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Lenin e a dialética hegeliana

Duarte Pereira - 2004
 

Os historiadores de id√©ias se acostumaram a distinguir, no desenvolvimento do marxismo no s√©culo 20, duas tradi√ß√Ķes b√°sicas: o "marxismo sovi√©tico" e o "marxismo ocidental". Lenin sempre foi considerado o iniciador da primeira corrente, sistematizada como "marxismo-leninismo" sob a dire√ß√£o de Stalin. O ensa√≠sta brasileiro Jos√© Guilherme Merquior, por exemplo, em seu livro O Marxismo Ocidental, publicado em 1987, escreveu: "O marxismo ocidental nasceu, no come√ßo da d√©cada de 1920, como um desafio doutrin√°rio, vindo do Ocidente, ao marxismo sovi√©tico. Seus principais fundadores - Luk√°cs e Ernst Bloch, Karl Korsch e Gramsci - estavam em √°spero desacordo com o materialismo hist√≥rico determinista da filosofia bolchevique, tal como definida por Lenin ou Bukharin".

O soci√≥logo norte-americano Kevin Anderson, rompendo com essa interpreta√ß√£o consagrada, sustenta uma tese original e ousada em seu livro Lenin, Hegel, and Western Marxism (Chicago, University of Illinois Press, 1995). Anderson defende que o trabalho te√≥rico de Lenin posterior a 1914 "o situa mais pr√≥ximo de marxistas ¬Ďocidentais¬í ou ¬Ďhegelianos¬í, como Georg Luk√°cs e os membros da Escola de Frankfurt, do que de marxistas ortodoxos, como os marxistas-leninistas sovi√©ticos oficiais." Afastando-se de Kautsky e de Plekhanov, Lenin teria sido o primeiro marxista de express√£o a insistir no retorno √† dial√©tica e no estudo cr√≠tico de Hegel.

Kevin Anderson foi militante dos movimentos pelos direitos civis da popula√ß√£o negra e contra a interven√ß√£o americana no Vietn√£, no final dos anos 60 e come√ßo dos 70 do s√©culo passado, e atualmente √© professor de Sociologia na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. Chegou a suas conclus√Ķes ap√≥s quinze anos de pesquisa sobre os Cadernos Filos√≥ficos, obra de Lenin negligenciada e pouco conhecida. No Brasil, por exemplo, continua in√©dita.

O livro de Anderson, originado de uma tese de doutorado defendida na Universidade da Cidade de Nova York, √© apurado e cuidadoso. Reconhecendo o legado contradit√≥rio de Lenin, evita tanto a canoniza√ß√£o patrocinada pela antiga Uni√£o Sovi√©tica, quanto a hostilidade caracter√≠stica dos cr√≠ticos ocidentais. E √© movido n√£o apenas por um prop√≥sito de justi√ßa te√≥rica, mas sobretudo por uma preocupa√ß√£o pol√≠tica, exposta com clareza por Anderson. Convenceu-se de que o estudo dos textos finais de Lenin ajudam a discernir "o √ļnico tipo de marxismo vi√°vel nos dias atuais": o marxismo que adote "um m√ļltiplo conceito de subjetividade, mais do que um apoio exclusivo na classe oper√°ria industrial tradicional" e num √ļnico partido autoproclamado de vanguarda.

A descoberta de Hegel

Anderson encadeia com solidez sua argumenta√ß√£o. Examina, na primeira parte de seu livro, os estudos filos√≥ficos a que Lenin se dedica de agosto de 1914 a meados de 1915, freq√ľentando a biblioteca p√ļblica de Berna, na Su√≠√ßa, onde se encontrava exilado. Lenin preenche sucessivos cadernos com anota√ß√Ķes manuscritas, transcrevendo passagens extensas dos livros que l√™, acompanhadas de coment√°rios.

Lenin concentra os primeiros esfor√ßos na assimila√ß√£o cr√≠tica da Ci√™ncia da L√≥gica, considerada a obra de Hegel mais importante e mais dif√≠cil, passando em seguida √†s Li√ß√Ķes sobre a Hist√≥ria da Filosofia e √†s Li√ß√Ķes sobre a Filosofia da Hist√≥ria, tamb√©m de Hegel. Prossegue estudando livros sobre o fil√≥sofo alem√£o ou sobre a hist√≥ria da filosofia em geral, resume a Metaf√≠sica de Arist√≥teles e anota tamb√©m obras relacionadas com o desenvolvimento das ci√™ncias naturais.

√Ä medida que avan√ßa, Lenin escreve artigos, como o verbete Karl Marx para a Enciclop√©dia Granat, esbo√ßa planos de novas pesquisas e, ao final, redige o rascunho Sobre o problema da dial√©tica, sintetizando as conclus√Ķes de seus estudos e delineando o plano de um texto sobre a dial√©tica que, infelizmente, n√£o conseguiria elaborar.

Um militante de hoje pode surpreender-se com esse empenho te√≥rico num momento crucial e especialmente turbulento do mundo e da vida de Lenin. A Primeira Guerra Mundial j√° conflagrava a Europa, Lenin preconizava o "derrotismo revolucion√°rio" e a transforma√ß√£o da guerra imperialista em guerra civil e, por isso, rompera com a Segunda Associa√ß√£o Internacional dos Trabalhadores e com alguns de seus l√≠deres mais eminentes, como Kautsky e Plekhanov, aos quais sempre devotara grande respeito te√≥rico. Na R√ļssia, a crise do regime czarista voltava a aprofundar-se e se converteria tr√™s anos depois nas Revolu√ß√Ķes de Fevereiro e de Outubro, que abririam uma p√°gina nova na hist√≥ria mundial. Nesse contexto, Lenin se enfia numa biblioteca?

Anderson mostra que o espanto n√£o se justifica, porque s√£o justamente as responsabilidades acrescidas de Lenin - que emerge como um l√≠der internacional - que o obrigam a desenvolver suas posi√ß√Ķes pol√≠ticas e a buscar os fundamentos cient√≠ficos e filos√≥ficos das diverg√™ncias que acabariam cindindo o movimento oper√°rio internacional. Repetia-se com ele o que acontecera com Marx, que, ao preparar-se para estruturar e redigir O Capital, sentira a necessidade de voltar a estudar a Ci√™ncia da L√≥gica de Hegel.

V√°rios autores j√° comentaram, em termos gerais, os Cadernos Filos√≥ficos e resgataram opini√Ķes de Lenin inseridas em suas p√°ginas. O pioneirismo de Anderson consiste em que ele esmi√ļ√ßa as anota√ß√Ķes de Lenin, principalmente as relativas √† Ci√™ncia da L√≥gica, confronta-as com os textos originais, compara-as com as avalia√ß√Ķes de marxistas anteriores e faz, em passagens decisivas, o cotejo com as leituras de especialistas contempor√Ęneos, marxistas e n√£o-marxistas. A exegese sistem√°tica de Anderson contribui, assim, n√£o s√≥ para reconstruir a evolu√ß√£o de Lenin, mas tamb√©m para aprofundar a compreens√£o dos textos de Hegel.

N√£o falta emo√ß√£o √† viagem conjunta de Anderson e Lenin. O comentarista acompanha a surpresa crescente com que o dirigente russo descobre a obra do fil√≥sofo alem√£o. Esperava digress√Ķes √°ridas e abstratas e registra, sobre a Ci√™ncia da L√≥gica: "Na mais idealista das obras de Hegel, h√° o m√≠nimo de idealismo e o m√°ximo de materialismo. Contradit√≥rio, mas um fato". Percebe a insist√™ncia com que Hegel defende a unidade entre o pensamento e o ser, entre o sujeito e o objeto, entre a ess√™ncia e a apar√™ncia, entre o conte√ļdo e a forma, e comenta: "Isto √© quase materialismo!" L√™ a cr√≠tica de Hegel √† compreens√£o corriqueira e linear da causalidade e sua insist√™ncia na determina√ß√£o rec√≠proca, e anota: "Os germes do materialismo hist√≥rico em Hegel".

O leitor russo é tocado, especialmente, pela ênfase do mestre alemão na subjetividade e na unidade entre o subjetivo e o objetivo. Lenin elogia: "Claro e profundo". E acrescenta, em outra passagem: "Há uma diferença entre o subjetivo e o objetivo, mas isto, também, tem seus limites". E, ainda mais incisivo, explicita em outra anotação: "A idéia da transformação do ideal no real é profunda! Muito importante para a história. Mas também na vida pessoal do homem é evidente que há muito de verdade nisto. Contra o materialismo vulgar".

√Ä medida que avan√ßa na leitura dos textos de Hegel, Lenin se d√° conta de quanto era grosseira a "teoria do reflexo", que havia exposto em sua obra Materialismo e Empiriocriticismo, de 1909. E comenta: "Conhecimento √© a reflex√£o da natureza pelo homem. Mas isto n√£o √© um reflexo simples, nem imediato, nem completo, mas o processo de uma s√©rie de abstra√ß√Ķes, a forma√ß√£o e desenvolvimento de conceitos, leis, etc." Repisa em outra anota√ß√£o: "A correspond√™ncia do pensamento com o objeto √© um processo". E arremata em outra passagem, incisivo: "O conhecimento do homem n√£o apenas reflete o mundo objetivo, mas o cria".

Lenin amadurece, portanto, uma reavaliação tanto do idealismo e do materialismo, quanto de uma contraposição simplificadora entre eles, como a estimulada pela célebre oposição entre os "dois campos" formulada por Engels e retomada pelo próprio Lenin em Materialismo e Empiriocriticismo. Agora, Lenin destaca que "o idealismo filosófico só é uma tolice do ponto de vista do materialismo tosco, simples, metafísico". E, introduzindo a noção de "materialismo vulgar", reaproxima-se das críticas feitas por Marx, nas Teses sobre Feuerbach, tanto ao idealismo, quanto a todas as formas unilaterais, contemplativas e não-dialéticas de materialismo.

Lenin destaca, finalmente, que a dial√©tica n√£o pode ser entendida apenas como a teoria do movimento universal, ou da transforma√ß√£o das mudan√ßas quantitativas em qualitativas. Seu n√ļcleo √© a afirma√ß√£o de que a unidade dos contr√°rios √© inerente √† ess√™ncia das coisas e de que, por conseguinte, o desenvolvimento √© um automovimento atrav√©s de contradi√ß√Ķes e de lutas para super√°-las.

Lenin comenta: "As duas concep√ß√Ķes fundamentais do desenvolvimento (ou as duas poss√≠veis? ou as duas historicamente observ√°veis?) s√£o: o desenvolvimento como aumento e diminui√ß√£o, como repeti√ß√£o, e o desenvolvimento como unidade de contr√°rios (a divis√£o de uma unidade em contr√°rios mutuamente excludentes e sua rela√ß√£o rec√≠proca). Na primeira concep√ß√£o do movimento, o automovimento, sua for√ßa impulsora, seu motivo, sua fonte √© deixada na sombra (ou convertida em fonte externa: Deus, sujeito, etc.). Na segunda concep√ß√£o, a aten√ß√£o principal se dirige principalmente para o conhecimento da fonte do automovimento". E repisa: "A unidade (coincid√™ncia, identidade, a√ß√£o igual) dos contr√°rios √© condicional, tempor√°ria, transit√≥ria, relativa. A luta dos contr√°rios mutuamente excludentes √© absoluta, como s√£o absolutos o desenvolvimento e o movimento".

O estudo de Hegel conduz Lenin a identificar os erros filos√≥ficos que vinham sendo cometidos pelos continuadores de Marx, inclusive por ele pr√≥prio. Resgatando o conceito hegeliano de "cr√≠tica imanente", e n√£o apenas externa e rotuladora, escreve: "Plekhanov critica o kantismo (e o agnosticismo em geral) mais de um ponto de vista materialista vulgar do que de um ponto de vista materialista dial√©tico, na medida em que simplesmente recha√ßa de fora suas opini√Ķes, por√©m n√£o os corrige (como Hegel corrigiu Kant), aprofundando-os, generalizando-os e ampliando-os, mostrando as conex√Ķes e as transi√ß√Ķes de todos e de cada um dos conceitos". E, referindo-se implicitamente a sua obra Materialismo e Empiriocriticismo, adiciona na mesma nota: "Os marxistas criticaram (no come√ßo do s√©culo 20) os kantianos e os disc√≠pulos de Hume mais √† maneira de Feuerbach (e de B√ľchner) do que de Hegel". Por fim, n√£o esconde o choque cr√≠tico e autocr√≠tico que sofreu, desabafando: "√Č completamente imposs√≠vel entender O Capital de Marx, e em especial seu primeiro cap√≠tulo, sem ter estudado e entendido a fundo toda a L√≥gica de Hegel. Portanto, faz meio s√©culo que nenhum marxista tem entendido Marx!"

Da filosofia à política

De sua viagem paciente pelas anota√ß√Ķes √°ridas e fragmentadas dos Cadernos Filos√≥ficos, Anderson extrai, na segunda parte de seu livro, a confirma√ß√£o de que os estudos empreendidos por Lenin entre agosto de 1914 e meados de 1915 representam um salto em sua compreens√£o filos√≥fica, um corte que o distancia do marxismo naturalista, determinista e economicista, que prevalecia na Segunda Internacional de Kautsky e Plekhanov, e no qual o pr√≥prio Lenin havia sido formado, como atestam obras como Quem S√£o os Amigos do Povo e Materialismo e Empiriocriticismo. Recorde-se que Plekhanov foi o introdutor do marxismo na R√ļssia e o criador da express√£o "materialismo dial√©tico", que passou a concorrer com a de "materialismo hist√≥rico", usada at√© ent√£o para caracterizar a doutrina de Marx e Engels.

Lenin n√£o deixa de ser materialista, de sustentar a unicidade do mundo, ou de reconhecer a preced√™ncia do universo natural sobre a emerg√™ncia do homem, ou o papel decisivo do trabalho na forma√ß√£o e desenvolvimento da esp√©cie humana. Reitera, em suas notas, afirma√ß√Ķes como esta: "A dial√©tica das coisas cria a dial√©tica das id√©ias, e n√£o o inverso". Mas se d√° conta de que, no esfor√ßo de assimilar a dial√©tica, sua compreens√£o da filosofia marxista sofrera uma muta√ß√£o.

Uma prova disso, argumenta Anderson, √© que ele escreveu ao editor da Enciclop√©dia Granat, em 4 de janeiro de 1915, indagando se ainda seria poss√≠vel refazer, no verbete sobre Marx de sua autoria, a parte relativa √† dial√©tica. Infelizmente, n√£o foi vi√°vel. Outra prova √© o texto "Sobre o problema da dial√©tica", curto e inacabado, mas denso, no qual Lenin critica as exposi√ß√Ķes da dial√©tica feitas por Engels e Plekhanov e esbo√ßa uma apresenta√ß√£o alternativa.

Outras indica√ß√Ķes surgem, acrescenta Anderson, nas pol√™micas que Lenin trava nos anos seguintes e nas quais critica seus interlocutores - como Rosa Luxemburg, Trotski ou Bukharin - pela assimila√ß√£o deficiente da dial√©tica. Sinal importante tamb√©m representou a confer√™ncia de Lenin "Sobre o significado do materialismo militante", em que lan√ßou o apelo √† forma√ß√£o de uma "sociedade de amigos materialistas da dial√©tica hegeliana". As marcas da nova compreens√£o filos√≥fica de Lenin s√£o percept√≠veis ainda nos textos econ√īmicos e pol√≠ticos que elabora nos anos posteriores a 1914. Para comprov√°-lo, Anderson concentra-se em duas obras fundamentais: O Imperialismo, Etapa Final do Capitalismo e O Estado e a Revolu√ß√£o.

A formação de agigantadas empresas monopolistas e o transbordamento imperial das grandes potências ocupavam a atenção dos marxistas no começo do século 20. Quando Lenin se voltou para o tema, já haviam sido publicados ou escritos O Capital Financeiro, de Hilferding, em 1910; A Acumulação do Capital, de Rosa Luxemburg, em 1912; O Imperialismo e a Economia Mundial, de Bukharin, em 1915; e os artigos de Kautsky, em que ele formulou a teoria do "ultra-imperialismo". Alguns críticos alegam, por isso, que O Imperialismo, Etapa Final do Capitalismo, de Lenin, publicado em 1917, não teria representado uma contribuição original ao debate.

Anderson contra-argumenta, lembrando que Lenin realizou investiga√ß√Ķes pr√≥prias e abrangentes, como testemunham as anota√ß√Ķes recolhidas nos Cadernos sobre o Imperialismo. E que, para estruturar e redigir sua obra, n√£o se apoiou apenas no material hist√≥rico e estat√≠stico reunido, mas tamb√©m na assimila√ß√£o mais aprofundada do m√©todo dial√©tico, que havia conseguido em 1914. Anderson ressalta que, por isso, tr√™s caracter√≠sticas mais importantes diferenciam a interpreta√ß√£o de Lenin das obras anteriores.

Em primeiro lugar, Lenin n√£o encara o desenvolvimento hist√≥rico do capitalismo de maneira linear. Caracteriza o imperialismo como uma fase hist√≥rica nova e a analisa como uma supera√ß√£o dial√©tica do est√°gio anterior. As novas determina√ß√Ķes prevalecem, mas os tra√ßos essenciais do capitalismo s√£o preservados. Em segundo lugar, na an√°lise dial√©tica de Lenin, essa nova fase n√£o atenua, mas agrava as contradi√ß√Ķes do capitalismo. E por isso, em terceiro lugar, surgem novas for√ßas sociais e pol√≠ticas que podem unir-se ao proletariado na resist√™ncia antiimperialista.

Lenin, que j√° havia ressaltado a import√Ęncia da alian√ßa oper√°rio-camponesa nas condi√ß√Ķes russas, agora amplia o leque das for√ßas mundiais que podem ser aglutinadas em torno do proletariado, identificando um novo sujeito revolucion√°rio, os movimentos de liberta√ß√£o nacional. Anderson enfatiza esse corol√°rio, enxergando nele uma importante indica√ß√£o metodol√≥gica para os socialistas contempor√Ęneos, pois a an√°lise dial√©tica das contradi√ß√Ķes do sistema capitalista-imperialista atual continua sendo indispens√°vel para identificar os novos sujeitos revolucion√°rios, as novas for√ßas que podem unir-se ao proletariado para combat√™-lo.

A análise de Anderson prossegue. Num momento em que se acumulavam os requisitos para uma transformação revolucionária, Lenin se preocupou também em divisar as características de que deveria revestir-se o novo Estado, para expressar as iniciativas e os anseios das forças emergentes. Reconstruindo o desenvolvimento do pensamento marxista sobre o poder político e refletindo sobre os novos desafios que despontavam no horizonte, Lenin escreve, entre janeiro e fevereiro de 1917, O Estado e a Revolução, aprofundando o tema em discursos e artigos elaborados nos meses seguintes.

Inspirado pelos exemplos da Comuna de Paris e munido com uma nova compreensão da subjetividade criadora, Lenin enfatiza a participação popular e o papel dos conselhos de trabalhadores, os sovietes, na construção do novo Estado, um Estado aliás destinado à extinção. Denuncia não apenas a dominação de burgueses e latifundiários, mas também o perigo representado pelas burocracias. Aborda o partido de passagem. O fio de sua elaboração política é que as massas não podem ser vistas como um "meio" para alcançar um "fim", o socialismo. Sua "auto-atividade" é o socialismo. Escreve em um de seus ensaios: "O socialismo não pode ser decretado de cima para baixo. Seu espírito rejeita a abordagem mecanicista-burocrática. O socialismo vivo, criativo, é o produto das próprias massas".

Como recorda Anderson, os textos políticos de Lenin no período são tão surpreendentes que são denegridos por alguns críticos como "anarquistas".

As duas tradi√ß√Ķes

O retorno a Hegel e a ênfase nos conselhos de trabalhadores são dois temas antecipados por Lenin e acalentados pela primeira geração de "marxistas ocidentais". Anderson estaria certo, quando sugere que o líder russo teria sido o primeiro e esquecido "marxista ocidental"?

A conclus√£o n√£o √© t√£o f√°cil. O pr√≥prio Anderson alerta, na terceira e √ļltima parte de seu livro, que as anota√ß√Ķes de Lenin sobre a dial√©tica cont√™m contradi√ß√Ķes e temas que n√£o s√£o aprofundados. Al√©m disso, Lenin n√£o tornou p√ļblicas suas cr√≠ticas filos√≥ficas a Engels, Plekhanov e Kautsky, nem conseguiu, nas vicissitudes de seus √ļltimos anos, finalizar o texto esbo√ßado sobre a dial√©tica. N√£o retornou tamb√©m √† teoria do partido de vanguarda, formulada em O que fazer?, de 1902, a partir de uma indica√ß√£o de Kautsky, para confront√°-la com suas novas opini√Ķes pol√≠ticas. E, quando as amea√ßas come√ßaram a acumular-se sobre a vit√≥ria de outubro de 1917, voltou a enfatizar a centraliza√ß√£o do Estado e a dire√ß√£o do partido comunista, que acabaria se tornando o √ļnico.

N√£o admira que, ap√≥s a morte de Lenin, quando os novos dirigentes trataram de sistematizar o pensamento orientador do partido comunista, a ambi√™ncia positivista, a forte tradi√ß√£o da Segunda Internacional e a influ√™ncia dos livros de Plekhanov e de Bukharin tenham prevalecido. Zinoviev foi o primeiro a mencionar o "leninismo" como uma nova fase do marxismo. Stalin sistematizou o que seriam as contribui√ß√Ķes pol√≠ticas de Lenin nas confer√™ncias de 1924, Sobre os fundamentos do leninismo, e no livro de 1926, Acerca dos problemas do leninismo. Em 1931, uma sess√£o plen√°ria do Comit√™ Central do Partido dirimiu autoritariamente, por mais espantoso que isto seja, a controv√©rsia filos√≥fica entre "mecanicistas" e "deborinistas", que prosseguia h√° v√°rios anos. E assim, em 1938, num dos cap√≠tulos da Hist√≥ria do Partido Comunista (bolchevique) da Uni√£o Sovi√©tica, Stalin p√īde codificar a nova vers√£o oficial da filosofia marxista, que passou a ser reproduzida pelos manuais da Academia de Ci√™ncias de Moscou e difundida pelo movimento comunista internacional.

Logo na abertura do texto, Stalin afirma que "o materialismo dial√©tico √© a concep√ß√£o filos√≥fica do partido marxista-leninista", esclarecendo que ela √© assim chamada porque sua teoria sobre os fen√īmenos da natureza √© "materialista" e seu m√©todo de estudar esses fen√īmenos √© "dial√©tico". Acrescenta, em seguida, que "o materialismo hist√≥rico √© a aplica√ß√£o dos princ√≠pios do materialismo dial√©tico ao estudo da vida social". Desmembra, assim, a unidade intr√≠nseca da concep√ß√£o dial√©tica marxista, reagrupando suas partes exteriormente. A teoria materialista √© vista como uma esp√©cie de filosofia da natureza, o m√©todo dial√©tico √© abordado de maneira formalista e a concep√ß√£o da hist√≥ria √© apresentada como uma decorr√™ncia do materialismo e da dial√©tica assim entendidos. O arremate s√≥ poderia ser uma vis√£o da hist√≥ria como predeterminada, do socialismo como inevit√°vel e do partido comunista, possuidor desse saber aparentemente absoluto, como o efetivo sujeito revolucion√°rio.

Essa leitura determinista e autorit√°ria do marxismo ainda estava sendo codificada quando surgiram as primeiras rea√ß√Ķes, com a publica√ß√£o dos livros Hist√≥ria e Consci√™ncia de Classe, do h√ļngaro Georg Luk√°cs, e Marxismo e Filosofia, do alem√£o Karl Korsch, em 1923. Foram condenados pelo V Congresso da Internacional Comunista, em 1925, ap√≥s as interven√ß√Ķes dr√°sticas de Zinoviev e Bukharin. Luk√°cs recolheu-se ao sil√™ncio, mas Korsch estendeu as diverg√™ncias √† orienta√ß√£o pol√≠tica adotada no Congresso e acabou sendo expulso do Partido Comunista alem√£o em 1926. Quatro anos depois, prefaciando uma nova edi√ß√£o de seu livro, Korsch escreveria: "Creio formar objetivamente uma frente √ļnica com Luk√°cs no principal, ou seja, na atitude cr√≠tica frente √† antiga e √† nova ortodoxias marxistas - a socialdemocrata e a comunista". E recapitulando: "Esta filosofia marxista-leninista, que estava avan√ßando para o Ocidente, encontrou nos escritos de Luk√°cs, nos meus e nos de outros comunistas europeus ocidentais uma tend√™ncia filos√≥fica antag√īnica dentro da pr√≥pria Internacional Comunista". As duas tradi√ß√Ķes come√ßavam a separar-se.

A resist√™ncia √†s interpreta√ß√Ķes pr√©-dial√©ticas e cient√≠fico-positivistas do marxismo cresceu tamb√©m na It√°lia, impulsionada pelos escritos dos dois Antonios, Labriola e Gramsci. Este √ļltimo jamais deixou de invectivar a equivocada "convic√ß√£o de que existem leis objetivas de desenvolvimento hist√≥rico da mesma esp√©cie das leis naturais, juntamente com a cren√ßa numa teleologia predeterminada como a da religi√£o". Na pris√£o, escreveu uma cr√≠tica contundente ao livro de Bukharin, A teoria do materialismo hist√≥rico, de 1921. Infelizmente, essa cr√≠tica s√≥ veio a ser conhecida ap√≥s a Segunda Guerra Mundial, quando foram divulgados os Cadernos do C√°rcere.

Outra vertente cr√≠tica se abriu com a funda√ß√£o do Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt, na Alemanha, em 1923. O Instituto abrigaria, nas d√©cadas seguintes, entre outras personalidades intelectuais, Carl Gr√ľnberg, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Erich Fromm, Theodor Adorno, J√ľrgen Habermas. Apesar de suas diverg√™ncias, esses intelectuais desenvolveram uma corrente pr√≥xima de id√©ias, inspirada no marxismo, que passou a ser conhecida como a "Escola de Frankfurt" ou a "Teoria Cr√≠tica da Sociedade". Em 1958, Marcuse, um dos pioneiros do movimento, publicou a obra O Marxismo Sovi√©tico, difundindo a express√£o que passou a ser utilizada por autores ocidentais para designar a tradi√ß√£o "marxista-leninista". O contraste entre as duas tend√™ncias se acentuava.

Os temas e as √™nfases do "marxismo hegeliano", como o denomina Anderson, irromperam na Fran√ßa mais tarde. Entre 1933 e 1939, o emigrado russo Alexandre Koj√®ve ministrou um curso sobre Hegel na √Čcole des Hautes √Čtudes, em Paris, assistido entre outros alunos por Jean-Paul Sartre e Jacques Lacan. Essas aulas foram transformadas posteriormente no livro Introdu√ß√£o √† Leitura de Hegel, publicado na Fran√ßa em 1947 e lan√ßado no Brasil no ano passado. Em 1938, Henri Lefebvre e Norbert Guterman traduziram as anota√ß√Ķes de Lenin relativas √† dial√©tica, publicando-as com o sugestivo t√≠tulo Cadernos sobre a Dial√©tica e introduzindo-as com um longo ensaio sobre a import√Ęncia do pensamento de Hegel para o marxismo.

Assim, nos anos seguintes, j√° com a participa√ß√£o de Lucien Goldmann e Jean-Paul Sartre, se desenvolveu na Fran√ßa uma leitura "dial√©tica" e "existencialista" do marxismo, contraposta √† leitura "cientificista", oriunda da Uni√£o Sovi√©tica. Para justificar seu afastamento de ambas, Maurice Merleau-Ponty escreveu, em 1955, o livro Aventuras da Dial√©tica. O t√≠tulo de um dos cap√≠tulos, "Marxismo Ocidental", passou a designar a tradi√ß√£o marxista "cr√≠tica" que vinha se desenvolvendo desde os trabalhos seminais de Luk√°cs e Korsch. Com as denomina√ß√Ķes propagadas pelos livros de Marcuse e de Merleau-Ponty, as duas tradi√ß√Ķes ganharam suas marcas registradas.

O desenvolvimento do marxismo "cr√≠tico" nos Estados Unidos, em oposi√ß√£o ao "cientificista", √© ainda mais recente e menos conhecido. Esses termos, ali√°s, foram cunhados pelo soci√≥logo marxista norte-americano Alvin Gouldner em 1980. Anderson desencava a origem dessa tradi√ß√£o na influ√™ncia de Marcuse, que se transferiu para os Estados Unidos nas v√©speras da Segunda Guerra Mundial, e no surgimento da Tend√™ncia Johnson-Forest no interior do movimento trotsquista norte-americano. J. R. Johnson era o pseud√īnimo do historiador C. L. R. James, nascido em Trinidad (em 2000, foi traduzida no Brasil sua consagrada obra Os jacobinos negros, sobre a revolu√ß√£o de S√£o Domingos, liderada por Toussaint L¬íOuverture). Freddie Forest era o pseud√īnimo da russa Raya Dunayevskaya, economista e ex-secret√°ria de Trotski.

A dissid√™ncia encabe√ßada por James e Dunayevskaya se formou no debate sobre o car√°ter da Uni√£o Sovi√©tica e da Segunda Guerra Mundial e se aprofundou na pol√™mica sobre a burocratiza√ß√£o e as perspectivas dos movimentos dos trabalhadores norte-americanos. Buscando fundamentar suas posi√ß√Ķes, James, Dunayevskaya e seus partid√°rios foram os primeiros a debater, nos Estados Unidos, os Manuscritos Econ√īmico-Filos√≥ficos do jovem Marx, a d√≠vida de Marx com Hegel e, sobretudo, os Cadernos Filos√≥ficos de Lenin. O grupo se afastou do movimento trotsquista em 1950 e, cinco anos depois, se dispersou. Mas Dunayevskaya persistiu, at√© seu falecimento, no estudo do significado te√≥rico e das conseq√ľ√™ncias pol√≠ticas dos Cadernos Filos√≥ficos de Lenin. Caminhou para uma posi√ß√£o filos√≥fica que pretendia superar tanto o idealismo quanto o materialismo e, no plano pol√≠tico, para uma vis√£o descentralizada e apartid√°ria da organiza√ß√£o dos trabalhadores. Anderson engata sua investiga√ß√£o na continuidade dos esfor√ßos de Dunayevskaya.

Os historiadores do marxismo aceitam, geralmente, essa diferencia√ß√£o entre as tradi√ß√Ķes "sovi√©tica" e "ocidental" ao longo do s√©culo passado. Mais dif√≠cil √© caracteriz√°-las. No caso da centralizada tradi√ß√£o "sovi√©tica", √© vi√°vel, com menos discord√Ęncia, identificar as notas preponderantes de mecanicismo, determinismo, economicismo e vanguardismo. Ainda assim, √© for√ßoso reconhecer diferencia√ß√Ķes nacionais e nuances nos autores que s√£o inclu√≠dos nessa tradi√ß√£o.

Enquanto Stalin redigia Sobre o Materialismo Dial√©tico e o Materialismo Hist√≥rico, por exemplo, Mao Zedong, na China, escrevia o ensaio Sobre a Contradi√ß√£o, do qual extrairia as conseq√ľ√™ncias pol√≠ticas nos anos 50, em outro ensaio famoso, Sobre o tratamento correto das contradi√ß√Ķes no seio do povo.

Outro exemplo: o fil√≥sofo Roger Garaudy, que sucedeu a Henri Lefebvre na lideran√ßa intelectual do Partido Comunista franc√™s e que foi considerado o int√©rprete oficial do "marxismo sovi√©tico" na Fran√ßa, durante duas d√©cadas, publicou em 1962 um alentado estudo sobre Hegel, intitulado Deus Est√° Morto, que merece ser valorizado como um dos esfor√ßos mais sistem√°ticos de compreens√£o da dial√©tica hegeliana realizado por um marxista contempor√Ęneo.

Para complicar o quadro, existem correntes e autores ocidentais, vinculados √† hist√≥ria do marxismo, que dificilmente se enquadram numa ou noutra tradi√ß√£o. √Č o caso do austromarxismo, de Louis Althusser na Fran√ßa, ou de Lucio Colletti na It√°lia.

Indiscutivelmente, por√©m, as dificuldades aumentam quando se trata de localizar as caracter√≠sticas comuns do "marxismo ocidental". Essa tradi√ß√£o passou por v√°rias fases, abrange um leque amplo de correntes e abarca autores com posi√ß√Ķes pol√≠ticas e te√≥ricas diferenciadas. Apesar desses obst√°culos, costuma-se ressaltar alguns tra√ßos convergentes: a √™nfase das investiga√ß√Ķes se desloca da economia e do Estado para a cultura e a arte; da ci√™ncia para a filosofia; do partido de vanguarda para os conselhos de trabalhadores; do plano centralizado para a autogest√£o; das determina√ß√Ķes objetivas para a import√Ęncia da subjetividade. Outras tend√™ncias comuns podem ser apontadas, como o retorno √†s fontes hegelianas do marxismo, a cr√≠tica das obras filos√≥ficas de Engels, o distanciamento do materialismo e, sobretudo, o ecletismo crescente e o afastamento cada vez maior da pr√°tica pol√≠tica.

A implosão das experiências socialistas da União Soviética e do Leste europeu evidenciou os limites teóricos e políticos do "marxismo soviético". Mas é preciso não esquecer que o "marxismo ocidental" também não orientou, até hoje, nenhuma transformação efetiva de uma sociedade capitalista em socialista. Não se pode, portanto, deixar de reconhecer que José Guilherme Merquior estava certo quando avaliou: "O marxismo ocidental, nascido do espírito da revolução contra o determinismo do materialismo dialético, terminou por abraçar o mais negro pessimismo ou por esposar o mais vago dos reformismos".

E Lenin?

Se Lenin se afastou, ap√≥s 1914, da tradi√ß√£o pol√≠tica e te√≥rica da Segunda Internacional e das posi√ß√Ķes que iriam prevalecer no "marxismo sovi√©tico", isto n√£o significa que ele endossaria a evolu√ß√£o filos√≥fica e pol√≠tica do "marxismo ocidental". Lenin sempre insistiu no estudo da dial√©tica hegeliana "de um ponto de vista materialista" e sempre buscou combinar a espontaneidade com a organiza√ß√£o.

Na realidade, os Cadernos Filos√≥ficos de Lenin nunca receberam a aten√ß√£o necess√°ria, tanto da tradi√ß√£o "sovi√©tica", quanto da "ocidental". Foram publicados na Uni√£o Sovi√©tica em 1930, mas numa edi√ß√£o que incorporava textos de 1895 a 1916 e que, portanto, dilu√≠a as reflex√Ķes inovadoras de Lenin sobre a dial√©tica, escritas de meados de 1914 a meados de 1915. Al√©m disso, o movimento comunista internacional jamais estimulou o debate dos Cadernos Filos√≥ficos. As prefer√™ncias de estudo sempre reca√≠ram sobre obras como Materialismo e Empiriocriticismo, de Lenin, ou A Dial√©tica da Natureza, de Engels.

J√° os "marxistas ocidentais" concentraram suas aten√ß√Ķes nos Manuscritos Econ√īmico-Filos√≥ficos, de Marx, publicados pela primeira vez em 1932, em Moscou. A √ļnica exce√ß√£o, j√° referida, ocorreu nos Estados Unidos, com as pesquisas de C. L. R. James e sobretudo de Raya Dunayevskaya, retomadas agora por Kevin Anderson.

Se os Cadernos Filos√≥ficos tivessem sido estudados atentamente, at√© mesmo a leitura dos textos posteriores de Lenin poderia receber uma nova luz e os impasses te√≥ricos e pr√°ticos, vividos pelo dirigente russo em seus √ļltimos anos, poderiam ter estimulado uma linha de pesquisa distinta das que foram seguidas por marxistas "sovi√©ticos" e "ocidentais", com seus unilateralismos opostos.

Uma conclus√£o, que Anderson n√£o arriscou, poderia ser, ent√£o, que as duas tradi√ß√Ķes marxistas precisam igualmente ser superadas, para que renas√ßam o marxismo e o socialismo.

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Duarte Pereira é jornalista.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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