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Gramsci através das Cartas

Marcos Aurélio da Silva - Abril 2009
 

Obra-prima por acaso. Assim, Luiz S√©rgio Henriques, tradutor e organizador desta edi√ß√£o brasileira das Cartas do c√°rcere (2 v. Rio de Janeiro: Civiliza√ß√£o Brasileira, 2005), definiu, em alentada introdu√ß√£o, a epistolografia mantida por Antonio Gramsci nas pris√Ķes do fascismo italiano. De fato, relatos da trag√©dia pessoal do autor - inscrita j√° numa sa√ļde abalada desde o nascimento (tinha tuberculose √≥ssea), ao qual o trabalho infantil, raro entre os grandes do marxismo, cobrara sua conta ("em muitas noites chorava escondido porque o corpo todo me do√≠a") (p. 246, v. 2) -, tanto quanto, anos mais tarde, a vida carcer√°ria, sempre imbricada ao tratamento dos mais importantes temas √©tico-pol√≠ticos do s√©culo XX, fazem desta uma demarca√ß√£o mais que justa.

Trata-se de uma epistolografia de √Ęmbito familiar, com destacada presen√ßa da cunhada russa Tatiana Schucht, ela mesma interlocutora constante e, a partir de fins de 1928, elo central, ao lado do amigo e economista Piero Sraffa, de s√≥lida rede de apoio organizada pelo PCI para garantir as atividades intelectuais e mesmo a vida material do prisioneiro. Ali√°s, n√£o por acaso este, que foi o mais criativo dos partidos comunistas do Ocidente, ocupou-se, no imediato p√≥s-guerra, sob a lideran√ßa de Palmiro Togliatti, do lan√ßamento de uma edi√ß√£o destas Cartas (1947) antes mesmo de qualquer outra obra assinada por Gramsci - fato revelador de sua importante fun√ß√£o na introdu√ß√£o da riqueza conceitual forjada pelo comunista sardo, cuja vers√£o mais acabada aparece nos Cadernos do c√°rcere. Na verdade, talvez pud√©ssemos dizer que, mais que introduzir o pensamento dos Cadernos, cuja forma, nas palavras do organizador, √© a de um "n√£o-livro", estamos diante de textos que permitem, em muitos pontos, ampliar a compreens√£o de diferentes conceitos, bem como das intrincadas rela√ß√Ķes que cada um deles tem entre si e com o mundo pol√≠tico de Gramsci. Vejamos.

Recorrente √© a refer√™ncia ao interesse pelo estudo da hist√≥ria dos intelectuais italianos, o que decorreu, entre outros, "do desejo de aprofundar o conceito de Estado" (p. 67, v. 2), frequentemente "entendido como sociedade pol√≠tica (ou ditadura ou aparelho coercitivo, para moldar a massa popular segundo o tipo de produ√ß√£o e a economia de um dado momento), e n√£o como equil√≠brio da sociedade pol√≠tica com a sociedade civil (ou hegemonia de um grupo social sobre toda a sociedade nacional, exercida atrav√©s das organiza√ß√Ķes ditas privadas, como a igreja, os sindicatos, as escolas etc.") (p. 84, v. 2). E "√© especialmente na sociedade civil que operam os intelectuais", insiste com a cunhada Tatiana, destacando o exemplo de Benedetto Croce, "uma esp√©cie de papa laico" e "um instrumento muito eficaz de hegemonia, ainda que vez por outra possa divergir deste ou daquele governo, etc." (p. 84, v. 2). Seriam os intelectuais mediadores, mas n√£o em qualquer tempo ou lugar, dada a dificuldade de se observar esta fun√ß√£o onde "a press√£o estatal e social √© das mais mec√Ęnicas e exteriores" - "devido √† aus√™ncia de uma media√ß√£o como a que, no Ocidente, foi oferecida pelos intelectuais a servi√ßo do Estado..." (p. 169, v. 2). (N√£o por acaso, noutra carta, o mesmo interesse pelo estudo dos intelectuais aparece tamb√©m como o interesse pela "forma√ß√£o do esp√≠rito p√ļblico na It√°lia...") (p. 128, v. 1).

Ora, √© a aten√ß√£o para estas diferen√ßas, tantas vezes ausente em meios militantes - ainda que mesmo Lenin as tenha sugerido, como lembrou o pr√≥prio Gramsci nos Cadernos [1] -, que certamente explica as avalia√ß√Ķes negativas feitas acerca das teses insurrecionais de um Jules Vall√©s, jornalista radical defensor da Comuna de Paris, dotado de "uma certa presun√ß√£o superficial e boh√®me que causou tantos estragos, ainda causa e vai continuar a causar" (p. 419, v. 2) - entre eles, diga-se, a pr√≥pria pris√£o de Gramsci, ele que havia, no III Congresso do PCI, de 1926, na cidade de Lyon, afirmado "peremptoriamente que, na It√°lia, n√£o havia uma situa√ß√£o daquele tipo, que o trabalho a ser feito era o de ¬Ďorganiza√ß√£o pol√≠tica¬í e n√£o de tentativas insurrecionais" (p. 114, v. 2).

Tratava-se j√°, nas palavras de Francisco F. Buey, de um Gramsci sob decisiva influ√™ncia do III e do IV Congressos do Komintern - estando mesmo nosso sardo em Moscou por ocasi√£o do √ļltimo deles (1922), quando "p√īde escutar um Lenin muito pessimista sobre o futuro da revolu√ß√£o" (Introdu√ß√£o, p. 43). Era o tempo da frente √ļnica com os socialistas e outras for√ßas democr√°ticas, todavia abandonada pelo VI Congresso da Internacional Comunista (1928), que, j√° em dire√ß√£o √† virada staliniana dos anos 30, adota a linha pol√≠tica de "classe contra classe" (os socialdemocratas eram agora "socialfascistas") - n√£o aprovada por Gramsci, conforme relatou o irm√£o Gennaro em visita ao c√°rcere no ano de 1930 (p. 428, v. 1).

O acima dito n√£o serve, por√©m, para ter Gramsci entre revisionistas √† Bernstein ou Sorel. Ele mesmo, em cr√≠tica a Croce - l√≠der deste revisionismo, recordou a Tatiana -, destacou o equ√≠voco de se pensar uma hist√≥ria unit√°ria da Europa a partir apenas da Restaura√ß√£o de 1815 - o momento √©tico-pol√≠tico, ou da hegemonia, como queria Croce: se "uma hist√≥ria da Europa pode ser escrita como forma√ß√£o de um bloco hist√≥rico, ela n√£o pode excluir a Revolu√ß√£o Francesa e as guerras napole√īnicas, que s√£o a premissa ¬Ďecon√īmico-jur√≠dica¬í do bloco hist√≥rico europeu, o momento da for√ßa e da luta" (p. 188, 194 e 197, v. 2).

E, ao argumento crociano de que o materialismo histórico (ou filosofia da práxis, na linguagem cifrada do cárcere) estaria despreparado para apreender o segundo momento, pelo fato de a estrutura aparecer ali "como um deus oculto", Gramsci objeta que isso seria verdade se ela, filosofia da práxis, "fosse uma filosofia especulativa, e não um historicismo absoluto, liberado realmente, e não só em palavras, de todo resíduo transcendental e teológico" (p. 197, v. 2).

Na verdade, para Gramsci - e pode-se dizer que afinado com seu tempo e espa√ßo -, tornou-se "at√© poss√≠vel afirmar que o tra√ßo essencial da filosofia da pr√°xis mais moderna consiste, precisamente, no conceito hist√≥rico-pol√≠tico de hegemonia" (p. 194, v. 2), e¬†aquela posi√ß√£o de Croce, t√£o "semelhante √† dos homens do Renascimento em rela√ß√£o √† Reforma luterana" (nas palavras de Erasmo, lembra Gramsci, "onde entra Lutero, desaparece a civiliza√ß√£o") (p. 457, v. 1), s√≥ pode ser compreendida, se se entender Croce como produto do transformismo italiano (p. 209, v. 2), outro dos f√©rteis conceitos explorados nas Cartas. √Č que, nas condi√ß√Ķes da etapa hegem√īnica, "um pequeno grupo dirigente, com m√©todo, conseguiu absorver em seu c√≠rculo todo o pessoal pol√≠tico gerado pelos movimentos de massa, de origem subversiva", marcando "um processo org√Ęnico que substitu√≠a, na forma√ß√£o da classe dirigente, o que na Fran√ßa tinha acontecido durante a Revolu√ß√£o e com Napole√£o, e na Inglaterra com Cromwell" (p. 209, v. 2).

O tema da hegemonia aparece tamb√©m no tratamento dado a Maquiavel. Seria ele "o te√≥rico dos Estados nacionais regidos pela monarquia absoluta", teorizando na It√°lia "o que na Inglaterra era energicamente realizado por Isabel, na Espanha por Fernando, o Cat√≥lico, na Fran√ßa por Lu√≠s XI e na R√ļssia por Iv√£, o Terr√≠vel" (p. 207, v. 2). E indagava a Sraffa: Maquiavel "dizia em linguagem pol√≠tica o que os mercantilistas diziam em termos de pol√≠tica econ√īmica?", seria ele "o primeiro germe de uma concep√ß√£o fisiocr√°tica do Estado?" - no sentido de que o laissez-faire, laisez-passer a√≠ defendido concernia aos interesses da penetra√ß√£o do capitalismo no campo (p. 172-3, v. 2) [2].

Embora exagerasse aqui o papel do mercantilismo para a transi√ß√£o capitalista, tese amplamente aceita na historiografia do in√≠cio do s√©culo XX, mas cujos equ√≠vocos o debate marxista das d√©cadas de 1950 e 1970 tratou de demonstrar (Dobb, Hilton, Takahashi, Merrington, Brenner) [3], √© preciso n√£o esquecer que o caso ingl√™s, √ļnico em lograr uma transi√ß√£o no per√≠odo referido por Gramsci, em tudo lembra, se se pensar nos mais recentes estudos da historiografia marxista, a id√©ia de revolu√ß√£o passiva apontada nos Cadernos [4]. (Veja-se a participa√ß√£o dos terratenentes, com origem nos ducados do s√©culo XII, ao lado dos novos comerciantes, em geral com origem nas prov√≠ncias, e da nova classe de arrendat√°rios capitalistas - yeomanry -, que ent√£o se formava a partir da diferencia√ß√£o social no interior do campesinato) [5].

Ademais, vem a tempo notar que, se no debate marxista dos anos 1950, Sweezy se deixou enredar pela interpreta√ß√£o circulacionista que o Marx de O capital j√° havia criticado em Mommsen [6] (cr√≠tica desenvolvida no estudo cl√°ssico de Dobb) [7], Gramsci n√£o descuida de assinalar, inspirado em obra do historiador Giuseppe Salvioli, que a tend√™ncia "de considerar ¬Ďcapitalista¬í toda economia ¬Ďmonet√°ria¬í" estava assumindo, ent√£o, "propor√ß√Ķes patol√≥gicas" (p. 396, v. 1).

Express√£o da forma hol√≠stica, cara ao marxismo, com que via as coisas mais prosaicas ("muitas coisas me interessam muito, ao mesmo tempo", escreveu ao filho Giuliano) (p. 432, v. 2), os temas acima tratados reaparecem sob outros √Ęngulos e diante de novas quest√Ķes.

Vejamos o tema da escola e dos princ√≠pios pedag√≥gicos. Ocupando-se da educa√ß√£o dos filhos em carta √† esposa de dezembro de 1931, indaga sobre a introdu√ß√£o de nichos especializados na escola sovi√©tica, preocupado com que "isto acelere artificialmente a orienta√ß√£o profissional e distor√ßa as inclina√ß√Ķes das crian√ßas, fazendo perder de vista o objetivo da escola √ļnica (introduzida em 1923 - M. A. S.) de conduzir as crian√ßas a um desenvolvimento harmonioso de todas as atividades, at√© que a personalidade formada acentue as inclina√ß√Ķes mais profundas e permanentes, porque nascida num n√≠vel mais alto de todas as for√ßas vitais" (p. 134, v. 2).

Isto, de modo algum, equivale √† concep√ß√£o metaf√≠sica, cara √†s escolas modernas - do tipo esnobe, segundo assinalou nos Cadernos [8] -,¬†a qual¬†pressup√Ķe que "na crian√ßa est√° em pot√™ncia todo o homem e √© necess√°rio ajud√°-la a desenvolver o que j√° cont√©m em estado latente", entendimento v√°lido quando esta escola "se contrapunha √† escola jesu√≠tica, isto √©, quando negava uma filosofia ainda pior, mas hoje [...] igualmente superado" (p. 385-6, v. 1). Ali√°s, receoso da apologia aos m√©todos pedag√≥gicos, insiste, com a cunhada Tatiana, que mesmo aqueles "mais fascinantes se tornam est√©reis se falta o pessoal capaz de lhes dar vida em cada momento da vida escolar e extraescolar", e que "os melhores tipos de escola fracassaram em raz√£o da defici√™ncia dos professores" (p. 128, v. 2).

Claro est√° que o tema da escola e dos princ√≠pios pedag√≥gicos se liga ao dos intelectuais, como tamb√©m nos leva √†s quest√Ķes de est√©tica. Quando Giulia se preocupa com o interesse do filho Delio em ler A cabana do pai Tom√°s - livro que considerava "cheio de sentimentalidade quacre", preferindo, por exemplo, as hist√≥rias de Mowgli, onde "onde circula uma energia moral e de vontade diametralmente oposta √†quela do Pai Tom√°s" (p. 337, v. 2) -, Gramsci insiste em que o filho deveria ter algu√©m para lhe dar "explica√ß√Ķes de modo historicista, colocando no tempo e no espa√ßo os sentimentos e a religiosidade das quais o livro est√° impregnado"; contestava assim o fato de Giulia se colocar "na posi√ß√£o do subalterno e n√£o do dirigente, isto √©, de quem n√£o √© capaz de criticar historicamente as ideologias, dominando-as e justificando-as como uma necessidade hist√≥rica do passado", no lugar de permanecer "sempre na esfera do sentimento e da paix√£o imediata". Tratar-se-ia, enfim, de proceder a uma catarse, "de modo que os sentimentos sejam revividos ¬Ďartisticamente¬í como beleza e n√£o mais como paix√£o compartilhada e ainda ativa" (p. 360, v. 2).

Pergunte-se: n√£o s√£o estes os elementos que, num exemplo de sofistica√ß√£o anal√≠tica - ali√°s, frequentemente ausente no esquerdismo -, informam metodologicamente as an√°lises est√©ticas de Gramsci? Basta ver a insist√™ncia que faz, referindo-se a um Tolstoi, ou mesmo Shakespeare, Goethe, Dante, na distin√ß√£o entre "o gozo est√©tico e o ju√≠zo positivo de beleza art√≠stica - isto √©, o estado de esp√≠rito de entusiasmo pela obra de arte como tal - do entusiasmo moral, isto √©, da coparticipa√ß√£o no mundo ideol√≥gico do artista [...]. Posso admirar esteticamente Guerra e Paz, de Tolstoi, e n√£o partilhar a subst√Ęncia ideol√≥gica do livro..." (p. 237, v. 2). Da√≠, pois, considerar Tchekhov, para muitos um indiferente, aquele que, "nas formas dadas por sua cultura", "contribuiu para liquidar as classes m√©dias, os intelectuais, os pequenos burgueses, como portadores da hist√≥ria russa e de seu futuro", mostrando-os "tais como eram, mesquinhos, bolhas cheias de gases p√ļtridos, fonte de comicidade e rid√≠culo" (p. 401, v. 2) [9].

O tema da escola e dos princ√≠pios pedag√≥gicos est√° em contato tamb√©m com o do fordismo. E aqui vale partir de suas refer√™ncias ao brinquedo meccano. Numa carta de 1929 a Giulia, dizia n√£o saber, por privar "a crian√ßa de seu esp√≠rito inventivo", se seria este "o brinquedo moderno mais recomend√°vel", sendo ele a express√£o da "cultura moderna (de tipo americano)", que "torna o homem um pouco seco, maquinal, burocr√°tico, e cria uma mentalidade abstrata [...] determinada por uma intoxica√ß√£o matem√°tica" - valendo "observar as rea√ß√Ķes destes princ√≠pios pedag√≥gicos no c√©rebro de um menino..." (p. 312, v. 1).

No entanto, esta avalia√ß√£o negativa do fordismo e tudo mais que o acompanha ("Ford tem um corpo de inspetores que controlam a vida privada dos empregados e lhes imp√Ķem o regime de vida: tamb√©m controlam a alimenta√ß√£o, o sono, o tamanho dos quartos, as horas de descanso") (p. 448, v. 1), √© tamb√©m acompanhada de refer√™ncias com sinal trocado. Na mesma carta em que se refere √†s mazelas do sistema de Ford, refere-se aos europeus como "muito boh√©miens": "acreditamos que podemos fazer algum trabalho e viver como quisermos: naturalmente, o maquinismo nos tritura [...] Somos excessivamente rom√Ęnticos, de modo absurdo e, por n√£o querermos ser pequenos-burgueses, ca√≠mos na forma mais t√≠pica de pequeno-burguesismo, que √© precisamente a boh√®me".

Igualmente, numa carta √† m√£e de 1932, pede que o sobrinho Franco "escreva sobre o seu meccano e as constru√ß√Ķes que consegue fazer", dizendo ter a certeza de que o menino "se tornar√° um grande matem√°tico e engenheiro" (p. 171, v. 2). Ressalte-se que em 1928 j√° havia escrito que "o princ√≠pio do Meccano √© certamente excelente para os meninos modernos" (p. 258, v. 1). Na verdade, talvez aqui, a exemplo do que fez na cr√≠tica a Croce, quando insistiu na imbrica√ß√£o de dois per√≠odos hist√≥ricos, Gramsci buscou uma s√≠ntese de m√ļltiplas determina√ß√Ķes. Assim o sugerem suas refer√™ncias - ali√°s, lembrando os elementos da escola √ļnica - ao que deveria ser o homem moderno, "uma s√≠ntese daquelas caracter√≠sticas que s√£o [...] hipostasiadas como caracter√≠sticas nacionais: o engenheiro americano, o fil√≥sofo alem√£o, o pol√≠tico franc√™s, recriando, por assim dizer, o homem italiano do Renascimento, o tipo moderno de Leonardo da Vinci transformado em homem-massa ou homem coletivo, ainda que mantendo sua forte personalidade e originalidade individual" (p. 225, v. 2).

Por fim, resta falar das rela√ß√Ķes entre Gramsci e a Geografia. √Č de se notar que nosso sardo, desde menino, parece cultivar por esta disciplina, ao lado da disciplina da Hist√≥ria, um vivo interesse. Assim o revelam suas cartas aos filhos, lembrando a Giuliano ter relido muitas vezes o livro Os filhos do capit√£o Grant, de J√ļlio Verne, o que o estimulava a consultar o Atlas geogr√°fico e outros livros que "explicassem os costumes dos pa√≠ses por onde passava o paralelo 34¬į Sul" (p. 417, v. 2).¬†Escrevendo a Delio, insistia no amor pela hist√≥ria, "porque se refere aos homens vivos, e tudo que se refere aos homens, ao maior n√ļmero poss√≠vel de homens, a todos os homens do mundo enquanto se unem entre si em sociedade, trabalham, lutam e melhoram a si mesmos" (p. 429, v. 2). Ali√°s, n√£o por acaso estas disciplinas, irm√£s siamesas do marxismo, na linha que segue - por continuidades e descontinuidades - de Kant e Hegel [10], foram as que Gramsci ensinou na escola de cultura geral organizada pelos comunistas no confinamento da ilha de Ustica, onde Gramsci esteve brevemente entre 1926 e 1927 (p. 102, v. 1).

Certamente a rela√ß√£o entre Gramsci e a Geografia est√° mais presente no texto sobre a quest√£o meridional, redigido de modo inacabado ainda antes da pris√£o [11]. Todavia, o tema da absor√ß√£o das poupan√ßas do Sul pelo Norte atrav√©s de v√°rios mecanismos, um tema central e muito conhecido, e mesmo a cr√≠tica √†s interpreta√ß√Ķes naturalistas dos problemas do Sul pouco aparecem nas Cartas. Exceto, talvez, no que se refere ao primeiro deles, a breve refer√™ncia ao boicote, no ano de 1919, que o munic√≠pio de Turim fizera aos "cordeiros e cabritos sardos, em benef√≠cio dos coelhos piemonteses", tema sobre o qual os comunistas de L¬íOrdine Nuovo, Gramsci entre eles, lograram desenvolver uma bem-sucedida campanha de esclarecimento junto a cerca de 4 mil pastores e camponeses sardos que ent√£o se encontravam em Turim para manter a ordem p√ļblica - os √ļltimos integrantes da chamada Brigada Sassari, instrumento de repress√£o dos levantes oper√°rios na Turim de 1917 (p. 263, v. 1) [12].

O que acima dissemos n√£o significa que mais Geografia no Gramsci das Cartas n√£o exista. Dir√≠amos que ela aparece, e por todos os lados, no tema das transi√ß√Ķes - este que fora um dos problemas maiores do materialismo hist√≥rico no tempo de Lenin, demarcado na categoria de forma√ß√£o social, para a qual tanto contribuiu o marxista russo e que os ge√≥grafos passaram a chamar, a partir do artigo seminal de Milton Santos, de forma√ß√£o socioespacial [13].

Com efeito, n√£o¬†seria o Lenin de O programa agr√°rio, com suas analogias entre as vias prussiana e norte-americana [14] - analogias, ali√°s, caras ao m√©todo com que operava Gramsci (Introdu√ß√£o, p. 29, v. 1) - que lembra as caracteriza√ß√Ķes, presentes nas Cartas, do mundo oriental do Mezzogiorno, express√£o regional do caminho prussiano seguido pela It√°lia?

Assim √© que, em tr√Ęnsito, saindo da pris√£o na ilha de Ustica, relata o encontro com presos comuns "dos quatro Estados do submundo meridional (o Estado siciliano, o Estado calabr√™s, o Estado apuliense, o Estado napolitano)", onde "todo um mundo subterr√Ęneo, complicad√≠ssimo, com uma vida pr√≥pria de sentimentos, de pontos de vista, de pontos de honra, com hierarquias f√©rreas e formid√°veis, se revelava para mim" (p. 141, v. 1). S√£o estes, sem d√ļvida, os elementos que aparecem na caracteriza√ß√£o do Sul italiano n¬íA quest√£o meridional, regi√£o sem "uma organiza√ß√£o da cultura m√©dia" (assim opondo-se ao Norte, onde at√© o clero, com origem social nos artes√£os ou no campesinato, lembrando, ali√°s, o caminho americano assinalado por Lenin, "tem sentimentos democr√°ticos") [15], marca indel√©vel da transi√ß√£o italiana, repleta de continuidades, dada a presen√ßa dos grandes propriet√°rios sulistas como "guardi√Ķes locais da explora√ß√£o capitalista" [16].

Mas o Gramsci das Cartas - como o dos Cadernos, diga-se [17] - n√£o √© o Gramsci da transi√ß√£o bloqueada. Ao lado das refer√™ncias a uma preserva√ß√£o das concep√ß√Ķes "bourbonistas" (alus√£o √† monarquia dos Bourbons, basti√£o da rea√ß√£o siciliana durante o reformismo europeu), como o fez observando a corrup√ß√£o no cumprimento do regulamento carcer√°rio, "objeto de negocia√ß√£o entre guardas e detentos" (p. 444, v. 2), v√™-se um Gramsci atento √†s rupturas.

Assim √© que indaga √† m√£e se seu vilarejo natal, Ghilarza, ao qual noutra carta j√° havia se referido como de or√ßamento muito pobre no passado ("porque seus habitantes eram propriet√°rios no territ√≥rio dos povoados vizinhos e a estes pagavam a maior parte dos impostos locais") (p. 163, v. 1), "com a nova situa√ß√£o administrativa que lhe foi dada e com a proximidade da bacia do Tirso, tende a se tornar uma cidade; se h√° mais com√©rcio, algumas ind√ļstrias, se uma parte da popula√ß√£o, das tradicionais ocupa√ß√Ķes rurais, passou a ocupa√ß√Ķes de outro tipo, se h√° um desenvolvimento nas constru√ß√Ķes ou se, ao contr√°rio, s√≥ aumentou o n√ļmero de pessoas que vivem de renda" (p. 367-8, v.1).

Enfim, preocupa√ß√Ķes t√≠picas da melhor tradi√ß√£o da geografia urbana de inspira√ß√£o marxista: "Para que me entenda, direi que, em minha opini√£o, Oristano n√£o √© uma cidade e jamais ser√°; √© s√≥ um grande centro rural (relativamente grande), onde moram os propriet√°rios de terra e dos pesqueiros do territ√≥rio vizinho e onde existe um certo mercado de manufaturas para os camponeses que levam at√© l√° suas mercadorias agr√≠colas. Ou seja, um centro de comerciantes e propriet√°rios ociosos, de usur√°rios, ainda n√£o √© uma cidade, porque n√£o existe produ√ß√£o pr√≥pria de nada que seja importante" (p. 368, v. 1).

Para os ge√≥grafos, inspirar-se em Gramsci, todavia, n√£o √© reter apenas passagens geogr√°ficas assim t√£o evidentes. O campo a ser explorado √© amplo e n√£o deveria ignorar os v√°rios interesses do comunista sardo, repleto de sugest√Ķes para a geografia cultural (literatura e quest√Ķes de est√©tica), pol√≠tica (intelectuais, Maquiavel), econ√īmica e regional (quest√£o meridional, Risorgimento), industrial (fordismo), cada uma delas, evidentemente, uma vez inscritas no tema geral das transi√ß√Ķes, articuladas como totalidade.

Aliás, cabe notar que o método analógico com o qual operava Gramsci anda hoje um tanto desprezado entre os geógrafos, mesmo entre aqueles de inspiração marxista [18]. O que é de lamentar, uma vez que tal método aparece já na gênese grega desta disciplina, bem como na da disciplina da História - ambas com Heródoto -, como "uma espécie de autoanálise, de autocrítica" histórica e geográfica da vida social [19].

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Marcos Aurélio da Silva é professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina.

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Notas

[1] Gramsci, A. Maquiavel, a política e o Estado moderno. 7. ed. Trad. Luiz M. Gazzaneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 74.

[2] Id., p. 18.

[3] Hilton, R. et. al. A transição do feudalismo para o capitalismo. 5. ed. Trad. Isabel Didonnet. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2004; Aston, T. H. e Philpin, C. H. E. (Eds.). El debate Brenner: estructura de clases agraria y desarrollo económico en la Europa preindustrial. Trad. I. Moll e P. Iradiel. Barcelona: Editorial Crítica, 1988.

[4] Ver Werneck Vianna, L. "O ator e os fatos: a revolução passiva e o americanismo em Gramsci". In: Id. A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2004, p. 100.

[5] Brenner, R. "Las raíces agrárias del capitalismo europeu". In: Aston, T. H. e Philpin, C. H. E. (Eds.), op. cit.; Brenner, R. Merchants and Revolution: Commercial Change, Political Conflit, and London`s Overseas Traders, 1550-1653. Londres/Nova York: Verso, 2003, 183.

[6] Marx, K. "Observa√ß√Ķes hist√≥ricas sobre o capital mercantil". In: Id. O capital. Livro 3, v. 5. Trad. Reginaldo Sant¬íAnna. S√£o Paulo: Difel, 1985, p. 377.

[7] Dobb, M. A evolução do capitalismo. 7. ed. Trad. Manuel do R. Braga. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1987.

[8] Gramsci, A. Os intelectuais e a organização da cultura. 9. ed. Trad. Carlos N. Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995, p. 149.

[9] "Tachado de indiferente, o que ocorre √© que, em um ambiente saturado pelo debate ideol√≥gico, Tchekhov fez da indiferen√ßa um m√©todo cr√≠tico, uma estrat√©gia liter√°ria para nos p√īr em contato com as coisas tais como s√£o". Figueiredo, R. "A fic√ß√£o da indiferen√ßa". In: Tchekhov, A. O assassinato e outras hist√≥rias. Trad. Rubens Figueiredo. S√£o Paulo: Cosac & Naify, 2002., p. 9.

[10] Ver Quaini, M. Marxismo e Geografia. 3. ed. Trad. Liliana L. Fernandes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979; Pereira, R. M. F. do A. Da geografia que se ensina à gênese da geografia moderna. Ed. da UFSC, 1989; Mamigonian, A. "Gênese e objeto da Geografia". In: Simpósio História da Ciência e Epistemologia. Piracicaba: USP/Unimep, 1991.

[11] Ver Gramsci, A. "Alguns temas da quest√£o meridional". In: Id. A quest√£o meridional. Trad. Carlos N. Coutinho e Marco A. Nogueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

[12] Id., p. 142 s.

[13] Ver Santos, M. "Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como método". In: Id. Espaço e sociedade. Petrópolis: Vozes, 1979.

[14] Lenin, V. I. O programa agrário da social democracia na primeira revolução russa de 1905-1907. Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1954.

[15] Gramsci, A. "Alguns temas da quest√£o meridional", cit., p. 156 e 161.

[16] Id., p. 143.

[17] Werneck Vianna, op. cit.

[18] Santos, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2008, p. 22.

[19] Mamigonian, A. "Tendências atuais da Geografia". Geosul, Florianópolis, v. 14, n. 28, jul./dez. 1999, p. 171.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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