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Marxistas e cat√≥licos - da m√£o estendida ao √ļnico caminho

Luiz Ign√°cio Maranh√£o Filho - Agosto 2011
 

Luiz Maranhão, a democracia e a Igreja Católica

por Cl√°udio de Oliveira, jornalista e chargista

Luiz Ignácio Maranhão Filho (1921-1974) é um dos onze membros do Comitê Central do PCB a figurar na lista dos desaparecidos políticos e mortos pela ditadura de 1964. Advogado, jornalista, professor do Atheneu Norte-rio-grandense, fundador da Faculdade de Filosofia e Letras do Rio Grande do Norte e ex-deputado estadual, Luiz Maranhão foi preso em São Paulo em 1974 e recolhido ao DOPS, lugar em que foi torturado até a morte.

A notícia do seu assassinato causou consternação no Rio Grande do Norte semelhante àquela verificada em todo o país quando da morte do também jornalista Vladimir Herzog, no ano seguinte. O respeito e admiração pelo principal dirigente comunista potiguar ultrapassava em muito as fronteiras do PCB, alcançava pessoas de pensamento liberal-democrático e até mesmo conservadores, bem como a alta hierarquia da Igreja Católica.

Consta que o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, teria chorado com a prisão e o desaparecimente de Luiz Maranhão, ao ser comunicado por Odete Maranhão, mulher do potiguar. Após o golpe de 1964, Luiz Maranhão foi o encarregado pelo Comitê Central do PCB para articular o apoio da Igreja Católica à luta pela redemocratização do país.

Luiz Maranh√£o participou da Comiss√£o de Contatos Pol√≠ticos juntamente com o dirigente Giocondo Dias e o jornalista e ex-deputado Marco Ant√īnio Tavares Coelho. Esteve em uma reuni√£o, representando o PCB, no apartamento de Jos√© Aparecido, com o ex-governador Carlos Lacerda e representantes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jo√£o Goulart para articula√ß√£o da Frente Ampla, de oposi√ß√£o ao regime. Foi um firme defensor da pol√≠tica de uni√£o de todos os setores democr√°ticos para a resist√™ncia √† ditadura, aprovada no 6¬ļ Congresso do PCB em 1967, enquanto alguns advogavam a luta armada.

Sua disposição para uma política aliancista talvez remonte ao início de sua formação política. Em 1939, ainda muito jovem e juntamente com seu irmão Djalma Maranhão, que viria a ser prefeito de Natal, Luiz Maranhão ajudou a fundar o
Diário de Natal ao lado de intelectuais de tendência liberal, com o objetivo de lutar contra as ditaduras nazifascistas da Europa e do Estado Novo no Brasil.

Na redemocratização de 1945, Luiz Maranhão participa da organização legal do PCB, mas seu irmão foi expulso do partido. Djalma Maranhão acusa a direção de aventureira e defende uma aliança com o cafeísmo, uma importante corrente política progressista do Rio Grande do Norte, liderada pelo advogado João Café Filho, que, nos anos 1920, juntamente com os comunistas, ajudara a criar os primeiros sindicatos independentes do estado.

Caf√© Filho foi a mais expressiva lideran√ßa pol√≠tica local da Revolu√ß√£o de 1930. Mas, por veto de Juarez T√°vora, foi impedido de assumir a interventoria do Rio Grande do Norte, suspeito de liga√ß√Ķes com o PCB. Todavia, os comunistas haviam rompido com Caf√© Filho por ele apoiar a chapa Get√ļlio Vargas¬ĖJo√£o Pessoa, da Alian√ßa Liberal, na campanha presidencial de mar√ßo de 1930, enquanto o PCB lan√ßara a candidatura do marmoreiro Minervino de Oliveira, pelo Bloco Oper√°rio Campon√™s.

Em 1933, Caf√© Filho funda o Partido Socialista Nacional e por ele √© eleito deputado federal em 1934, dentro da Alian√ßa Social, coliga√ß√£o com o Partido Social Democr√°tico. No Congresso, articula-se com o senador Abel Chermont e a esquerda parlamentar e funda o Comit√™ Parlamentar Pr√≥-Liberdades Populares para se opor ao fascismo da A√ß√£o Integralista Brasileira e ao golpe de 1937. Amea√ßado de pris√£o, exila-se na Argentina e s√≥ volta ao Rio Grande do Norte em 1945, quando se elege deputado federal. Em 1950 √© eleito vice-presidente, assumindo a Presid√™ncia da Rep√ļblica ap√≥s o suic√≠dio de Get√ļlio Vargas, em 1954. Faz um governo aliado √† conservadora UDN e se envolve nos obscuros acontecimentos que antecederam a posse de Juscelino Kubitschek. A favor de Caf√© Filho, o historiador H√©lio Silva escreve que ele garantiu o pleito de 1955.

Após a expulsão do PCB, Djalma Maranhão filia-se ao PSP cafeísta e, graças a um acordo entre Café Filho e a UDN do governador Dinarte Mariz, é indicado prefeito de Natal em 1956. Quatro anos depois, rompe com o governador e se elege chefe do executivo municipal, dessa vez numa aliança não só com os remanescentes do cafeísmo, de setores liberal-democráticos, de militantes da esquerda católica ligados à Ação Popular, como também do PCB, já sob a liderança do seu irmão.

Luiz Maranhão atravessou os anos duros do stalinismo e do sectário "Manifesto" do PCB de agosto de 1950. Após o XX Congresso do PC da União Soviética, em 1956, que denunciou os crimes de Josef Stalin, está entre os renovadores para a aprovação da "Declaração de Março de 1958", na qual o PCB passa a defender uma via pacífica e democrática para o socialismo e a necessidade de uma frente de amplos setores políticos e sociais em torno de um projeto de desenvolvimento independente para o Brasil.

A amplitude política de Luiz Maranhão e a nova conjuntura gerada pela eleição de Juscelino Kubitschek, de cuja campanha participou no Rio Grande do Norte, explicam a sua eleição a deputado estadual em 1958, pela coligação PTN-PST-PSB, já que o PCB tivera seu registro cassado em 1947.

Sua vit√≥ria n√£o foi um fato nada desprez√≠vel. Luiz Maranh√£o era publicamente reconhecido como comunista, eleito em um pequeno estado do Nordeste do Brasil, marcado pelo conservadorismo, de economia predominantemente agr√°ria, de operariado industrial quse inexistente. Some-se ao fato de que a capital, a cidade de Natal, ser um ponto de bases militares estrat√©gicas desde a II Guerra mundial, num contexto de guerra fria, em que o mundo ainda estava traumatizado pelo macartismo nos Estados Unidos, quando cidad√£os norte-americanos progressistas foram perseguidos, o ator e comediante ingl√™s Charles Chaplin foi expulso do pa√≠s, e o casal de cientistas comunistas Ethel e Julius Rosenberg foi executado na cadeira el√©trica, acusado de passar os segredos da bomba at√īmica √† Uni√£o Sovi√©tica.

Como se ver√° a seguir, pela leitura do texto "Marxistas e cat√≥licos - da m√£o estendida ao √ļnico caminho", publicado na
Revista Paz e Terra, em abril de 1968, e sob a influ√™ncia do Conc√≠lio Vaticano II, iniciado em 1962 pelo Papa Jo√£o XXIII e conclu√≠do em 1965 pelo Papa Paulo VI, Luiz Maranh√£o tinha na Igreja Cat√≥lica n√£o somente um aliado t√°tico, um companheiro de viagem da resist√™ncia democr√°tica. Ele acreditava na possibilidade de os cat√≥licos tornarem-se uma for√ßa social a favor das posi√ß√Ķes socialistas, aliados estrat√©gicos, de longo prazo, a partir dos valores da democracia, da solidariedade social e da paz no mundo.

Homem culto, leitor voraz, Luiz Maranhão publicou artigos no jornal do PC Francês
L¬íHumanit√© e certamente acompanhou as discuss√Ķes que se faziam na Europa, que mais tarde levaram os comunistas italianos, sob a lideran√ßa de Enrico Berlinguer, a terem posi√ß√£o semelhante, de trazer o catolicismo para a conviv√™ncia democr√°tica sob um Estado socialista democr√°tico que n√£o tivesse o marxismo-leninismo como ideologia oficial de estado, mas um Estado verdadeiramente laico.

Luiz Maranh√£o foi assassinado em 1974 e desde ent√£o o mundo deu muitas voltas. √Č dif√≠cil conjecturar que aprecia√ß√£o faria do pontificado de Jo√£o Paulo II e das posi√ß√Ķes do presente papa Bento XVI. Quem conhecia o dirigente comunista de perto pode deduzir que ele n√£o apoiaria os protestos na Universidade La Sapienza, em Roma, em 2008, quando Joseph Ratzinger foi impedido de falar aos estudantes e aos professores daquele estabelecimento de ensino superior. Os contempor√Ęneos de Luiz Maranh√£o s√£o un√Ęnimes em afirmar que ele era a encarna√ß√£o da toler√Ęncia e da disposi√ß√£o ao di√°logo, possuidor de uma extrema capacidade de ouvir e compreender posi√ß√Ķes n√£o s√≥ diferentes das suas, como tamb√©m aquelas que lhe eram frontalmente opostas.

Marxistas e cat√≥licos. Da m√£o estendida ao √ļnico caminho ¬† ¬†

Nesta segunda metade do s√©culo, a converg√™ncia de posi√ß√Ķes entre marxismo e cristianismo surge como um dos fen√īmenos mais impressionantes da nossa √©poca, surpreendendo a muitos que n√£o se detiveram no exame de um longo processo, iniciado em alguns pa√≠ses europeus nos dif√≠ceis dias da ocupa√ß√£o nazista, desdobrando-se, depois, at√© o Conc√≠lio Ecum√™nico Vaticano II. Processo que remonta, tamb√©m, ao que talvez possamos chamar nova teologia, expressa atrav√©s do pensamento de Teilhard de Chardin, cujo itiner√°rio de persegui√ß√Ķes impostas pela velha estrutura assinala bem o seu lugar entre os portadores de ideias novas.

Grande teria de ser, como vem sendo, a repercuss√£o no Brasil daquele fen√īmeno sociopol√≠tico de algumas a√ß√Ķes unit√°rias entre marxistas e cat√≥licos, principalmente porque, a esta altura dos acontecimentos, tais atitudes j√° s√£o adotadas n√£o apenas por setores isolados, nos escal√Ķes intermedi√°rios, mas pelas pr√≥prias c√ļpulas internacionais. O Brasil √© o pa√≠s de maior popula√ß√£o cat√≥lica do mundo, e essa condi√ß√£o haveria de exigir uma aten√ß√£o especial para esses assuntos, tanto da parte dos marxistas como dos crist√£os. Mas acreditamos que eles tenham interessado principalmente aos √ļltimos e com muita raz√£o. Sendo um pa√≠s em desenvolvimento, com extens√£o continental e possuindo t√£o importantes recursos naturais, o Brasil se destina a ocupar posi√ß√£o entre as grandes pot√™ncias. J√° n√£o se trata do velho "ufanismo" do "pa√≠s do futuro", mas de uma realidade que se evidencia ao aproximar-se o limiar do ano 2000.

Vivemos a época em que já se constroem as bases materiais e técnicas do comunismo; a época do triunfo e florescimento da sociedade socialista; a época em que povos e mais povos fazem a sua transição ao socialismo.

√Č prov√°vel que a consci√™ncia da Igreja sobre a import√Ęncia do Brasil para o seu futuro em face dessa √©poca explique algumas das mais s√©rias crises enfrentadas pelo regime ditatorial vigente em nosso pa√≠s. A Igreja, cuja hierarquia participou do golpe de 1¬ļ de abril e lhe deu respaldo nas camadas m√©dias, entra em choque, √†s vezes abertamente, com o governo militarista. Essa √© uma contradi√ß√£o que n√£o poderia passar despercebida a ningu√©m. Nem mesmo aos que fecham os olhos para n√£o ver.

Os marxistas, naturalmente, colocam-se diante dessas observa√ß√Ķes examinando-as de um ponto de vista das rela√ß√Ķes entre as classes sociais. Essa an√°lise √© da maior import√Ęncia para o desenvolvimento de grandes lutas que inevitavelmente se avizinham, lutas de afirma√ß√£o nacional e democr√°tica e inseridas no grande fluxo pol√≠tico do nosso tempo, a poderosa caudal do socialismo.

Mas, para compreendermos alguns fen√īmenos nacionais, √© necess√°rio remontar a aspectos hist√≥ricos gerais.

Sobrevivente dos escombros do Imp√©rio Romano, que ru√≠ra ao fragor das invas√Ķes chamadas "b√°rbaras" do s√©culo V, a Igreja, adaptando-se √†s novas condi√ß√Ķes surgidas com o feudalismo, ter√° na Idade M√©dia o per√≠odo do seu grande fast√≠gio, como instrumento das classes dominantes. Desnecess√°rio lembrar que desde Constantino ela rompera com suas origens, deixando de ser uma organiza√ß√£o dos oprimidos. Dessa sua primeira fase, o escritor sueco P√§r¬†Lagerkvist nos d√° uma boa imagem no seu livro Barrab√°s, mostrando a organiza√ß√£o dos escravos nas minas de cobre. O cristianismo era uma forma de organiza√ß√£o dos trabalhadores na luta contra os senhores. A Igreja constantiniana √© a nega√ß√£o de tudo isso. √Č a nega√ß√£o do pr√≥prio cristianismo. E foi essa estrutura negativista que permaneceu no tempo, chegando at√© aos nossos dias.

Senhorial e desp√≥tica, a Igreja governou o mundo. J√° n√£o era apenas um instrumento dos opressores, mas parte integrante das classes dominantes, das quais se torna centro da aglutina√ß√£o e decis√Ķes. A principal express√£o desse imenso poder centralizador foi, sem d√ļvida, o Sagrado Imp√©rio Romano-Germ√Ęnico, que em certo per√≠odo reunia mais de mil Estados semi-independentes. Tornando-se dona de imensas riquezas, inclusive de grandes extens√Ķes de terra, essa Igreja escolhia o seu chefe, o Papa, em assembleia de senhores feudais. Somente muito depois √© que tal escolha passaria a ser efetuada em assembleia dos cardeais.

A Igreja feudal espelharia a corrup√ß√£o da sua classe social. Esse aspecto seria fixado por Maquiavel em uma obra que n√£o teve a proje√ß√£o de O Pr√≠ncipe, mas √© uma obra-prima de den√ļncia, A Mandr√°gora.

A degrada√ß√£o dos costumes, aquela terr√≠vel corrup√ß√£o, foi o motivo externo, a motiva√ß√£o para o Cisma do Ocidente, cujas ra√≠zes na verdade estavam no choque determinado pelo aparecimento de uma nova classe na sociedade, classe que ent√£o ascendia rapidamente ao impulso de for√ßas produtivas que surgiram no campo econ√īmico. A burguesia nascente, que comandava a grande Revolu√ß√£o Industrial, fazendo o seu ingresso na arena pol√≠tica sob o signo de violentas convuls√Ķes, decapitando reis e n√£o vacilando em desmoronar as velhas estruturas, teria de chocar-se com a Igreja feudal. Esta resistir√° com todas as suas for√ßas. E seguir√° resistindo. Da parte de certos setores, at√© hoje. Vinculada¬†√† sua longa forma√ß√£o feudal, conservar√° sempre um tra√ßo de medievalismo em sua ideologia. Uma leg√≠tima e consciente representante de l¬íancien r√©gime.

A jovem burguesia conseguir√°, entretanto, cindir aquelas velhas estruturas. O cisma luterano √© a express√£o daquela luta de classes. O capitalismo encontrar√° no protestantismo um dos seus esteios ideol√≥gicos, que exerceu, entre outras, a fun√ß√£o de justificar a ambi√ß√£o de ganho e a valoriza√ß√£o do trabalho, o esfor√ßo do homem na produ√ß√£o econ√īmica. Para levar √† frente a sua revolu√ß√£o, a burguesia, como classe, necessitava transformar a mentalidade dos homens, animando-os e ativando-os para que desempenhem as suas tarefas e assumam a sua parcela de responsabilidades na Revolu√ß√£o Industrial. N√£o se pode dizer que esse fen√īmeno teve um car√°ter geral e fundamental. Mas √© indiscut√≠vel a import√Ęncia do protestantismo, como fator de superestrutura, para a libera√ß√£o da for√ßa de trabalho, esta por sua vez indispens√°vel nas transforma√ß√Ķes de infraestrutura. No seu Bandeirantes e Pioneiros, Viana Moog assinala a influ√™ncia desses fatores na coloniza√ß√£o do continente americano.

Uma nova sociedade surgia com a Revolu√ß√£o Industrial, e o ru√≠do dos teares j√° n√£o se acomodava ao cantoch√£o das Igrejas g√≥ticas. A verdade √© que os pa√≠ses protestantes caminharam √† frente na abertura de toda uma importante fase da hist√≥ria da humanidade, imprimindo √† sociedade um ritmo de a√ß√£o cheio de energia, liquidando com a velha maneira de prestar culto √† divindade atrav√©s de mortifica√ß√Ķes, jejuns, etc. Isso j√° contrariava os interesses da nova classe dominante, que encontra em Martinho Lutero o ide√≥logo para a justifica√ß√£o do sistema de vida capitalista.

Enquanto isso, a Igreja se mantinha na sua obstinada resist√™ncia, fiel √† defesa dos seus bens terrenos, das suas prerrogativas e das suas antiquadas concep√ß√Ķes. Ela continuar√° marcada pela mentalidade dos ascetas e anacoretas, que procuravam fugir √† realidade do mundo, isolando-se de todos, e cuja dolorosa imagem foi bem fixada por Anatole France, quando faz o pobre Frei Antoine descobrir a hediondez do seu pr√≥prio rosto.

Sem d√ļvida, a Igreja demonstrou capacidade de adapta√ß√£o e soube conviver com os sucessivos regimes sociais. √Č impressionante, por√©m, como se manteve firme na sua posi√ß√£o retr√≥grada na transi√ß√£o do feudalismo ao capitalismo. H√° dois aspectos dessa posi√ß√£o que despertam aten√ß√£o.

Um desses aspectos √© a campanha sistem√°tica do Vaticano contra o liberalismo. As den√ļncias feitas em diversos documentos pontif√≠cios revelam que a Igreja sempre apontou os males gerados pelo capitalismo como uma forma de justificar as suas posi√ß√Ķes anteriores, com evidente saudosismo dos velhos tempos. H√° sempre a preocupa√ß√£o de demonstrar que o progresso obtido foi infrut√≠fero, pois os males sociais estavam se agravando. Em todo o mundo cat√≥lico surgem movimentos tradicionalistas. As velhas classes dominantes suspiram, saudosas dos bons tempos. A toda hora apontam os males do liberalismo, tentando mostrar que no seu tempo as cousas eram melhores. Essa linha de pensamento levar√° mesmo a uma condena√ß√£o do imperialismo do dinheiro, express√£o usada em um documento pontif√≠cio e hoje relembrada para melhor explicar algumas posi√ß√Ķes atuais. Na verdade, aquela condena√ß√£o tinha a marca do saudosismo que j√° fora observado pelos fundadores do socialismo cient√≠fico, os cl√°ssicos dos marxismo, ao assinalarem, ironicamente, a exist√™ncia de um socialismo feudal. No Brasil, Eduardo Prado ofereceria com A Ilus√£o Americana um exemplo dessa posi√ß√£o, na qual ele nem escondia o fundo do seu monarquismo medieval. Ele condena os crimes da expans√£o capitalista. Mas n√£o avan√ßa √†s posi√ß√Ķes progressistas da Rep√ļblica. Mant√©m-se no saudosismo monarquista. Isso tudo formalizou uma constante na atitude da Igreja com uma sua n√≠tida vincula√ß√£o ideol√≥gica ao feudalismo.

Outro aspecto da resist√™ncia da Igreja √† Revolu√ß√£o Industrial foi a luta desesperada que travou em defesa dos seus dom√≠nios, das suas propriedades. Os Estados Pontif√≠cios tentar√£o sobreviver de qualquer maneira e far√£o da pen√≠nsula italiana o teatro de uma grande batalha, na qual se defrontar√£o as for√ßas novas, resultantes do processo de industrializa√ß√£o contra o reacionarismo feudal da Igreja. A revolu√ß√£o nacional italiana, o processo de unifica√ß√£o da Pen√≠nsula, essa brilhante Revolu√ß√£o que dar√° ao mundo figuras como Cavour e Mazzini √© realizada contra a Igreja, derrotando-a pelas armas. Instaurando o Reino Italiano em Turim (1861), Vitor Emanuel impor√° a derrota final √†s for√ßas da Igreja, destro√ßando o Ex√©rcito Papal e ocupando Roma. O que se segue √© a localiza√ß√£o do Papa no Bairro do Vaticano, que ali permanecer√° dizendo-se "prisioneiro", derrotado mas intransigente na fidelidade ao seu feudalismo. Reduzida aos limites do velho bairro romano, limites por demais estreitos para quem vivera o esplendor do Sagrado Imp√©rio, a Igreja atravessar√° uma fase de sonolenta decad√™ncia. J√° n√£o apresenta sequer a fase hirsuta e dolorosa do Frei Antoine da obra anatoliana. N√£o restar√° mais do que a imagem de figuras ultramontanas, pachorrentamente corruptas, como o C√īnego Dias e o Libaninho, entre outras incorporadas √† cria√ß√£o liter√°ria de E√ßa de Queir√≥s.

Com essa imagem a Igreja ingressa no s√©culo XX, em cuja segunda d√©cada ocorrer√° o grande acontecimento que foi a Revolu√ß√£o de Outubro, a revolu√ß√£o socialista dirigida por Lenine, fazendo a classe oper√°ria pela primeira vez ascender ao poder em um pa√≠s. Com o triunfo da revolu√ß√£o prolet√°ria na velha R√ļssia inicia-se um novo per√≠odo na hist√≥ria da humanidade. E o surgimento da URSS deu novas dimens√Ķes ao movimento revolucion√°rio internacional. Encerrada a fase da interven√ß√£o armada da burguesia internacional contra o jovem Estado socialista, inicia-se a prepara√ß√£o de uma contrarrevolu√ß√£o, violentamente jogada contra a vit√≥ria oper√°ria de 1917. Foi o fascismo, √ļltima etapa do capitalismo e que mostra o imperialismo em sua agressividade guerreira.

O fascismo foi buscar na Igreja uma das bases fundamentais da sua concepção social: o corporativismo. Com a Igreja sempre o fizera, o fascismo surge condenando e decretando a falência do liberalismo. Em face do ascenso do socialismo a burguesia necessita, ao mesmo tempo, preparar-se para o ataque militar de liquidação do Estado proletário e promover uma reestruturação da organização social que demonstrasse ainda haver, depois da falência do liberalismo, formas de desenvolvimento nos marcos da propriedade privada.

A simbiose capitalismo-corporativismo foi o elo para uma alian√ßa do fascismo com a Igreja, que recebia da burguesia as homenagens de uma repara√ß√£o hist√≥rica. Era como se a burguesia, tanto tempo depois de haver liquidado Carlos V e Luiz XVI, voltasse aos remanescentes do feudalismo para o reconhecimento de alguns dos seus erros e para uma composi√ß√£o entre cavalheiros. A composi√ß√£o efetivamente foi alcan√ßada e teve o nome de Concordata. O Tratado de Latr√£o dar√° ao Papa o status de Chefe de Estado, e a Igreja se projetar√° como que partindo para uma segunda Contrarreforma, desta vez apoiada na poderosa m√°quina montada por Benito Mussolini. O mundo cat√≥lico foi todo mobilizado nessa batalha ingl√≥ria, sempre em nome de um ferrenho anticomunismo e de um n√£o menos ferrenho antiliberalismo. No Brasil esse tipo de luta contra o liberalismo ficou documentado em Brasil, Col√īnia de Banqueiros. Com esse livro, Gustavo Barroso liga-se historicamente em linha vertical a Eduardo Prado. Este com o seu antirrepublicanismo, voltado para a monarquia. E o primeiro com o seu anticomunismo, voltado para o fascismo. De um a outro a marca do feudalismo. A v√£ tentativa de restaurar as velhas Corpora√ß√Ķes de Of√≠cio serviu apenas para mascarar a a√ß√£o dos grandes monop√≥lios, que aumentar√£o cada vez mais, na sua sede de lucro, a explora√ß√£o das grandes massas. E o mais caro dos pre√ßos, o da liberdade, foi pago por muitos povos.

N√£o se pode dizer que a Igreja como um todo tenha sido respons√°vel pelo caminho adotado a partir da Concordata. Vale inclusive lembrar que Ignazio Silone focaliza esse problema em P√£o e Vinho, colocando o Padre Benedetto na aldeia, para onde vai praticamente exilado, a referir-se entre os camponeses ao Papa Pio XI chamando-o de P√īncio XI... A not√≠cia se divulga e os cafoni, aturdidos, perguntar√£o uns aos outros se j√° ouviram falar que est√° sentado na cadeira de S√£o Pedro um descendente de P√īncio Pilatos. Eis a√≠ uma dura imagem que refletia o drama final da Igreja constantiniana.

Esse drama assumir√° aspectos apocal√≠pticos no pontificado seguinte, quando Pio XII levar√° a extremos a op√ß√£o feita pelo seu antecessor. De tal maneira que se repetir√° a imagem de Silone da compara√ß√£o do Papa ao Procurador da Judeia. A compara√ß√£o, tanto cruel quanto exata, foi retomada modernamente por Rolph Hochhuth em O Vig√°rio. Nessa pe√ßa, surge no palco a figura de Pio XII. Frio e √°lgido, ele recebe a desesperada visita do padre que vem da Alemanha, onde luta contra os nazistas. Faz um apelo veemente ao Papa. Uma palavra sua, uma atitude do Vaticano, salvar√° a vida de milh√Ķes de pessoas. O massacre dos judeus n√£o se consumar√°. Pio XII, com imponente rudeza, nega-se a tomar essa atitude. A cena se conclui com o Papa lavando as m√£os diante do Padre desesperado, cuja mente recorda o drama dos campos de concentra√ß√£o e dos fornos cremat√≥rios. Pio XII lava as m√£os diante de tudo isso. √Č como se estivesse no palco o pr√≥prio P√īncio Pilatos.

E não seria demais completar a imagem de Rolph Hochhuth com a outra de Shakespeare, porque Pio XII como Lady Macbeth poderia ter prosseguido a lavar as mãos, inutilmente, sem deixar de vê-las sempre manchadas de sangue.

Mas tudo isso será em breve um capítulo encerrado na História. O seu término ocorrerá quando a 30 de abril de 1945 um jovem soldado soviético hasteia a bandeira do seu país em Berlim, no topo do Reichstag.

A experi√™ncia de toda essa fase ser√° da maior import√Ęncia para as novas atitudes da Igreja, para quem restar√° do per√≠odo anterior apenas o rebotalho do salazarismo e do franquismo na Pen√≠nsula Ib√©rica. Vivendo novos tempos, impulsionada por novas for√ßas geradas em seu pr√≥prio seio, a Igreja empreender√° a revis√£o de suas atitudes. E o far√° em dimens√Ķes de ineg√°vel grandeza. A necessidade que tenha hoje de refer√™ncia a tantos fatos negativos √© imposta para tornar bem claro o que houve, quanto a uma tomada de consci√™ncia, a partir de Jo√£o XXIII.

Teilhard de Chardin e Jos√© Lebret, eis a√≠ duas figuras que sintetizam e simbolizam as profundas transforma√ß√Ķes da Igreja nos tempos contempor√Ęneos. O primeiro desenvolver√° toda uma linha de pensamento, atingindo o campo da filosofia e da teologia, enquanto o segundo renova o pensamento social da Igreja, fazendo-a viver o problema econ√īmico dos pa√≠ses subdesenvolvidos, um problema denso de conte√ļdo revolucion√°rio.

Chardin (jesu√≠ta) e Lebret (dominicano) constituem como que uma soma de todo um processo de evolu√ß√£o, de uma luta interna travada ao longo do tempo. Ficou dito, linhas atr√°s, que as posi√ß√Ķes negativas da hierarquia nem sempre correspondiam √† atua√ß√£o das bases. Esse processo dial√©tico de luta dos contr√°rios pode ser encontrado, inclusive, nas Idades M√©dia e Moderna, n√£o havendo, por exemplo, termo de compara√ß√£o entre as posi√ß√Ķes de um Torquemada com as de um Abelardo. E se tomarmos na Idade Contempor√Ęnea um pa√≠s como a Fran√ßa, por exemplo, encontraremos a influ√™ncia positiva de um Jacques Maritain, cuja proje√ß√£o igualmente n√£o pode ser comparada √† indig√™ncia pol√≠tica de um Charles Maurras. No mesmo curso de observa√ß√Ķes encontrar√≠amos, ainda, o confronto entre a velha Action Catholique e Action Populaire.

Durante a Segunda Guerra Mundial aquelas forças positivas existentes nas bases da Igreja rebelar-se-ão, na França e na Itália, contra a hierarquia, estabelecendo por conta própria uma aliança com os marxistas. No maquis francês ou como partigiani nas montanhas italianas, muitos padres católicos estarão juntos com os marxistas, de armas nas mãos, lutando contra o nazismo. No após-guerra esse fato apresentar-se-á com o caráter de uma tendência irreversível. E outros exemplos surgirão, entre os quais o dos "padres operários", que tão profundamente evidenciaram as possibilidades de uma fecunda ação conjunta exercida por marxistas e cristãos.

Com a elei√ß√£o do Papa Jo√£o XXIII a Igreja realiza o seu grande aggiornamento, atualizando-se em face dos novos tempos e de um mundo em trasi√ß√£o. Prepara-se, ela tamb√©m, para essa transi√ß√£o. As enc√≠clicas sociais de Jo√£o XXIII e Paulo VI trazem esse sopro de renova√ß√£o. √Č o triunfo das ideias do Padre Lebret, cujo pensamento vem a ser consubstanciado na Populorum Progressio, documento em que a Igreja n√£o apenas aceita a exist√™ncia do socialismo. Mais do que isso, chega a uma op√ß√£o em favor do socialismo ao liquidar com a sua antiga posi√ß√£o de defesa intransigente da propriedade privada.

A Populorum Progressio faz críticas ao capitalismo liberal, mas já reconhecendo que a Revolução Industrial foi um fator de progresso. Vale a pena lembrar esse trecho:    

Mas se é verdade que um certo capitalismo foi a fonte de tantos sofrimentos, injustiças e lutas fratricidas com efeitos ainda duráveis, é contudo sem motivo que se atribuem à industrialização males que são devidos ao nefasto sistema que a acompanhava. Pelo contrário, é necessário reconhecer com toda a justiça o contributo insubstituível da organização do trabalho e do progresso industrial na obra do desenvolvimento.

Combatendo o capitalismo liberal, a Igreja não o faz já agora com nenhum vínculo com o feudalismo, reconhecendo a contribuição trazida pela Revolução Industrial, mas a esta altura já voltada para a forma socialista de produção. Deixando de lado sua posição extremada quanto à propriedade privada, esses conceitos já estavam claros desde a Mater et Magistra:  

[...] dever√° concluir-se que a socializa√ß√£o, crescendo em amplitude e profundidade, chegar√° a reduzir necessariamente os homens aut√īmatos? A esta pergunta temos de responder negativamente. N√£o deve considerar-se a socializa√ß√£o como resultado de for√ßas naturais impelidas pelo determinismo; ao contr√°rio, como j√° observamos, √© obra dos homens, seres conscientes e livres, levados por natureza a agir como respons√°veis, ainda que em suas a√ß√Ķes sejam obrigados a reconhecer e respeitar as leis do progresso econ√īmico e social, e n√£o possam subtrair-se de todo √† press√£o do ambiente. Por isso conclu√≠mos que a socializa√ß√£o pode e deve realizar-se de maneira que se obtenham as vantagens que ela traz consigo e se evitem ou reprimam consequ√™ncias negativas. A √©poca moderna tende para a expans√£o da propriedade p√ļblica: do Estado e doutras coletividades.

Pode-se dizer que a vitória das ideias de Lebret foi ainda maior porque a Igreja se engajou na luta dos povos subdesenvolvidos contra a espoliação do neocolonialismo.

Quanto a Chardin, as suas ideias n√£o foram ainda aceitas pela hierarquia. Como √© sabido, esse jesu√≠ta, que veio a falecer em 1955, elaborou uma nova concep√ß√£o teol√≥gica, partindo da evolu√ß√£o das esp√©cies de Darwin e da exist√™ncia da mat√©ria. Praticamente considerado um her√©tico, foi desterrado para a √Āsia, onde se dedicou a pesquisas paleontol√≥gicas. O seu nome aparece sempre lembrando os de Cop√©rnico e Galileu. Ainda em 1962, o Santo Of√≠cio baixava instru√ß√Ķes severas no sentido de "preservar os jovens contra a obra do padre Teilhard de Chardin". A seu respeito, o escritor italiano G. Vigorelli escreveu um livro intitulado O Jesu√≠ta Probido. Muitos esperavam que o Conc√≠lio Ecum√™nico Vaticano II j√° viesse a proporcionar uma vit√≥ria das concep√ß√Ķes de Chardin. Entretanto, o Conc√≠lio, fazendo t√£o grandes aberturas no campo sociopol√≠tico, manteve-se solidamente herm√©tico nas quest√Ķes teol√≥gicas. Mas a sombra de Chardin, por mais que evitassem a discuss√£o de suas teses, pairou sobre o Conc√≠lio. E continuam ganhando corpo no seio da Igreja, com uma grande penetra√ß√£o dos seus livros, entre os quais dois se destacam: A Vis√£o do Passado e O Futuro do Homem.

Talvez esteja próximo o dia em que a Igreja possa rever o seu velho arcabouço teológico e o chardinismo ocupe um lugar destacado como pensamento religioso dentro de uma sociedade socialista.

Os marxistas, naturalmente, olham essas transforma√ß√Ķes com interesse e entusiasmo, embora de in√≠cio alguns com certas reservas, pois de sua parte existem igualmente problemas de ordem ideol√≥gica. Em primeiro lugar, surge a quest√£o de como explicar essas transforma√ß√Ķes do ponto de vista do marxismo. E, em segundo lugar, a an√°lise para precisar o alcance de tais aberturas, at√© onde ela pode ir no contexto da luta de classes.

Ali√°s, diga-se de passagem, a transforma√ß√£o ocorrida na Igreja de Roma foi relativamente modesta. Nesse sentido, o Budismo oferece um avan√ßo mais consider√°vel, sendo conhecida a consigna partida da Birm√Ęnia: o socialismo √© o triunfo de Buda. Sem d√ļvida, pode-se esperar n√£o esteja distante o dia em que igual pronunciamento possa ser feito no Ocidente com uma equivalente afirma√ß√£o: o socialismo √© o triunfo de Cristo. Entretanto, √© conhecida a timidez com que a Igreja Cat√≥lica se refere ao socialismo, usando √†s vezes eufemismos e atrav√©s de circunl√≥quios, temerosa da maldi√ß√£o que ela mesma lan√ßou contra o sistema e a palavra.

Isso ocorre em consequência da posição acentuadamente de classe assumida pela Igreja, como religião e estrutura, vinculando-se ela própria ao sistema da propriedade privada. E somente como instrumento das classes dominantes é que a religião se choca frontalmente com o socialismo. Não é sequer um problema ideológico.

Nesse sentido, dentro da vis√£o da luta de classes, devemos ter a sinceridade de discordar de algumas posi√ß√Ķes de Roger Garaudy. Principalmente quando ele exp√Ķe o quadro do mundo atual como se nele os marxistas e os crist√£os j√° n√£o pudessem alcan√ßar os seus objetivos sem a unifica√ß√£o das suas for√ßas. Essa √© uma concess√£o que se encontra em Garaudy e que n√£o ajuda nem mesmo a desenvolver a unifica√ß√£o daquelas for√ßas.

Na verdade, o que se verifica é a ascensão da classe operária a uma posição já condicionadora dos rumos da sociedade, internacionalmente, em nossa época. Já não é a classe do futuro, senão a grande classe do presente. Representada pelo poder socialista implantado em numerosos países e pelo crescente poderio de sua influência no próprio campo capitalista, a classe operária condiciona a direção dos acontecimentos sociais.

A Igreja, como organização social, é susceptível de receber a influência da sociedade. O seu mérito é haver captado e compreendido essa realidade e vir promovendo a sua opção histórica, aceitando o socialismo. A sua dificuldade é que, para fazer essa opção, ela tem de romper com os seus velhos e poderosos vínculos com a propriedade privada, ela mesma rica proprietária. Na mudança atual que se opera na sociedade, na passagem ao socialismo, não restará possibilidade de a Igreja ficar vinculada aos restos de uma classe dominante derrotada, como fez com o feudalismo frente à Revolução Industrial. A classe operária ao se libertar liberta toda a sociedade. Desaparece o quadro tradicional da dominação de uma classe por outra. Surge a sociedade sem classes. Para a Igreja, será inevitável a rutura com o passado constantiniano e o retorno às suas origens, à posição da Igreja dos três primeiros séculos do cristianismo.

O "Pacto das Catacumbas", documento assinado por numerosos Bispos durante o Conc√≠lio, corresponde a essas posi√ß√Ķes no campo org√Ęnico da estrutura. J√° se viu que as ideias de Lebret triunfaram na concep√ß√£o socioecon√īmica da Igreja. As ideias de Chardin ganham for√ßa no campo teol√≥gico. Assim tamb√©m¬†o "Pacto das Catacumbas" crescer√° no seio da estrutura. S√£o tr√™s partes integrantes de um mesmo processo, atrav√©s do qual a Igreja caminhar√° ao socialismo.

Dentro dessa concepção, compreendendo que marchamos para a sociedade sem classes, torna-se claro que nenhuma religião será transformada em instrumento da classe operária. A religião harmoniza-se com a classe operária. E o fará sem necessidade de outro Cisma, como aquele de Martinho Lutero que serviu de suporte ideológico ao capitalismo contra o feudalismo. Nessa nova situação que se vai criando, a maior probabilidade de um Cisma seria da parte do grupo reacionário colocado em minoria durante o Concílio. Essa posição dramática tornou-se evidente quando o Cardeal Spelman, numa provocação às iniciativas de Paulo VI em favor da paz no sudeste asiático, dirigiu-se ao Vietnã para dizer lá, em pleno campo da agressão imperialista, que os soldados americanos ali se encontram "lutando em defesa da civilização ocidental e cristã". A velha linguagem, inteiramente superada e deixada para trás pelo Vaticano, fica sendo um privilégio do grupo minoritário, de tendência cismática.

Os marxistas, nessa converg√™ncia a que aludimos inicialmente, procuram colocar em termos exatos, j√° agora na base de uma experi√™ncia hist√≥rica de meio s√©culo de exist√™ncia do regime socialista, os problemas de sua posi√ß√£o frente ao fen√īmeno religioso. Tornou-se atual a an√°lise de uma frase de Marx, durante muito tempo tomada isoladamente e interpretada de maneira facciosa: "a religi√£o √© o √≥pio do povo".

O trecho completo de Marx é o seguinte:  

A religi√£o √© o suspiro da criatura atormentada, o estado de √Ęnimo de um mundo sem cora√ß√£o, porque √© o esp√≠rito dos estados de cousas carentes de esp√≠rito. A religi√£o √© o √≥pio do povo. A supera√ß√£o da religi√£o como felicidade ilus√≥ria do povo √© a exig√™ncia da sua felicidade real.

Como se v√™, Marx assinala a religi√£o como originada no sentimento dos oprimidos em face de "um mundo sem cora√ß√£o". E quando fala da supera√ß√£o da religi√£o o faz claramente em refer√™ncia √† supera√ß√£o da religi√£o como felicidade ilus√≥ria do povo. √Č no sentido dessa felicidade ilus√≥ria que a religi√£o √© simplesmente "√≥pio do povo".

Um proveitoso debate vem-se travando no campo do marxismo em torno desses assuntos, destacando-se a contribui√ß√£o dos italianos, a partir das proposi√ß√Ķes de Palmiro Togliatti em O Caminho Italiano para o Socialismo. √Č nessa ocasi√£o que se coloca a afirma√ß√£o de que o marxismo n√£o pugnar√° na It√°lia por um Estado que se oponha √† religi√£o, mas ao contr√°rio que se lhe assegure completa e efetiva liberdade de exist√™ncia.

Esse debate se desenvolve, indo dos estudos de Pietro Ingrao, [Lucio Lombardo] Radice e [Mario] Gozzini, na It√°lia, ao confronto Garaudy¬ĖAlthusser, na Fran√ßa, e √†s an√°lises de Adam Schaff, na Pol√īnia.

De nossa parte, uma observa√ß√£o nos parece v√°lida. Est√° nos cl√°ssicos do marxismo que, na constru√ß√£o da nova sociedade socialista, a √ļltima cousa que desaparecer√° dos resqu√≠cios da velha sociedade ser√° aquilo que est√° na cabe√ßa dos homens. √Č ponto pac√≠fico, tamb√©m, que toda superestrutura social corresponde a uma infraestrutura econ√īmica. J√° se disse mesmo: o homem que passou a trabalhar com o moinho movido a vapor j√° n√£o pensava da mesma maneira do homem que trabalhava com um moinho movido a √°gua.

Com essa compreens√£o √© que se explica o princ√≠pio geral do socialismo: a cada um, de acordo com as suas possibilidades de produ√ß√£o, √© assegurado o interesse material dos homens em sua atividade econ√īmica. E aqui chegamos √† observa√ß√£o de que esses mesmos homens, em muitos casos, conservar√£o as suas ideias religiosas. Querer modificar tudo isso, eliminando o est√≠mulo material na produ√ß√£o ou esses pensamentos, sem antes promover a transforma√ß√£o da infraestrutura, √© a nega√ß√£o do pr√≥prio marxismo.

A quest√£o de o marxismo aceitar a exist√™ncia da religi√£o no regime socialista n√£o apresenta, portanto, dificuldades. E quando s√£o feitas tentativas no campo socialista para eliminar a religi√£o do pensamento dos homens, antes daquelas transforma√ß√Ķes indispens√°veis na infraestrutura, os resultados conhecidos s√£o inclusive nefastos. A recente Revolu√ß√£o Cultural empreendida na Rep√ļblica Popular da China √© disso o mais recente e desastrado exemplo. Os inc√™ndios dos pagodes promovidos pela Guarda Vermelha n√£o representam contribui√ß√£o nenhuma para a consolida√ß√£o de uma consci√™ncia prolet√°ria. Ao contr√°rio, constituem um entrave para que a nova sociedade, a sociedade socialista, assimile, absorva e transforme a heran√ßa cultural da velha sociedade.

O √ļnico entrave √† conviv√™ncia do socialismo com uma religi√£o qualquer √© a vincula√ß√£o que a mesma porventura mantenha como instrumento das antigas classes dominantes. No que se refere √† Igreja Cat√≥lica, esses la√ßos come√ßam a ser deixados para tr√°s. E em breve poder√£o ser entregues a um passado para sempre desaparecido. Isto √© o que se pode deduzir do processo dial√©tico em desenvolvimento na Igreja, um processo em cuja correla√ß√£o de for√ßas as ideias novas j√° assumem uma posi√ß√£o dominante, anunciando a vit√≥ria do pensamento de Lebret e Chardin.

No Brasil, a posição de setores da Igreja é de uma forte tomada de posição em defesa do aggiornamento. Às vezes, é a própria hierarquia que oferece choques na luta contra o regime retrógrado implantado em nosso país.

O que se passa com essa Igreja √© que o golpe de 1¬ļ de abril desempenhou para ela um papel equivalente ao da Segunda Guerra Mundial para a Igreja na Fran√ßa e na It√°lia. Na Europa, a Igreja serviu aos interesses do Fascismo para a deflagra√ß√£o da guerra. Mas as suas bases se uniram aos marxistas na luta contra o nazismo. Em nosso pa√≠s, a hierarquia clerical patrocinou o golpe militar, mas as persegui√ß√Ķes se abateram tamb√©m sobre os padres, inclusive unindo estes aos marxistas nos c√°rceres.

Mas a Igreja no Brasil tem através da história aspectos que necessitam ser lembrados para compreendermos melhor o que se passa hoje.

Chegando aqui na batalha da Contrarreforma, "dilatando a F√© e o Imp√©rio", a Igreja oferecer√° ao Brasil o seu primeiro "subversivo" na pessoa do Padre Ant√īnio Vieira, que saiu daqui perseguido pela Inquisi√ß√£o. A expuls√£o dos jesu√≠tas no Governo Pombal (1759) ser√° um dos fatores para o surgimento de um clero nacional, que se desenvolver√° como exig√™ncia do surto de progresso que anima a col√īnia. Muitas figuras desse clero, oriundo j√° de fam√≠lias brasileiras, assumir√£o um papel de lideran√ßa nas lutas pela liberta√ß√£o do jugo colonial. Aut√™nticos her√≥is nacionais, muitos deles tombaram, com destemor, dignificando as posi√ß√Ķes da Igreja no Brasil na primeira metade do s√©culo XIX.

√Č impressionante a participa√ß√£o da Igreja na revolu√ß√£o republicana de 1817, com a subleva√ß√£o de tr√™s prov√≠ncias nordestinas. Nada menos de sessenta padres e treze frades apoiaram a revolu√ß√£o. Muitos desses sacerdotes tiveram suas vidas sacrificadas, como o Padre Miguelinho (Miguel Joaquim de Almeida).

Na Confedera√ß√£o do Equador (junho de 1824) a mais destacada figura √© o carmelita Frei Caneca, que seria fuzilado, amarrado numa forca, numa cena das mais dram√°ticas da hist√≥ria nacional Poder√≠amos, ainda, lembrar figuras como a Freira Joana Ang√©lica, assassinada na Bahia, dentro do seu convento, arrombado pelos soldados portugueses. Sem d√ļvida, esse clero representava muito bem os interesses das classes dominantes da √©poca. Ele era formado entre os filhos dos senhores de engenho, criadores e agricultores brasileiros. O que √© historicamente importante √© que isso lhe dava um car√°ter nacional.

Proclamada a Independ√™ncia, as posi√ß√Ķes progressistas do clero se manifestam na vida pol√≠tica. Isto ocorre j√° na Constituinte convocada pelo Imperador Pedro I, ao se travar o debate sobre a liberdade religiosa, inscrita no art. 7¬ļ do Projeto. Havendo na Constituinte dezenove sacerdotes, somente dois obedeceram √† orienta√ß√£o reacion√°ria da Igreja. Dezessete votaram pela liberdade religiosa.

Havia assim uma corrente progressista na Igreja deste sua forma√ß√£o. Essa corrente reduz sua influ√™ncia noutros per√≠odos, como na Aboli√ß√£o e na Rep√ļblica. As mesmas vincula√ß√Ķes de classe que haviam levado os sacerdotes, outrora, a lutar contra o jugo portugu√™s faziam amortec√™-los na campanha abolicionista.

Os movimentos liderados por Jacques Maritain e Padre Lebret deram novo impulso a essas correntes progressistas em nosso país. Mais recentemente, já sob o influxo da convocação do Concílio Ecumênico, haverá uma grande atividade junto aos trabalhadores do campo, passando os padres em alguns municípios a atrair o ódio dos latifundiários, que retiram o tradicional apoio financeiro às Paróquias e até agridem os sacerdotes fisicamente. Este é um dado importante, pois revela que muitos católicos mudam sua posição de classe, consciente das responsabilidades de não deixar a Igreja perder aqui o campesinato, ela que na Europa perdeu a classe operária desde o século XIX.

Essa corrente progressista seria surpreendida, pois a velha Igreja tinha o dom√≠nio da situa√ß√£o e mostrou-se fiel aliada do imperialismo norte-americano. O Padre Peyton e sua "Cruzada do Ros√°rio em Fam√≠lia" foram o prel√ļdio subliminar organizado pela CIA para as futuras "Marchas" que serviram de suporte ao golpe de 1¬ļ de abril.

Logo em seguida, a Igreja se sentir√° at√īnita, com padres presos e bispos amea√ßados. O mais s√©rio √© que a atitude do Vaticano era de apoio √†s correntes progressistas. E isso determinar√° uma contradi√ß√£o para cuja seriedade n√£o se aperceberam os militares golpistas.

A posi√ß√£o do Vaticano √© ditada pela compreens√£o que tem da import√Ęncia da Am√©rica do Sul e, em particular, do Brasil para o futuro da Igreja. Ao que parece, h√° uma convic√ß√£o de que o Brasil seria a grande na√ß√£o que melhor guardaria os tra√ßos do cristianismo em um mundo socialista.

√Č evidente que a Igreja, na Am√©rica do Sul, n√£o est√° muito bem capacitada para essas responsabilidades. Por isso foi oportuno o que fez um l√≠der sindical dos portu√°rios argentinos (em greve), que interrompeu uma reuni√£o do Episcopado argentino e leu a seguinte mensagem dos grevistas √† Igreja: ¬†

Vocês não ignoram que há um povo que há anos sofre, é perseguido, explorado e até o matam. E também sabem que não faz muito um Papa (João XXIII) morreu chorando porque dizia que o maior pecado da Igreja é ter perdido a classe trabalhadora. Nós portuários somos parte dessa classe que ficou sozinha. Não vimos prostrar-nos nem pedir clemência. Vimos exigir que falem, que se definam, porque como cristãos sabemos que vocês têm uma mensagem que lhes foi dada não para ocultar, mas para ser gritada. Que aqueles que se autointitulam defensores da Justiça e Mensageiros da Paz calem ou fiquem ao lado dos nossos verdugos, não somente não os entendemos, como também nos parece uma atitude hipócrita e farisaica.

Quanto aos marxistas brasileiros em sua posição frente aos católicos, acreditamos que possam afirmar, como numa frase recentemente pronunciada: "Já não se trata de estender-lhes a mão, mas de marcharmos juntos com eles".

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Publicado na Revista Paz e Terra, ano II, n. 6, abr. 1968. Digitalizado por Enny Maria dos Santos.

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Fonte: Revista Paz e Terra & Gramsci e o Brasil.

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