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O afastamento de Gramsci do mito da URSS

Silvio Pons
Tradução: A. Veiga Fialho
 

Gramsci compartilhou uma vis√£o m√≠tica da ditadura bolchevique, difundida no movimento comunista. Parte essencial de tal mito foram a ideia de que a unidade da "velha guarda" leninista fosse um recurso dispon√≠vel e a de que as pol√≠ticas do bolchevismo no poder coincidissem com uma efetiva realiza√ß√£o de liberdade, consenso e socializa√ß√£o. Mas sua irremov√≠vel convic√ß√£o de que o Estado revolucion√°rio constitu√≠a n√£o s√≥ um ponto de for√ßa material e organizativo, mas tamb√©m simb√≥lico, no plano internacional, apreendia uma quest√£o crucial: sem tal recurso estrat√©gico, at√© mesmo a mais refinada concep√ß√£o revolucion√°ria ocidental estava destinada √† marginalidade. Sua pris√£o retirou a pr√≥pria quest√£o do √Ęngulo visual dos comunistas italianos. Privado das "belicosas certezas" caracter√≠sticas de Lenin, e no entanto inevitavelmente levado a carregar de expectativas a obra dos grupos dirigentes sovi√©ticos diante do fim do "tempo da revolu√ß√£o" no Ocidente, Gramsci n√£o deveria mais livrar-se das interroga√ß√Ķes e dos princ√≠pios enunciados na correspond√™ncia com Togliatti em 1926 [1]. As notas do c√°rcere trazem o sinal de tal legado e, sob esta luz, constituem uma solit√°ria tentativa intelectual de decifrar a evolu√ß√£o havida neste meio-tempo na URSS, voltando √†s pr√≥prias fontes originais da experi√™ncia sovi√©tica, sem liquid√°-las. Vale a pena desenvolver, a este prop√≥sito, algumas considera√ß√Ķes conclusivas.

Em primeiro lugar, deve-se sublinhar a liga√ß√£o de Gramsci com a NEP, afirmada na carta de outubro de 1926 e de v√°rios modos presente nos Cadernos. Gramsci permaneceu ligado √† ideia de que a evolu√ß√£o da URSS devia acontecer sob formas graduais e n√£o violentas, e isso o levou a expressar uma cr√≠tica √† dissolu√ß√£o da NEP na revolu√ß√£o pelo alto promovida por Stalin depois de 1928: esta √ļltima lhe pareceu uma ruptura do sistema de equil√≠brios sociais derivados das alian√ßas de classe. Mas, para Gramsci, a NEP era um "sistema de equil√≠brios" ainda mais articulado, por ser tamb√©m de natureza pol√≠tico-institucional: neste contexto, deve ser lida sua insist√™ncia sobre o car√°ter vital da dial√©tica partid√°ria nas notas do c√°rcere. Daqui, entre outras coisas, sua cr√≠tica transparente √† liquida√ß√£o da oposi√ß√£o de esquerda na URSS, que ele desenvolveu no √Ęmbito do conceito de "parlamentarismo negro" [2]. A dissolu√ß√£o deste "sistema de equil√≠brios" pareceu levar Gramsci a se perguntar sobre as perspectivas aut√™nticas de uma supera√ß√£o da fase "econ√īmico-corporativa" na URSS e sobre os perigos inerentes ao fr√°gil desenvolvimento das superestruturas. Neste contexto, ele desenvolveu sua cr√≠tica √† "estatolatria", quando as tend√™ncias da revolu√ß√£o pelo alto j√° estavam em pleno curso, em abril de 1932 [3].

Em segundo lugar, o nexo existente nos Cadernos entre "guerra de posi√ß√£o" e "revolu√ß√£o passiva" deve ser aplicado tamb√©m √† URSS. A no√ß√£o de "guerra de posi√ß√£o" n√£o se referia s√≥ √† estrat√©gia do movimento comunista, mas tamb√©m √† "constru√ß√£o do socialismo" na URSS, que Gramsci via como uma outra face do mesmo problema. Por via de consequ√™ncia, Gramsci perguntava-se sobre a pertin√™ncia para a "guerra de posi√ß√£o" das escolhas realizadas pelo grupo dirigente sovi√©tico no final dos anos vinte. Por outro lado, a grande transforma√ß√£o sovi√©tica e seu car√°ter de mudan√ßa pelo alto inseriam-se necessariamente no contexto da "revolu√ß√£o passiva", que, a seu ju√≠zo, caracterizava a √©poca p√≥s-b√©lica. √Č dif√≠cil duvidar do fato de que nos Cadernos operava um nexo interpretativo do regime sovi√©tico como regime autorit√°rio de massas. Sua distin√ß√£o entre totalitarismo "regressivo" e "progressivo" revelava uma √≥bvia refer√™ncia, respectivamente, ao regime fascista e ao regime sovi√©tico. Mas, a partir de 1933, Gramsci levou a cabo uma reflex√£o muito mais sobre as analogias do que sobre as diferen√ßas entre os regimes totalit√°rios. N√£o se pode deixar de ver uma tal abordagem em opera√ß√£o nas notas sobre a intera√ß√£o partido-Estado, sobre a rela√ß√£o pol√≠tica-organiza√ß√£o e sobre as fun√ß√Ķes de pol√≠cia dos regimes autorit√°rios de massas. Em outras palavras, a reflex√£o presente nos Cadernos sobre o autoritarismo sovi√©tico foi muito al√©m da quest√£o industrialismo-bonapartismo.

Em terceiro lugar, a √ļnica passagem dos Cadernos em que aparece uma refer√™ncia expl√≠cita a Stalin, que remonta a fevereiro de 1933, apresenta-se-nos sob um √Ęngulo diverso daquele, habitualmente assinalado, da ades√£o de Gramsci ao "socialismo num s√≥ pa√≠s" [4]. Sem d√ļvida, ele manteve uma ades√£o de princ√≠pio √† ideia: mas n√£o pode escapar o fato de que sua pol√™mica antitrotskista era ent√£o um expediente para criticar na realidade o curso pol√≠tico de Stalin e, verossimilmente, tamb√©m a linha sect√°ria do Komintern. Em outras palavras, Gramsci delineou uma cr√≠tica do nexo nacional-internacional na pol√≠tica da URSS, nas formas assumidas depois de 1928.

Nos Cadernos, o nexo guerra de posi√ß√£o-revolu√ß√£o passiva conduz a uma vis√£o mais ampla da dimens√£o estatal da Revolu√ß√£o Russa e √† sua coloca√ß√£o nos processos internacionais do p√≥s-guerra. A pergunta geral de Gramsci era se o p√≥s-guerra do s√©culo XX podia seguir um desdobramento paralelo ao do s√©culo XIX, no sentido de um paralelo entre a expans√£o da revolu√ß√£o burguesa e a da revolu√ß√£o socialista. Esta pergunta abarcava diretamente o problema da capacidade e das possibilidades hegem√īnicas da URSS: a este prop√≥sito, a vis√£o de Gramsci tornou-se claramente pessimista e negativa em 1932-1934. O sentido √ļltimo das suas linhas de investiga√ß√£o e racioc√≠nio parece ser que a R√ļssia p√≥s-revolucion√°ria n√£o era capaz de desempenhar aquele papel de Estado hegem√īnico que, a seu ju√≠zo, fora desempenhado no s√©culo anterior pela Fran√ßa p√≥s-revolucion√°ria. O signo da "revolu√ß√£o passiva" tamb√©m dominava a evolu√ß√£o da URSS: este parece o atormentado ponto de chegada do pensamento de Gramsci sobre a experi√™ncia sovi√©tica e tamb√©m o car√°ter original da sua vis√£o, em compara√ß√£o com outras vis√Ķes cr√≠ticas do tempo, nascidas dentro do comunismo e do socialismo internacional.

Nem por isso se deve perder a liga√ß√£o do pensamento de Gramsci com a tradi√ß√£o bolchevique. Depois da morte de Lenin, Gramsci n√£o estabeleceu uma rela√ß√£o un√≠voca com nenhuma das correntes nas quais se dividiu o bolchevismo, mas tamb√©m jamais se afastou completamente das categorias de pensamento bolchevique. Sua vis√£o da NEP como sistema de equil√≠brios, desenvolvida nos Cadernos, apresentava uma evidente inclina√ß√£o "bukhariniana", al√©m de uma √≥bvia deriva√ß√£o dos √ļltimos escritos de Lenin, e se nutria de uma concep√ß√£o da dial√©tica interna de partido de clara matriz trotskista. Nos anos de c√°rcere, Gramsci se mostrou consciente do n√ļcleo bonapartista ativo no pensamento de Trotski, mas tamb√©m viu em Bukharin o espelho de uma ideologia oficial retida na fase "econ√īmico-corporativa". N√£o menos multiforme parece sua rela√ß√£o com as concep√ß√Ķes internacionais do bolchevismo. Gramsci revelou uma sintonia evidente com Bukharin em torno da ideia de que fosse de fato poss√≠vel conciliar o processo de State building sovi√©tico com um papel ativo do comunismo internacional, num horizonte delineado em torno da centralidade da URSS, mas ancorado na tradi√ß√£o revolucion√°ria. Mas sua interpreta√ß√£o do "socialismo num s√≥ pa√≠s" n√£o limitava o papel do movimento comunista √† defesa da URSS e assumia como crit√©rio essencial de avalia√ß√£o a capacidade de exercer uma hegemonia ideal. Por isso, a orienta√ß√£o isolacionista da URSS e a orienta√ß√£o sect√°ria do Komintern, sob a dire√ß√£o de Stalin, tinham de parecer a Gramsci no c√°rcere a efetiva√ß√£o de um perigo j√° apontado.

Exatamente em rela√ß√£o a esta problem√°tica, no entanto, Gramsci devia se afastar das refer√™ncias originais, na tentativa de explicar as caracter√≠sticas b√°sicas da evolu√ß√£o da URSS sob Stalin. Depois de 1929, seu pensamento n√£o seguiu nem o percurso de Trotski, estruturado em torno da categoria de "degenera√ß√£o", nem o de Bukharin, at√© o fim inclinado a apresentar a ditadura de Stalin como uma resposta necess√°ria ao contexto internacional. Em vez disso, a cr√≠tica de Gramsci contra a virada ditada por Stalin no final dos anos 20 apresentava a centralidade do nexo interior e exterior: atrav√©s do prisma de tal intera√ß√£o, viu na R√ļssia p√≥s-leniniana a aus√™ncia das caracter√≠sticas indispens√°veis ao exerc√≠cio da hegemonia. N√£o √© descabido levantar a hip√≥tese de que a pr√≥pria elabora√ß√£o da categoria de "revolu√ß√£o passiva" nos Cadernos, aplicada a todo o p√≥s-guerra, tenha sido influenciada em Gramsci tamb√©m pela sua avalia√ß√£o cada vez mais desencantada do papel da URSS. Assim, a dram√°tica quest√£o posta em 1926 n√£o encontrava uma composi√ß√£o, mas gerava apenas uma s√©rie de perguntas angustiosas e inc√īmodas, orientadas para uma resposta irremediavelmente pessimista.

Num texto sobre a "utopia bolchevique", Edward H. Carr indicou nas notas de Gramsci sobre a distin√ß√£o entre governantes e governados uma "melanc√≥lica reflex√£o", bastante distante seja do √≠mpeto ideal dos bolcheviques logo depois da revolu√ß√£o, seja da consci√™ncia sovi√©tica da √©poca sucessiva. Talvez o c√©lebre historiador brit√Ęnico acertasse o alvo, mais do que ele mesmo tivesse consci√™ncia, acerca da dist√Ęncia psicol√≥gica e intelectual que j√° separava Gramsci no c√°rcere e o mundo da sua forma√ß√£o.

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Silvio Pons, diretor da Fundação Instituto Gramsci, em Roma, é especialista em temas da história do comunismo e da Segunda Guerra Mundial. Entre seus livros, Berlinguer e o fim do comunismo (2006) e Dicionário do comunismo no século XX (2007).

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Notas

[1] Cf. A. Gramsci. "A crise no partido bolchevique. Correspondência 1926". In: Id. Escritos políticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, v. 2, p. 383-402.

[2] Cf., p. ex., Caderno 14, §§ 74 e 76. In: A. Gramsci. Cadernos do cárcere. V. 3: "Maquiavel, notas sobre o Estado e a política". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 319-22.

[3] Cf., p. ex., Caderno 8, § 130. In: Id., ib., p. 279.

[4] Cf. Caderno 14, § 68. In: Id., ib., p. 314-5.



Fonte: L'Unità & Gramsci e o Brasil.

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