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Os apontamentos de Gramsci

Alfredo Bosi - Abril 2000
 

Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002. 6v.

A nova edição dos Cadernos do Cárcere, admiravelmente preparada por Carlos Nelson Coutinho e seus colaboradores Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques, desafia os inveterados leitores de Gramsci a se interrogarem sobre o que garante a vitalidade de um pensamento que, desde os anos 60, tem fecundado tanto a esquerda européia quanto a latino-americana.

A vitalidade de um pensador se reconhece antes pela garra das suas perguntas do que pelas respostas, fatalmente parciais, que ele conseguiu lhes dar. O que fica √© a quest√£o, desde que bem formulada; e o que se herda √© a exig√™ncia de encontrar a boa solu√ß√£o, e esta pode variar conforme as gera√ß√Ķes que a perseguem.

Muitas das quest√Ķes levantadas por Gramsci foram pensadas no in√≠cio dos anos 1930 em uma conjuntura mundial de alt√≠ssima tens√£o. O triunfo do nazifascismo dava-se nos mesmos anos da ascens√£o do estalinismo e em plena crise do liberalismo econ√īmico e pol√≠tico. O t√ļnel das ditaduras, do controle das massas e da guerra total estava sendo constru√≠do e a humanidade inteira parecia condenada a perder-se nos seus labirintos. Apesar de tudo, foi um tempo de expectativas e, para alguns esp√≠ritos animosos, uma hora de esperan√ßa.

Gramsci, preso em fins de 1926, vivia uma amarga derrota: os socialistas e os comunistas italianos, precariamente aliados desde a fundação do PCI em 1921, tinham sido batidos pelas esquadras do Fascio. Terminara sob os mesmos golpes a experiência promissora de organização operária de que ele participara ativamente em Turim animando os conselhos de fábrica, os círculos de cultura e um jornal militante de alto nível, Ordine Nuovo. Morte, exílio e cárcere, eis o quinhão das lideranças revolucionárias.

O que fazer? Antes de mais nada, pensar. O tema recorrente, quase obsessivo, do nosso jovem militante sardo √© precisamente o da fun√ß√£o dos intelectuais nas mais diversas forma√ß√Ķes sociais. Para entend√™-lo, mergulhou na Hist√≥ria munido de uma s√≥lida erudi√ß√£o de estofo germ√Ęnico adquirida quando estudante de Filologia da universidade turinense, e alimentada, anos a fio, com a sua curiosidade de estudioso incans√°vel. "Devemos impedir, por vinte anos, este c√©rebro de funcionar", sentenciara o promotor ao pedir a condena√ß√£o do subversivo Antonio Gramsci. Pensar √© perigoso.

Do acervo de leituras sobre o papel dos intelectuais desde o imp√©rio romano at√© a era industrial Gramsci induziu uma tipologia que ainda hoje √© objeto de discuss√£o nas ci√™ncias sociais. Haveria, em princ√≠pio, dois tipos de intelectuais. De um lado, os org√Ęnicos, cujo papel √© fornecer cimento ideol√≥gico aos estratos dominantes: por exemplo, o economista liberal que sanciona a hegemonia dos grupos financeiros na gest√£o do estado, e √© capaz de discorrer sobre o car√°ter "natural" da m√°quina a que serve. De outro lado, soldando o passado no presente, os tradicionais ou "eclesi√°sticos" que, n√£o estando diretamente ligados √† produ√ß√£o material, garantem a continuidade e a hierarquia de institui√ß√Ķes de fundo estamental: a Igreja, as universidades, os tribunais (a "aristocracia togada"), com seus mandarins e burocratas. A dist√Ęncia entre estes √ļltimos e o mundo da produ√ß√£o cria neles a ilus√£o, que Gramsci chama ut√≥pica, de serem aut√īnomos em rela√ß√£o √† m√°quina econ√īmica vigente: √© a veleidade da "autoposi√ß√£o" comum entre acad√™micos, juristas e burocratas. Provavelmente o avan√ßo atual do capitalismo globalizado, que estreita os v√≠nculos entre a cultura letrada e o imp√©rio da mercadoria, teria dado a Gramsci nova mat√©ria para pensar as intera√ß√Ķes, ent√£o bastante mediatizadas, hoje ostensivas, entre grupos tradicionais e o mundo dos org√Ęnicos.

Uma tipologia, mesmo quando apoiada em um n√ļmero razo√°vel de dados, √© sempre um esquema ideal. Gramsci conhecia a obra mestra de Max Weber, pois a lera no original e a citava com o seu costumeiro escr√ļpulo. Mas lera tamb√©m a l√≥gica dial√©tica de Hegel, os culturalistas alem√£es e sobretudo a obra inteira de Croce, seu virtual interlocutor e constante ponto de refer√™ncia pol√™mico. Querer interpretar Gramsci sem ter estudado Croce √© tarefa v√£. O clima filos√≥fico da gera√ß√£o que amadureceu a partir da primeira guerra era na It√°lia predominantemente crociano, como em entrevista recente lembrou Norberto Bobbio falando dos seus mestres. A marca da est√©tica crociana √© inequ√≠voca na cr√≠tica liter√°ria e teatral do jovem Gramsci que, ali√°s, a reconhece em mais de um dos seus escritos. A mat√©ria deste primeiro volume dos Cadernos constitui-se dos textos que Gramsci dedicou ao pensamento de Croce. √Ä luz dessa forma√ß√£o entende-se por que Gramsci, ao conceber uma tipologia dos intelectuais, nos adverte que o seu projeto √© fazer hist√≥ria da cultura, e n√£o sociologia classificat√≥ria: "Esta pesquisa sobre a hist√≥ria dos intelectuais n√£o ser√° de car√°ter ''sociol√≥gico'' (as aspas s√£o de Gramsci), mas dar√° lugar a uma esp√©cie de ''hist√≥ria da cultura'' (Kulturgeschichte) e de hist√≥ria da ci√™ncia pol√≠tica. Todavia, ser√° dif√≠cil evitar algumas formas esquem√°ticas e abstratas que recordam as da ''sociologia''; seria necess√°rio para tanto encontrar a forma liter√°ria mais adequada para que a exposi√ß√£o seja ''n√£o sociol√≥gica''".

Qual seria o erro de m√©todo que Gramsci pretendia descartar? Sem d√ļvida, um erro que ele atribu√≠a √† sociologia do seu tempo, ferreamente determinista. A resposta acha-se em um trecho dos Cadernos em que o pensador dial√©tico acusa o teor passivo e fechado dos quadros tipol√≥gicos. Tratando os sujeitos como objetos-coisas e engessando-os em categorias, as tabelas n√£o contemplam o dinamismo das consci√™ncias, as rupturas internas e, muito menos, os projetos movidos pela vontade pol√≠tica de grupos que formam militantes (logo, intelectuais diferenciados) para o exerc√≠cio de fun√ß√Ķes contr√°rias √† mera reprodu√ß√£o do sistema: "O evolucionismo vulgar est√° na base da sociologia, que n√£o pode conceber o princ√≠pio dial√©tico com a sua passagem da quantidade √† qualidade, passagem que perturba toda evolu√ß√£o e toda lei de uniformidade".

S√£o palavras que poderiam ter vindo de outros cr√≠ticos do historismo positivista, como Benjamin e Bloch, mas que na It√°lia tinham sido preformadas pelo pensamento de Croce. Mas as motiva√ß√Ķes de Gramsci iam al√©m das raz√Ķes de Croce. Gramsci √© um pensador revolucion√°rio. O que o leva a superar os limites da sua pr√≥pria tipologia funcional √© o seu projeto de constituir na vanguarda da classe trabalhadora a figura nova do dirigente capaz de aliar a per√≠cia t√©cnica a uma cultura permeada de valores socialistas e democr√°ticos. Essa cultura deveria crescer sobre o "h√ļmus" da "filosofia da pr√°xis", express√£o que nos Cadernos comparece em lugar do termo "marxismo" para driblar os censores da burocracia carcer√°ria.

Se a hist√≥ria das sociedades modernas de classe √© pontuada de crises e desequil√≠brios, por que n√£o poderia tamb√©m alterar-se o quadro "positivo" das fun√ß√Ķes dos intelectuais? Teriam estes que esgotar a sua mente na tarefa reprodutiva de legitimar o mercado ou as burocracias parasit√°rias? Sim, responderia o conformista sempre disposto a denegrir a vontade pol√≠tica alheia para melhor exercer a sua e a do seu grupo. (Leiam-se as agudas observa√ß√Ķes de Gramsci sobre as gest√Ķes pressurosas dos governos ditos liberais que n√£o hesitam em intervir sempre que os interessados lhes s√£o interessantes). Mas o pensador da "pr√°xis" op√Ķe-se √† atitude tendenciosa do conformista: era preciso formar militantes que fossem intelectuais org√Ęnicos da classe dos explorados, e cujos valores democr√°ticos, curtidos na experi√™ncia dos conselhos da f√°brica, pudessem prevalecer ap√≥s a conquista do poder. Nesse contexto, a express√£o "ditadura do proletariado" perde o car√°ter totalit√°rio que lhe deu o jarg√£o estalinista e passa a significar o governo do bem p√ļblico pelos cidad√£os-trabalhadores e n√£o mais pelos estrategistas dos interesses estritamente particulares.

N√£o cabe no espa√ßo desta resenha desdobrar as dimens√Ķes pedag√≥gicas impl√≠citas na √©tica do trabalho de Gramsci. Basta acenar para as suas reservas √† escola espontane√≠sta que j√° naquela altura condenava todo e qualquer programa de educa√ß√£o "dirigida". A op√ß√£o do pensador buscava o justo meio entre a conquista da liberdade respons√°vel e a necessidade de uma disciplina intelectual e √©tica capaz de cumprir as tarefas de constru√ß√£o de uma rep√ļblica a ser erguida pacientemente sobre os escombros de um mundo caduco.

J√° se passaram setenta e um anos desde que Gramsci come√ßou a redigir a primeira p√°gina dos seus apontamentos (8 de fev. de 1929). Hoje, em tempo de ind√ļstria cultural de massa, arb√≠trio crescente do capital financeiro e redu√ß√£o do poder de fogo dos sindicatos, alargou-se a dist√Ęncia entre o homem da rua, fraco candidato a cidad√£o, e os solertes mecanismos do mercado e das burocracias oficiais. Em dif√≠cil contraponto, movimentos sociais e setores partid√°rios menos anquilosados tentam o caminho das mudan√ßas de comportamento e de lei. Luta-se pelo emprego, pela renda m√≠nima, pela defesa do ambiente, pelo respeito √†s minorias, pela qualidade da vida urbana, enfim, pelos m√ļltiplos direitos humanos. N√£o h√° m√£os a medir para instruir novos intelectuais capazes de pensar e empreender as frentes de resist√™ncia. Entre n√≥s h√° pelo menos um grupo que herdou a perspectiva radical: o movimento dos sem-terra, t√£o mal visto pelo ceticismo dos bem instalados. √Č not√°vel a sede de forma√ß√£o cultural das suas lideran√ßas, o que confirma a clarivid√™ncia do pensamento de Gramsci: o "realismo" ou o "pessimismo da intelig√™ncia" n√£o deve minar o "otimismo da vontade", pois a rigor s√≥ a consci√™ncia sofrida da necessidade pode motivar a a√ß√£o pol√≠tica libertadora. E ningu√©m poder√° afirmar sem obtusa arrog√Ęncia que conhece de antem√£o todas as possibilidades de um processo social: "Deve-se observar que a a√ß√£o pol√≠tica tende precisamente a fazer com que as multid√Ķes saiam da passividade, isto √©, tende a destruir a lei dos grandes n√ļmeros. Como, ent√£o, consider√°-la uma lei sociol√≥gica?". Se as leis da sociologia positiva, hoje reexumadas pelo economicismo (Durkheim revive nas universidades japonesas!) fossem irrevog√°veis, nada restaria √† vontade pol√≠tica. Mas a supera√ß√£o da sociologia reificante pela dial√©tica abre, nos escritos de Gramsci, a passagem do conformismo √† coragem de pensar a a√ß√£o.

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Alfredo Bosi é professor de literatura brasileira na USP e autor, entre outros livros, de Dialética da Colonização (Companhia das Letras)



Fonte: Folha de S. Paulo, 8 abr. 2000. Jornal de Resenhas, p. 1.

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