1988, em memor√°vel desfile que homenageia Zumbi dos¬†Palmares no centen√°rio da Aboli√ß√£o, justamente. Noca da Portela, sambista dos mais¬†respeitados, integra oficialmente o partido. Monarco, outro portelense hist√≥rico, comparece a in√ļmeros atos promovidos pelo Partido - lembrando sempre que sua prima, Z√©lia Magalh√£es, tinha sido assassinada em um com√≠cio do Partido, durante o Governo Dutra, em 1946. Um compositor da qualidade de Almir Sater comparece a espet√°culos promovidos pelo Partido no Mato Grosso do Sul. Criadores como os¬†cineastas S√≠lvio Tendler e Jo√£o Batista de Andrade e os pintores Siron Franco, Waldomiro de Deus e Aparecida Az√™do tomam o¬†mesmo rumo. Um economista da qualidade de Raul de Mattos Paix√£o, autor de uma tese importante que considera a infla√ß√£o um instrumento de transfer√™ncia de renda do sal√°rio para o capital, em uma fase em que ela recrudescia, renova seus v√≠nculos partid√°rios.¬†Zelito Vianna e Vera de Paula permanecem estreitamente ligados ao Partido, ainda que sem v√≠nculos org√Ęnicos, propriamente. O rumo do PCB seria tamb√©m aquele do ator Stepan Nercessian e da¬†atriz Beth Mendes.

Mas - é preciso que se reconheça - o PCB representa um modelo internacionalmente esgotado - o chamado socialismo real -, e os estudantes e a nova intelectualidade progressista não se sentem mais nem um pouco atraídos. Apesar dos esforços de alguns reformadores - à frente dos  quais o próprio secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev -, o socialismo real se extingue em 1991, com o fim da União Soviética. E esse fato não poderia deixar de abalar profundamente o Partido, ligado desde os seus primórdios à Revolução Russa de 1917. Em 1992, o PCB decide mudar de nome e de política, sobretudo, e passa a se chamar Partido Popular Socialista, PPS.

* 1992-2011 - Ao perceber a import√Ęncia fundamental da democracia (o¬†Partido se pronuncia pela chamada radicalidade democr√°tica, a amplia√ß√£o¬†cont√≠nua dos espa√ßos de a√ß√£o e express√£o populares) e o alcance da¬†revolu√ß√£o t√©cnico-cient√≠fica em curso no mundo, o PPS vai se¬†posicionando como uma organiza√ß√£o que almeja reunir¬†condi√ß√Ķes de atrair e influenciar com sua pol√≠tica aqueles que atuam na √°rea da cultura e da ci√™ncia. Trata-se, na passagem do PCB para o PPS, de uma ruptura com determinadas pr√°ticas organizativas do velho Partid√£o, para al√©m de uma mudan√ßa de concep√ß√£o de mundo. Ademais, o Partido percebe que h√° novos atores sociais em cena. E espa√ßos pol√≠ticos novos, igualmente. Afinal, a chamada sociedade do conhecimento, o capitalismo cognitivo come√ßava a mostrar a sua cara, revelando o grande papel que a intelectualidade e os criadores possuem no processo de mudan√ßa social, deslocando as fronteiras da classe oper√°ria tradicional. O trabalho imaterial como que ganha materialidade.

Apesar disso n√£o se traduzir em fortalecimento imediato do Partido, homens como o economista Luiz Gonzaga Beluzzo,¬†os jornalistas Jos√© Hamilton Ribeiro e Andrei Bastos, o antrop√≥logo M√©rcio Gomes, o influente l√≠der ind√≠gena Marcos Terena, o poeta Wally Salom√£o, o fil√≥sofo Luiz S√©rgio Coelho Sampaio (esses dois √ļltimos prematuramente falecidos) juntaram-se nesses √ļltimos anos ao PPS, agremia√ß√£o presidida por um respeitado quadro da √°rea parlamentar, Roberto Freire.

Nas artes pl√°sticas, Rubens Gerschman, um nome de peso, colabora com o Partido. Delcio Marinho, diretor de teatro carioca e sobrinho-neto de Astrojildo Pereira, retoma suas liga√ß√Ķes com a frente cultural partid√°ria. Luiz Carlos Prestes Filho, estudioso e pioneiro no exame das chamadas ind√ļstrias criativas entre n√≥s, tamb√©m mant√©m rela√ß√Ķes muito amistosas como aparato cultural do Partido. Esportistas como o velejador Lars Grael, o ex-goleiro do Corinthians Ronaldo e o √≠dolo do Palmeiras Ademir da Guia aderem ao PPS, assim como a ex-jogadora de voleibol, pentacampe√£ pelo Flamengo e sobrinha de Astrojildo Pereira, Norma Dias, e o t√©cnico de futebol Vanderley Luxemburgo. A esportista Georgette Vidor ingressa igualmente no Partido, sagrando-se, inclusive, deputada estadual pela legenda do PPS. Igualmente deputado estadual pelo PPS, Comte Bittencourt enriquece a vis√£o partid√°ria sobre a quest√£o educacional.

Um passo importante no sentido da integra√ß√£o¬†com a esfera da cultura se deu ainda com a cria√ß√£o da Funda√ß√£o¬†Astrojildo Pereira (FAP), institu√≠da pelo Partido em 2001. A FAP cumpre a fun√ß√£o de um comit√™ cultural moderno. Intelectuais, jornalistas e artistas conceituados integram esse √≥rg√£o. E o conselho¬†editorial da sua revista, Pol√≠tica Democr√°tica, re√ļne alguns nomes expressivos. Eis alguns deles: o poeta Ferreira Gullar, o documentarista Vladimir Carvalho, o cientista pol√≠tico Luiz Werneck Vianna, o economista S√©rgio Besserman Vianna, o soci√≥logo Raimundo Santos, o professor Paulo¬†Bonavides, a f√≠sica Dina Lida Kinoshita, o advogado Raulino de Oliveira, o parlamentar e ex-ministro Raul Jungman, o professor Am√≠lcar Baiardi, o economista Raul de Mattos Paix√£o Filho (j√° falecido), o professor e ge√≥logo George Gurgel, o soci√≥logo Luiz Eduardo Soares, o ensa√≠sta e tradutor Luiz S√©rgio Henriques, o cr√≠tico e historiador musical Ricardo Cravo Albin, o professor Marco Aur√©lio Nogueira, a poetisa Graziela Melo, a soci√≥loga Cleia Schiavo, o jornalista Luiz Carlos Az√™do, o soci√≥logo Augusto de Franco, o historiador Alberto Aggio, a historiadora Maria do Socorro Ferraz, o historiador Ricardo Maranh√£o, o professor e ex-secret√°rio de estado Fausto Mato Grosso.

A revista Pol√≠tica Democr√°tica - editada por Marco Ant√īnio Coelho, ex-deputado comunista, pelo soci√≥logo da UNB Caetano Ara√ļjo e pelo jornalista Francisco In√°cio de¬†Almeida - vem desempenhando um papel semelhante √†quele da revista¬†Estudos Sociais nos anos 50 e 60, tornando-se um instrumento central¬†para o di√°logo do Partido com o mundo do conhecimento e a sociedade em geral. O mundo do¬†futuro. E √© interessante observar que, desde seu primeiro n√ļmero, no ano 2001, Pol√≠tica Democr√°tica estampa em sua capa um grande artista nacional, divulgando assim importante parcela da nossa produ√ß√£o pl√°stica, de Oscar Niemeyer a Candido Portinari, passando por Aparecida Az√™do, Waldomiro de Deus e Jo√£o C√Ęmara Filho.

Sintomaticamente, o primeiro secret√°rio do PPS, Francisco In√°cio¬†de Almeida, um dirigente forjado nos duros tempos da luta clandestina e¬†um de seus mais preparados intelectuais org√Ęnicos, √© hoje um dos principais¬†organizadores da FAP - o que, por si s√≥, traduz a import√Ęncia que o PPS¬†dedica¬†√† quest√£o do conhecimento e da¬†cultura. Um projeto importante da FAP, e que merece ser mencionado aqui, implica o resgate do passado promovido pela s√©rie "Brasileiros e Militantes", que, em 2011, j√° editara cerca de 30 document√°rios, a partir de depoimentos de figuras relevantes da vida do PCB-PPS e do pr√≥prio Brasil, como Oscar Niemeyer, Leandro Konder, Ferreira Gullar, Arm√™nio Guedes, Severino Teodoro de Mello, Moacyr Longo, Joel Rufino dos Santos, Ant√īnio Ribeiro Granja, S√©rgio Cabral, Bemvindo Sequeira e tantos outros.

√Č poss√≠vel concluir que o PPS tem por um de seus objetivos se apoiar nesse rico passado na tentativa de oferecer ao¬† pa√≠s um projeto cultural consistente. Refazer a utopia, em s√≠ntese. Sem tal projeto, n√£o h√° constru√ß√£o (ou reconstru√ß√£o, melhor dizendo) poss√≠vel de qualquer sa√≠da pol√≠tica para o Brasil, a nosso ju√≠zo.

Seja como for, o fato √© que, em meados¬†de 2005, o Partido organizou, em conjunto com a FAP, no Rio de Janeiro, mais exatamente no Museu da Rep√ļblica, um semin√°rio nacional para contribuir para a elabora√ß√£o de uma¬†pol√≠tica cultural para o pa√≠s na passagem para o terceiro mil√™nio.¬†E¬†o PPS ainda organizou,¬†em¬†julho de 2007, sempre em parceria com a FAP, uma Confer√™ncia Nacional Caio Prado¬†J√ļnior para¬†debater com a intelectualidade, sobretudo, os novos rumos da¬†esquerda brasileira. Realizada no ano seguinte, a Confer√™ncia dever√° come√ßar a publicar seus anais completos at√© 2012. S√£o v√°rios volumes, com textos de alguns dos intelectuais e homens p√ļblicos mais brilhantes do pa√≠s, como Ferreira Gullar, Roberto Freire, Fernando Gabeira, Jos√© de Souza Martins, Luiz Werneck Vianna, Rui Fausto e C√©sar Benjamim. O Partido faz quest√£o de deixar claro que os pr√≥prios intelectuais e artistas √© que¬†definir√£o os¬†caminhos da cultura entre n√≥s.

E não poderá ser com outro espírito que o Partido e sua Fundação enfrentarão as próximas batalhas políticas e embates eleitorais, quando pretendem influir de maneira significativa para a construção de um novo bloco de forças para mudar de fato o Brasil, em plena transição para a sociedade do conhecimento, onde a criatividade desponta como verdadeiro meio de produção. 

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Ivan Alves Filho, historiador, escreveu, entre outros livros, Memorial dos Palmares, Brasil, 500 anos em documentos e Giocondo Dias, uma vida na clandestinidade. Atualmente, √© editor do site da Funda√ß√£o Astrojildo Pereira, dirigindo a s√©rie visual "Brasileiros e Militantes". √Č membro do Diret√≥rio nacional do PPS.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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