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Para compreender Gramsci no seu tempo

Luiz Werneck Vianna - Outubro 2010
 

Alberto Aggio, Luiz Sérgio Henriques e Giuseppe Vacca (Orgs.). Gramsci no seu tempo. Brasília/ Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira/ Contraponto, 2010. 414p.

A marca de um grande autor, como Gramsci, est√° na capacidade da sua obra ter sabido n√£o s√≥ formular uma compreens√£o das quest√Ķes presentes em seu tempo como, bem para al√©m delas, ter deixado um repert√≥rio de validade permanente a transcender a circunst√Ęncia em que foi produzida. No caso de Gramsci, envolvido como sempre esteve com os problemas da sua sociedade, havia a plena consci√™ncia de que a sua reflex√£o, tendo como ponto de partida o aqui e o agora, n√£o deveria se deter na casu√≠stica dos fatos presentes, mas sim sondar o que havia de universal em suas manifesta√ß√Ķes. E foi sob essa inspira√ß√£o, que, em suas palavras iniciais nas Cartas do c√°rcere, fez estampar a orgulhosa divisa f√ľr ewig (para sempre).

Gramsci, como √© sabido, escreveu os textos dos Cadernos, que come√ßa a redigir em 1929, tr√™s anos ap√≥s sua pris√£o pela pol√≠cia pol√≠tica do fascismo italiano, sob a forma de fragmentos a serem desenvolvidos sistematicamente quando viesse a oportunidade, que n√£o veio, pois¬† morre em 1937 na condi√ß√£o de prisioneiro. Embora a aten√ß√£o cr√≠tica do autor se dirigisse para um elenco muito diversificado de quest√Ķes, indo da literatura √† pol√≠tica e √† filosofia, passando por uma refinada interven√ß√£o em economia pol√≠tica, seus m√ļltiplos objetos, contudo, sempre estavam aplicados para uma √ļnica dire√ß√£o: exausto o ciclo aberto pela revolu√ß√£o de 1917, quais as novas circunst√Ęncias com que se confrontava a luta pelo socialismo e que inova√ß√Ķes te√≥ricas eram exigidas a fim de lev√°-la √† frente.

Apartado do conv√≠vio social, a mat√©ria-prima das suas reflex√Ķes em os Cadernos ser√° a da sua rica experi√™ncia, primeiro, como a de militante pol√≠tico e, depois, como a de dirigente do Partido Comunista Italiano (PCI), que ser√£o processadas √† luz das informa√ß√Ķes que recebe sobre o estado de coisas reinante no pa√≠s, no partido e no mundo, da sua cunhada Tania Schucht e do seu amigo Piero Sraffa, um brilhante economista radicado na Inglaterra, ambos com permiss√£o para visit√°-lo na pris√£o. Gra√ßas a eles, Gramsci se mant√©m antenado com os fatos da pol√≠tica italiana e da cena internacional, nos anos dram√°ticos de emerg√™ncia do nazismo na Alemanha, com indisfar√ß√°veis sinais de guerra iminente entre as principais pot√™ncias europeias, e de consolida√ß√£o do regime fascista em seu pa√≠s.

Se as suas refer√™ncias pol√≠ticas, antes da pris√£o, j√° vinham mudando, em particular na caracteriza√ß√£o do que deveria ser a estrat√©gia do movimento socialista no Ocidente em oposi√ß√£o √†quela que tinha preponderado na R√ļssia, uma forma√ß√£o econ√īmico-social de tipo oriental, os Cadernos testemunham o triunfo te√≥rico do seu autor sobre essa decisiva quest√£o. Se no Oriente o Estado era muito poderoso, enquanto seria fraca e gelatinosa a sociedade civil sobre a qual se assentava, no caso de colapso das suas estruturas de poder, ele se tornava vulner√°vel √† apropria√ß√£o por parte dos seus advers√°rios. No Ocidente, diversamente, em raz√£o da complexidade e do vigor da sua sociedade civil, uma tentativa de conquista do Estado por parte de um grupo antagonista teria de se confrontar com uma rede de trincheiras - as ag√™ncias privadas de hegemonia, no l√©xico do autor - com ele intimamente articulada e que consistiria em um sistema intranspon√≠vel em defesa da ordem estabelecida.

As repercuss√Ķes dessa nova concep√ß√£o do Estado ocidental moderno, visto como um aparelho de coer√ß√£o encoura√ßado por um consenso socialmente produzido nas ag√™ncias da sociedade civil, implicava um giro radical na estrat√©gia do movimento socialista: a √™nfase no pol√≠tico-militar deveria ceder lugar ao pol√≠tico-cultural, √† luta pela hegemonia da dire√ß√£o da vida social. Tal opera√ß√£o te√≥rica, presente em germe em textos anteriores √† sua pris√£o, como em A quest√£o meridional, somente ganham sua plena express√£o nos Cadernos, assim como sua experi√™ncia juvenil nos conselhos oper√°rios de Turim, nas primeiras d√©cadas do s√©culo, vai aguardar o momento de reflex√£o no c√°rcere para se converter nas p√°ginas cl√°ssicas sobre o americanismo e o fordismo.

Gramsci revive na pris√£o, sob a forma de um pensamento refletido, o seu passado, da√≠ extraindo teoria nova, o que lhe vai permitir observar a cena contempor√Ęnea com categorias originais, instituindo um campo pr√≥prio para o estudo do processo de moderniza√ß√£o capitalista, em particular na modalidade de moderniza√ß√£o autorit√°ria, tal como em suas an√°lises sobre o corporativismo italiano. A precocidade e o alcance de sua pesquisa te√≥rica sobre esse assunto, antecipando-se em d√©cadas a feitos da ci√™ncia pol√≠tica contempor√Ęnea, s√£o bem indicados na formula√ß√£o do seu conceito de revolu√ß√£o passiva, sua maior contribui√ß√£o para os estudos dedicados √† mudan√ßa social, hoje de uso generalizado.

Nessa colet√Ęnea de artigos de importantes especialistas italianos na obra gramsciana, reunida por Luiz S√©rgio Henriques e Alberto Aggio, respeitados int√©rpretes do legado do genial sardo - o pref√°cio deles n√£o se pode n√£o ler - o leitor encontrar√° um bom mapa do estado das artes e do tipo de recep√ß√£o contempor√Ęneos √†s extraordin√°rias cria√ß√Ķes deste grande autor que foi Gramsci.

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Luiz Werneck Vianna é professor visitante da Uerj e ex-presidente da Anpocs.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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