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Norberto Bobbio, intelectual p√ļblico

Walquíria D. Leão Rego - Janeiro 2004
 

A morte do fil√≥sofo e jurista italiano, Norberto Bobbio, aos 94 anos, assinala talvez o desaparecimento de um dos mais importantes intelectuais p√ļblicos ocidentais. Aquele tipo de intelectual que fala ao p√ļblico sobre as quest√Ķes que atingem a vida coletiva. Sua interven√ß√£o realizou-se de v√°rias maneiras, desde 1976, com seus artigos escritos para o jornal de Turim La Stampa. Suas reflex√Ķes pol√≠ticas e te√≥ricas eram comentadas e debatidas em quase todos os demais di√°rios do pa√≠s e, √†s vezes, pela televis√£o. Durante muito tempo a opini√£o de Bobbio fez parte do cotidiano de milhares de cidad√£os italianos, que o liam e o discutiam indo ao trabalho, √† escola, nos metr√īs, √īnibus, caf√©s e bares. Conhecer seu ponto de vista sobre este ou aquele problema pol√≠tico ocorrido na semana era mote para uma conversa no caf√© da esquina e acabava, na maioria das vezes, em apaixonadas pol√™micas. Isso o convertia em um verdadeiro tribuno republicano. Afinal, tais interven√ß√Ķes contribu√≠am para aproximar as pessoas atrav√©s do debate, ajudavam a refinar a sensibilidade pol√≠tica coletiva e introduziam densidade intelectual √† esfera p√ļblica.

Nos √ļltimos vinte e cinco anos, esta posi√ß√£o fez dele uma esp√©cie de or√°culo do pa√≠s. Essa fun√ß√£o o acompanhou at√© sua morte. Quem viveu na It√°lia - antes da atual degrada√ß√£o moral e pol√≠tica, cuja encarna√ß√£o mais emblem√°tica √© a ascens√£o ao poder de uma figura como Silvio Berlusconi - p√īde notar a rapidez e a sobriedade com que debatia quest√Ķes postas pela vida pol√≠tica do dia-a-dia de seu pa√≠s. Esta capacidade de resposta r√°pida e imediata aos fatos se devia tanto ao temperamento pol√™mico quanto √† compreens√£o √©tica que portava da condi√ß√£o intelectual. Na verdade, Bobbio pertencia a uma gera√ß√£o de intelectuais italianos para a qual fazia parte de seu of√≠cio, √† maneira de S√≥crates, andar pelas ruas da cidade tentando esclarecer e persuadir permanentemente seus concidad√£os. Este pathos reaparece fortemente na Ilustra√ß√£o como destino reservado aos grandes homens de cultura. Para tanto, lembremo-nos da contund√™ncia com que se funda esta tradi√ß√£o na modernidade, recorrendo √†s famosas confer√™ncias sobre a "Miss√£o do s√°bio como educador do g√™nero humano", pronunciadas por Fichte, na Universidade de Jena em 1794.

N√£o √© exagero afirmar que Bobbio fazia de suas interven√ß√Ķes na vida pol√≠tica italiana o exerc√≠cio de uso p√ļblico da raz√£o. Seus artigos nos jornais eram sempre eruditos mas n√£o pedantes e, sobretudo, exibiam grande per√≠cia na mobiliza√ß√£o do pensamento cl√°ssico para discutir quest√Ķes da pol√≠tica italiana contempor√Ęnea, fazendo com que Plat√£o, Arist√≥teles, Maquiavel, Marx, Dante Alighieri, Kant fossem servidos √† mesa do cidad√£o comum como interpeladores naturais, atual√≠ssimos e pertinentes √†s suas vidas.

Podemos discordar de Norberto Bobbio, filos√≥fica e politicamente, √†s vezes irritarmo-nos com certa tibieza de sua cr√≠tica ao sistema capitalista, mas - justi√ßa seja feita - jamais o autor se furtou a entrar em combate pelas suas id√©ias e polemizar sobre qualquer assunto que dizia respeito a seu pa√≠s. Assim sendo, as demandas e solicita√ß√Ķes vinham de todo o espectro pol√≠tico da It√°lia e encontravam nele uma disposi√ß√£o imensa para o di√°logo. Suas preocupa√ß√Ķes te√≥ricas e pol√≠ticas em rela√ß√£o √†s quest√Ķes centrais da democracia, da liberdade, da igualdade, da rep√ļblica e aos perigos de sua degeneresc√™ncia introduziram os elementos-chave de sua tens√£o intelectual e pol√≠tica.

Apesar de seus escritos serem extremamente racionais e anal√≠ticos, Bobbio parecia ser um intelectual que vivia com os nervos esticados ao m√°ximo. Sempre se declarou um pessimista. Sabia-se herdeiro de uma hist√≥ria nacional, e o peso do passado e de seus fantasmas, sobretudo os ligados √† experi√™ncia do fascismo, voltava, constantemente, a projetar sua gigantesca sombra sobre as estruturas do presente. Sem d√ļvida, concordava com a advert√™ncia de Bertolt Brecht: a m√£e do fascismo est√° sempre gr√°vida. Por tudo isto, logo tentou compreender o significado da figura de Berlusconi, bem como interpretar seu gestual, seu cerimonial, o sorriso com o qual sempre se apresenta, seu modo de falar √†s pessoas. Chamou a aten√ß√£o de todos que, de fato, a It√°lia estava diante de um demagogo muito perigoso e muito particular, porque concentra em si os meios mais poderosos de persuas√£o dos cidad√£os - a propriedade dos grandes meios de comunica√ß√£o de massa - e faz da vulgaridade a moeda corrente da pol√≠tica italiana atual. Lembrou por diversas vezes a intui√ß√£o do jovem liberal Piero Gobetti, morto em 1926, que certa vez afirmou que o fascismo estava inscrito na "biografia do pa√≠s".

Em suma, Bobbio quis dizer que a hist√≥ria e o passado de um povo t√™m poderes modeladores e esculpem nas rochas os modos como sua atividade pol√≠tica encaminha as grandes quest√Ķes institucionais. A inexist√™ncia de rupturas importantes, a revolu√ß√£o passiva que presidiu a forma√ß√£o do Estado, impedindo renova√ß√Ķes de h√°bitos e costumes, marcaram indelevelmente o destino da It√°lia como comunidade pol√≠tica. Os acordos pelo alto sempre foram pr√≥digos em gerar mecanismos perversos de bloqueio √† democracia, tornando cada vez mais profundos e pouco vis√≠veis aos cidad√£os os mecanismos que decidiam seus destinos. N√£o por acaso insistiu tanto no tema do governo invis√≠vel e seu imenso perigo √† democracia.

Bobbio, como intelectual, preservou como poucos sua independ√™ncia pol√≠tica e intelectual, dialogou com todas as for√ßas de seu pa√≠s. S√£o c√©lebres, como exemplo de toler√Ęncia, sua pol√™mica com os comunistas italianos nos anos 1950. Debateu sobre o tema da liberdade com Palmiro Togliatti, ent√£o poderoso secret√°rio-geral do forte Partido Comunista Italiano, que n√£o deixou de lhe reconhecer o esp√≠rito de debate e a coragem de combatente pela liberdade. Afinal, havia sido um partigiano na luta da resist√™ncia contra o fascismo.

Sempre se definiu como liberal-socialista, uma tradi√ß√£o muito particular na It√°lia. Todavia, seu liberalismo pol√≠tico jamais o impediu de reconhecer a import√Ęncia do marxismo. Ainda em 1955, escreveu no livro Pol√≠tica e Cultura: "Se n√£o tiv√©ssemos aprendido com o marxismo a ver a hist√≥ria do ponto de vista dos oprimidos, ganhando com isto uma nova e imensa perspectiva sobre o mundo humano, n√≥s n√£o ter√≠amos nos salvado". Sabia que Marx havia posto quest√Ķes te√≥ricas fundamentais, procurou compreend√™-las, problematiz√°-las e principalmente esclarec√™-las. Nem sempre conseguiu: seu politicismo o levou a lacunas graves de avalia√ß√£o sobre as raz√Ķes mais profundas das dificuldades da democracia em cumprir suas promessas. No entanto, afirmou em entrevistas e escritos a decisiva import√Ęncia do legado do marxismo, como potencial cr√≠tico irrenunci√°vel para o desenvolvimento da civiliza√ß√£o.

Em 1993, quando grande parte da intelectualidade cantava e dan√ßava no que acreditava ser os funerais de Marx, o liberal-socialista Bobbio, velho e cansado, saiu pelas ruas da cidade para lembrar a todos o valor permanente da cr√≠tica marxista e lan√ßar na pra√ßa p√ļblica seu Invito a rileggere Marx. Assim, encarnou com grande dignidade moral o que todos esperam de um intelectual p√ļblico e independente: cautela e prud√™ncia na formula√ß√£o de ju√≠zos, inquieta√ß√£o na busca de id√©ias e de pesquisa, sempre dosadas pela d√ļvida, pela vontade de di√°logo, pelo esp√≠rito cr√≠tico, pela medida no julgamento das coisas, pelo escr√ļpulo filol√≥gico e pelo sentido da complexidade das coisas do mundo.

Mas sua independência não pode ser confundida com ausência de paixão política. Era um polemista contundente, afirmava sempre ser um homem cindido entre um grande racionalismo e uma profunda paixão: "Sou assumidamente um homem contraditório".

Por ocasi√£o da escritura do invent√°rio sobre os intelectuais italianos (Profilo ideologico del 900), esse protagonista da hist√≥ria italiana por mais de 50 anos, fil√≥sofo do direito, te√≥rico da democracia, da pol√≠tica, analista do fen√īmeno do poder, termina esse balan√ßo demonstrando a condi√ß√£o intelectual como dram√°tica, plena de fraturas, de feridas e cicatrizes.

Assim procurou conduzir os intelectuais na Itália, diante do poder da Igreja e do papado, a enfrentar, sem disfarces, a questão da natureza específica de seu papel. A questão crucial sempre fora falar ao povo como ex parte principe ou como ex parte populus. Nisto retoma a problematização realizada por Gramsci.

Por tudo isso, a morte de Bobbio nos coloca o velho problema debatido por s√©culos: √© poss√≠vel separar a pena da espada? No mundo em que vivemos ainda existe lugar para este tipo de homem de cultura que transp√Ķe os muros da academia para falar aos seus concidad√£os? Seu desaparecimento nos convida a repensar essas velhas quest√Ķes e, mais ainda, a refletir sobre qual vida intelectual vale a pena ser vivida.


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Walquíria D. Leão Rego é professora livre-docente do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Unicamp.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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